São Jorge () é um filme luso-francês do género drama de 2016, realizado por Marco Martins e escrito por Martins e Ricardo Adolfo. Protagonizado por Nuno Lopes, no papel de um cobrador de dívidas movido pela fé numa vida melhor para a sua família, o elenco inclui também Mariana Nunes, David Semedo, Gonçalo Waddington, Beatriz Batarda, José Raposo e Jean-Pierre Martins.

A sua estreia mundial ocorreu no Festival Internacional de Cinema de Veneza a 1 de setembro de 2016, onde Nuno Lopes foi galardoado com o Prémio Orizzonti de melhor ator. A longa-metragem estreou-se comercialmente em Portugal a 9 de março de 2017, e em França a 17 de maio do mesmo ano. São Jorge foi escolhido pela Academia Portuguesa das Artes e Ciências Cinematográficas para representar Portugal no Óscar de melhor filme estrangeiro da nonagésima cerimónia, e para o Prémio Goya de melhor filme ibero-americano em 2018.

Enredo São Jorge passa-se em 2011, num Portugal submerso em dívida e austeridade. Jorge luta boxe, e é bom, mas isso não lhe dá estabilidade financeira. Desempregado e enterrado em dívidas, tenta a todo o custo encontrar formas de garantir o sustento de Susana e Nelson, respetivamente, sua companheira e filho. Jorge ainda mora com o seu pai rabugento, enquanto Susana se mudou para um outro lugar. É mais um entre os terríveis números de famílias e empresas portuguesas que não conseguem pagar as suas dívidas à banca depois da chegada da Troika e das medidas europeias.

Imigrante brasileira, Susana decide regressar ao Brasil, para fugir da crise financeira que não lhe permite uma vida digna em Portugal. Jorge corre assim o risco de perder o seu filho, uma vez que Susana o quer levar consigo. O pugilista vive em crescentes dificuldades económicas, até que chega a um último recurso para pagar o que deve e convencer a família a ficar por perto. Aceita com relutância um emprego como cobrador de dívidas difíceis. Ironicamente, Jorge passa a usar o seu corpo treinado para a luta, para intimidar aqueles que, como ele, se vêem a braços com dívidas que não conseguem pagar. Contacta com portugueses normais que não cumpriram os seus empréstimos porque foram despedidos ou os seus salários reduzidos. Jorge acompanha dois homens da agência que lhe pedem apenas que mantenha a aparência ameaçadora.

De um momento para o outro, vê-se a atravessar a fronteira da moralidade e a entrar num mundo de criminalidade gerada pela pobreza e pela falta de alternativas. Jorge é instruído a agredir um homem que possui uma empresa de transporte de frutas e vegetais que prometeu pagar várias vezes, mas ainda não pagou. Jorge não suporta compactuar com estas tácticas, mas é uma pessoa silenciosa.

Elenco

Nuno Lopes, como Jorge Mariana Nunes, como Susana David Semedo, como Nélson Gonçalo Waddington, como Chef Cardoso Beatriz Batarda, como Teresa José Raposo, como Vitinho Jean-Pierre Martins, como Albano Ricardo Fernandes, como Mauro Rodrigo Almeida, como Valter Adriano Luz, como Sousa

Atores não-profissionais

Paulo Batata, como Batata Fátima Inocêncio, como Fátima Paulo Afonso, como Paulo Ana Gonçalves, como Ana Salvador Santos, como Salvador Paulo Seco, como Paulo

Equipa técnica

Realização: Marco Martins Assistentes de realização: Ângela Sequeira, Gui Oliveira e Dörte Schneider Argumento: Marco Martins e Ricardo Adolfo Supervisão de guião: Gui Oliveira Assistentes de câmara: Rui Pereira e António Ribeiro Assistente de produção: Diogo Uva Assistente de vídeo: José Pedroso Coordenação de duplos: David Chan Cordeiro Direção de arte: Wayne dos Santos Direção de fotografia: Carlos Lopes Direção de produção: Manuela Ribas e Ângela Cerveira Mistura de som: Olivier Blanc Montagem e mistura de som: Hugo Leitão Música original: Rafael Toral, Nuno Malo e Hugo Leitão Operador de steadicam: Eberhard Schedl

