Os ases da aviação da Alemanha durante a Segunda Guerra Mundial constituíram o maior e mais bem sucedido grupo de ases de uma única nacionalidade na história da aviação. Um ás da aviação é um aviador militar a quem é atribuído o abate (vitória) de cinco ou mais aeronaves inimigas durante um combate aéreo.Spick 1996, pp. 3–4. Apesar de neste artigo ser usado o termo "ás da aviação" os alemães, em vez disso, usavam o termo "Experte". É certo que mais de 2500 pilotos de combate alemães alcançaram o status de ás da aviação, cada um deles tendo abatido pelo menos cinco aeronaves.Obermaier 1989, p. 241. Todos os ases alcançaram o status ao serviço da Luftwaffe, o único ramo militar alemão durante a guerra com poder aéreo.
Os pilotos alemães de combate diurno e noturno alcançaram sensivelmente 70 mil vitórias aéreas durante a Segunda Guerra Mundial, 25 mil ao abater aeronaves francesas, britânicas e norte-americanas e 45 mil soviéticas. 103 pilotos alemães abateram mais de 100 aeronaves inimigas, totalizando 15 400 vitórias aéreas. Outros 360 pilotos abateram entre 40 e 100 aeronaves inimigas, o que totalizou cerca de 21 mil vitórias; além destes, outros 500 pilotos abateram entre 20 e 40 aeronaves, totalizando cerca de 15 mil vitórias. Estas proezas foram reconhecidas com a condecoração de 453 pilotos de caças diurnos e de caças-pesados (zerstörer) com os diferentes graus da Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro. Além destes, 85 pilotos de caças noturnos, incluindo 14 tripulantes, também foram condecorados com a Cruz de Cavaleiro da Cruz de Ferro.Obermaier 1989, p. 14.
Por outro lado, as baixas alemãs também foram muito elevadas. Cerca de 12 mil pilotos de caças diurnos faleceram ou ainda estão considerados como desaparecidos em combate, além dos 6000 que ficaram feridos. Os pilotos dos caças-pesados sofreram cerca de 2800 baixas e 900 feridos. Já os pilotos noturnos sofreram com 3800 pilotos e tripulantes mortos ou desaparecidos, e cerca de 1400 feridos.Obermaier 1989, p. 242. Antecedentes
Primeira Grande Guerra miniaturadaimagem|324x324px|Oswald Boelcke, o primeiro ás da aviação da Alemanha na Primeira Guerra Mundial Poucos anos e pouca experiência tinha a aviação quando a Primeira Guerra Mundial começou. Apesar de ter terminado a guerra num estado ainda rudimentar, a aviação militar sofreu um enorme avanço tecnológico durante o conflito. Com a notória vantagem que era um país poder realizar operações aéreas de bombardeamento e de reconhecimento, as principais potências buscaram criar meios aéreos que pudessem defender os bombardeiros, os aviões de reconhecimento e os balões; nisto, surgiram os aviões de combate aéreo. Sendo uma arma totalmente nova, os primeiros pilotos tiveram que conceber estratégias e doutrinas aéreas para aumentar a chance de derrotar o inimigo. Foi nisto que começou a surgir a primeira concepção de doutrina aérea alemã, pela autoria do ás da aviação Oswald Bölcke, numa obra intitulada Dicta Boelcke.
Esta doutrina ajudou muitos pilotos alemães a voarem em formação e a combaterem através de técnicas que lhes colocavam em vantagem relativamente às aeronaves inimigas. Isto fez com que surgissem rapidamente muitos ases da aviação, como a maior lenda da aviação, o Barão Vermelho Manfred von Richthofen, que alcançou 80 vitórias aéreas. Outros ases da aviação alemães deste conflito, como Ernst Udet e Hermann Göring, viriam a desempenhar funções de comando na futura Luftwaffe, e outros seriam mesmo ases em ambas as guerras mundiais, como Harry von Bülow-Bothkamp e Theo Osterkamp.
Com o final da guerra e a elaboração do Tratado de Versalhes em 1919, a República de Weimar (sucessora do Império Alemão e antecessora da Alemanha Nazi) foi autorizada a ter apenas uma pequena força de defesa, a Reichswehr, ficando proibida de constituir uma força aérea.
