O Políptico da Charola do Convento de Cristo foi um conjunto de doze (12) pinturas a óleo sobre madeira de carvalho, tendo cada uma 4 metros de altura e 2,5 metros de largura, pintadas cerca de 1510 por pintor do renascimento que se julga ser o português Jorge Afonso, e que se destinaram a decorar os arcos cegos do deambulatório da Charola do Convento de Cristo, em Tomar, onde se encontram actualmente.
Do conjunto inicial restam actualmente cinco pinturas completas, uma incompleta e dois fragmentos de pintura. O tema central deste conjunto de pinturas compreende cenas da vida e da paixão de Jesus. Além destas pinturas de maiores dimensões, os altares e outras partes das paredes da Charola também possuíram pinturas sobre tábua (de menores dimensões e formato rectangular), atribuídas a Gregório Lopes ou ao seu círculo, destas restando apenas 3, uma delas fora do Convento de Cristo.SIPA
O Políptico da Charola do Convento de Cristo terá sido constituido, segundo conseguiu apurar Cyrillo Volkmar Machado junto dos monges do Convento em 1922, pelas seguintes doze pinturas (salientando-se as existentes): Baptismo de Cristo (incompleta); A Sinagoga; Ressurreição de Lázaro; Cristo e o Centurião; Entrada em Jerusalém; Ressurreição de Cristo; A Descida ao Limbo; Ascensão de Cristo; Nossa Senhora das Dores; Pentecostes (conserva-se apenas um fragmento). O Juízo Final; A Santíssima Trindade.
A Jorge Afonso, e à sua oficina, segundo a maioria dos estudiosos, foi encomendado este magnifico conjunto de pinturas que se destinaram a preencher os arcos cegos da Charola do Convento de Cristo.Nota sobre Jorge Afonso na página web do Convento de Cristo do Património Cultural, Mas para D. Markl e F. Pereira é impossível aproximar esta série de qualquer artista português. E referem que Luís Reis SantosLuís Reis Santos (1966), Jorge Afonso, Artis ao traçar a personalidade artística do mestre lisboeta que com prudência designa por "presumível Jorge Afonso", refere que de espírito certamente culto, reflecte principalmente nas obras de Tomar e da Madre de Deus certos aspectos característicos tanto da pintura italiana como da flamenga e alemã. E que, "de forma geral, a iconografia das cenas evangélicas é consequente, em parte, de processos setentrionais, pintados e gravados".Markl, Dagoberto e Pereira, Fernando A. Baptista (1986). História da Arte em Portugal, vol. 6 "O Renascimento", Publicações Alfa, Lisboa, pag. 86-89
Para o historiador de arte Vítor Serrão, estas grandes pinturas que decoram, desde a reforma manuelina do Convento de Cristo, os «oitavos» da antiga Charola templária, constituem um dos mais notáveis conjuntos da pintura portuguesa de todos os tempos. Face à monumentalidade da escala, à largueza da composição, ao rigor do desenho minucioso e ágil, à majestade das poses, ao calor do sentimento cromático, estas tábuas de forte ascendente neerlandês, mas também reveladores de fortes influxos provençais, assumem um papel fundamental na história da pintura portuguesa quinhentista, na medida em que testemunham a actividade de um grande artista, o Mestre da Charola de Tomar, responsável pela direcção de uma oficina homogénea de colaboradores, de onde saíram também (apesar das intervenções díspares) o Políptico do Convento da Madre de Deus, de Lisboa, e o da Igreja de Jesus, de Setúbal.Vítor Serrão - "Oficina de Jorge Afonso (?) - "Cristo e o Centurião"", in No Tempo das Feitorias. A Arte Portuguesa na Época dos Descobrimentos, vol. II. Lisboa: IPM-CNCDP, 1992, pág. 53.
Descrição Os quadros grandes da Charola do Convento de Cristo constituem um exemplo das perplexidades com que se debate a crítica da pintura portuguesa antiga, resultando essas perplexidades em última instância das dúvidas acerca da sua autoria. Os quadros estiveram guardados no IPCR onde foram tratados antes de serem devolvidos à Charola em 2001.Pedro Redol, Ana Isabel Seruya, Mário Pereira, A Pintura da Charola: Convento de Cristo [em] Tomar, Instituto Português de Conservação e Restauro, 2004.
