Escrava Romana é um óleo sobre tela realizado em 1894 pelo pintor brasileiro Oscar Pereira da Silva (1867-1939). O quadro, pertencente ao acervo da Pinacoteca do Estado de São Paulo, retrata uma escrava romana que está sendo vendida como objeto sexual. A presença feminina, tal qual se coloca nesta obra, destoa da pintura de Oscar Pereira da Silva, apesar de temas ligados à Antiguidade e à Bíblia serem recorrentes em seu repertório.
A obra possui um caráter realista e é uma academia historiada. Também se observa a opção do artista em combinar elementos de seu período com detalhes históricos. Por exemplo, observa-se que o corpo da escrava tem traços mais semelhantes aos das mulheres da época em que o quadro foi pintado, enquanto os objetos que compõem o vestuário e o cenário são característicos da época do Império Romano.
A "Escrava Romana" foi um quadro que fez sucesso entre a crítica brasileira. Ela fez parte da Exposição Geral de Belas Artes de 1894 e ganhou a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1897.
Composição do quadro direita|miniaturadaimagem|Detalhe de placa no quadro, onde se lê, em latim: "Virgem de 21 anos". No quadro a escrava de cabelos longos e castanho escuro está em pé e seminua, o que mostra sua pele branca. Ela está usando somente brincos de argola, pulseiras douradas e um cinto também dourado com detalhes. Nele estão presos dois tecidos que cobrem as partes íntimas e um pedaço das pernas da mulher. Um deles se parece com um tapete árabe, é da cor verde musgo e tem um forro de listras brancas, verdes, rosas e azuis. Já o outro tecido é inteiramente branco. No pescoço a mulher carrega uma pequena placa com o escrito em latim e em números romanos VIRGO XXI ANNVS NATA, que significa "virgem de 21 anos".
A postura da escrava é relaxada. Sua perna direita está levemente flexionada, a cabeça está inclinada para o lado direito, os olhos estão quase fechados e a palma da mão direita está apoiada na cintura. Ela está de pé na frente de uma parede de tábuas de madeira escura. Na altura das coxas da mulher, a parede passa a ser de blocos de pedras acinzentados. Já o chão também é de madeira, mas em um tom mais claro. No cenário poucos elementos estão presentes. Na parede há uma placa pouco visível, por também ser da cor marrom, onde está escrito em latim VIRGO XXI ANNVS MCCLXXVI (virgem de 21 anos 1276). No chão, ao lado do pé direito da escrava existe uma ânfora, que consiste em um vaso de barro de origem grega muito usado pelos romanos para carregar líquidos, como vinho, azeite, água e salmouras. Já do lado esquerdo, na altura dos joelhos da mulher, há um pequeno banco com um tecido vermelho jogado por cima.
Contexto em que a obra foi pintada O quadro "Escrava Romana" foi pintado por volta de 1894, durante o pensionato de Oscar Pereira da Silva na École des Beaux-Arts (ou a Escola de Belas Artes), em Paris. O brasileiro estudou lá entre os anos de 1890 e 1895, depois de ganhar (de forma polêmica) o Prêmio de Viagem em 1887,CAVALCANTI, Ana M.T. Belmiro de Almeida, Oscar Pereira da silva e o polêmico concurso para Prêmio de Viagem em 1887. In: XXVI Colóquio do Comitê Brasileiro de História da Arte. São Paulo, 2006. que era oferecido pela Acadêmia Imperial de Belas Artes, espaço que o artista frequentou entre 1880 e 1887. Por conta disso, é importante ressaltar que esse quadro foi feito enquanto o artista ainda estava formando sua identidade artística.
