A equidna-de-focinho-curto (nome científico: Tachyglossus aculeatus, do grego: tachy, rápido + glossus, língua; e do latim: aculeo, espinho + atus, portador) é um mamífero monotremado da família Tachyglossidae. É a única espécie descrita para o gênero Tachyglossus, podendo ser encontrada através de toda a Austrália, Tasmânia e em partes da ilha de Nova Guiné. Outros vernáculos para a espécie incluem equidna-de-bico-curto e equidna-ouriço, e antigamente também era chamada de tamanduá-espinhoso. Essa equidna é politípica, com cinco subespécies.

Animal de hábitos diurnos e/ou noturnos, está adaptado para escavar formigueiros, cupinzeiros e o solo a procura de formigas e cupins, devido as potentes garras presentes tanto nos membros dianteiros quanto traseiros. É a menor das espécies de equidnas conhecidas. Diferencia-se do gênero Zaglossus por diversas características físicas, entre elas o tamanhos dos membros, do focinho e quantidade de espinhos; hábitos alimentares e comportamentais. Apresenta o corpo coberto por espinhos, que podem medir até seis centímetros de comprimento. Ovípara, a fêmea põe um único ovo, numa espécie de bolsa que se desenvolve no abdômen na época de acasalamento, onde é incubado por aproximadamente dez dias. O filhote nasce cego e pelado, e com um ano de vida se torna independente.

É uma espécie pouco ameaçada de extinção, sendo encontrada em vários ecossistemas. Se adaptou bem a colonização da Austrália, podendo ser encontrada em áreas agrícolas e pastagens. A população é estável, tendo poucos fatores de risco. Representa um dos ícones da Austrália, aparecendo no verso da moeda de cinco centavos do dólar australiano, e como mascote em eventos e competições.

Nomenclatura e taxonomia A equidna-de-focinho-curto foi descrita por George Shaw em 1792 com o nome de Myrmecophaga aculeata. Shaw usou o mesmo gênero do tamanduá sul-americano, Myrmecophaga, para a espécie encontrada na Austrália. Em 1802, Everard Home reconheceu a relação entre o ornitorrinco e a nova espécie, renomeando-a para Ornithorhynchus hystrix. Posteriormente foi renomeada para Echidna hystrix, e mais tarde com o reconhecimento da prioridade do nome específico de Shaw, para Echidna aculeata. O gênero Echidna proposto por Frédéric Cuvier encontrava-se pré-ocupado pelo Echidna criado por Johann Reinhold Forster em 1788. Georg August Goldfuss, em 1809, substituiu-o para Acanthonotus, entretanto, este nome também já se encontrava pré-ocupado pelo Acanthonotus criado por Marcus Elieser Bloch em 1801. Em 1811, Johann Karl Wilhelm Illiger substituiu o Echidna por Tachyglossus, renomeando a espécie para Tachyglossus aculeatus. Johann Fischer von Waldheim em 1814 e Constantine Samuel Rafinesque em 1815 também criaram substituições, Echinopus e Syphomia respectivamente, para o gênero pré-ocupado criado por Cuvier.

Cinco subespécies são reconhecidas, acanthion, aculeatus, lawesii, multiaculeatus e setosus, cada qual numa diferente localização geográfica. Uma sexta subespécie, a ineptus, era aplicada as populações da Austrália Ocidental, entretanto, não há características que a diferencie da acanthion, sendo então englobada por esta. As subespécies diferenciam-se na quantidade, amplitude e largura dos espinhos, e no tamanho das garras escavadoras dos membros posteriores. A subdivisão em subespécies não está totalmente definida e alguns autores sugerem que uma revisão é necessária.

Tachyglossus aculeatus tem uma vasta distribuição durante o Pleistoceno, com registros fósseis nas cavernas Wombeyan e Lago Menidee em Nova Gales do Sul, Naracoorte na Austrália Meridional e caverna Mammoth na Austrália Ocidental. Entretanto, ela não é um achado comum em depósitos fósseis, ao contrário dos espécimes de Megalibgwilia, um tipo de equidna com focinho comprido que se extinguiu no Pleistoceno. Alguns exemplares de Naracoorte são cerca de 10% maiores que a forma atual.

