thumb|upright=1.5|Fotografia do Grande Manuscrito de Isaías, o mais preservado dos Manuscritos do Mar Morto. Contém todo o Livro de Isaías, em hebraico, com exceção de pequenas partes danificadas. Aproximadamente O Livro de Isaías () é um livro profético, o primeiro dos Profetas Maiores no Antigo Testamento Cristão e o primeiro dos Últimos Profetas no cânone Hebraico. Sua importância é refletida também no Novo Testamento, considerando-se que há mais de 400 referências diretas ao livro, feitas pelos evangelistas e apóstolos.

O forte caráter e ênfase messiânicos percebidos em toda a extensão do documento, muito provavelmente colaboraram para conceder ao livro tamanha proporção referencial entre os autores do Novo Testamento. Por causa disto também, Isaías recebeu o epíteto de "o quinto evangelista".

Em seus dias, Isaías viveu e narrou a tensão política e militar que o território de Israel experimentava, com eventos decorrentes principalmente de um panorama marcado por intensas e contínuas atividades bélicas e expansionistas que estavam sendo realizadas pela monarquia egípcia, ao sul, e pelos caldeus, ao leste.

O início do ministério profético de Isaías situa-se em , coincidindo com 2 datas históricas precisas: a morte do rei Uzias de Judá e a fundação de Roma.

Composição

Contexto histórico Isaías, filho de Amoz (não Amós, o profeta vaqueiro), nasceu por volta de Bíblia de Jerusalém, Nova Edição Revista e Ampliada, Ed. de 2002, 3ª Impressão (2004), Ed. Paulus, São Paulo, p 1.237 e viveu na corte dos reis de Judá. Há indicações de que talvez fosse primo de Uzias. Escriba e relator dos anais históricos da casa davídica, tinha preeminência e liberdade suficiente para transitar próximo ao poder político e tomar conhecimento, em primeira mão, das políticas e estratégias do Estado monarca judeu.

Letrado, culto e politicamente privilegiado, pode ter feito parte da casta sacerdotal de Jerusalém.

Em , ano da morte do Rei Uzias (ou Azarias ou Ozias), ele teria recebido sua vocação profética, e exerceu seu ministério por quarenta anos, numa época de crescente ameaça que a Assíria fazia pesar sobre os reinos de Israel e Judá, durante os reinados de Jotão, Acaz e Ezequias, e provavelmente também, durante seus últimos oito anos de vida, sob a opressão do reinado de Manassés, que mandou serrar Isaías ao meio (Hebreus 11:37) quando o profeta tinha 92 anos de idade, segundo um livro apócrifo do século I DC, Vida dos Profetas, escrito por um anônimo judeu da Palestina.Perguntas mais Frequentes sobre o Profeta Isaías , acessado em 14 de agosto de 2010

thumb|Rolo manuscrito de Isaías

Autoria Embora a teologia tradicional judaico-cristã defenda a existência de um único autor, a maior parte dos estudiosos consideram o livro como obra de mais de um autor, merecendo destaque o início do capítulo 40, onde se verifica a descontinuidade entre o Primeiro e o Segundo Isaías, pois ocorre uma mudança abrupta do século VIII AC para o período do Exílio na Babilônia (século VI AC), não se fala mais uma única vez de Isaías e a Assíria é substituída pela Babilônia, cujo nome é mencionado com frequência, assim como o nome de , rei dos medos e persas.Tradução Ecumênica da Bíblia, Ed. Loyola, São Paulo, 1994, p 589 Havendo estudos que indicam que dos 66 capítulos do livro, menos de 20 foram escritos pelo profeta do século VIII AC que viveu durante os governos dos reis Joatão , Acaz (734 ou 733 - ) e Ezequias (716 ou 715 - 699 ou ), estando tais capítulos concentrados na primeira parte do livro, que engloba os caps. 1 a 39, também conhecida como Proto-Isaías ou Primeiro Isaías. No entanto, alguns estudiosos tem proposto que os capítulos 36 a 39 constituem uma transição entre as duas seções.

