Wasit () é o sítio arqueológico de uma cidade medieval localizado no Iraque. Fundada no final do ou começo do VIII, logo tornar-se-ia um importante centro de produção agrícola e um dos mais relevantes centros de cunhagem de moeda do Califado Omíada e um dos mais prolíficos do mundo islâmico de tal modo que, segundo R. Darley-Doran, sua presença foi sentida por todo o mundo islâmico anos depois de sua queda. Ela continuou a ser mencionada até o começo do ou virada do XVII ao XVIII. É um dos locais culturais que aguardam inscrição na Lista do Patrimônio da UNESCO.
Localização Está situada sobre o curso medieval do rio Tigre na região que compreendia a província sassânida do Suristão, no centro da Mesopotâmia Inferior ou Sauade. Desde meados ou finais do , o trecho do Tigre que cruzada Wasit gradualmente mudou de curso, chegando a sua direção atual durante os séculos XVI e XVII, quando passou através de Cute e então através de , onde se junta com o Eufrates para formar o estuário de Xatalárabe. As ruínas de Wasit estão hoje a 25 quilômetros a nordeste de e aproximados 70 quilômetros a sudeste de Cute.
O nome da cidade tem significado semântico que se remete a sua localização. Seu nome aparece nas fontes medievais de 20 formas diferentes, incluindo "Wasit de Hajaje" (Wasit Alhajaje), "Grande Wasit" (Wasit Alúzema) e "Wasit do Iraque" (Wasit Aliraque), que podiam denotar a aproximada posição relativa da cidade "no meio" entre Cufa, Baçorá, Almadaim (antiga capital persa de Ctesifonte) e Avaz, capital do Cuzistão.
Wasit foi estabelecida com a divisão de duas cidades do Tigre. Alhajaje fundou-a sobre a margem esquerda do rio na planície (sal) ao norte de , os pântanos de solo salino, a o território está sujeito a enchentes e é formado por estepes alternadas de canaviais (caçabe, donde surge seu nome Wasit Alcáçabe). A oeste, no algarbe, o sítio abriu-se numa zona árida, meio estepe meio deserto, conhecida nas fontes do como o deserto de . Darley-Doran afirma que essa posição justificou a descrição de seu clima como saudável, pois estava a certa distância de Batia, que era úmido, quente e infestada de mosquitos, bem como diz-se que tinha o clima de Baçorá, caprichoso e variável (muncalibe), pois estava no caminho dos ventos ardentes (samum) que vem do golfo Pérsico ao sul e aqueles vem que do norte e temperam o efeito.
História
Fundação
thumb|upright=1.05|esquerda|Dinar do califa Almançor thumb|esquerda|upright=1.05|Dracma árabo-sassânida com o nome de Alhajaje ibne Iúçufe cunhado em 702/703
As ruínas são hoje chamadas de Almanara (al-Manara) em referência ao edifício do do qual restam a entrada monumental flanqueada por dois minaretes no lado nordeste do sítio. Se estendem numa área de 3 quilômetros de leste a oeste do leito seco do Diala, o principal ramo do Tigre medieval. Entre 1936 e 1942, o Departamento de Antiguidades do Iraque conduziu 6 expedições arqueológicas no sítio, a última dirigida por F. Safar, que descobriram a oeste a Mesquita de Alhajaje. Foi edificada em 702 sobre a muralha sul do Palácio de Daral Imara e sobre o sítio do edifício original foram construídas três mesquitas sobrepostas: uma entre 1009 e 1155 (Mesquita II), outra por volta de 1155 (Mesquita III) e a último sob os ilcânidas, 1258-1335 (Mesquita IV). Entre 1937 e 1965, obras de reconstrução e restauração dos restos arqueológicos foram conduzidas para exploração turística do sítio.