Distribuição geográfica e habitat A espécie pode ser encontrada na Austrália, incluindo diversas ilhas adjacentes como a Ilha Kangaroo, Tasmânia, Ilha King e Grupo Furneaux; e na ilha de Nova Guiné (Indonésia e Papua-Nova Guiné), principalmente na costa sudoeste e no vale do Markham. A espécie também pode ocorrer na margem sul da Cordilheira Central, especialmente na área do Monte Bosavi, e na área de Hewa. Registros históricos de expedições realizadas entre as décadas de 1930 a 1960 indicam a presença da espécie nas Montanhas Kratke, no vale de Mendi, no vale do Baiyer, no vale do Jimmi e na área de Goroka. thumb|200px|left|Habitat arbustivo e rochoso da equidna no sul da Tasmânia As subespécies possuem distribuições geográficas distintas: Tachyglossus aculeatus aculeatus é encontrada no sudeste de Nova Gales do Sul e Vitória; Tachyglossus aculeatus acanthion ocorre nas regiões áridas e semiáridas da Austrália, assim como na região tropical do norte; Tachyglossus aculeatus setosus ocorre na Tasmânia e algumas ilhas do estreito de Bass; Tachyglossus aculeatus multiaculeatus é endêmica da ilha Kangaroo; e Tachyglossus aculeatus lawesii está presente na Nova Guiné, e segundo alguns pesquisadores, na florestas tropicais do noroeste de Queensland.

A equidna pode ser encontrada numa grande variedade de habitats, incluindo savanas, bosques, florestas tropicais e áreas áridas, semiáridas e montanhosas. Ocorre também em regiões agrícolas e de pastagens. Em altitude é encontrada do nível do mar até os 1 675 metros.

Características Ficha técnica Comprimento <center>35 - 53 cm Cauda <center>9 cm Peso <center>2,5 - 6,0 kg Tamanho de ninhada <center>1 Período de gestação <center>3 semanas Período de incubação <center>10 dias Desmame <center>6 meses Maturidade sexual <center>5 - 12 anos Longevidade <center>50 anos (em cativeiro)

Como o ornitorrinco, o corpo da equidna é comprimido dorsoventralmente. O dorso é arqueado, e o ventre plano ou côncavo. A cabeça é pequena e parece emergir do corpo sem nenhuma indicação de pescoço. A cauda é curta, grossa e glabra na superfície ventral. O focinho longo e fino é cerca de metade do tamanho da cabeça, sendo quase reto ou então curvado ligeiramente para cima. Cada membros possui cinco dígitos, com garras largas, rígidas e retas, adaptadas para escavar. Ambos os sexos apresentam um esporão nos membros traseiros, oco e sem produção de veneno, ao contrário do Ornithorhynchus anatinus. Os olhos são pequenos e situados próximos a base do focinho, possibilitando um campo de visão mais voltado a frente, que as laterais. Não tem orelhas externas. Os machos não apresentam escroto, e os testículos são internos. Não possui dentes e a língua é comprida e pegajosa. thumb|200px|right|Detalhes dos espinhos da equidna O corpo da equidna, com exceção do ventre, face e pernas, é coberto por espinhos que chegam a medir cerca de seis centímetros de comprimento. Eles são geralmente amarelos, com as extremidades pretas, mas alguns são totalmente amarelados. Abaixo dos espinhos, as equidnas apresentam uma pelagem negra a marrom escura. O ventre apresentam uma pelagem compostas por pêlos grossos. thumb|right|200px|Esqueleto da equidna Entre as características que diferenciam as subespécies, os espinhos e a coloração da pelagem são as mais distinguíveis. Na subespécie da Tasmânia, os pêlos cobrem quase que completamente os espinhos, que são pequenos, e a coloração é marrom-claro. A da ilha Kangaroo possui os espinhos longos e finos, bem projetados da pelagem. Na Nova Guiné, as equidnas têm os espinhos longos e robustos, a pelagem é grossa e geralmente marrom. Na subespécie nominal os espinhos eclipsam a pelagem que é relativamente curta. Na acanthion a pelagem é preta e grossa, mais esparsa no dorso, quase ausente no ventre e os espinhos são longos e robustos.