Na Escola de Belas Artes, Oscar Pereira teve dois mestres que influenciaram o seu estilo, inclusive para pintar a "Escrava Romana". Ele foi estudante no ateliê de Jean-León Gérôme, que como artista queria achar a beleza natural das coisas. Ele tinha como temas as cenas históricas (em que ele buscava uma grande fidelidade ao que estava sendo representado) e as figuras femininas nuas, o que inclui as escravas. Em suas aulas, ele prezava pela utilização dos modelos vivos, a pureza das formas e o aprimoramento dos desenhos. Além de Gérôme, o brasileiro também frequentou o ateliê de León Bonnat. Esse artista francês misturava o tradicional modo linear do desenho com o colorido, e tinha como principal foco de sua arte o homem, e não os cenários. Um ponto em comum entre esses dois mestres de Oscar Pereira da Silva é a valorização do desenho como elemento essencial para a pintura.LIMA JUNIOR, Carlos Rogério. Um artistas às margens do Ipiranga: Oscar Pereira da Silva, o Museu Paulista e a reelaboração do passado Nacional. São Paulo, 2015.
Não a toa, o brasileiro, desde o início da carreira, era conhecido por sua habilidade de desenhar a figura humana (mesmo os críticos reconheciam essa qualidade na sua arte), e a "Escrava Romana" é considerada um dos grandes exemplos disso. Essa característica, naquela época, era essencial para o reconhecimento de um artista conhecido e de sucesso no meio acadêmico. Para Oscar Pereira da Silva, uma boa pintura era aquela muito bem finalizada, e ao mesmo tempo ele não gostava da técnica da pincelada livre. Assim como seu mestre Gérôme, durante sua trajetória como pintor, o brasileiro pintou muitas obras conhecidas como acadêmia historiada.
Análise da obra A "Escrava Romana" é um quadro que pode ser analisado de várias formas. Para começar, ele é um estudo de um modelo vivo, que era bastante usado por Gérôme em seu ateliê. Essa técnica era muito utilizada nas pinturas históricas e como método de ensino por ajudar no aprendizado do movimento e da composição da obra. Por conta disso, o modelo vivo era muito apreciado pela arte acadêmica. Pelo fato de retratar uma escrava da época do Império Romano, o quadro também tem um caráter histórico, por isso é considerado uma acadêmia historiada, que é a principal vertente do academicismo. Além disso, a obra também apresenta características da Arte Pompier, na qual o desenho tem que ser realista e exaltar o belo, o que evoca princípios da Arte Clássica. Tanto a arte acadêmica, quanto a Pompier estavam em alta enquanto Oscar Pereira da Silva fazia seu pensionato na Europa, no final do século XIX.
Como visto no tópico "Contexto em que a obra foi pintada", os mestres Jean-León Gérôme e León Bonnat tiveram uma importante influência na "Escrava Romana". Temáticas frequentes de Gérôme eram cenas clássicas, o nu e a figura feminina idealizada, e por isso ele acabava pintando muitas escravas da antiguidade. Enquanto o tema do seu quadro tem grande relação com aqueles feitos por Jean-León, diferentemente de seu professor, Oscar Pereira da Silva optou por não desenvolver muito o cenário em "Escrava Romana", deixando somente os dizeres em latim, os números romanos e a ânfora para caracterizarem a mulher como uma escrava romana (e são justamente esses elementos que classificam essa obra como uma academia historiada). Essa simplicidade vista no quadro se dá por dois motivos. O primeiro é o fato do pintor ainda não estar completamente maduro como artista, já que ele fez a obra ainda nos seus anos de estudo. O segundo é a influência do seu outro mestre, León Bonnat, que se concentrava em desenvolver mais a figura como elemento central do que um fundo elaborado.
