Categoria:Igrejas de Lisboa Categoria:Campo Grande (Lisboa)

A Igreja Paroquial do Campo Grande, ou Igreja dos Santos Reis Magos, é um templo religioso de cariz maneirista e barroca localizado junto ao Jardim do Campo Grande, em Lisboa. A sua fundação remonta a uma primitiva ermida erguida no século XVI, tendo o edifício actual resultado de uma profunda reconstrução no último quartel do século XVIII para colmatar os danos infligidos pelo terramoto de 1755.

História

A igreja original A igreja primitiva surgiu no século XVI sob a invocação dos Três Santos Reis, localizando-se no planalto fértil do Campo Grande, uma zona com de hortas e propriedades agrícolas que abasteciam a capital. A ermida situava-se nas imediações de uma antiga via de comunicação que unia o Arco do Cego ao Lumiar, estabelecendo a ligação de Lisboa a povoações de relevo como Santarém e Torres Vedras.

Do ponto de vista administrativo, o templo integrou inicialmente a jurisdição da paróquia lisboeta de Santa Justa, transitando posteriormente para a esfera de São João Baptista do Lumiar, o que simplificou o acesso dos residentes a sacramentos e cerimónias fúnebres. O crescimento demográfico da zona, aliado à edificação de um cemitério para togados anexo à igreja, levou os habitantes a reivindicar a autonomia paroquial. Este movimento foi encabeçado por moradores como Silvestre do Amaral, Luís Freire de Andrade, Pedro Taveira Soares, Fernão de Melo e Dinis Lobo da Gama. A autonomia e a elevação a sede de freguesia consumaram-se no ano de 1602, abrangendo as áreas então conhecidas por Reys de Alvalade ou Reys no Campo Grande.

Em Outubro de 1551, após a trasladação dos restos mortais de seu pai no Mosteiro dos Jerónimos, o monarca D. João III recolheu-se durante oito dias no Campo de Alvalade, presumivelmente hospedado na residência de algum aristocrata.

Posteriormente, a 20 de Junho de 1580, o templo acolheu os representantes da Câmara e da Casa dos Vinte e Quatro de Lisboa para a eleição de dois procuradores às Cortes de Setúbal, as quais nunca se chegaram a reunir.

Durante o século XVII, a freguesia albergava cerca de 1650 residentes, englobava a zona de Palma de Cima e contava com a actividade de cinco confrarias, entre as quais a de Nossa Senhora do Campo, que tinha um capelão para a celebração de missa quotidiana pelos irmãos defuntos, embora o respectivo compromisso se tivesse extraviado. Documenta-se que a presença de uma unidade de produção de cerveja nas imediações, documentada em 1689, gerou descontentamento por rivalizar com o vinho.

Erigiu-se um cruzeiro de pedra no ano de 1646, por encomenda do inglês Roberto Harres. A conclusão do retábulo-mor foi adjudicada a Manuel Francisco a 10 de Abril de 1698, o qual finalizou a empreitada encetada por José Ramalho.

O século XVIII trouxe novas campanhas decorativas, firmando-se a 22 de Maio de 1701 um acordo no valor de 350$000 entre a Irmandade do Santíssimo Sacramento e os pintores José de Campos, Manuel Soares e Francisco de Sousa para o douramento do altar-mor, a pintura em brutesco do tecto e a execução de cantarias fingidas no embasamento. Seguiu-se a fundação da Irmandade das Almas em 1720, validada pelo Ordinário em 1752, somando-se à já existente Irmandade do Rosário. O reinado de D. João V ficou marcado pelo elevado investimento da fidalguia e do oficialato da corte na construção de quintas com oratórios privados na área paroquial.

Terramoto e reconstrução O sismo de 1 de Novembro de 1755 provocou a ruína quase total do edifício, com particular incidência na torre sineira, destruindo paralelamente 70 habitações da zona, muitas das quais casas nobres. O Campo Grande serviu de refúgio improvisado para milhares de desalojados, que ali subsistiram em condições precárias.

