O Tríptico da Igreja de Nossa Senhora do Pópulo é um tríptico de pinturas a óleo sobre madeira de cerca de 1510-1515 de pintor português de que se desconhece a identidade e que se encontra actualmente, onde se julga que sempre esteve, a decorar a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo, em Caldas da Rainha.
Para Pedro Dias e Vítor Serrão o Tríptico da Nossa Senhora do Pópulo que encima o arco triunfal manuelino da Igreja é uma obra-prima da pintura portuguesa de todos os tempos datando-a de 1510-15. Consideram que constitui um caso ímpar de solução estética, concebida com perfeita integração no espaço, tendo o seu autor, decerto um artista cosmopolita, resolvido a colocação com extraordinária finura, já dentro de moldes clássico-renascentistas, apresentando inegáveis afinidades de estilo com as obras reunidas sob o epíteto de Mestre da Lourinhã, ou seja um erudito artista do círculo intelectual da rainha D. Leonor, a quem se deve a encomenda da obra.
Ainda para estes autores, o lindíssimo Tríptico da Nossa Senhora do Pópulo constitui uma excepção ao trabalho de parceria, que era habitual na época, atendendo à perfeita unidade conceptual, de desenho, composição, sentimento cromático e enquadramento de espaços e planos que emerge desse Tríptico encomendado pela rainha D. Leonor.<ref name=Dias>Dias, Pedro e Serrão, Vítor – História da arte em Portugal: o Manuelino'''. Lisboa: Publicações Alfa, 1986, p. 121.</ref>
Mas para Manuel Batoréo a obra não é atribuível ao Mestre da Lourinhã. Por comparação estilística, e apenas em termos compositivos, Batoréo considera que o Tríptico foi obra executada na oficina do Mestre do Retábulo da Igreja de Jesus de Setúbal que tem sido identificado com o pintor régio Jorge Afonso. Batoréo refere no entanto que há aspectos compositivos que sugerem a comparação também com Cristóvão de Figueiredo que trabalhou igualmente para a rainha D. Leonor.Por encomenda de D. Leonor, Cristóvão de Figueiredo pintou um desaparecido retábulo destinado ao Mosteiro da Batalha que lhe foi pago apenas em 1538, já após a morte de D. Leonor Para Batoréo os aspectos compositivos mais evidentes que sugerem esta comparação com Cristóvão de Figueiredo encontram-se no painel Deposição do Túmulo e o equivalente do Políptico do Mosteiro de Santa Cruz e no Exalçamento da Cruz deste último políptico onde os grupos pintados à direita se assemelham fortemente aos do painel da esquerda do Tríptico das Caldas da Rainha.
Descrição O Tríptico da Paixão de Nossa Senhora do Pópulo tem motivado o interesse de investigadores, quanto à sua autoria e localização original.Nota sobre a Igreja de Nossa Senhora do Pópulo no Jornal das Caldas de 13-08-2008, O Tríptico é constituido por três painéis, Caminho do Calvário, Calvário e Deposição no Túmulo suportado numa moldura flamejante de talha dourada que inclui escudo real ao centro e um grande baldaquino sobre a tábua central.Nota sobre a Igreja Paroquial das Caldas da Rainha / Igreja de Nossa Senhora do Pópulo na página web "SIPA" da Direção-Geral do Património Cultural do Ministério da Cultura do Governo português
Segundo Malkiel-Jirmounsky, a composição baseia-se num princípio triangular. Em cada um dos três painéis as figuras estão dispostas em linhas de força diagonais, ora cruzadas, ora unindo-se em determinados ângulos. As massas repartem-se em manchas indivisíveis onde cada pormenor parece indispensável. O ritmo do movimento dos três painéis constitui um conjunto de uma unidade perfeita em que os efeitos de contra-luz são surpreendentes.Malkiel-Jirmounsky, A Escola do Mestre do Sardoal, Lisboa, Artis, 1959, pag. 91, citado por Batoréo, obra citada, pag.149.