Produção Desenvolvimento O projeto de São Jorge foi trabalhado ao longo de cinco anos, tendo começado por ser uma ideia de um filme de ficção sobre boxe, surgida numa conversa entre o Marco Martins e Nuno Lopes. O realizador escreveu um guião com Ricardo Adolfo, informados pela pesquisa inicial de Mariana Fonseca. Os autores pretendiam também concretizar um filme de cariz social, com a pólis lisboeta a representar Portugal. Martins descreve que a génese do guião "foi a necessidade de falar de algo que para a minha geração era novo, um período de crise económica que se refletia na degradação da vida das pessoas. Pela primeira vez tive este impulso de escrever uma história que partia de um grupo que não é o meu, ou seja, que não é a classe média, e decidi ir aos bairros sociais."

No processo de pesquisa, a equipa entrevistou vários pugilistas portugueses que faziam cobrança presencial. Ao visitar os bairros sociais degradados da Margem Sul onde essas pessoas habitavam, os autores perceberam que havia outras camadas sociais que se sobrepunham à ideia de fazer um filme de género sobre pugilismo. Depois de pesquisa e escrita do argumento, seguiu-se uma fase de preparação de seis meses, junto das comunidades residentes nos bairros da Bela Vista (Setúbal) e, em particular da Jamaica (Seixal). Este foi dos locais que mais interessou a equipa de São Jorge, por ser considerado de acesso proibido e nunca ter sido filmado, dada a conotação com marginalidade, tráfico e histórias de assassinatos. Segundo Martins, "comecei a ir lá periodicamente: pouco a pouco, comecei a ir lá almoçar, a conhecer as pessoas do bairro, a conhecer algumas das casas. Achei bastante inacreditável que continuasse a existir um sítio daqueles, e no meio de um centro urbano. (...) O que encontrei foi sobretudo um sítio de pessoas que trabalhavam e que, portanto, não era de todo, nem foi para mim enquanto lá estive, um lugar perigoso. Era um sítio onde as pessoas se protegiam umas às outras, onde havia um sentido comunitário grande e onde, portanto, não era fácil entrar, mas onde fui muito bem recebido."

As entrevistas e as visitas ao Bairro da Jamaica ganharam um peso tão grande para os autores, que informaram constantes modificações do guião ao longo de quatro anos, nomeadamente, numa reescrita dos locais em função da Jamaica. Com estas rescritas, Martins pretendia criar "uma história de ficção que se vai cruzando com o documentário da própria crise. (...) É um filme que foi ganhando densidade à medida que a crise ia avançando." Acrescenta também que "as cobranças eram a metáfora perfeita para o momento que se vivia, de um país que não conseguia pagar as suas dívidas."

Produzida por François d'Artemare e Maria João Mayer, São Jorge é uma longa-metragem concretizada entre companhias de Portugal (Filmes do Tejo) e França (Les Films de l'Après-Midi), e co-produção de Maria & Mayer.

Casting São Jorge começou a ser desenvolvido a partir de conversas entre Marco Martins e Nuno Lopes, pelo que o ator foi o primeiro nome confirmado no elenco. Lopes não apenas participou na conceção da história, mas também no desenvolvimento do papel protagonista. Para interpretar Jorge, o ator não só integrou a equipa de preparação nas visitas aos bairros sociais da Bela Vista e da Jamaica, como engordou cerca de 20 quilos e treinou durante seis meses. Para além de Lopes, do curto elenco é composto por José Raposo, Mariana Nunes, Gonçalo Waddington e Beatriz Batarda.