Entreguerras Com a proibição de uma força aérea, o assunto tornou-se algo mais apetecível do que já era, sendo a aeronáutica militar um assunto discutido atrás de portas fechadas. Durante o período entreguerras surgiram muitos teóricos e entusiastas da aviação, e um dos grandes resultados da concentração alemã na aviação durante estes anos foi a Deutsche Luft Hansa, que se tornou numa companhia aérea pioneira e de proporções internacionais. Mesmo assim, o governo republicano alemão procurou sempre tentar contornar o que o Tratado de Versalhes impunha; inicialmente surgiram freikorps de unidades aéreas, mais tarde chegaram os clubes de planadores e até foi criada uma base secreta na União Soviética para se treinar pilotos militares.
O que viria a ser mais tarde a Luftwaffe começou nos anos 20, primeiro com a criação da Deutsche Luft Hansa e mais tarde com a criação da Deutscher Luftsportverband (DLV). Outra organização, o Nationalsozialistisches Fliegerkorps (NSFK), foi fundada no início dos anos 30 e cresceu com a chegada dos nazis ao poder. Os nazis depois de chegarem ao poder juntaram todas as associações existentes de aviação, balonismo e planadores. O NSFK, uma associação com estreitos laços com a Juventude Hitleriana, foi colocada sob a tutela do futuro líder da força aérea, Hermann Göring, um condecorado veterano da aviação da Primeira Guerra Mundial, na qual foi piloto e ás da aviação. Grandes aviadores como Bruno Lörzer e Ernst Udet também se juntaram ao NSFK. Antes da criação da Luftwaffe em 1935, o NSFK e o DLV promoveram o interesse e o desenvolvimento de desportos aeronáuticos, que envolviam a construção de modelos à escala, planadores e balões. Sob o disfarce destas duas organizações, companhias de produção de artilharia antiaérea foram formadas no início dos anos 30, de modo a ajudar na formação clandestina de operadores de armas antiaéreas. Mais tarde, enquanto decorria a Segunda Guerra Mundial, a NSFK providenciava constantemente jovens à Luftwaffe, tanto para pilotar como para preencher as vagas de reserva. A Luftwaffe foi criada de facto em 1935 quando o Tratado de Versalhes foi renunciado pelo governo nazi e, ao contrário da Heer (Exército) e da Kriegsmarine (Marinha), era uma criação puramente nazi.
Guerra Civil Espanhola miniaturadaimagem|Werner Mölders, o maior ás da Guerra Civil Espanhola Em 1936 Hitler decidiu ajudar o general espanhol Francisco Franco aquando da Guerra Civil Espanhola. Esta ajuda foi enviada na forma de um grande destacamento, baptizado como Legião Condor, composto na sua maioria por militares e equipamentos da Luftwaffe. Esta guerra civil apresentava uma oportunidade de se testarem algumas tácticas e doutrinas da recém-nascida Luftwaffe, assim como as aeronaves que faziam parte do arsenal da força aérea. A bordo de aeronaves como o Messerschmitt Bf 109, os pilotos alemães tinham a ferramenta para obter superioridade aérea nos céus de Espanha. Assim surgiram os primeiros ases, entre eles Werner Mölders, Hannes Trautloft e Adolf Galland. Nesta guerra começou também o desenvolvimento de tácticas que mais tarde revelar-se-iam úteis para o sucesso dos ases alemães; neste conflito Werner Mölders criou uma nova formação de ataque que ficou conhecida como schwarm, mundialmente conhecida como finger-four. No final do conflito espanhol, em 1939, Mölders terminaria o conflito como o maior ás alemão, com 14 vitórias confirmadas.
As aeronaves usadas em combate, juntamente com a experiência que já estava a ser adquirida pelos pilotos alemães, começaram a proporcionar vitórias de relevo: no dia 7 de Fevereiro de 1938 os pilotos da Legião Condor atacaram uma formação de 12 aviões Tupolev ANT-40, tendo abatido 10 sem sofrer qualquer baixa. No dia 26 de Maio de 1939 cerca de 5136 militares da Legião Condor regressaram à Alemanha, onde foram recebidos com todas as honras militares. O registo de guerra que trouxeram era impressionante: 386 aeronaves inimigas destruídas (313 em combate aéreo), com a perda de apenas 72 aeronaves em combates e 226 baixas entre pilotos e pessoal de terra. Os pilotos da Luftwaffe estavam assim preparados para a guerra que se avizinhava, que começaria em Setembro de 1939.
