A língua siciliana (em siciliano: sicilianu) é uma língua românica pertencente à macrofamília indo-europeia, falada na Sicília e na extremidade meridional da Itália (no Salento e na parte centro-meridional da Calábria). Estima-se que possua cerca de 5 milhões de falantes. Assim como o italiano, é derivada diretamente do latim vulgar.

No contexto administrativo e jurídico italiano, o siciliano é geralmente classificado como um dialeto, situação compartilhada com mais de 450 outras variedades linguísticas faladas no país. A língua siciliana reflete a história da ilha como um ponto de encontro, entreposto comercial e local de interação de culturas, com várias influências da língua grega, latina, e árabe (em particular através do sículo-árabe) entre outras, que moldaram o sistema fonético, o léxico e a sintaxe do siciliano. Apesar disso, muitos linguistas o consideram uma língua distinta dentro do grupo ítalo-românico meridional. O siciliano continua amplamente utilizado na comunicação informal e na cultura popular, embora o italiano padrão seja predominante na educação, na administração pública e nos meios de comunicação.

Não há uma variedade padrão plenamente unificada do siciliano. Em estudos linguísticos, costuma-se adotar uma variedade regional amplamente compreendida em diferentes áreas da ilha. Algumas propostas acadêmicas utilizam variações do siciliano central como base, entre elas o dialeto de Corleone, citado na literatura por apresentar características consideradas representativas por sua inteligibilidade entre falantes das diferentes regiões. A língua é escrita principalmente com o alfabeto latino, embora existam diferentes convenções ortográficas usadas por autores e estudiosos.

Do ponto de vista linguístico, o siciliano apresenta diversos fenômenos fonéticos e gramaticais característicos que o distinguem de outras línguas românicas da Itália. Entre eles destacam-se os processos fonológicos que ocorrem na fronteira entre palavras, incluindo adaptações vocálicas e consonantais, além de traços morfológicos e lexicais advindos das sucessivas influências históricas presentes na ilha. Esses fenômenos refletem tanto a evolução do latim vulgar na Sicília quanto o contato prolongado com outras línguas do Mediterrâneo, como o grego e o árabe, contribuindo para a formação de um sistema linguístico com características próprias dentro do conjunto das línguas românicas.

Etimologia O termo "siciliano", deriva do topônimo "Sicília", nome da ilha onde a língua se desenvolveu. O nome "Sicília" tem origem do latim "Sicilia", que é uma variante de "Sicula", um termo que se refere à terra dos sículos, um antigo povo que habitava a ilha. O adjetivo e gentílico "siciliano" (e o endônimo sicilianu) são formados a partir de "Sicília" com o sufixo -ano, tradicional nas línguas românicas para indicar origem ou relação com um lugar. miniaturadaimagem|Mapa da região siciliana na Itália

Distribuição Estima-se que o siciliano tenha cerca de 5 milhões de falantes na Itália, principalmente na Sícilia, com sub-variantes dialetais locais. Outras variantes são faladas na Apúlia (no Salento), na Calábria e no resto da península italiana. Além disso, a língua é falada por comunidades da diáspora siciliana e seus descendentes. Esses imigrantes se localizam nos países que os receberam nos séculos XIX e XX, em particular, Estados Unidos, Canadá, Austrália e Argentina.

Dialetos e línguas relacionadas O siciliano pode ser subdividido em três áreas principais: siciliano ocidental, siciliano central e siciliano oriental. O siciliano ocidental é falado nas províncias de Palermo, Trapani e em parte de Agrigento, incluindo variações como palermitano e trapanese, influenciadas pelo árabe e a normanda. O siciliano central abrange as províncias de Ena, Caltanissetta e parte do território de Agrigento, apresentando elementos linguísticos associados a populações autóctones da Sicília antiga, como os siculi. Já o siciliano oriental é difundido nas províncias de Messina, Catânia, Siracusa e Ragusa, incluindo variações como o messinese, o catanese e o siracusano, com influências históricas do grego e do espanhol.