Portanto, para alguns críticos o Livro de Isaías é uma coletânea de profecias proféticas de épocas bem diferentes, cuja redação final deve ter acontecido por volta de , ou mesmo mais posteriormente. Segundo os mesmos, trezentos anos depois da morte de Isaías ainda se atualizavam suas palavras, pois mesmo as profecias da época dele foram relidos na perspectiva pós-exílica. A afirmação crítica baseia-se na pressuposição naturalista de que seria impossível prever com mais de 300 anos de antecedência o nome do rei (Ciro) que destruiria Babilônia, conforme declarado no livro de Isaías.

Porém, para outros estudiosos, verifica-se que, antes dos séculos XX e XI nunca se questionou sobre a, segundo sua crença, singularidade da autoria do livro de Isaías. Por exemplo, nos rolos de Isaías, conforme encontrados próximo ao Mar Morto, datados do Terceiro Século AC, a parte que se refere à divisão de autores afirmada por críticos (que seria do capítulo 40 em diante) não apresenta quaisquer alterações ou indicações na coluna de que o autor diferisse. É digno de nota que, nesses escritos, a última linha do que hoje chamamos de capítulo 39 do livro de Isaías é sucedida, na mesma linha, pelo que hoje chamamos de capítulo 40. Foi somente na Idade Média que os rolos tornaram-se livros e posteriormente, foram divididos em capítulos e versículos. Portanto, segundo a evidência dos pergaminhos e rolos encontrados próximos ao Mar Morto, e para os copistas (os rolos possuem uma diferença de apenas 400 anos dos escritos originais), não havia pluralidade de escritores dos livros. Para os que defendem a unicidade da escrita do livro de Isaías, os copistas, se soubessem que havia mais de um escritor, assim declarariam e fariam uma clara divisão das partes do livro, assim como ocorre no que temos hoje compilado dos livros de Salmos e Provérbios, além de outros.

Outro fator ainda que, para os defensores de que Isaías é o único escritor do livro que hoje leva o seu nome é de que, segundo a tradição judaica, em hipótese alguma os copistas poderiam substituir palavras ou trocar seu significado. O cuidado ao fazer as cópias era muito grande, havendo revisores para o trabalho. Os copistas acreditavam que, se alterassem os escritos, poderiam sofrer maldições divinas. Porém, é de unânime concordância que os erros gramaticais são de fato encontrados, porém, não de sentido.

Hoje, não há suficientes provas para afirmar de modo veemente os dois lados da história, sendo que, ambos os lados, baseiam-se em teorias (de ambos os lados, fundamentadas na história e na ciência). Isso é ocasionado por, até o momento, os escritos originais não terem sido encontrados. Somente com os escritos originais, datados dos tempos que o livro de Isaías abrange poder-se-ia dar um ponto final na discussão. Isso é pouco provável de acontecer, em vista do passar do tempo e da deterioração. Portanto, os escritos mais confiáveis e antigos que contemos hoje são os encontrados próximo ao Mar Morto.

O horizonte de leitura do livro completo de Isaías é o da época persa e da comunidade judaica pós-exílica.

Plano da obra miniaturadaimagem|Selo israelense de 1968 citando o versículo 6 do Capítulo 62 de Isaías ("Coloquei sentinelas sobre seus muros, ó Jerusalém") escrito em hebraico e inglês O livro que traz o nome de Isaías pode ser dividido em três grandes partes:Isaías , Edição Pastoral da Bíblia, acessado em 09 de julho de 2010

Primeiro Isaías thumb|Paz, gravura a água-forte de 1896 de William Strutt, baseado em Isaías 11:6, 7

Os capítulos 1 a 39 contêm a mensagem do profeta chamado Isaías, cuja preocupação central é a santidade de Deus, ou seja, só Deus é absoluto. Em meio a grandes mudanças políticas internacionais, Isaías condena a aliança com as grandes potências, mostrando que a nação só será salva se permanecer fiel a Deus e ao seu projeto, no qual a justiça é o valor supremo. Assim, uma espiritualidade baseada na santidade de Deus conduz o profeta a uma fé política, que combate os ídolos presentes na sociedade. Ele fala também do Emanuel (7,14), no qual o Novo Testamento viu Jesus Cristo, que veio ao mundo para salvar o seu povo, mais especificamente, pode-se subdividir esta parte em quatro etapas cronológicas:

os capítulos 1 a 5 têm como foco a corrupção moral que a prosperidade tinha provocado em Judá e refletem o período até a subida de Acaz ao trono em ; no período seguinte o rei de Damasco: Rason e o rei do Reino de Israel Setentrional: Faceia chama o jovem Acaz a se aliar com eles contra o rei da Assíria: Tiglate-Pileser III, Acaz se alia à Assíria e é atacado; Judá sob a tutela da Assíria, destruição do Reino de Israel Setentrional em , Ezequias sucede Acaz em , aliança com o Egito contra a Assíria; revolta contra a Assíria, Senaqueribe arrasa a Palestina em , Jerusalém resiste.

