thumb|Página do Gênesis de Viena, um manuscrito da Septuaginta grega do

O Antigo Testamento é a primeira das duas seções nas quais está dividida a Bíblia cristã; a segunda é o Novo Testamento. O Antigo Testamento inclui os livros da Bíblia hebraica (Tanaque), chamados de livros protocanônicos, e, em várias denominações cristãs, os livros chamados "deuterocanônicos". Católicos, protestantes e ortodoxos utilizam diferentes cânones ("conjunto de livros"), que diferem entre si em quais textos devem ser incluídos no Antigo Testamento.

Desde o Concílio de Florença (1442), no Ocidente a questão do cânon estava reaberta. Isso porque o avanço da filologia renascentista levantou vários questionamentos sobre textos da Antiguidade. Nesse debate, teólogos protestantes como Martinho Lutero e católicos cardeal Caetano e Erasmo, baseando-se no precedente judaico e em outros, não consideravam os livros deuterocanônicos do Antigo Testamento como pertencentes ao cânone. Na tradução da Bíblia de Lutero, os deuterocanônicos aparecem em uma seção que ele chamou de "Apócrifos" ("escondidos"). Para resolver a questão, os bispos católicos, na quarta sessão do Concílio de Trento (1546), decidiram que os livros deuterocanônicos tinham a mesma autoridade que os protocanônicos no chamado "Cânone de Trento", publicado no ano da morte de Lutero.

Seguindo o princípio "veritas hebraica" ("verdade da hebraica") de Jerônimo, o Antigo Testamento protestante consiste nos mesmos livros da Bíblia hebraica, mas com a divisão dos livros e a ordem deles alterada (são 39 na Bíblia protestante e 24 na hebraica).

As diferenças entre a Bíblia hebraica e as outras versões do Antigo Testamento, como o Pentateuco Samaritano, a Peshitta síria, a Vulgata latina, a Septuaginta grega, a Bíblia Etíope e outros cânones são mais substanciais. Muitos destes cânones incluem livros e seções de livros que outros descartam.

Cânone da Bíblia Hebraica thumb|Página do Gênesis no Codex Aleppo, o mais antigo manuscrito completo da Bíblia hebraica, do

A Bíblia hebraica (ou Tanaque) consiste nos 24 livros do texto massorético reconhecidos pelo judaísmo rabínico.Darshan, G. “The Twenty-Four Books of the Hebrew Bible and Alexandrian Scribal Methods,”, in: M.R. Niehoff (ed.), Homer and the Bible in the Eyes of Ancient Interpreters: Between Literary and Religious Concerns (JSRC 16), Leiden: Brill 2012, pp. 221–244. Não há consenso acadêmico sobre quando o cânone da Bíblia Hebraica foi estabelecido, mas alguns estudiosos argumentam que ele teria sido fixado pela dinastia dos asmoneus (140-)Philip R. Davies in The Canon Debate, page 50: enquanto outros defendem que ele não teria sido fixado até o ou mesmo depois.McDonald & Sanders, The Canon Debate, 2002, page 5, cited are Neusner's Judaism and Christianity in the Age of Constantine, pages 128–145, and Midrash in Context: Exegesis in Formative Judaism, pages 1–22. Segundo Marc Zvi Brettler, as escrituras judaicas, com exceção da Torá e dos Profetas, era fluida, com diferentes grupos aceitando a autoridade de diferentes livros.

Michael Barber afirma que as primeira e mais explícitas evidências de uma lista canônica hebraica vem da obra do historiador judeu Flávio Josefo (37-100), que escreveu sobre um cânone utilizado pelos judeus no . Em "Contra Apião" (I, 8), Josefo, em 95, dividiu as sagradas escrituras judaicas em três partes: 5 livros da Torá, 13 livros dos Profetas (Nevi'im) e 4 livros de hinos:

Josefo menciona Esdras e Neemias em "Antiguidades Judaicas" (XI, 5) e Ester (durante o reinado de Artaxerxes) no capítulo VI. Por um longo período depois do reinado de Artaxerxes, a inspiração divina de Ester, Cântico dos Cânticos e Eclesiastes esteve em dúvida.Henshaw, T. The Writings: The Third Division of the Old Testament Canon. George Allen & Unwin Ltd., 1963, pp. 17 Segundo Gerald A. Larue, a lista de Josefo representa o que veio a se tornar o cânone judaico, embora estudiosos ainda estivessem tentando resolver a autoridade de certos livros na época que ele escreveu. Barber afirma que os 22 livros de Josefo não eram universalmente aceitos, uma vez que outras comunidades judaicas utilizavam mais do que 22 livros.

