André Desvallées (Gouville-sur-Mer, 1931 – 5 de junho de 2024) foi um museólogo francês e Conservador Geral Honorário do Patrimônio. Durante 18 anos, de 1959 a 1977, foi assistente de Georges Henri Rivière, considerado o “pai da museologia francesa”. Tem um papel de destaque no desenvolvimento desta disciplina, e na criação e definição de vários conceitos, incluindo o de “Nova Museologia". Membro ativo do Comitê Internacional de Museologia, o ICOFOM, ele é o autor de uma centena de livros e artigos nas áreas da Etnologia e da Museologia.
Biografia André Desvallées nasceu em Gouville-sur-Mer, na Normandia, em 1931. Mudou-se para a região dos subúrbios de Paris para cursar a escola secundária no Liceu Pasteur, em Neuilly-sur-Seine. Sua primeira vocação foi o cinema: ele desenvolveu o exame de admissão ao Instituto de Estudos de Cinema Avançados, o IDHEC, atualmente Le Femis, um acrônimo correspondente à sua antiga denominação Fondation européenne des métiers de l'image et du son (Fundação Europeia de Ofícios da Imagem e do Som) e tornou-se redator do Centro de Cinema (CNC), cargo que exerceu durante oito meses. Foi nessa época que conheceu o futuro diretor e produtor de televisão Michel Subiela e, alguns anos mais tarde, Bernard Chardère, o fundador da revista Positif, na qual foi colaborador em 1953.Desvallées, A. "Mark Donskoi: Un homme dont l’œuvre sonne fier", Positif, no 5, 1953, p. 30 Ele então mudou-se para o Marrocos, onde começou uma carreira em museus, incluindo o Museu de Artes e Tradições Populares de Rabat. Cumpriu seu serviço militar na Argélia, em Oran, de 1956 a 1958, e retornou à França uma vez que seu serviço foi realizado.
Após seu retorno à França, Desvallées foi contratado por Georges Henri Rivière, considerado o “pai da museologia” francês, fundador do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares (MNATP), em Paris, e Diretor do Conselho Internacional de Museus (ICOM) de 1946 a 1962. Rivière confiou a Desvallées a coordenação da concepção museográfica do MNATP e a direção do serviço de museologia da instituição, cargo que exerceu de 1959 a 1977. Durante sua gestão, foi responsável pelo programa de exposições temporárias e pelas três salas de exposições permanentes, onde foi implantada a galeria de estudo, em 1972, e três anos mais tarde, a galeria cultural. À época de sua inauguração, o Museu Nacional de Artes e Tradições Populares foi considerado um dos mais inovadores do mundo.Gorgus N., Le magicien des vitrines, Paris, Maison des sciences de l’homme, 2003. Rivière G.H. et alii., La muséologie selon Georges Henri Rivière, Paris, Dunod, 1989. Vários artigos de Desvallées – incluindo um posfácio – compoem essa obra.
Desvallées escreveu vários artigos e publicações sobre etnologia,Estes incluem: Musée national des Arts et traditions populaires. Petits guides des grands musées. Paris, Rmn, 1975, 19 p. ill. (la Galerie culturelle) ; Arts populaires des Pays de France, t.1: Matières, techniques et formes. Paris, J. Cuénot, 1975, 207 p. ill. (Avec Georges Henri Rivière); L'Aubrac, tome 6.1, Ethnologie contemporaine, IV, Technique et langage. Les Burons, p. 15-18: "Introduction générale", p. 25-308, ill.: Estivage bovin et fabrication du fromage sur la montagne. Paris, CNRS, 1979. o que acabou conduzindo-o ao cargo de Inspetor-Geral de Museus Classificados e Controlados, encarregado dos museus regionais de etnografia. Nesse contexto, no momento em que se desenvolviam os primeiros ecomuseus e centros de cultura científica e técnica, ele implementou, no seio da Direction des musées de France, um setor experimental de ajuda à essas novas formas de museus. De 1984 a 1987, ele foi apontado para o Conservatório Nacional de Artes e Ofícios, com a função de dirigir o Museu Nacional das Técnicas, hoje Museu de Artes e Ofícios. Tornou-se assessor especial do diretor do Musées de France (como também é chamado o Service des musées de France, antiga Direction de musées de France, órgão do Ministério da Cultura francês). Em seguida, retornou como consultor do Museu Nacional de Artes e Tradições Populares, atuando ao lado do seu novo diretor, Michel Colardelle. Manteve essa posição até a sua aposentadoria, em 1997.