Mesmo essa primeira parte não pode ser atribuída inteiramente ao Isaías histórico: os oráculos contra as nações estrangeiras (caps. 13 e 23), incorporam trechos posteriores, em particular os caps. 13 e 14 que são do tempo do Exílio na Babilônia, também são de composição posterior o Apocalipse de Isaías (caps 24 a 27), que não é anterior ao séc. V AC, e os caps 33 a 39.Bíblia de Jerusalém, cit., p 1.238

Outra possível subdivisão destes primeiros 39 capítulos seria na forma do seguinte sumário:Tradução Ecumênica da Bíblia, cit., p 590

cap. 1 - Introdução ao conjunto do livro; caps. 2 a 12 - Profecias sobre Israel e Judá; caps. 13 a 23 - Profecias sobre as nações estrangeiras; caps. 24 a 27 - Apocalipse de Isaías; caps. 28 a 33 - Profecias de promessas e ameaças sobre Israel e Judá; (semelhante aos caps. 02 a 12); caps. 34 a 35 - Outros fragmentos apocalípticos,que provavelmente foram escritos pelo Segundo Isaías, no tempo do Exílio na Babilônia; caps. 36 a 39 - Relatos sobre a atividade de Isaías no momento da campanha de Senaqueribe contra Jerusalém.

Contra a falsa religião Na época de Isaías, as pessoas frequentavam o Templo, mas para o profeta isso não basta, pois encher o Templo com iniquidade e solenidade é um erro enorme (1:10-20), isso porque as pessoas que levam ofertas para Jeová são as mesmas que não se importam em fazer o direito (mishpât) funcionar, que não fazem justiça ao desprotegido órfão e à abandonada viúva. Isaías, em um dos textos proféticos mais violentos contra um culto que funciona só para mascarar as injustiças que se cometem no dia-a-dia, pede aos príncipes de Sodoma e ao povo de - na verdade, de Jerusalém - para ouvirem a palavra do Senhor:

10 Escutem a palavra do Senhor, chefes de Sodoma; preste atenção ao ensinamento do nosso Deus, ó povo de Gomorra: 11 Que me interessa a quantidade dos seus sacrifícios? - diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros e da gordura de novilhos. Não gosto do sangue de bois, carneiros e cabritos. 12 Quando vocês vêm à minha presença e pisam meus átrios, quem exige algo da mão de vocês? 13 Parem de trazer ofertas inúteis. O incenso é coisa nojenta para mim; luas novas, sábados, assembleias… não suporto injustiça junto com solenidade. (1:10-13).

16 Lavem-se, purifiquem-se, tirem da minha vista as maldades que vocês praticam. Parem de fazer o mal, 17 aprendam a fazer o bem: busquem o direito, socorram o oprimido, façam justiça ao órfão, defendam a causa da viúva. (1:16-17)

Crítica à injustiça social O profeta denuncia o comportamento dos ricos e latifundiários, dos que vivem em grandes festas custeadas pelo trabalho dos pobres, dos que exploram o povo negando-lhe a justiça e dos que se fazem grandes e importantes vivendo em grandes banquetes (5:8-24).

Ai daqueles que juntam casa com casa e emendam campo a campo, até que não sobre mais espaço e sejam os únicos a habitarem no meio do país. (5:8)

Nesse aspecto destaca-se sua semelhança com o profeta Amós, até porque eles são quase contemporâneos: Amós é de e Isaías inicia sua atividade em A problemática social era a mesma para ambos, embora Amós fosse um camponês e Isaías um homem culto ligado à corte, ambos atacam os grupos dominantes da sociedade: autoridades, magistrados, latifundiários, políticos.