Sua fundação significava a continuidade da política urbana árabe na região iniciada com a criação de dois centros fortificados no Sauade, Baçorá e Cufa, anteriores e rivais políticas de Wasit. Segundo Darley-Doran, "sua aparência simbolizou o desejo do poder omíada para mostrar nobreza, e assim serviu como prelúdio em sua forma arquitetônica à fundação de Bagdá por Almançor em 762-763." A data da fundação é debatida devido as contradições presentes nos relatos dos cronistas. O mais antigo deles provém da História de Wasit (Ta'rikh Wasit) de que remonta suas origens a (); ibne Aljauzi, Aldaabi e ibne Tagribirdi retomaram essa posição. Isso coloca a fundação da cidade entre 694 e 697, mas desconsidera, segundo Darley-Doran, o curso dos eventos do mandato do governador omíada do Iraque Alhajaje ibne Iúçufe. Os detalhes cronológicos disponíveis indicam que a edificação dos monumentos principais da cidade (o complexo do palácio e mesquita e as ameias) remonta 702 ou 703, depois que a revolta de ibne Alaxate foi debelada, enquanto a conclusão do ocorreu em 705. Porém, foi estabelecida a direita de sua fundação como uma cidade dupla. A cidade nova, Almedina Algarbia (al-Madina al-Gharbiyya), foi criada por Alhajaje na marge esquerda do tigre justapondo-se à cidade preexistente sobre a marge direita, Almedina Alxárcia (al-Madfna al-Sharkiyya), chamava Cascar. Ambas as cidades foram conectadas através de uma ponte de barcos, tornando-se duas partes da mesma cidade, e com o tempo Wasit absorveu a antiga Cascar e deu-lhe seu nome.
Período omíada
thumb|upright=1.05|esquerda|Dirrã de Solimão thumb|upright=1.05|esquerda|Dirrã de
Sob os primeiros maruânidas, era capital administrativa e política do Iraque (684-713 ou 684-723). Com a morte e Alhajaje em 713, continuou como sede do governo omíada no Iraque, mas desde 715 deixou de ser a residência do governador provincial, que foi obrigado a se transferir ao Coração, que sob o califa Solimão foi incorporado ao Iraque. Sob , o vasto território do Iraque foi dividido em três províncias, Cufa, Baçorá e Coração, cada uma com seu governador, e Wasit foi desmilitarizada, com as forças sírias que a ocupavam sendo esvaziadas; devido aos problemas causados por ibne Alaxate e os iraquianos, o califa Abedal Maleque ibne Maruane enviou a Alhajaje tropas sírias para ajudá-lo a lidar com a situação e estas tropas foram todas alocadas em Wasit com intuito de facilitar seu controle pelo governador e evitar excessos às custas da população, bem como isolar os sírios dos iraquianos e solidificar sua lealdade a Alhajaje. Sob , a sede do governador retornou para Wasit nos mandatos de Maslama ibne Abedal Maleque (720) e então Omar ibne Hubaira . Do governo do último até , a cidade não foi a única sede do governo, com os governadores movendo-se entre Wasit, Cufa e Hira.
A cidade sobreviveu à revolta de Iázide ibne Almualabe (721), o governador de Iraque após Alhajaje, e desempenhou papel político na revolta xiita de (739). Sob Calide Alcáceri , houve melhora da economia e expansão na agricultura do Sauade como não se via desde Alhajaje e tais mudanças influenciaram Wasit com mudanças na malha urbana. Sua zona, análoga à cora (distrito) de Cascar na divisão administrativa do Iraque Inferior, manteve sua autonomia desde o início do período islâmico ao fim do período omíada em relação ao Sauade de Cufa e Baçorá (Cuar Diala e Curate Maiçame). De sua fundação ao fim dos omíadas, Wasit também foi um dos centros de cunhagens mais importantes do califado islâmico, como perceptível pelas coleções preservadas em vários museus pelo mundo. Entretanto, o fim do poder omíada no Iraque foi marcada pela luta entre os governadores para garantirem seu poder e revoltas carijitas e tais eventos ocorreram principalmente em Wasit. Ela se desgastou e paralisou em decorrência da situação, permanecendo nas mãos dos rebeldes até 746, quando foi reconquistada pelo governador Iázide às custas de Abedalá ibne Omar II, o dos carijitas.