O crânio do gênero Tachyglossus é caracterizado por um focinho alongado e arredondado e uma caixa craniana abaulada lateralmente. O palato se estende para trás ao nível das orelhas, e o meato acústico externo é direcionado ventralmente. A mandíbula é reduzida e os processos coronóide e angular pouco desenvolvidos. Internamente, a mais proeminente característica são as conchas nasais. Elas se estendem posteriormente no crânio, ficando sob a superfície das cavidades olfatória e cerebral da caixa craniana.

Ecologia e comportamento thumb|200px|right|Indivíduo no French Island National Park, Vitória demonstrando o comportamento defensivo da espécie. Enquanto vários aspectos da sua fisiologia têm sido estudados em detalhes, informações sobre sua ecologia geral, área de vida e uso de abrigos, ainda é escasso. A equidna é ativa a qualquer hora do dia ou noite. De hábitos solitário e gregário, não possui abrigo fixo ou área de nidificação específica. Não é territorialista, mas vive em uma área de vida definida. A área de vida possui em média 40 a 60 ha, entretanto já foram observadas áreas entre 21 e 93 ha, e um estudo na ilha Kangaroo demonstrou animais que cobriam uma área entre 9 e 192 ha. Equidnas podem dividir suas áreas com outros indivíduos sem incidentes, e algumas vezes compartilham os mesmos abrigos. O tamanho da párea de vida pouco difere entre machos e fêmeas.

Equidnas têm uma longevidade longa, com o registro de um exemplar, no Zoológico da Filadélfia, que viveu por 50 anos (apesar que a idade do animal quando capturado ser desconhecida). Historicamente, os principais predadores da espécie têm sido os grandes marsupiais carnívoros, como o tilacino e diabo-da-tasmânia, e grandes répteis, especialmente os do gênero Varanus. Os filhotes e juvenis são os mais susceptíveis à predação. Existe relatos de dingos matando equidnas adultas, rolando-as e atacando seu ventre desprotegido. Na Austrália contemporânea as principais causas de morbilidade e mortalidade são os veículos motorizados e predadores introduzidos, como a raposa-vermelha, dingo, cães e gatos errantes, e humanos.

Dieta e hábitos alimentares thumb|right|200px|Ninho de formiga Iridomyrmex sp. danificado por uma equidna. A equidna-de-focinho-curto se alimenta quase que exclusivamente de formigas e cupins, embora outros invertebrados, como minhocas, larvas de besouros Scarabaeidae e larvas de mariposas (Xyleutes spp.) também façam parte da sua dieta. Por razões desconhecidas, no frio, as formigas nas áreas úmidas compõe a maior porcentagem da dieta, enquanto que calor, os cupins nas áreas áridas são consumidos com maior frequência. Não parece que seja uma questão de disponibilidade, desde que há uma abundância de formigas em ambos os habitats. Uma possível explicação, pode ser pelo fato que as térmites contenham mais água (acima de 80%) que as formigas (64%). Na Tasmânia, a equidna consome principalmente formigas, devido a ocorrência de poucas espécies de cupins, sendo que nenhuma delas constroem cupinzeiros altos e vivendo basicamente na madeira em decomposição e no solo das florestas.

Seu focinho, sensível, serve mais como um órgão tátil do que olfativo. Para comer, o equidna procede da mesma maneira que os tamanduás, isto é, serve-se da longa língua pegajosa, retirando-a, junto com alimento, uma certa quantidade de areia, de poeira, de resto de mata e, às vezes, um pouco de ervas, que lhe facilita a trituração.

Reprodução thumb|right|200px|Região ventral de uma fêmea na época reprodutiva