Carlota Aglaia de Orleães, (; Paris, 20 de outubro de 1700 – Paris, 19 de janeiro de 1761) foi Duquesa Consorte de Módena e Régio. Era a terceira filha do duque Filipe II de Orleães e de sua mulher, Francisca Maria de Bourbon.filha legitimada de Luís XIV de França e de Francisca Atenas, Madame de Montespan.
Nasceu princesa de sangue. Do seu casamento gerou 10 filhos.
Juventude Carlota Aglaia nasceu no Palais-Royal, a residência de seus pais em Paris. Em criança, era conhecida na corte por Mademoiselle de Valois. O seu segundo nome provem da mais jovem das três Graças da mitologia grega, Aglaia, .
Carlota era uma dos oito filhos de seus pais e, ainda bastante jovem, ela e a irmã Luísa Adelaide foram colocadas na Abadia de Chelles que, anos mais tarde, haveria de ser dirigida pela irmã na qualidade de Abadessa. Em 1714, foi mandada pelos pais para a Abadia de Val de Grâce.
Nessa altura, o seu casamento passou a ser uma preocupação para a família. A irmã mais velha, a Duquesa de Berry, sugeriu o seu casamento com o jovem Luís Armando II, Príncipe de Conti, o filho de Francisco Luís, Príncipe de Conti e de sua mulher Maria Teresa de Bourbon, mas Luís XIV não aprovou a união.
Em 1715, Carlota mudou-se com a família para o Palais-Royal. No ano seguinte, a sua mãe sugeriu o seu casamento com o seu primo co-irmão Luís Augusto, Príncipe de Dombes, filho de seu tio, Luís Augusto de Bourbon, duque de Maine, mas Carlota recusou. Pouco depois, ela foi viver para o Château de Saint-Cloud com a sua avó paterna, Isabel Carlota do Palatinado, a Duquesa viúva de Orleães, conhecida na Corte por Madame. A avó fez na altura um retrato da neta com caneta:
Mademoiselle de Valois não é, na minha opinião, não é bonita, e ainda assim, às vezes, ela não parece feia. Ela tem algo encantador, quer pelos olhos, quer pelo seu tom de pele. Ela tem dentes brancos, um grande nariz arrebitado, e um dente proeminente que, ao rir, tem um efeito desagradávelMemórias sobre a corte de Luís XIV e da Regência, por Duquesa viúva de Orleães
O seu primo, Luís Henrique, Duque de Bourbon, propôs-lhe casamento em nome do seu irmão mais novo, Carlos de Bourbon, conde de Charolais. Diz-se que Carlota teria considerado seriamente a proposta mas os seus pais recuram-na completamente.
Em 1718, Carlota iniciou uma ligação romântica com Luís Francisco Armando du Plessis, 3.º Duque de Richelieu.Anquetil, Histoire de France, 1820 Em 1719, o duque foi preso e ficou detido em Hem pela sua participação na Conspiração de Cellamare. Carlota visitou-o diversas vezes na prisão. No intuito de se casar com ele, ela suplicou ao pai, o Regente, para o perdoar.
A sua prima mais velha, Luísa Ana de Bourbon, era outra das conquistas do promíscuo duque de Richelieu. As primas, que nunca haviam sido próximas, tornaram-se amargas inimigas dado o envolvimento simultâneo com o duque mulherengo. Esta inimizade continuou muito após os respetivos relacionamentos terem acabado. A jovem Luísa Ana era considerada a filha mais atraente de Luís III, Príncipe de Condé.
Casamento Contra os desejos de Carlota, o Regente aceitou uma proposta de casamento para sua filha apresentada por Reinaldo, Duque Soberano de Módena e Reggio para o seu filho, o príncipe-herdeiro Francisco d'Este. Anteriores projetos de casamento para casar Carlota com um príncipe inglês ou com Carlos Emanuel III de Saboia haviam falhado.
De acordo com as cartas da avó, o seu futuro marido terá ficado apaixonado pela jovem Carlota após, "à mera visão do seu retrato".Elizabeth Charlotte of the Palatinate, Mémoires sur la cour de Louis XIV et de la Régence.