Ainda segundo Jirmounsky, o Tríptico da Paixão obedece a medidas com regularidade e precisão absolutas, em que, como nos grandes mestres italianos do século XVI, a Proporção áurea, a sectio divina dos antigos, orienta as dimensões e a composição de todo o conjunto.
Vítor Serrão refere que os valores plásticos do Tríptico adquirem uma importância fascinante, na serena transparência da atmosfera pictórica, no intenso dramatismo que exala do seu tema, na vigorosa evocação da realidade em figuras, gestos, adereços e perspectivas de fundo. Ainda para este autor, harmonizado com o grande arco manuelino onde está colocado, impressiona a força que as pinturas projectam, pela perícia do desenho, pela magia do colorido vibrante, pelo sentido perfeito da perspectiva e sobretudo pela unidade composicional do conjunto. Vítor Serrão, "O mecenato da rainha D. Leonor e a pintura de corte", Oceanos, Nº 8, Outubro de 1991, pag. 104-107, citado por Batoréo, pag. 152
Caminho do Calvário Para Jirmounsky, no painel da esquerda, Caminho do Calvário, as figuras movem-se segundo diagonais paralelas à moldura, subindo da esquerda para a direita, partindo este autor do princípio que a moldura actual é a original, ou seja, que as pinturas foram concebidas para a situação actual.
Contrapõe Batoréo que se esta pintura, no seu estado actual, pode indiciar um movimento ascendente da esquerda para a direita, não parece coerente que a composição apresente outras linhas de força em sentido exactamente contrário como são o braço horizontal da cruz e a posição das lanças dos soldados e os edifícios que estão à esquerda.
Batoréo encontra semelhanças entre este painel e a pintura equivalente do Retábulo da Igreja de Setúbal em que a perspectiva é a mesma com alguns elementos de composição iguais como a posição de Cristo e a de Simão de Cirene. Na pintura de Setúbal ao fundo à esquerda há uma edificação a enquadrar a cena que corresponde à que se encontra neste Tríptico, mas neste caso menos bem executada e que a actual moldura encobre.
Calvário Esta composição central, de formato quadrangular, ainda segundo Jirmounsky, é composta de dois grupos dispostos nos lados de um triângulo dividido na vertical ao centro pela cruz. Os dois grupos dispõem-se segundo diagonais de direcções opostas. O grupo da esquerda, o das Santas Mulheres e S. João, é tratado à maneira impressionista confundindo-se com as montanhas em fundo. Na diagonal do lado direito, os soldados são tratados de modo realista lembrando a arte de Giambattista Moroni.
Contrapõe Batoréo referindo que se é indiscutível que a figura de Cristo define uma linha central, à semelhança das pinturas coetâneas sobre o mesmo tema, não é possível confirmar que os soldados representados estejam dispostos de modo a obedecer ao traçado do lado de um triângulo correspondente ao alinhamento das figuras da direita.
Batoréo considera indiscutível a semelhança entre este painel e o Calvário do Retábulo da Igreja de Setúbal designadamente a posição de Cristo e a de Maria Madalena, e as duas figuras a pé do lado direito têm igual relação, e no grupo da esquerda as cabeças visíveis são similares nas duas pinturas. Ainda para Batoréo, é surpreendente o total apagamento da figura da Virgem Maria na obra das Caldas da Rainha, pois desapareceu a camada cromática na zona onde em princípio se encontraria, resultado provável de intervenção pós-Concílio de Trento, como sucedeu no Calvário de Setúbal em que a Virgem Maria mesmo estando de pé poderia apresentar maior expressão de desfalecimento.
Deposição no Túmulo Para Jirmounsky, este painel da direita do Tríptico é igualmente composto segundo diagonais paralelas à moldura, mas dispondo-se em sentido contrário, ou seja, inclinadas da esquerda para a direita. O eixo central desta pintura corresponde às cabeças das Santas Mulheres e desce prolongando-se até à cabeça de Cristo.