Paralelamente às suas atividades, André Desvalées ocupou vários cargos em diversas associações de patrimônio e pesquisa, incluindo a Sociedade de História de Nanterre, a Sociedade de Etnologia Francesa, a Associação Geral dos Conservadores de Museus e Coleções Públicas, a Federação Francesa dos Amigos dos Moinhos, entre outras. A partir de 1978, passou a dar aulas na École du Louvre (Escola do Louvre), onde iniciou um curso sobre o patrimônio técnico e industrial. Em seguida, lecionou em dois outros cursos: museologia na natureza e linguagem das exposições.
Morou em Nanterre (Hauts-de-Seine) desde 1970, onde foi vereador de 1971 a 1989.
André morreu no dia 5 de junho de 2024.
Pontos de vista sobre a museologia André Desvallées tornou-se membro do Conselho Internacional de Museus (ICOM), a partir de 1966. Essa associação profissional internacional, estruturada nos comitês nacionais (ele foi membro do escritório do comitê francês de 1981 a 1995), é igualmente organizada em comitês internacionais, divididos a partir de temáticas de pesquisa e interesses diversos. Desvallées tornou-se membro do Comitê Internacional de Museologia (ICOFOMhttp://network.icom.museum/icofom/L/2/ archive) em 1980, três anos após a sua fundação. Ele foi secretário, de 1980 a 1983, quando passou a exercer o cargo de Vice-Presidente, de 1983 a 1998. No ano de 2001, foi nomeado conselheiro permanente. Neste contexto, tornou-se responsável pelo comitê editorial do Study SeriesAs publicações dos ICOFOM Study Series estão disponíveis em: http://network.icom.museum/icofom/publications/our-publications [archive] (ISS), a partir de 2007, e membro do conselho editorial da revista científica Publics et Musées, atualmente Culture et Musées.Revista Public et musées, disponível no portal de publicações Persée : http://www.persee.fr/ [archive] Sua fama logo tornou-se internacional, o que o fez desenvolver o gosto pelas viagens, sendo regularmente convidado a dar palestras no exterior.
Segundo Bernard Deloche, alguns princípios característicos estruturam o pensamento de Desvalées: o vernacular, particular a um país, nação ou região, e a técnica, ou a valorização do cotidiano e do utilitário, que se vê em todos os museus onde atuou; a relação com o objeto e a necessidade de pensá-lo a partir de seu contexto; uma visão concreta do público, que se impõe sobre as coleções; e finalmente, a prioridade dada ao outro e à diferença. Estes princípios são relacionados à abordagem etnológica que ele implementa por meio das exposições que desenvolveu e dos muitos artigos que escreveu ao longo de sua carreira.(en) DELOCHE B., « André Desvallées, penseur de la nouvelle muséologie », Icofom Study Series, Hors-Série, 2014, p. 149-158.