Poucos esperavam que o casamento fosse bem sucedido, uma vez que Carlota não queria deixar a França. Uma prima distante, Margarida Luísa de Orleães, que anteriormente ficara noiva contra vontade de Cosme III de Médici, Grão-Duque da Toscana em 1661, vivera um casamento desastroso. Por fim, Margarida foi forçada a regressar a França em desgraça. Pensava-se que Carlota teria o mesmo destino. A Grã-duquesa reparou nas parecenças dos dois casos e, incapaz de lidar com a situação, recusou-se a falar com a jovem prima sobre as núpcias.
<blockquote> A Grã-duquesa da Toscana afirma que não receberá Mademoiselle de Valois nem falará com ela, sebendo muito bem o que a Itália é, crendo que Mademoiselle de Valois não será capaz de se adaptar à situação. Ela receia que se a sua sobrinha alguma vez regressasse a França fosse dito que ela "era a segunda edição da Grã-Duquesa".<ref>Elizabeth Charlotte of the Palatinate, Mémoires sur la cour de Louis XIV et de la Régence.</ref> </blockquote>
O casamento esteve originalmente previsto para 25 de janeiro de 1720, mas esta data acabou por ser adiada para o mês seguinte dado ser necessário a aprovação pelo Bispo de Módena. Apesar disso, a certidão de casamento foi assinado a 31 de janeiro.
Em 11 de fevereiro de 1720, realizou-se um casamento por procuração no Palácio das TulheriasLouis de Rouvroy Saint-Simon, La Cour du Régent. O Duque de Chartres, irmão da noiva, representou o futuro cunhado, enquanto a sua irmã mais nova, Luísa Isabel, segurou no seu véu. Logo após, realizou-se um banquete no Palácio Real onde o jovem rei Luís XV aguardava oferecendo os presentes à nova Princesa-Herdeira de Módena.
Vida em Módena Carlota dirigiu-se primeiro para Antibes e depois para Génova.
Chegou a Régio a 20 de junho, e aí conheceu o seu sogro, o marido e o cunhado pela primeira vez. A cerimónia formal de casamento ocorreu em 21 de junho de 1720 em Módena. Carlota recebeu um enorme dote de 1.800.000 de Libras francesas, metade das quais eram um contributo em nome do jovem rei, Luís XV, por ordem do Regente. Do seu país de adoção, Carlota recebeu um dote que consistia em, diamantes e retratos do seu futuro marido.
Como a mãe do seu marido, a Princesa Carlota Felicidade de Brunesvique, morrera em 1710, a Princesa–herdeira era a titular mais senior das princesas de Módena.
Embora ela não fosse fille de France nem petite-fille de France, Carlota foi autorizada a ter como dama de companhia na corte de Módena, a Duquesa de Villars, dama que representava também o rei de França.
Na corte de Módena os hábitos eram diferentes: era esperado que todos acordassem cedo e assistissem à missa; o almoço era servido a uma hora em que as damas da moda de Paris e Versalhes sorviam ainda o chocolate matinal; a ocupação habitual da família ducal durante a tarde era um passeio de carruagem, quase a passo de funeral; o jantar era servido às oito horas e às 10 era hora de deitar. Este aborrecimento era apenas agitado quando o favorito do seu sogro, o Conde de Salvatico (um admirador de Carlota) fazia de mestre de cerimónias. O conde usava a sua nova função para reivindicar o direito de entrar no apartamento da princesa a qualquer hora que pretendesse. Ele intercetava o correio dos seus familiares e amigos em França, e tinha até a audácia de impedir a entrega de diversas cartas de seu pai, para criar a impressão que ela entrara em conflito com o Regente. Adicionalmente, ele fornecia cavalos cegos e coxos para a carruagem da princesa e baixelas de cobre para a sua mesa. Em resumo, ele tentava aborrecê-la o mais possível.
Para se distrair da aborrecida corte, Carlota começou a promover pequenos encontros privados nos seus apartamentos onde recebia um pequeno círculo que incluía as suas três cunhadas (ainda vivas), entre as quais se incluía Henriqueta d'Este, futura Duquesa de Parma.
Em Setembro de 1720, Carlota apanhou varíola e, de acordo com a sua avó, foram-lhe ministrados os últimos sacramentos. Ela chamou o confessor francês, Colibeaux, para a sua cabeceira e entregou-lhe um caixote, ordenando-lhe que, secretamente, queimasse todos os documentos ali depositados. Provavelmente entre estes papeis estariam as cartas de amor que recebera do Duque de Richelieu. Durante a sua doença, o seu marido estava proibido de a ver; ele permaneceu na sua villa em Sassuolo até que ela recuperasse. O casamento era criticado por não produzir descendência, culpando-se a princesa em convalescença.