Para o papel de Nelson, realizou-se um longo casting que envolveu visitas a escolas da Margem Sul para scouting de crianças não-caucasianas, o que culminou na seleção de David Semedo. Em entrevista, Marco Martins descreveu o processo: "Começámos com quinhentos miúdos. (...) Desses quinhentos, passámos para castings mais pequenos, ficaram uns cinquenta. Nesta fase, conversámos com eles, quisemos conhecê-los, perceber como falavam, como reagiam. (...) Eu procurava alguém mais estável. Depois, introduzimos o Nuno (Lopes), para perceber a química. E acho que foi aí que percebemos logo quem seria o eleito. Foi automático e imediato. Levámos o casting até ao fim, ainda chegámos à fase de termos três meninos, mas, no fundo, a escolha já estava feita, sabíamos que era o David (Semedo)."

Para além de Semedo, o realizador integrou no elenco habitantes dos bairros visitados, como Paulo Batata e Fátima Inocêncio, interpretando versões ficcionadas de si mesmos de modo a reforçar a componente realista da longa-metragem. Um dos atores não-profissionais do elenco mais determinante para o filme foi Paulo Seco por ter acumulado diversas funções. Enquanto treinador de boxe e antigo pugilista, foi objeto de pesquisa da equipa do filme, influenciou a rescrita do argumento, preparou fisicamente Nuno Lopes no seu ginásio e interpretou o papel de treinador de Jorge. Martins resume: "O Paulo foi essencial, ajudou-me em tudo, arranjou-me contactos, pôs-me à vontade com as pessoas, foi um elemento de grande importância durante todo o filme."

Rodagem O processo de rodagem de São Jorge decorreu ao longo de nove semanas, com muitas das cenas a serem gravadas no Bairro da Jamaica. Para trabalhar com os atores não-profissionais do elenco, Martins utilizou métodos experimentados a propósito do seu projeto de teatro Estaleiros ENVC 2012 no Festival do Norte, no qual repetia improvisações de conversas acerca de temas familiares aos intervenientes. No caso de São Jorge, discutiu-se acerca o desemprego e a Segurança Social Portuguesa, entre outros tópicos, antes de gravar. O local de gravações impôs alguns constrangimentos de produção que forçaram a cancelar a gravação de uma cena do filme em que um dos personagens seria retirado de sua casa pela polícia. Os autores haviam incluido a cena no guião por terem presenciado a presença agressiva da polícia no bairro durante as suas visitas. No entanto, o realizador optou por cancelar a cena, não só por a considerar potencialmente ofensiva para os habitantes do bairro, mas porque "ia usar polícias verdadeiros (...), quando a polícia chegou ao bairro vinha fortemente armada com espingardas, etc.", acrescentando que "a tensão era tão grande que era impossível filmar ali o que quer que fosse. É daquelas alturas em que, de facto, o que está a acontecer ultrapassa muito aquilo que se escreveu."

Temas e estilo A longa-metragem tem sido comparada com outras obras portuguesas, não só pelas temáticas representadas, como pela sua abordagem. Desde logo, são comentadas referências a Belarmino de Fernando Lopes, pelo modo como conjuga elementos ficcionados e documentais. Para além da temática do pugilismo, ambos filmes retratam um país socialmente em crise: o da época da ditadura em Belarmino e o das imposições da Troika e do governo de Passos Coelho em São Jorge.

De facto, o filme inicia com uma série de fotos que sugerem um país que está completamente paralisado e uma breve explicação sobre o efeito das medidas de resgate da troika europeia no acréscimo da dívida dos portugueses. Segue-se a imagem de um espaço vazio de um outdoor numa estrada também vazia, sugerindo que, em Portugal, não há mais nada para vender. A economia de Portugal é tema explorado em outros filmes portugueses contemporâneos de São Jorge, como Colo de Teresa Villaverde e a trilogia As Mil e Uma Noites de Miguel Gomes. Enquanto o filme de Gomes oferece uma abordagem de cura mágica para os tempos difíceis, São Jorge e Colo assumem-se enquanto histórias mais realistas, ainda que também recorram a imagens metafóricas. Para Nuno Lopes, "o facto de estarmos a falar de um filme sobre um cobrador de dívidas, que anda a cobrar a pessoas que estão na mesma situação que ele, [tem a ver] com o que nos estava a acontecer com o FMI".