Do ponto de vista genealógico, o siciliano pertence ao grupo das línguas ítalo-românicas meridionais e está relacionado a outras línguas e variedades românicas da Itália, incluindo o italiano padrão. A classificação linguística pode ser representada da seguinte forma:

Árvore linguística (clade):

Indo-Europeu Itálico Latino-Falisco Latim Línguas românicas Ítalo-românicas Ítalo-dálmata Italiano Napolitano Siciliano Outras variedades ítalo-românicas regionais

Embora compartilhe origem latina com o italiano, o siciliano desenvolveu características fonológicas, lexicais e sintáticas próprias ao longo da história, resultado de influências de diferentes povos que ocuparam a Sicília.

História A língua siciliana é resultado de um processo histórico de contato entre diversos povos que habitaram ou dominaram a Sicília, como os: povos pré-helênicos (Sículos, Sicanos e Elímios), gregos, romanos, bizantinos, árabes, normandos e, posteriormente, os suábios.

A partir do século VIII a.C., a colonização grega introduziu o grego antigo na Sicília, que se tornou uma importante língua de cultura e administração na ilha. Posteriormente, com a conquista romana, o latim vulgar passou a se difundir gradualmente entre a população, tornando-se a principal base linguística a partir da qual se desenvolveriam as variedades românicas locais.

Durante séculos, diversas comunidades (bizantinos, árabes, judeus e cristãos) conviveram na ilha. A língua falada desenvolveu-se a partir dessa interação, com adaptações mútuas para fins de comunicação. A escrita, porém, permanecia separada, utilizava-se latim, árabe ou hebraico, conforme o grupo.

Entre os séculos IX e XI, o domínio árabe introduziu novos elementos culturais e linguísticos, especialmente no vocabulário ligado à agricultura e à vida urbana. Apesar dessas interações na língua falada, os registros escritos continuavam a ser produzidos principalmente em latim, árabe ou hebraico, de acordo com a tradição cultural de cada comunidade.

Com a conquista normanda e, especialmente, sob o governo de Frederico II, houve um marco cultural, a formação da Escola Siciliana. Poetas como Giacomo da Lentini e outros consolidaram o uso literário do siciliano, embora influenciado pelo latim e pelo provençal. Essa produção não refletia a língua falada pelo povo.

Assim, o siciliano é uma língua neolatina que formada por estratificações históricas sucessivas. Ao longo do tempo, consolidaram-se diferenças entre a forma escrita erudita e as variedades orais populares, enquanto diversos traços fonéticos característicos foram preservados, incluindo fenômenos descritos na literatura linguística como as chamadas consoantes autóctones, consoantes consideradas próprias ou características de uma língua.

A documentação da língua inclui, além da poesia medieval, textos literários posteriores e estudos filológicos e gramaticais produzidos sobretudo a partir da era moderna, que contribuíram para o registro e a descrição sistemática do siciliano.

Fonologia O sistema vocálico da língua siciliana e de todos os dialetos italianos meridionais extremos (também chamado de sistema pentavocálico siciliano ou vocalismo siciliano) é formado, do ponto de vista fonológico, principalmente por cinco fonemas /a, ɛ, i, ɔ, u/ (/ɛ, ɔ/ também são chamadas de “e/o abertas”), aos quais correspondem as cinco vogais gráficas tradicionais: ⟨a, e, i, o, u⟩.

No entanto, em certas variedades também se encontra [ə], a vogal central média; [ʊ], a vogal quase posterior quase fechada arredondada; e [ɪ], a vogal quase anterior quase fechada não arredondada.

No siciliano prevalece um fenômeno linguístico-fonético-empático. Esse processo manifesta-se especialmente na fronteira entre palavras, isto é, quando o som vocálico final de uma palavra entra em contato com o som inicial da palavra seguinte. Nesses contextos, podem ocorrer adaptações fonéticas ou modificações na pronúncia, reguladas pelas regras fonológicas e gramaticais da língua. +Quadro vocálico da língua sicilianaAnteriorQuase anteriorCentralQuase posteriorPosteriorAlta (fechada)Semi-alta (quase fechada)ɪʊMédiaəMédio-baixa (semiaberta)Baixa (aberta)a Além dos fonemas vocálicos sicilianos, podemos identificar dois fonemas “semivocálicos” ou “semiconsonantais” /j, w/, que ocorrem necessariamente junto a vogais na formação de sílabas com ditongos (ou, mais raramente, com tritongos). No Alfabeto Fonético Internacional, contudo, esses dois sons são classificados como consoantes aproximadas. +Quadro consonantal da língua sicilianaBilabiaisLabiodentaisDentaisAlveolaresPós-alveolarRetroflexasPalataisVelaresLabiovelaresGlotitaisNasaismɱnɳɲŋOclusivasp bt̪ d̪t̪ d̪c ɟk gʔAfricadast dtʃ dʒd͡ʐFricativasf vs zʃ ʒʂ ʐç ʝxhAproximantesjwVibrantesrMonovibrantesrɽAproximantes lateraisl

