thumb|Este gráfico da NASA mostra a intensidade da anomalia térmica global no ano de 2015 em relação à média de 1880. As zonas mais vermelhas são as que aqueceram mais. Os últimos anos têm batido recorde sobre recorde em termos de temperatura. O negacionismo ou ceticismo climático no Brasil é o movimento, em âmbito brasileiro, de negação total ou parcial do conhecimento estabelecido pelo consenso internacional dos climatologistas a respeito da realidade do aquecimento global, da sua origem humana e da sua gravidade.

No primeiro mundo anglófono, em especial nos Estados Unidos, onde é mais influente, o negacionismo climático é apoiado por larga parcela da população e tem um grande poder político e econômico, sendo promovido por grupos conservadores e ultraconservadores com uma verba bilionária, ligados principalmente à indústria do petróleo. Embora no Brasil não tenha ganhado o favor popular e suas ligações mais fortes sejam com os ruralistas e o agronegócio, têm sido apontados muitos traços em comum com o movimento no estrangeiro, e seu espaço na mídia, na economia e na política, antes muito limitado, está ampliando com rapidez. Em anos recentes, em especial com a eleição de Jair Bolsonaro, o poder e influência dos negacionistas aumentaram, seus expoentes vêm tendo acesso a cargos públicos de influência nacional, suas declarações anticientíficas aumentam a confusão entre os leigos e o movimento têm sido um dos principais responsáveis pelo maior retrocesso nas políticas, legislação e programas ambientais das últimas décadas, colocando em risco o futuro do ambiente e da população e o compromisso internacional assumido pelo Brasil de reduzir suas emissões de gases estufa.

Contexto internacional

O consenso científico em torno do aquecimento global reúne mais de 97% dos climatologistas que publicam em revistas especializadas com revisão por pares, declarando que o fenômeno é real e está acontecendo, é causado pelo homem, principalmente pelo uso de combustíveis fósseis e desmatamento, gerando gases que retêm o calor da Terra (gases estufa), e terá consequências catastróficas se não for combatido com rapidez.Cook, John. "Consensus on consensus: a synthesis of consensus estimates on human-caused global warming". In: Environmental Research Letters, 2016; 11 (4)IPCC. Climate Change 2013: The Physical Science Basis: Summary for Policymakers . Contribution of Working Group I to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change. Cambridge University Press, 2013IPCC. "Summary for policymakers" . In: Climate Change 2014: Impacts, Adaptation, and Vulnerability. Part A: Global and Sectoral Aspects. Contribution of Working Group II to the Fifth Assessment Report of the Intergovernmental Panel on Climate Change, 2014

Este consenso está consolidado desde 1990, quando foi publicado o Primeiro Relatório do Painel Intergovernamental sobre Mudanças Climáticas (IPCC), organismo formado em 1988 sob os auspícios do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente e da Organização Meteorológica Mundial, reunindo a nata dos climatologistas e geocientistas do mundo, dedicados não a produzir conhecimento novo, mas a revisar e sintetizar a melhor bibliografia científica disponível."The Discovery of Global Warming: The Rise of the IPCC (1990s)". American Institute of Physics, 2017 À medida que os estudos se multiplicam, a segurança científica aumenta. Um levantamento realizado pelo National Physical Sciences Consortium analisou mais de 24 mil trabalhos publicados entre 2013 e 2014, produzidos por um total de 69.406 pesquisadores. De todos eles, apenas quatro pesquisadores rejeitaram a origem humana do aquecimento global.Hill, Taylor. "The 97 Percent Scientific Consensus on Climate Change Is Wrong—It’s Even Higher". Take Part, 09/07/2015