Período abássida
thumb|upright=1.05|Dirrã de Almamune thumb|upright=1.05|Iraque em meados do
Em 750, foi sitiada pelos abássidas. Sua conquista significou a obliteração do último ponto de resistência ao novo regime no Iraque, porem os locais não ficariam inertes e tentariam um último movimento ao apoiariam a Revolta Álida de 762–763. Com a fundação de Bagdá em 762, Baçorá, Cufa e Wasit foram rebaixadas a posição inferior, sobretudo a última, que ao ser desmilitarizada tornar-se-ia apenas um centro administrativo local. Sob os abássidas, as propriedades fundiárias dos omíadas em Wasit e territórios circundantes foram herdadas pelos dinastas e sobretudo sob Almançor e Almadi atraíram muito desenvolvimento agrícola, como visto analogamente em Baçorá, Bagdá e Ambar; o caraje do curra de Cascar, sobre o qual têm-se notícia no inventário fiscal mais antigo conhecido do período (de 788), é um indício, de acordo com Darley-Doran, da prosperidade da região de Wasit durante o reinado de Harune Arraxide , fato acentuado devido uma série de circunstâncias favoráveis, por exemplo, o aumento demográfico ocorrido no Califado Abássida do em diante.
A partir da segunda metade do e durante o X, o Califado Abássida progressivamente se desintegrou, levando a baixa da produção agrícola do Iraque e a diminuição das receitas fiscais e desde o reinado de Almamune , deu-se ênfase ao poder dos militares dentro do Estado ao introduzir os soldados escravos de origem turca (gulans). Como consequência, Wasit e a região circundante adquiriram particular importância aos abássidas, o que explica, sob Almotácime , o surgimento no distrito de Cascar do icta e ele atribuiu aos generais do exército a cobrança dos impostos do Estado sobre a terra. Paralelamente, a região de Wasit foi pilhada pelos jates de Sinde, que rebelaram-se em 834, e após a Rebelião Zanje que afetou vastas porções do sul do Iraque , as depredações recomeçaram: quando Wasit foi destruída em 877 pelos zanjes, sobretudo em sua porção direita, a cidade já estava fragilizada devido uma epidemia que dizimou a população em 871. Apesar disso, sob Almutadide e Almoctadir os impostos fundiários e a extensão do icta na região de Wasit/Cascar aumentaram.
Buídas
thumb|upright=1.05|esquerda|Império Buída em seu pico em 970. Os buídas tomaram controle do Iraque e dominaram-o por mais de 100 anos
Desse período em diante, a rica região de Wasit desempenhou o papel decisivo de fornecedora de alimentos para Bagdá, apesar dos vários danos a seus monumentos devido a uma grande enchente em 904; em 922, outras enchentes mais severas agravaram ainda mais a destruição. A dependência dos califas em Bagdá dos recursos obtidos na cidade pode explicar a razão de, em 936, o califa Arradi ter promovido o governador local ibne Raique como emir de emires, o poder atrás do trono califal à época. No decorrer da década de 936-946, chegaram os buídas e Wasit foi cobiçada, devido a sua agricultura e recursos, pelos albáridas, os governadores de Avaz (Cuzistão), os vários emires de emires e os buídas, que queriam poder em Bagdá. De 949 até 971, a cidade serviu aos emires Muize Adaulá e Ize Adaulá como base para operações militares contra , o senhor de Batia, que rebelou-se no sul do Iraque e ameaçou a autoridade buída. Nesse momento, o Iraque sofreu de declínio econômico e despovoação, mas Wasit ainda era fonte de recursos alimentícios para Bagdá.
Quando Mocadaci a visitou em 985, novamente Wasit estava demonstrando resiliência se comparado com Baçorá, Cufa, Samarra, Ambar, Bagdá e as vilas do território do autor, que estavam dilapidadas. Com a insatisfação política crescente no fim do período buída, cresceram as ambições dos maziádidas de Hila sobre Wasit. Os últimos tentaram tomar a região, assim como o escravo turco , que estava atuando no Iraque em nome do Califado Fatímida do Egito. A propaganda fatímida recebeu o apoio de muitos emires iraquianos e da Jazira, levando o governador da cidade, , a declarar o cutba em nome do califa fatímida Almostancir e a pintar a mesquita local de branco, a cor dos xiitas egípcios. Pouco depois, em dezembro de 1055, os seljúcidas atacariam o Iraque e estabeleceriam sua autoridade sobre Wasit após derrotar ibne Façanjis em 1057 após longo cerco. Albaçaciri recapturou brevemente a cidade, mas em 1059, o ano de uma grande seca e fome, sua aventura terminou.
De seljúcidas aos mongóis
thumb|esquerda|upright=1.05|Sultão e sua corte