thumb|Patton em 1943, comandante do Sétimo Exército dos Estados Unidos durante a Campanha da Sicília. Os incidentes das bofetadas de George S. Patton ocorreram no início de agosto de 1943 quando o tenente-general George S. Patton bateu em dois soldados do Exército dos Estados Unidos que estavam sob seu comando durante a Campanha da Sicília na Segunda Guerra Mundial. A personalidade linha dura de Patton e sua descrença na condição médica de transtorno de estresse pós-traumático, então conhecida como "fadiga de combate" ou "trauma pós guerra", fez com que os soldados se tornassem alvos de sua ira em incidentes nos dias 3 e 10 de agosto, quando o general bateu e repreendeu os dois homens depois de descobrir que ambos eram pacientes de hospitais de evacuação longe das linhas de frente sem terem sofrido nenhum ferimento físico aparente.

Relatos dos acontecimentos espalharam-se, por fim chegando no general Dwight D. Eisenhower, o superior de Patton, que ordenou que ele se desculpasse para os homens. As ações de Patton foram inicialmente suprimidas na mídia até o jornalista Drew Pearson publicá-las nos Estados Unidos. O Congresso e o público norte-americano em geral tanto apoiaram quanto condenaram o general pelos incidentes, porém Eisenhower e o general George Marshall, o Chefe do Estado Maior do Exército, reconheciam o valor de Patton para o esforço de guerra e optaram por não o dispensarem do serviço. Ele mesmo assim foi retirado do combate por um período de quase um ano.

Eisenhower aproveitou a oportunidade criada pelo problema e usou Patton como chamariz na Operação Fortitude de desinformação, enviando inteligências falsas para a Alemanha Nazista que Patton estava preparando o Primeiro Grupamento do Exército para uma invasão de Pas-de-Calais na França. O general retornou para o combate em 1944 como comandante do Terceiro Exército, porém os incidentes das bofetadas foram vistos por Eisenhower, Marshall e outros líderes como exemplos da impulsividade e impetuosidade de Patton. Sua carreira acabou paralisada enquanto subordinados como Omar Bradley tornaram-se seus superiores.

Antecedentes thumb|185px|left|Patton em 1943 conversando com soldados feridos esperando para serem evacuados. A invasão Aliada da Sicília na Segunda Guerra Mundial começou em 10 de julho de 1943, com o tenente-general George S. Patton desembarcando noventa mil homens do Sétimo Exército dos Estados Unidos perto de Gela, Scoglitti e Licata a fim de apoiar o desembarque do 8º Exército Britânico do general Bernard Montgomery ao norte. Patton inicialmente recebeu ordens de proteger o flanco das forças britânicas, porém acabou tomando a cidade de Palermo depois do exército de Montgomery ter sido retardado por uma grande resistência de tropas da Alemanha Nazista na Itália. O general norte-americano então virou-se para Messina. Ele procurou um ataque anfíbio, porém foi atrasado pela falta de veículos de desembarque e suas tropas só alcançaram a Ilha de Santo Estêvão em 8 de agosto, época em que os alemães e italianos já tinha evacuado a maior parte de suas forças para a Itália continental. As tropas de Patton participaram ativamente do combate contra os exércitos alemão e italiano durante a campanha enquanto forçavam seu avanço através da ilha.

Patton tinha desenvolvido uma reputação no exército como um comandante eficiente, bem sucedido e também muito linha dura, punindo seus subordinados pelos menores erros mas também recompensando-os caso cumprissem bem seu dever. Ele criou deliberadamente uma imagem chamativa e distinta com o objetivo de inspirar suas tropas. O general ficou conhecido por suas vestimentas bem arrumadas e chamativas, botas e capacete altamente polidos e comportamento sem limites e extremamente direto. O general Dwight D. Eisenhower, o comandante geral das operações na Sicília e amigo de longa data e oficial superior de Patton, há muito conhecia o estilo de liderança pitoresco de seu subordinado, também sabendo que Patton era particularmente propenso à impulsividade e à falta de autocontrole.

Fadiga de batalha O Exército dos Estados Unidos até a Primeira Guerra Mundial considerava os sintomas de fadiga de batalha como uma espécie de covardia ou como tentativas de evitar o serviço de combate. Soldados que relatavam esses tipos de sintomas recebiam um tratamento severo. Acredita-se que os dois soldados que Patton bateu estavam na época sofrendo de "fadiga de batalha", também conhecida como "trauma pós guerra" ou "estresse de batalha". Atualmente, essa condição é caracterizada como uma forma de transtorno de estresse pós-traumático, que pode ser resultado de uma exposição prolongada à morte e destruição, dentre outros eventos traumáticos. Apesar das causas, sintomas e efeitos da condição já serem familiares para médicos na época dos incidentes, ela era menos compreendida entre círculos militares.

Uma lição importante aprendida na Campanha da Tunísia foi que baixas neuropsiquiátricas tinham que ser tratadas o mais rápido possível e não evacuadas da zona de combate. Entretanto, isto não foi feito nos estágios iniciais da Campanha da Sicília, com grandes números de baixas neuropsiquiátricas acabando por serem evacuadas para o Norte da África, com o resultado sendo que os tratamentos ficaram mais complicados e apenas quinze por cento delas chegaram a voltar para a batalha. O sistema foi melhor organizado a medida que a campanha prosseguiu, com quase metade sendo restauradas para o serviço de combate.