A escrava miniaturadaimagem|Rosto da escrava. Por conta da precisão e da concretude das formas do corpo da escrava, é possível dizer que ela foi baseada em um modelo vivo. No entanto, apesar de ter essa característica realista da Arte Pompier, Oscar Pereira não se preocupou em exaltar o belo e reproduzir a idealização clássica do corpo humano. Pelo contrário. As olheiras, os pés grandes, as sobrancelhas grossas e as curvas do corpo (como o ventre inchado) mostram as "imperfeições" da mulher retratada. Ou seja, ela tem uma forma mais natural em oposição a ideal imaginada pelos gregos e que geralmente era pintada por Gérôme. Esses traços da escrava também não condizem com as virgens que são tradicionalmente pintadas no meio artístico. Enquanto essas têm características delicadas, não apresentam expressão, possuem um corpo perfeito e transmitem a imagem de pureza e inocência, a escrava romana de Oscar Pereira possui curvas, é mais robusta, tem um corpo maduro e uma postura confiante e sensual. Inclusive, a placa em seu pescoço indicando que ela é uma virgem pode ser interpretada como uma ironia (o que também é uma influência de Gérôme), já que a mulher não parece ser virgem. Sua barriga mais saliente, por exemplo, pode ser vista como uma evidência de que ela está grávida. Essa mesma placa que quer mostrar a pureza, também serve como um indicativo de submissão, que é algo buscado pelos donos de escravos.
Apesar disso, a postura da escrava não passa essa imagem de uma pessoa submissa e inocente. A sua posição, com a cabeça inclinada, a perna relaxada, a mão na cintura e o olhar quase fechado e dirigido diretamente ao observador, indicam desprezo, confiança e provocação. Já a nudez, que é usada com o objetivo de deixar os escravos em uma posição vulnerável diante do homem civilizado, também não deixa a mulher desconfortável. Ao contrário disso, ela exala sensualidade. Ou seja, a escrava de Oscar Pereira é diferente das escravas e das virgens geralmente retratadas nas pinturas mais tradicionais, inclusive daquelas feitas por Jean-León Gérôme.
Mas o quadro ainda apresenta uma outra influência dos seus mestres franceses. As pulseiras douradas, o cinto trabalhado, os brincos e o tecido que cobre as partes intimas da mulher (o que foi usada para não desrespeitar o que se entendia como moral naquele tempo) são típicos das pinturas Orientalistas. Além disso, esses mesmos elementos servem como enfeites de luxo para a mulher, que não é uma escrava qualquer, pois ela está sendo exposta como um objeto de prazer.
Recepção ao quadro De forma geral, o quadro "Escrava Romana" foi bem aceito pelo público. Os elogios se davam principalmente por conta da qualidade técnica da obra, que, como citado no tópico "Contexto em que a obra foi pintada", era uma das principais virtudes de Oscar Pereira da Silva como artista. Os críticos também exaltaram a estética do quadro, mas levando em conta que ele havia sido feito nos anos de estudo do brasileiro na França. A pintura fez tamanho sucesso que não só participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1894, como também ganhou a medalha de ouro no Salão Nacional de Belas Artes do Rio de Janeiro de 1897 e foi adquirida em 1905 do Museu Paulista pela Pinacoteca de São Paulo, com o objetivo de fazer parte de uma das suas primeiras exposições permanentes.
Em diversas ocasiões, o jornal Correio Paulistano publicou críticas sobre as obras de Oscar Pereira da Silva, incluindo da "Escrava Romana". Na edição de 3 de fevereiro de 1906, um escritor que se identifica como G. R escreveu:
Anteriormente, em 1905, o mesmo jornal já havia citado o quadro, que estava fazendo parte de uma exposição em São Paulo. Na edição de 18 de fevereiro de 1905 há uma seção no Correio Paulistano em que se lê:
No entanto, a "Escrava Romana" também foi alvo de algumas críticas negativas nas décadas seguintes. Quirino Campofiorito, um professor, pintor e crítico de arte brasileira dos séculos XIX e XX, contesta justamente essa linha academicista de Oscar Pereira, que nesse caso o distanciou da temática da realidade paulista. Ele também desaprova o fato dele ter pintado uma escrava judia da antiguidade, enquanto no Brasil seria possível encontrar diversas escravas para fazer parte de sua obra.
Restauração do quadro e controvérsia