Notas

Ortografia A ortografia aqui apresentada corresponde ao sistema gráfico proposto pela Kademia du Krivu, conforme sistematizado por F. M. Provitina. Trata-se de um sistema fonográfico, no qual os grafemas representam sons específicos da língua siciliana. O sistema utiliza o alfabeto latino adaptado, com inclusão de dígrafos considerados sinais gráficos autônomos (como dd, gn, ng, str etc.).

Sistema de escrita O siciliano utiliza o alfabeto latino, com adaptações e dígrafos específicos para representar sons característicos da língua. Não há uma padronização ortográfica completamente unificada, existindo variações entre tradições regionais e propostas normativas. A escrita é horizontal, realizada da esquerda para a direita, e organizada em linhas sucessivas de cima para baixo, como nas demais línguas românicas modernas. O sistema reconhece 36 sinais gráficos convencionais, correspondentes a 36 sons.

Como o alfabeto latino padrão e o teclado comum (QWERTY) não contemplam todos os sons (Ç, Đ, ð, Ĝ, ĝ, Ř, ř), a escrita é adaptada usando o “H” como marcador (SH, DH, nGH, RH), embora em alguns casos isso possa ser evitado.

Princípios gerais O sistema ortográfico siciliano tem como características: a redução de redundâncias presentes na ortografia italiana, eliminação da letra q, cujo valor fonético é representado por k, uso de dígrafos como sinais gráficos independentes e o emprego do acento circunflexo como diacrítico funcional.

Tabela grafema–fonema +GrafemaAFI (valor geral)Correlato aproximadoa/a/“a” de casa (port.)b/b/“b” de bola (port.)c/tʃ/“tch” de tchau (port.)ch/c͡ç/ (palatal africada)não há correlato direto no port.; próximo ao “ch” alemão suavek/k/“c” de casa (port.)x/ʃ/“ch” de chuva (port.)d/d/“d” de dado (port.)dd/ɖ/ (retroflexa sonora)não há correlato no port.dr/ɖɽ/ (grupo retroflexo)não há correlato no port.e/e/ ~ /ɛ/“e” de mesa ou pé (port.)f/f/“f” de faca (port.)g/g/“g” de gato (port.)gh/ɟ/ (palatal sonora)não há correlato no port.gn/ɲ/“nh” de ninho (port.)j/dʒ/“dj” de adjetivo (aprox.)h— (mudo isolado)não possui som próprioi/i/“i” de vida (port.)l/l/“l” de lata (port.)m/m/“m” de mala (port.)n/n/“n” de nada (port.)ng/ŋ/“ng” de sing (inglês)ngr/ŋɡr/não há correlato no port.o/o/ ~ /ɔ/“o” de ovo (port.)p/p/“p” de pato (port.)r/r/ (vibrante)“r” vibrante do espanhols/s/“s” de sapo (port.)sc/ʃ/ (forte)“ch” de chuva (port.)sk/sk/“sc” de escola (port.)sgr/zɡr/não há correlato diretostr/str/“str” de estrada (port.)t/t/“t” de tatu (port.)tr/ʈɽ/ (retroflexo)não há correlato no port.u/u/“u” de lula (port.)v/v/“v” de vida (port.)z/dz/“dz” de mezzo (italiano)zz/ts/“ts” de pizza (italiano)

Dígrafos e sinais gráficos autônomos Os seguintes dígrafos são considerados sinais gráficos independentes no sistema:

ch, dd, dr, gh, gn, ng, ngr, sc, sk, sgr, str, tr, zz

O grupo sgh é interpretado como combinação de s + gh, não constituindo letra autônoma.

Grafemas com “i” implícito