Análise Ao contrário dos outros ramos da Wehrmacht, a Luftwaffe foi criada de raiz pelos nazis. Antes de existir a força aérea, muitos militares e pilotos que fariam parte dela começaram a receber formação em várias associações de aviação patrocinadas pelo Partido Nacional-Socialista e, mais tarde, pelo governo nazi. Receber toda uma formação focada nos ideias do partido e no ideal germânico ajudou com que a Luftwaffe adquirisse um prestígio e um reconhecimento partidário que os outros ramos não tinham. Contudo, muitos pilotos e ases da aviação, apesar de terem aprendido a voar com o patrocínio do nazismo e até mesmo apesar de serem membros do partido, não professavam nem executavam as directrizes nazis. Questões partidárias ou germânicas à parte, os ases da aviação da Alemanha levavam consigo para a batalha outros factores. esquerda|miniaturadaimagem|Hans-Joachim Marseille, em 1942 Hans-Joachim Marseille, um dos maiores e mais celebrados ases da aviação da Alemanha da Segunda Guerra Mundial, tanto pela quantidade de vitórias quer pela técnica, não gostava de matar ninguém, contudo no início da sua carreira chegou a abandonar em batalha o seu asa e até mesmo um dos seus líderes, que acabou por ser morto; colocado no teatro de guerra do mediterrâneo, foi obrigado a combater no Norte de África; longe de ser um fã do regime nazi, era uma pessoa que não gostava de disciplina, bebia com frequência, era o que se poderia chamar de um "playboy" e, quando esteve a prestar serviço no Norte de África, fez uma grande amizade com um militar inimigo de etnia negra, o qual protegeu sempre que pôde. Em termos de técnica, ela aproximava-se muito perto das aeronaves inimigas que abatia, o que também ia contra as regras da força aérea.
Regra geral, os pilotos e ases da aviação alemãs não abatiam um piloto inimigo quando este tinha a sua vida agarrada a um paraquedas, e sempre que um piloto dos aliados falecesse em território controlado pelos alemães, este era enterrado com honras militares. Se capturados, geralmente eram bem tratados, como aconteceu com Douglas Bader quando foi capturado em França, tendo sido recebido com um jantar de Adolf Galland e de outros militares da Jagdgeschwader 26. Bader não tinha as duas pernas, e voava com duas próteses; estas foram perdidas no último combate depois do qual foi capturado, e Bader solicitou a Galland duas próteses. O ás da aviação alemão, com a autorização de Göring, utilizou a frequência da Cruz Vermelha e comunicou com os britânicos para que estes enviassem as próteses para Bader, assegurando salvo conduto para que atirassem de paraquedas o material pedido. Os britânicos realizaram a missão, e aproveitaram para também bombardear o aeródromo alemão; mesmo assim, a palavra de Galland manteve-se e os alemães assistiram a tudo sem retaliarem. Depois da guerra, Baden e Galland continuaram amigos. miniaturadaimagem|250x250px|Adolf Galland a falar sobre uma manobra aérea, junto de Werner Mölders e Theo Osterkamp Galland por sua vez não tinha qualquer problema em apontar para os problemas que afectavam a Luftwaffe, e apresentava soluções mesmo quando ninguém as queria ouvir. Por estes e outros motivos, na fase final da guerra ele e outros ases da aviação, incluindo Günther Lützow, Hermann Graf e Johannes Steinhoff, orquestraram o que ficou conhecido como a Revolta dos Pilotos de Caças, uma insurreição provocada pelas ordens incompetentes do Oberkommando der Wehrmacht que estava a realizar operações militares mal-planeadas como a Operação Bodenplatte, onde se perdiam imensos pilotos mortos em combate e muitas aeronaves desnecessariamente. Galland acabaria por ser despromovido, um acto que o próprio recebeu de bom grado pois abriu-lhe a porta para comandar a primeira unidade operacional de caças a jato, a Jagdverband 44.