Fringe science, literalmente ciência marginal, é um termo empregado em epistemologia da ciência para denotar uma linha de reflexão que se afasta significativamente das principais teorias do campo de estudo em que deseja situar-se, e que é considerada questionável pelas principais correntes desse campo. Mais especificamente, pode referir-se a uma aplicação questionável de um método científico reconhecido, ou ao emprego de um método cuja validade científica é questionável.

Para cientistas, os atributos da ciência marginal incluem ser altamente especulativa ou basear-se em premissas já refutadas. As teorias da ciência marginal são muitas vezes propostas e defendidas por pessoas que não possuem experiência ou formação acadêmica tradicional, ou por pesquisadores de fora do mainstream da disciplina. O público em geral tem dificuldade em distinguir entre a ciência e os seus imitadores,Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 173. ISBN 9780813390604 e, em alguns casos, um "desejo de acreditar, ou uma desconfiança generalizada em especialistas, constitui um potente incentivo para aceitar reivindicações pseudocientíficas".Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 176. ISBN 9780813390604

O termo ciência marginal cobre desde novas hipóteses que podem ser testadas através do método científico até hipóteses ad hoc e puramente sem sentido, frequentemente descritas como mumbo jumbo. Disso resulta uma tendência em julgar toda a ciência marginal como o domínio preferencial de pseudocientistas, amadores e adeptos de pós-verdades.

Outros termos que descrevem tipos questionáveis de ciência incluem ciência patológica, ciência vodu, e ciência de culto à carga. O termo ciência lixo, em particular, é usado para criticar pesquisas vistas como deliberadamente duvidosas ou fraudulentas.

Um conceito que já foi aceito pelo mainstream da comunidade científica pode se tornar ciência marginal devido a uma posterior reavaliação. Por exemplo, a teoria da infecção focal, que considera que infecções das amígdalas ou dentes são a principal causa de doença sistêmica, já foi considerada fato médico.

Descrição O termo ciência marginal denota teorias e modelos científicos pouco ortodoxos. Pessoas que criam ciência marginal podem ter empregado e alguma maneira o método científico em seus trabalhos, mas os seus resultados não são aceitos pela comunidade científica. Além disso, em alguns casos a ciência marginal pode ser defendida por um cientista que tenha algum reconhecimento dentro da comunidade científica, embora na maior parte das vezes este não seja o caso. Normalmente, a evidência fornecida pela ciência marginal é aceita apenas por uma minoria e é rejeitado pela maioria dos especialistas.

A fronteira entre a ciência marginal e a pseudociência é disputada. Contudo, em geral a conotação de ciência marginal é de que a empreitada é bem intencionada, mas que por uma variedade de razões, incluindo evidências incompletas ou contraditórias, é improvável que seus resultados sejam corretos.Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 183. ISBN 9780813390604

O termo pode ser considerado pejorativo. Por exemplo, Lyell D. Henrique Jr. escreveu que, "ciência marginal [é] um termo também sugerindo excentricidade". Esta caracterização é talvez inspirada pela percepção (baseada em considerável precedente histórico) de comportamento excêntrico de muitos pesquisadores, consubstanciada na figura do cientista louco.

Embora a maioria da ciência marginal seja reiteradamente rejeitada, a comunidade científica pode vir a aceitar partes dela ou suas variações. Um exemplo disso concerne a tectônica de placas, uma ideia que teve origem na teoria marginal da deriva continental, rejeitada por décadas.Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 11. ISBN 9780813390604 De acordo com Friedlander:Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 161. ISBN 9780813390604