A 5 de Abril de 1758, o Padre José Antunes Moreira assinou as Memórias Paroquiais, contando 225 vizinhos na freguesia e relatando que o templo confinava com as propriedades de Miguel da Costa Moreira e do desembargador do Paço, José Cardoso Castelo. Sobre os danos decorrentes do terramoto, escreve que o templo "padeceo grande ruina pella cauza referida, e se acha ja concertada, e so a torre esta amiaçando ruina, e em perigo de cahirem os sinos".

A reedificação definitiva arrancou em 1778, assumindo uma feição arquitectónica despojada devido às dificuldades financeiras da paróquia. O templo transitou para a alçada da Irmandade do Santíssimo Sacramento, a qual requereu auxílio régio. Por alvará de 9 de Setembro de 1778, a monarca D. Maria I autorizou a criação de uma feira franca, popularmente denominada Feira das Nozes ou Feira do Campo Grande, cujos lucros se destinaram exclusivamente à prossecução dos trabalhos. Esta iniciativa comercial decorria na parte central da alameda entre Setembro e Outubro, restringindo-se mais tarde a uma quinzena com início no segundo domingo de Outubro. O certame oferecia produtos agrícolas, artesanato, cerâmica, vidros, têxteis, ourivesaria, quinquilharias e comes e bebes (como pêras cozidas), proporcionando ainda espectáculos teatrais e divertimentos diversos. Para além das verbas angariadas na feira, o estaleiro de obras foi suportado por donativos de paroquianos e pela receita proveniente da comercialização de bilhetes da Santa Casa da Misericórdia de Lisboa. Em simultâneo, operava uma feira de gado no espaço compreendido entre a igreja e uma antiga fábrica de tecidos, feira essa que foi transferida para o Lumiar e para a zona do Campo Pequeno, mais tarde.

A 18 de Julho de 1885, a localidade foi oficialmente incorporada no tecido urbano de Lisboa. Em 1880, o artista Pereira Júnior procedeu ao restauro das pinturas seiscentistas que ornamentavam o tecto em abobadilha de aresta. Mais tarde, a 20 de Novembro de 1889, a paróquia enriqueceu o seu espólio com duas sinetas e diverso mobiliário oriundos do suprimido Mosteiro da Esperança, registando-se ainda obras de reparação no ano de 1896, período em que se consolidaram as procissões e festividades em honra de Nossa Senhora da Conceição. O espaço religioso assumiu progressiva distinção, tornando-se palco de cerimónias matrimoniais requintadas, enquanto o jardim do Campo Grande se afirmava como um aprazível Passeio Público vocacionado para o desporto e o lazer. Esta dinâmica exigiu a protecção do adro paroquial para mitigar os impactos da passagem de gado para o matadouro, da feira e das praças de touros, promovendo-se paralelamente quermesses ao longo do ano para socorrer os estratos sociais mais desfavorecidos.Nas primeiras décadas do século XX, a configuração exterior sofreu alterações substanciais com a supressão do muro que delimitava a igreja e o consequente desmantelamento do cruzeiro seiscentista, que a edilidade lisboeta outrora mandara retirar e que acabou temporariamente recolhido no pátio interior do edifício.

A década de quarenta ditou uma metamorfose radical da zona através da expropriação de vastas parcelas para a expansão da Cidade Universitária e para a fundação do bairro de Alvalade, o que motivou a desagregação do território para constituir a paróquia de São João de Brito.

Como consequência do Concílio Vaticano II, removeram-se altares laterais, retábulos secundários, e altares da capela do Santíssimo. Os estuques foram repintados e as seculares texturas marmoreadas ocultadas sob uma camada de tinta branca.

Em 1995 foi criado o Centro Social Paroquial do Campo Grande. Em 1996, procedeu-se à edificação de um salão paroquial comunicado com a nave central através do rasgamento de vãos guarnecidos por portas de correr do lado do Evangelho. Sob o traço do arquitecto Frederico Valssassina, construiu-se um novo pólo com múltiplos pisos para albergar as instalações do Centro Social e os grupos da comunidade. A demolição da antiga casa paroquial levou à construção de um adro lateral onde voltou a ser implantado o histórico cruzeiro.