Contrapõe Batoréo que nesta pintura as paralelas que enquadram o rosto da Santa Mulheres no canto superior esquerdo só muito forçadamente incluem as restantes, indo cortar o rosto da Virgem Maria e cair abaixo do queixo de Cristo. E refere ainda Batoréo que a horizontalidade do túmulo e a verticalidade das árvores contrariam a ideia de Jirmounsky.
Localização do Tríptico na Igreja A localização actual foi considerada a original por Myron Malkiel-Jirmounsky e Vítor Serrão e aceite pela generalidade dos estudiosos.Manuel Batóreo, Pintura Portuguesa do Renascimento - O Mestre da Lourinhã, Caleidoscópio, 2004, Páginas: 202, ISBN 9789728801491
Para Vítor Serrão, o Tríptico encontra-se harmonizado com o grande arco manuelino onde está colocado, arco que simula as dobras de uma cortina, conservando-se no local para onde foi originalmente concebido, e estando preservada a magnífica estrutura de marcenaria com fímbrias de lisas e enrolados, com o escudo de armas reais ao centro, e o grande dossel flamejante no remate, constituindo na estrutura inicial do templo o objecto fulcral da decoração interior.Vítor Serrão, "O mecenato da rainha D. Leonor e a pintura de corte", Oceanos, Nº 8, Outubro de 1991, pag. 104-107, citado por Batoréo, pag. 152
Mas para José C. Vieira da Silva, seguindo uma ideia de Artur Nobre de Gusmão, o Tríptico foi concebido originalmente para o altar da Igreja e não para o arco onde está actualmente. Segundo Vieira da Silva, a colocação sobre o arco do triunfo levanta sérios problemas o que o leva a considerar não ter sido o seu local primitivo. O lugar usual destinado aos retábulos era junto ao altar e o Tríptico das Caldas não fugiria a essa regra. Entre os problemas, a localização no altar permitira compreender melhor o posicionamento e o tamanho das primitivas janelas da capela-mor, pois a sua reduzida dimensão e a pouca altura a que estão situadas entender-se-iam melhor se destinados à iluminação do Tríptico.José C. Vieira da Silva, A Igreja de Nossa Senhora do Pópulo das Caldas da Rainha, Caldas da Rainha, 1985, pag. 51-52, citado por Batóreo, obra citada.
Também para Manuel Batoréo, o Tríptico não se encontra no local original tendo sido cortado para se adaptar à nova moldura, o que será confirmado por um relato de 1888 de dois viajantes espanhóisFrancisco e H. Giner de los Rios, Portugal - Impressiones para servir de guia al viajero, 1888. Publicado em tradução portuguesa na colectânea do historiador Fernando da Silva Correia, Pergaminhos das Caldas, Caldas da Rainha, 1995, pag. 128-131 que afirmam que o Tríptico deve ser o retábulo primitivo do século XVI que foi substituido pelo actual no século XVIII, baseados na forma geral da obra, nos temas, na dificuldade com que o mutilaram para o adaptar de um modo grosseiro às curvas do arco, na moldura dourada da parte inferior cuja data seria para eles evidentemente recente.
Moldura Quanto aos aspectos materiais do Tríptico, Batoréo salienta desde logo que a aplicação da moldura ao local actual implicou a destruição e posterior reconstrução, bastante fraca, do pináculo do arco triunfal manuelino, o que para este autor é incompreensível se o Tríptico tivesse sido pensado desde o início para este arco, pois não haveria decerto de ferir os elementos estruturais do arco que já estava realizado em 1508.
Batoréo refere depois que na moldura dos três painéis se verifica a junção forçada de elementos muito semelhantes a emendas, diversos pontos de acabamento deficiente, e que no caso da pintura central, o Calvário, existe um remendo metálico na zona do pináculo que está encoberto pelo escudo real, peça esta que para Batoréo está toscamente executada.
Conclui Batoréo que o tosco trabalho de marcenaria, com múltiplas imperfeições, não seria o assentamento original das pinturas, pois seria inadmissível o ocorrência de remendos numa obra daquele estatuto.