Em 1871, Heinrich Graetz concluiu que houve um Concílio de Jâmnia (ou Yavne em hebraico) que decidiu sobre o cânone judaico em algum momento no ( 70-90). Esta opinião se transformou no consenso majoritário entre os estudiosos por todo o . Porém, a teoria do Concílio de Jâmnia está praticamente desacreditada atualmente.Anchor Bible Dictionary Vol. III, pp. 634–7 (New York 1992).McDonald & Sanders, editors, The Canon Debate, 2002, chapter 9: Jamnia Revisited by Jack P. Lewis.

Os livros protocanônicos e deuterocanônicos

Os cânones da Igreja Católica e da Igreja Ortodoxa incluem livros, chamados deuterocanônicos, cuja autoridade de alguns deles foi discutida por Aquiba durante o desenvolvimento do cânone da Bíblia hebraica no , apesar de Aquiba não ter se oposto à leitura privada deles e ter se declarado ele próprio um frequente usuário de Sirácida.W. Bacher, Ag. Tan. i. 277; H. Grätz, Gnosticismus, p. 120. Um dos primeiros registros dos livros deuterocanônicos aparece na antiga tradução das escrituras judaicas para o coiné chamada Septuaginta. Esta tradução foi amplamente utilizada pelos primeiros cristãos e é uma das mais citadas (300 das 350 citações, incluindo muitas palavras do próprio Jesus) no Novo Testamento quando se faz referência ao Antigo Testamento. Outros registros, em versões mais antigas dos textos em hebraico, aramaico e grego foram descobertas mais tarde entre os Manuscritos do Mar Morto e no Genizá do Cairo.

A explicação tradicional para o desenvolvimento do cânone do Antigo Testamento descreve dois grupos de livros, os protocanônicos e os deuterocanônicos. Segundo ela, alguns Pais da Igreja aceitavam a inclusão dos livros deuterocanônicos com base em sua inclusão na Septuaginta (notavelmente Hipona), enquanto outros discutiam seu status com base em sua ausência na Bíblia hebraica (notavelmente Jerônimo). Michel Barber defende que esta reconstrução, aceita por muito tempo, é grosseiramente incorreta e que "o caso contra os apócrifos foi exagerado". Agostinho queria simplesmente uma nova versão da Bíblia latina baseada num texto grego já que a Septuaginta já era amplamente utilizada pelas igrejas e o processo de tradução não podia confiar num único indivíduo (Jerônimo), que podia errar; ele, na realidade, defendia que a Bíblia hebraica e a Septuaginta eram igualmente inspiradas, como ele afirmou em "Cidade de Deus" 18.44. Para a maior parte dos primeiros cristãos, a Bíblia hebraica era a "Sagrada Escritura", mas ela deveria ser entendida e interpretada sob a luz das convicções cristãs.

Apesar de os livros deuterocanônicos serem referenciados por alguns dos Pais da Igreja como parte das escrituras, alguns, como Atanásio, defendiam que eles eram apenas para leitura e não deviam ser utilizados para a determinação da doutrina.Philip Schaff and Henry Wace, Nicene and Post-Nicene Fathers, Second Series, vol. VI, St. Athanasius, Letter 39.7, (Grand Rapids: Eerdmans, 1953), p. 552. Atanásio incluiu o Livro de Baruque e a Epístola de Jeremias em sua lista do cânone do Antigo Testamento e exclui o Livro de Ester. Segundo a Enciclopédia Católica, "o status inferior a que alguns deuteros foram relegados por autoridades como Orígenes, Atanásio e Jerônimo, se deu por conta de uma concepção rígida demais de canonicidade que demandava que um livro, para ser considerado a esta suprema dignidade, precisava ser recebido por todos, precisa da sanção da antiguidade judaica e precisa, além disto, se adaptar não apenas à edificação, mas também à 'confirmação da doutrina da Igreja', para tomar emprestada a frase de Jerônimo".