O negacionismo climático se caracteriza pela rejeição da ciência do clima e pela sua substituição por crenças e ideologias de variada natureza e matiz, e em parte é o resultado da sobrevivência artificial de dúvidas que tinham validade quando o aquecimento global ainda era pouco conhecido e estudado, mas que agora já não se sustentam. O negacionismo faz seus ataques à ciência ao longo de diversas linhas de argumentação. Pode ser uma negação radical e completa do atual conhecimento científico sobre o clima, ou pode atacar apenas alguns elementos constitutivos da base teórica, ou questionar a confiabilidade dos registros, a participação humana ou sua participação predominante, ou pode minimizar o risco representado pela ameaça climática, entre outros aspectos.Oreskes, Naomi & Conway, Erik M. Merchants of Doubt: How a Handful of Scientists Obscured the Truth on Issues from Tobacco Smoke to Global Warming. A&C Black, 2011, pp. 10-65

O negacionismo floresce com grande força no primeiro mundo anglófono, especialmente nos Estados Unidos,The Guardian Environmental Network. "Será que o ceticismo climático é largamente um fenômeno anglo-saxão?" Eco, 14/11/2011 que ainda é o país mais afetado pelo fenômeno. Lá as motivações principais dos negacionistas estão ligadas à preservação do livre mercado, especialmente o mercado dependente dos combustíveis fósseis, formando-se um pequeno mas muito rico e poderoso lobby que inclui empresários, líderes políticos e religiosos e cientistas de baixa credibilidade, entre outros agentes. Em âmbito internacional, o negacionismo climático tem sido ligado a atividades criminais, à desonestidade intelectual e ao uso das mesmas estratégias de produção de incertezas artificiais e de confusão da opinião pública que se tornaram notórias quando empregadas pela indústria do cigarro algumas décadas atrás.Begley, Sharon. "The Truth About Denial". Newsweek Magazine, 13/08/2007Lewandowsky, Stephan et al. "The Subterranean War on Science". In: Observer, 2013; 26 (9)Norgaard, Kari Marie. "Climate Denial: emotion, psychology, culture, and political economy". In: Dryzek, John S.; Norgaard, Richard B.; Schlosberg, David (eds.). The Oxford Handbook of Climate Change and Society. Oxford University Press, 2012, pp. 399-410Hansson, S. O. "Science denial as a form of pseudoscience". In: Studies in History and Philosophy of Science Part A, 2017; 63: 39-47Dunlap, R. E. "Climate Change Skepticism and Denial: An Introduction". In: American Behavioral Scientist. SAGE, 2013; 57 (6): 691–698 Segundo análise de Naomi Klein, para os membros do Heartland Institute, um dos principais think tanks conservadores que pregam o negacionismo, o combate ao aquecimento global vai causar alguma espécie de revolução de esquerda e de alguma forma cercear os princípios da propriedade privada, e por isso o aquecimento é negado.Klein, Naomi. "Capitalism vs. the Climate". The Nation, 09/11/2011

Há no movimento uma extraordinária predominância de ativistas do sexo masculino. Mais de 90% dos ditos "estudos científicos" negacionistas têm origem e/ou financiamento em grupos conservadores ou ultraconservadores.Xifra, Jordi. "Climate Change Deniers and Advocacy: A Situational Theory of Publics Approach". In: American Behavioral Scientist, 2016; 60 (3): 276–287 Também se associam a certos setores negacionistas crenças em teorias da conspiração, fundamentalismo religioso, uma recusa sistemática em aceitar mudanças ou fatos que possam ser desagradáveis, apego a hierarquias rígidas de poder e desejo de preservação de privilégios de classe.Mickolas, David A. Dismantling the Climate Denial Machine: Theory and Methods. Trinity College, 2017 Esses grupos dispõem, só nos Estados Unidos, de cerca de um bilhão de dólares por ano para o financiamento das suas atividades,Goldenberg, Suzanne. "Conservative groups spend up to $1bn a year to fight action on climate change". The Guardian, 20/12/2013 que incluem a produção de estudos científicos fraudulentos, compra de políticos e assédio, ameaça ou perseguição a cientistas.Breslow, Jason. "Robert Brulle: Inside the Climate Change “Countermovement". Frontline, 23/10/2012Roberts, Joel. "Groups Say Scientists Pressured On Warming". CBS News, 30/01/2007Union of Concerned Scientists. The Climate Deception Dossiers: Internal Fossil Fuel Industry Memos Reveal Decades of Corporate Disinformation, 2015