Estas críticas ao casal fez com que eles fugissem para Verona por um breve período, o que aborreceu o seu sogro, o duque reinante. Em retaliação, ele cortou o serviço postal para o príncipe e para a princesa na esperança que, assim, eles regressassem. Foi nesta altura que Carlota pediu a seu pai, pela primeira vez, que a autorizasse a regressar a França e a viver em Versalhes com a sua família. Este pedido apenas serviu para complicar os planos de casamento que já em negociação, das suas irmãs Luísa Isabel e Filipina Isabel. Em dezembro de 1723, enquanto ela se encontrava em Itália, o seu pai morreu. O seu irmão mais novo, Luís, sucedeu nos títulos da Casa de Orleães.
Após a morte do pai, foi solicitado a Carlota e ao marido que permanecessem na villa do príncipe em Régio, numa espécie de exílio privado, longe da corte de Módena.
Em 1727, o seu anterior amante, o Duque de Richelieu, visitou-a em Módena disfarçado, e os dois retomaram o seu romance. Quando isto foi revelado, o marido autorizou-a a regressar a França temporariamente desonrada. O regresso a Módena ocorreu mais tarde em 1727. No ano seguinte, ela e o marido partiram para Génova. Em 1733, ela voltou a viajar para França onde não foi bem recebida; a mãe, que nunca gostara dela, foi fria; a mais próxima amizade familiar, foi o seu meio irmão ilegítimo, o chevalier d'Orléans.
Refúgio em Paris Em 1733, rebentou a Guerra de Sucessão da Polônia. Apesar do seu sogro se declarar neutral, a família ducal viu os seus estados ocupados por exércitos estrangeiros, o que provocou a fuga do Duque de Módena para Bolonha enquanto o seu filho e Carlota se dirigiram para França, permanecendo em Lião.
A mãe, que tentava manter a sua escandalosa filha longe de Paris e de Versalhes, escreveu ao Duque de Módena certificando-se que Carlota e o marido ficariam em Lião. O seu irmão mais novo, Luís, Duque de Orleães, fez o mesmo. No ano seguinte, após muita correspondência da parte do marido com a Corte francesa, os dois foram autorizados a irem para Paris incógnitos, onde chegaram a 12 de março de 1734. A sua chegada ao Palais Royal foi fria. Carlota encontrou a mãe e o irmão, que nem se deram ao trabalho de lhe oferecer acomodação, nem sequer um refresco.
Inicialmente, ela e o marido viveram no Hôtel de Luynes na Rue du Colombier (onde o seu filho Benedito veio a nascer), muito próximo da Abadia de Saint-Germain-des-Prés. Pouco depois, mudaram-se para o Hôtel de Lyon, na Rue des Petits-Champs, muito mais próxima da residência de seu irmão, o Palais Royal. O irmão dera-lhe uma pensão de 25.000 écus durante a sua estadia em Paris, mas recusou ajudá-la de qualquer outra forma. thumb|right|200px|Retrato de Carlota por Gobert. Em 1735 o seu marido foi chamado a Módena por questões de Estado. Carlota usou a sua aparência para influenciar o seu primo, o jovem rei, para a autorizar a ficar em Paris após a partida do marido. O rei concordou na condição dela permanecer fora da Corte e vivesse em Val de Grâce, o convento que conhecera na juventude. Graças às intervenções da mãe e do irmão, ela nunca chegou a ser recebida pela rainha, Maria Leszczyńska, uma vez que se aparecesse num evento público causaria mau estar devido à indefinição do seu estatuto. O seu marido regressou em maio de 1736.
Para aborrecimento da família, Carlota e o marido permaneceram em Paris. Seguiu-se uma disputa dramática na qual Carlota e a irmã, a Rainha Viúva de Espanha, disputaram sobre uma questão de etiqueta. Quando a família tomou totalmente o partido da irmã, Carlota ficou ainda mais isolada.
Pouco tempo depois, o marido teve que viajar até à Hungria. Carlota persuadiu o Cardeal Fleury a convencer o jovem rei a, mais uma vez, autorizar a sua permanência em Paris não acompanhando o marido. O cardeal também convenceu a sua família a aceitar a sua contínua presença em França.
Duquesa Consorte