Patton conversou algum tempo antes dos "incidentes das bofetadas" com seu colega o major-general Clarence R. Huebner, o recém nomeado comandante da 1ª Divisão de Infantaria, em que os dois soldados envolvidos serviam. Ele pediu um relatório a Huebner, com este respondendo: "As linhas de frente parecem estar diluindo. Parece que há um grande número de 'fingidores' nos hospitais, fingindo doença para evitar o serviço de combate". Patton pessoalmente não acreditava que a condição era remotamente real. Ele emitiu no dia 5 de agosto daquele ano uma diretiva para seus comandantes proibindo "fadiga de batalha" no Sétimo Exército:

Incidentes 3 de agosto O soldado Charles H. Kuhl da Companhia L, 26º Regimento de Infantaria, apresentou-se em 2 de agosto de 1943 a uma estação de auxílio da Companhia C, 1º Batalhão Médico. Kuhl estava há oito meses no exército e fora designado para a 1ª Divisão de Infantaria em 2 de junho. Ele foi diagnosticado com "exaustão", diagnóstico que já tinha recebido três vezes desde o início da campanha. Da estação de auxílio foi evacuado para uma companhia médica e recebeu amobarbital. Notas em sua ficha médica indicam "estado de ansiedade psiconeurótica, moderadamente severa (soldado esteve no hospital duas vezes em dez dias. Ele, evidentemente, não consegue suportar o fronte. Ele retornou repetidas vezes)". O soldado então foi transferido no dia seguinte para o 15º Hospital de Evacuação perto de Nicósia a fim de passar por mais avaliações.

Patton chegou no hospital no mesmo dia acompanhado por vários oficiais médicos, parte de uma grande visita pelas tropas do II Corpo. Ele conversou com alguns pacientes no hospital, elogiando os fisicamente feridos. Ele então aproximou-se de Kuhl, que não parecia ter sofrido nenhum tipo de ferimento físico. O soldado estava sentado em um banco no meio de uma tenda cheia de homens feridos. Patton perguntou onde ele tinha sido ferido, com Kuhl supostamente tendo encolhido os ombros e respondido que estava "nervoso" e não ferido, dizendo "Acho que eu não aguento". O general "estourou imediatamente", batendo em Kuhl no queixo com suas luvas, em seguida agarrando-o pelo colarinho e o arrastando até a entrada da tenda. Patton o jogou para fora com um chute nas nádegas e gritou "Não admitam este filho da puta", exigindo que o soldado fosse enviado de volta para o fronte e dizendo "Você me ouviu, seu bastardo sem culhões? Você vai voltar para o fronte!".

Alguns auxiliares médicos pegaram Kuhl e o levaram para uma outra tenda, onde descobriu-se que ele estava com uma febre de 39 °C, sendo posteriormente diagnosticado com parasitas de malária. O soldado comentou algum tempo depois sobre o incidente, falando que "na época que aconteceu, [Patton] estava muito desgastado ... Acho que ele próprio estava sofrendo um pouco de fadiga de batalha". Kuhl depois escreveu para seus pais acerca do incidente, porém pediu para eles "só esqueçam a respeito". Patton fez notas sobre o evento na mesma noite em seu diário: "[Encontrei] o único covarde errante que eu já vi neste Exército. As companhias deveriam lidar com tais homens, e se eles fogem de seu dever, devem ser julgados por covardice e executados".

Patton estava acompanhado em sua visita pelo major-general John P. Lucas, que não viu nada de extraordinário no incidente. Ele escreveu depois da guerra que:

10 de agosto O soldado Paul G. Bennett da Bateria C, 17º Regimento de Artilharia de Campo, era um veterano de quatro anos do exército e tinha servido na 1ª Divisão desde março de 1943. Relatórios mostram que ele não tinha um histórico médico até 6 de agosto, quando um amigo foi ferido em combate. De acordo com um relatório, ele "não conseguia dormir e estava nervoso". Bennett foi levado para o 93º Hospital de Evacuação. O soldado estava com febre e também exibia sintomas de desidratação, incluindo fadiga, confusão e desatenção. Seu pedido para voltar a sua unidade foi negado pela equipe médica. Um dos oficiais médicos descreveu Bennett como:

Patton entrou em uma das tendas do hospital em 10 de agosto, conversando calmamente com os feridos. Ele então aproximou-se de Bennett, que estava encolhido e tremendo, e perguntou qual era o problema. "São meus nervos", o soldado respondeu, "Não aguento mais as artilharias". O general supostamente ficou irado, batendo em Bennett no rosto. Patton começou a gritar: "Seu nervos, diabos, você é só um maldito covarde! Cale esse maldito choro! Eu não vou ter estes homens corajosos que foram baleados verem este bastardo amarelão sentado aqui chorando!" Patton supostamente bateu em Bennett de novo, arrancando o forro de seu capacete, ordenando então que o major Charles B. Etter não admitisse o homem no hospital. O general então ameaçou o soldado: "Você vai voltar para as linhas de frente e você pode ser baleado e morto, mas você vai lutar. Se não, vou te colocar em pé na frente de uma parede e fazer um esquadrão de fuzilamento te matar por isso. Na verdade, eu deveria atirar em você eu mesmo, seu maldito covarde chorão!" Patton sacou seu revólver ao dizer isto, fazendo com que o coronel Donald E. Currier, o oficial comandante do hospital, interviesse fisicamente para poder separar os dois. O general em seguida saiu da tenda, gritando para que os oficiais médicos enviassem Bennett para o fronte.

Patton em seguida continuou visitando o restante do hospital, mas mesmo assim ficou discutindo a condição de Bennett com Currier. Ele afirmou: "Eu não aguento, pensar em um bastardo amarelão sendo mimado faz meu sangue ferver", também comentando que "Eu não terei estes bastardos covardes andando por aí em nossos hospitais. Nós provavelmente teremos que atirar neles de qualquer maneira, ou criaremos uma raça de imbecis".

Consequências Repreensão e desculpas thumb|Eisenhower em 1943, comandante da invasão da Sicília. Ele criticou Patton particularmente pelos incidentes, porém recusou-se a dispensá-lo completamente.