Cruz Teixeira observa alguns aspectos comuns aos vários quadros: A elevação da linha do horizonte e o alongamento das figuras resultantes da colocação das obras a altura elevada e do afastamento do espectador, sendo visíveis desequilíbriso notáveis, por exemplo no grupo da direita da Ressurreição de Lázaro onde só se prolongam as partes inferiores dos corpos; O carácter irrealista das arquitecturas e da sua implantação nas elevações; A falta de segurança na articulação das escalas, exemplificada nas figuras minúsculas que se encontram na colina esquerda da Entrada de Jesus em Jerusalém, solução talvez de recurso aplicada a posteriori; O tipo flamengo convencional das cabeças de Jesus e da maioria das figuras da Ressurreição de Lázaro e de várias outras nas restantes pinturas; A dureza do desenho também apontada por Reynaldo dos Santos, associada a uma densidade matérica desajustada; Os convencionalismos icónicos também desajustados.
Estas constantes, interpretadas por C. Teixeira como limitações técnicas, surpreendem-no se se tratar do pintor régio Jorge Afonso que teria já então largos anos de actividade e que vai ser capaz, poucos anos posteriormente, de uma considerável evolução no Retábulo da Madre de Deus.
Apresenta-se a descrição dos painéis sobreviventes seguindo uma lógica narrativa.
Ressurreição de Lázaro A Ressurreição de Lázaro é uma das cinco pinturas completas sobreviventes do Políptico da Charola do Convento de Cristo e representa o episódio bíblico da Ressurreição de Lázaro.
Para Cruz Teixeira, verifica-se o mesmo desacordo interno nas figuras de Jesus e dos Apóstolos entre as zonas expressivas do rosto e as estruturantes dos mantos. Encontra também desajustamento entre o naturalismo que aparentemente se quer dar ao conjunto das figuras, e o absoluto irrealismo das arquitecturas de fantasia, elevadas sobre penhascos e desenhadas com inverosímeis decorações, que só o preciosismo degenerativo de Mabuse, ou de van Orley, ousaria imaginar. Vê também um carácter marcadamente flamengo tanto na generalidade das cabeças como na requintada e bela figura de Madalena.
Segundo Redol e Outros, o pintor que no século XIX restaurou Ressurreição de Lázaro, repetiu a torre em três níveis cilíndricos que se destaca no céu do lado direito bem como a arcaria que está adossada ao grande edifício central de forma cónica e que no conjunto faz lembrar a fachada sul do Convento de Cristo à qual se veio sobrepor, cerca de um século depois da remodelação manuelina da Charola, o majestoso Aqueduto.
Jesus e o Centurião
Jesus e o Centurião é uma das cinco pinturas completas sobreviventes do Políptico da Charola do Convento de Cristo e representa o episódio bíblico de Jesus curando o servo do centurião ().
Para Luís Reis Santos, em Jesus e o Centurião alguns trechos recordam pormenores de quadros florentinos. Figuras como as do grupo da esquerda, como o portador do galhardete e os mais próximos, lembram pelo porte, pelas pregas e pelas modelações da indumentária, um mestre da Provença.
Para Cruz Teixeira, a figura de S. Pedro está desenhada analítica e minuciosamente na cabeça, e as mãos estão próximas da "verdade" de um flamengo, mas é totalmente diverso depois o tratamento do trajo. Por outro lado, a definição das escalas e o modo de articular os espaços fazem lembrar a pintura de Gerard David, embora este pintor flamengo desconhecesse os requintes do trajar do Centurião e dos seus acompanhantes e mais ainda o ondulante maneirismo, serpentinato, das duas pequenas figuras do grupo central em plano recuado, de um e de outro lado do cavalo.
Ainda para Cruz Teixeira, o trajo da figura da esquerda de Jesus aproxima-se do correspondente de Abraão e Melquisedeque de Francisco Henriques e o Centurião tem as mesmas sandálias de Abraão.