Nova museologia Estreitamente ligado ao desenvolvimento de novas formas experimentais de museus, e apoiado por Georges Henri Rivière e Hugues de Varine Bohan, diretor do ICOM, Desvallées conseguiu, no seio da Direction des musées des France, um fundo para apoiar novas experiências de museus, como por exemplo o Écomusée du Creusot Montceau-les-Mines, que obteve reconhecimento internacional.(en) Hudson K., Museums for the 1980s - A Survey of World Trends,London, Unesco-Mac Millan, 1977. É nesse contexto, e a fim de discutir essas experiências, que ele utiliza pela primeira vez, em 1981, o termo “Nova Museologia”, num artigo para a Enciclopédia Universalis.Muséologie (nouvelle), in: Encyclopaedia universalis, Suplemento, t.2., 1981, p. 958-961 (6 colunas) (incluído na edição de 1985). Esse conceito foi amplamente utilizado por todos os profissionais que se reconheceram através dessas novas experiências, visando colocar o humano no centro do dispositivo museal, relegando a coleção a um segundo plano, e ressaltando a visão de comprometimento do trabalho do museu em prol da sociedade e do seu desenvolvimentoH. de Varine, L’écomusée, in La Gazette (Associação Canadense de Museus), 11, 1978.. Assim nasceu a associação Museologia Nova e Experimentação Social (MNES), criada em 1982, e o Movimento Internacional pela Nova Museologia (MINOM), fundado por Pierre Mayrand em 1984,http://www.minom-icom.net/ [archive] do qual Desvallées foi um dos membros fundadores.
Desvallées publicou inúmeros artigos sobre a Nova Museologia e os ecomuseus,Les écomusées, in: Icofom Study Series, 2, 1983, p. 15-16; L'écomusée: musée degré zéro ou musée hors les murs, in: Terrains, no 5, 1985, p. 84-85; La nouvelle muséologie, in: Nouvelles muséologies (Alain Nicolas éditeur). Marseille, Mnes, 1986, p. 45-52; Un tournant de la muséologie, in : Brises, no 10, sept. 1987, p. 5-12, etc. mas o destaque fica por conta da antologia Vagues: une anthologie de la nouvelle muséologie, que ele escreveu entre 1992 e 1994, com a colaboração de Marie-Odile de Bary e de François Wasserman, uma das referências mais citadas em trabalhos sobre o assunto.Vagues. Une anthologie de la nouvelle muséologie, Mâcon, Ed. W. et M.N.E.S., 2 vol, 1992 et 1994.
Desenvolvimento da museologia A Nova Museologia é um momento importante na história do campo museal, no qual Desvallées tem um longo percurso, que atravessa sua história, sua teoria e sua definição sobre os conceitos que o regem. Foi durante a concepção da galeria cultural do MNATP que ele se interessou progressivamente pelos conceitos teóricos subjacentes à prática museográfica. Fortemente influenciado por Duncan CameronIrvine Lois, In memoriam Duncan Ferguson Cameron, Commonwealth Association of Museums, 2006 [archive], especialmente pelo seu artigo Un point de vue, le musée comme système de communication,(en) D. Cameron, A viewpoint: the Museum as a communication system and implications for museum education, in Curator, 11, 1968, p. 33-40;Incluído sob o título: Un point de vue: le musée considéré comme système de communication et les implications de ce système dans les programmes éducatifs muséaux, in A. Desvallées, Vagues. Une anthologie de la nouvelle )muséologie, Mâcon, Ed. W. et M.N.E.S., 2 vol, 1992 et 1994. t.1, p. 259-270. ele utiliza os princípios da lógica comunicacional para projetar, juntamente com Rivière, a museografia das galerias do MNATP. É sob esse contexto que ele desenvolve o conceito de “expôt”, a fim de traduzir o termo “exhibit” utilizado por Cameron, para definir a unidade do material utilizado numa exposição. É igualmente sob o mesmo contexto de pesquisa, ligado aos ecomuseus, que ele implementa nas galerias a apresentação das unidades ecológicas tal como concebido por Rivière, “modelo que restaura os objetos (coisas reais – vraie chose) em seu novo contexto”.Todos esses termos são definidos por A. Desvallées. A. Desvallées, F. Mairesse (dir.), Dictionnaire encyclopédique de muséologie, Paris, Armand Colin, 2011.