Já no século XXI, a paróquia atraiu sacerdotes de considerável projecção mediática, designadamente o padre Vítor Feytor Pinto. Em 2018, face a recorrentes infiltrações e à natural usura dos materiais, executou-se uma nova e minuciosa acção de restauro tutelada pelos arquitectos Rui e Marina Charnock. Esta reabilitação visou a criação de um ambiente acolhedor mediante o delineamento de um novo sistema luminotécnico e a devolução da policromia às paredes, resgatando uma leitura visual muito próxima das primitivas superfícies marmoreadas. A mesma equipa técnica concebeu as cadeiras da presidência e os suportes em mísula destinados ao acolhimento das imagens da Virgem de Fátima e de São José.

Descrição

Exterior A igreja evidencia uma arquitectura de feição maneirista e barroca, integrando elementos de tendência neoclássica resultantes da sua reconstrução no último quartel do século XVIII. O templo é adossado a Sul e a Nascente a um moderno edifício de múltiplos pisos que alberga o Centro Paroquial, e a Norte a construções de cariz residencial.

A igreja desenvolve-se através de uma planta longitudinal composta por nave, capela-mor mais estreita, sacristia e um conjunto de anexos de volumetria paralelepipédica, articulada e escalonada, adossados às fachadas laterais e posterior. As coberturas exteriores apresentam telhados diferenciados de uma, duas e três águas. As paredes exteriores encontram-se rebocadas e pintadas a branco, sendo percorridas por um embasamento de cantaria e delimitadas por cunhais apilastrados em calcário, com remate superior em cornija.

Fachada principal A fachada principal, orientada a Sul, articula-se em três panos verticais separados por pilastras toscanas. O corpo central é rasgado por um portal de verga recta, antecedido por quatro degraus de cantaria, possuindo uma moldura recortada que remata num espaldar de perfil trapezoidal almofadado, assente em lacrimais unidos por um festão e coroado por concheado e cornija angular.

O fecho deste vão faz-se através de uma porta de duas folhas de madeira almofadadas. Sobre o eixo do portal abrem-se três grandes janelas com molduras prolongadas inferiormente em falsos brincos, protegidas por caixilhos de madeira e vitrais pintados. A janela central apresenta arco de volta perfeita ornamentado com um friso de enrolamentos e sustentado por mísulas decoradas, ao passo que as duas janelas laterais são rectilíneas e ostentam molduras alteadas com botões e festões. No registo superior, a fachada é perfurada por um óculo oval de cantaria, sendo rematada por um frontão triangular no qual se inscrevem dois painéis almofadados em tom bege a flanquear um florão central. Os vértices inferiores do frontão sustentam fogaréus sobre plintos troncocónicos decorados com drapeados, enquanto o vértice superior possui um plinto paralelepipédico encimado por uma cruz de ferro.

Flanqueando o corpo central existem dois panos murários cegos. O correspondente ao lado Poente exibe um relógio circular e serve de base à torre sineira de secção quadrada. Esta estrutura campanária é definida por pilastras que sustentam plintos com fogaréus, possuindo quatro ventanas em arco de volta perfeita apoiadas em impostas salientes. A cobertura da torre assume a forma de um coruchéu bolboso revestido, rematado por uma cruz metálica.

Fachada lateral oeste A fachada lateral Oeste caracteriza-se pela métrica das pilastras de cantaria e apresenta duas janelas rectilíneas correspondentes ao volume da nave, e uma luneta ao nível da capela-mor. Os volumes anexos desdobram-se em três secções encimadas por platibanda plena, com elementos estruturais pintados a bege e superfícies almofadadas a branco. Os corpos central e direito contêm cinco janelas, três delas jacentes, e dois óculos ovais, todos com molduras de cantaria. O corpo esquerdo divide-se em dois pisos, localizando-se no rés-do-chão uma janela e uma porta de verga recta gradeada com bandeira, e no piso superior duas janelas de peitoril rectilíneas.

Adro e cruzeiro