Nesta pintura ainda é de salientar a representação simultânea das duas visões do cão que se encontram plasmadas no bestiário e no pensamento da época: o cão negro que rói um osso, “o cão que rói é uma imagem negativa, síntese do mal”, e ao mesmo tempo do cão branco, sereno e fiel, algo que, na opinião de Dagoberto Markl e Fernando António Pereira não só representa o “combate entre o bem e o mal, entre a virtude e o vício”, como indicia também uma cultura artística especificamente flamenga.Joana F. F. Antunes, Uma Epopeia entre o Sagrado e o Profano: O Cadeiral de Coro do Mosteiro de Santa Cruz de Coimbra, Dissertação de Mestrado em História da Arte, Património e Turismo Cultural, Faculdade de Letras da Universidade de Coimbra, 2010, pag. 126
Ainda para Vítor Serrão, a composição de Jesus e o Centurião, se acaso de Jorge Afonso, foi concebida em comunhão com os seus colaboradores de oficina e reflecte a grandiosidade erudita de um estilo áulico e cosmopolita, onde os códigos góticos tradicionais, ainda patentes em certos pormenores, dão lugar já a uma plena «modernidade» renascentista, de que o sentido precioso da perspectiva e o realismo das carnações e tecidos são a prova mais evidente.
Jesus e o Centurião esteve exposto na exposição "Feitorias" no Museu de Belas Artes de Antuérpia em 1991, no âmbito do festival "Europalia", exposição que foi reposta em Lisboa no ano seguinte na exposição "No Tempo das Feitorias".
Entrada de Jesus em Jerusalém
A Entrada de Jesus em Jerusalém é uma das cinco pinturas completas sobreviventes do Políptico da Charola do Convento de Cristo e representa o episódio bíblico da Entrada triunfal em Jerusalém.
Ressurreição de Cristo A Ressurreição de Cristo é uma das cinco pinturas completas sobreviventes do Políptico da Charola do Convento de Cristo e representa o episódio bíblico da Ressurreição de Cristo.
Para Cruz Teixeira, esta pintura apresenta desequilíbrios problemáticos, quase a lembrar as incipiências formais das composições maiores da oficina de Frei Carlos.
Ascensão de Cristo A Ascensão de Cristo é uma das cinco pinturas completas sobreviventes do Políptico da Charola do Convento de Cristo e representa o episódio bíblico da Ascensão de Jesus.
Para Cruz Teixeira, verifica-se o geral esquematismo e a rigidez da construção das figuras a par de algumas cabeças tratadas com qualidade. Encontra ainda o duro geometrismo do desenho, o efeito quase metálico das texturas, o carácter duro e matérico das nuvens, a rudeza técnica e o arcaísmo dos anjos que se apresentam imensos mas de cabeças desproporcionadamente pequenas.
A Ascensão de Cristo integrou a exposição "Francisco Henriques. Um pintor em Évora no tempo de D. Manuel I" realizada em 1997.
Apreciação
Para o historiador de arte Adriano de Gusmão (1908-1989),Adriano de Gusmão foi Director do Museu Nacional Machado de Castro entre 1975 e 1978. na introdução do seu texto sobre as Pinturas Murais da Charola referia em 1955 que na monumental Charola, que foi através dos tempos ornamentada de pinturas de várias épocas, as pinturas mais conhecidas são as grandes tábuas quinhentistas, arredondadas em cima, dum mestre que ainda era desconhecido e que se tem chegado a supor que seja português. Contudo pareci-lhe então que o artista destas soberbas tábuas deve ser antes um nórdico, pelo estilo e qualidade de desenho e pintura.Adriano de Gusmão, As Pinturas Murais da Charola de Tomar, Tomar, União dos Amigos dos Monumentos da Ordem de Cristo, 1955, pag. 1.
Para Reynaldo dos Santos, as «grandes tábuas da Charola de Tomar» caracterizam-se por excelente composição, desenho um pouco duro, matéria densa em que dominam os tons escuros, fundos aflamengados de paisagem convencional, como aflamengada é a cabeça de Cristo e de outras personagens que o acompanham. Domina um carácter de monumentalidade, figuras de tamanho natural e um certo alongamento explicável pela altura a que deviam ser colocadas.Reynaldo dos Santos, Os Primitivos Portugueses (1450-1550), 3ª edição, Academia Nacional de Belas Artes, Lisboa (1958), pag. 24-25.