No Brasil

A história do negacionismo climático no Brasil inicia em 2007, quando os estudos se multiplicavam e os relatórios do IPCC já haviam estabelecido solidamente as causas e consequências do problema, que ganhava manchetes em todo o mundo e também repercutia na imprensa brasileira. Em maio deste ano Olavo de Carvalho publicou no Diário do Comércio um artigo intitulado "Ciência ou palhaçada?", onde criticava o documentário Uma Verdade Inconveniente de Al Gore, dizendo que o aquecimento global era uma "trapaça" e associava a polêmica a uma suposta conspiração comunista infiltrada nos organismos e políticas internacionais. Em novembro do mesmo ano, José Carlos de Almeida Azevedo, físico, ex-reitor da UnB e capitão de mar e guerra, publicou um artigo alegando que o aquecimento era uma falácia e que os cientistas eram oportunistas. Este artigo foi rebatido pelo meteorologista Carlos Nobre, afirmando que os trabalhos do IPCC eram científicos e criticando a postura de Azevedo de ignorar os fatos.Miguel, Jean Carlos Hochsprung. "A 'meada' do negacionismo climático e o impedimento da governamentalização ambiental no Brasil". In: Revista Sociedade e Estado, 2022; 37 (1)

Entre 2009 e 2010 o Código Florestal entrou em debate para sua reforma, quando foi pautada a questão de se o desmatamento influenciava nas mudanças climáticas. O principal interessado em mudar a legislação ambiental era a Frente Parlamentar Agropecuária, pois na época milhares de propriedades rurais estavam sendo multadas por infrações ambientais. Uma comissão parlamentar foi formada para estudar o assunto, e Azevedo, convidado a opinar, alegou que o aquecimento global não era um fato científico comprovado e que, portanto, não estava associado ao desmatamento, sendo a polêmica uma questão geopolítica sem base científica. Também opinou Luiz Carlos Molion, notório negacionista, e Aldo Rebelo, relator da comissão, disse que a luta em defesa do ambiente "está mergulhada no espectro de uma disputa ideológica e comercial internacional", e que as leis ambientais geram pobreza porque tiram o sustento e os direitos dos agricultores mais pobres. Outras vozes foram ouvidas com opiniões contrárias, mas a posição dos ruralistas acabou prevalecendo e o Código foi alterado, sob grandes protestos dos ambientalistas. Segundo Jean Carlos Miguel, neste momento o negacionismo desempenhou um papel estratégico ao tentar desvincular os compromissos climáticos dos compromissos florestais e construir um imaginário político onde as propostas e leis de regulamentação ambiental eram mostradas como uma ameaça à soberania nacional, ao agronegócio e ao crescimento econômico. thumb|Marcha Gaúcha pelo Clima, Porto Alegre, 2015, exigindo medidas mais agressivas de combate ao aquecimento global

Ao contrário dos Estados Unidos, no Brasil o negacionismo até o fim da década tinha um fraco apoio popular, embora já tivesse aliados muito poderosos e influentes. Uma pesquisa do Datafolha de 2010 revelou que para mais de 90% das pessoas entrevistadas o aquecimento era real, e para 75% delas o homem tem grande participação em sua causa, enquanto que 19% acreditava que a participação existia, mas era pequena.Lopes, Reinaldo José. "Ceticismo climático não 'pega' no Brasil". Folha de S.Paulo, 21/04/2010 Um estudo de 2011 da Universidade de Oxford em parceria com a Fundação Reuters mostrou que no Brasil o espaço reduzido dos céticos se devia a uma "combinação entre cultura jornalística, poucos ou nenhum grupo de pressão ligados ao setor petrolífero e à virtual ausência de vozes fortes céticas na elite científica, política e econômica".Camara, Eric. "Céticos do clima sem voz na imprensa brasileira". BBC Brasil, 08/11/2011