Exemplos

Históricos Algumas ideias históricas que foram refutadas pela ciência dominante são: O trabalho de Wilhelm Reich com o orgônio, uma energia física que ele afirmou ter descoberto, contribuiu para sua alienação da comunidade psiquiátrica. Ele foi finalmente condenado a dois anos de prisão, tendo morrido no cárcere. Naquele tempo e até hoje, os cientistas contestaram a sua afirmação de que havia evidência científica da existência de orgônio. No entanto, amadores e cientistas marginais continuaram e continuam a acreditar que esse tipo de energia é real. A teoria da infecção focal como a principal causa de doença sistêmica foi rapidamente aceita pela odontologia e pela medicina após a Primeira Guerra Mundial. Esta aceitação baseou-se em grande parte no que mais tarde se percebeu eram estudos fundamentalmente falhos. Como resultado, milhões de pessoas foram submetidas a extrações dentárias e cirurgias desnecessárias. Os estudos originais que embasavam a teoria da infecção focal começaram a cair em descrédito na década de 1930, e ao final dos anos 1950 ela era defendida por poucos, geralmente considerados pesquisadores marginais.

Contemporâneos Exemplos relativamente recentes de ciência marginal incluem: Aubrey de Gray estuda a longevidade humana e chama seu trabalho Strategies for Engineered Negligible Senescence (SENS). Muitos cientistas convencionais acreditam que sua pesquisa é marginal (especialmente sua visão da importância das epimutações nucleares e suas previsões para terapias antienvelhecimento). Um artigo de 2005 no periódico Technology Review afirmou que "o SENS é altamente especulativo. Muitas de suas propostas não foram reproduzidas, nem podiam ser reproduzidas com o conhecimento científico e a tecnologia de hoje. [...] Contudo, embora esse trabalho não conte com a aceitação de muitos cientistas bem informados, suas teorias não foram demonstradas erradas". Uma reação de fusão nuclear chamada fusão a frio, que ocorre em temperatura e pressão ambiente, foi relatada pelos químicos Martin Fleischmann e Stanley Pons em março de 1989. Numerosos esforços de pesquisa na época não conseguiram replicar seus resultados. Posteriormente, um número de cientistas trabalharam na fusão a frio ou participaram em conferências internacionais sobre o tema. Em 2004, o Departamento de Energia dos Estados Unidos reuniu um painel de especialistas em fusão a frio para que reavaliassem o assunto e recomendassem se as suas políticas deveriam ser alteradas devido a novas evidências.

Aceitação pelo mainstream Algumas teorias, uma vez rejeitadas como marginais, eventualmente podem ser aceitas ou evoluírem para outras teorias aceitas como ciência. Alguns exemplos disso incluem: A existência de placas tectônicas A existência de Tróia O heliocentrismo A colonização viquingue das Américas A teoria do Big Bang

Respondendo à ciência marginal O físico e cético estadunidense Michael W. Friedlander sugere algumas orientações para responder à ciência marginal, que, segundo ele, constitui um problema mais graveFriedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 174. ISBN 9780813390604 do que a fraude científica. Seus métodos sugeridos incluem avaliação da precisão da teoria em questão, verificação das fontes citadas, não subestimar a ciência ortodoxa e compreensão do exemplo da deriva continental, de exemplos em que a ciência ortodoxa investiga propostas radicais, e de exemplos de erros cometidos por adeptos da ciência marginal.Friedlander, Michael W. (1998). At the fringes of science: with a new epilogue (em inglês). Boulder: Westview Press. p. 178-179. ISBN 9780813390604

Em seu livro Physics on the Fringe, Margaret Wertheim apresenta o perfil de diversos cientistas outsiders, que recebem pouca ou nenhuma atenção dos cientistas profissionais. Ela os descreve como tentando compreender a realidade através do método científico, mas como incapazes de compreender as complexas teorias da ciência moderna. Essa autora também considera justificável que cientistas estabelecidos não gastem muito tempo identificando e explicando problemas a cientistas marginais, uma vez que esses últimos não gastam seu próprio tempo buscando entender o mainstream das teorias científicas que pretendem refutar.

Ver também Pseudociência Pós-verdade Fraude científica Lista de tópicos considerados pseudociências Epistemologia Sociologia do conhecimento científico Superação de teorias científicas

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