Seguindo a vertente do cânon merno, os protestantes consideram os livros deuterocanônicos como apócrifos e não canônicos. Segundo J. N. D. Kelly, "deve-se observar que o Antigo Testamento admitido como autoritativo na Igreja ... sempre incluiu, embora com variados graus de reconhecimento, os assim chamados livros apócrifos ou deuterocanônicos".

Septuaginta thumb|Página do Codex Marchalianus, um manuscrito da Septuaginta do

A Igreja primitiva utilizava textos gregos, uma vez que o grego era a língua franca do Império Romano na época e era a língua da Igreja Greco-Romana. O aramaico era a língua do cristianismo sírio, que utilizava os Targums. A principal família textual grega era a Septuaginta, que circulava em diversos livros avulsos (a reunião em um só volume ocorreria a partir do século IV d.C.). Assim, não há certeza se os deuterocanônicos seriam utilizados pelos primitivos cristãos, visto a ausência de citações deles no Novo Testamento, ou se eram considerados partes da Seputaginta no século I.

A Septuaginta parece ter sido uma fonte importante para os Apóstolos, mas não a única. Jerônimo ofereceu, por exemplo, os versículos , , e St. Jerome, Apology Book II. como exemplos não encontrados na Septuaginta e presentes nos textos hebraicos (Mateus 2:23 também não está presente na tradição massorética, embora, segundo Jerônimo, ele está em ). Os autores do Novo Testamento, quando citam as escrituras judaicas ou quando citam Jesus fazendo isso, utilizaram a tradução grega, implicando que Jesus, seus Apóstolos e seus seguidores a consideravam confiável.H. B. Swete, An Introduction to the Old Testament in Greek, revised by R.R. Ottley, 1914; reprint, Peabody, Massachusetts: Hendrickson, 1989.

No cristianismo primitivo, a presunção de que a Septuaginta havia sido traduzida por judeus antes da era cristã e de que a Septuaginta, em certos pontos, se apresenta mais para uma interpretação cristológica que os textos hebraicos do eram tidos como evidências de que os "judeus" haviam alterado o texto hebraico de forma a deixá-lo menos cristológico. Por exemplo, Ireneu, tratando do versículo Isaías 7:14, afirma que a Septuaginta claramente escreve sobre uma "virgem" () que irá conceber enquanto que o texto hebraico era na época interpretado por Teodócio e por Áquila (ambos prosélitos na fé judaica) como "uma jovem" irá conceber. Segundo Ireneu, os ebionitas usaram este fato para alegar que Flávio Josefo era o pai (biológico) de Jesus, o que, para ele, era pura heresia facilitada por alterações anticristãs nas escrituras em hebraico evidenciadas pela mais antiga e pré-cristã Septuaginta.Ireneu, Contra Heresias, III.

Quando Jerônimo assumiu a tarefa de revisar as traduções antigas da Septuaginta para o latim (Vetus Latina), ele também conferiu a Septuaginta contra os textos hebraicos que tinha em mãos. Ele rompeu com a tradição da igreja e traduziu a maior parte do Antigo Testamento de sua Vulgata do hebraico e não do grego. Sua escolha foi duramente criticada por Agostinho, seu contemporâneo, e uma enxurrada de críticas ainda menos moderadas veio dos que passaram a considerar Jerônimo como um falsário. Por um lado, ele argumentava pela superioridade dos textos hebraicos para corrigir a Septuaginta, tanto em bases filológicas quanto teológicas, e, por outro, no contexto das acusações de heresia contra si, Jerônimo reconheceria os textos da Septuaginta também.Rebenich, S., Jerome (Routledge, 2013), p. 58. ISBN 9781134638444