upright|thumb|Brasão de Bucareste em 1968; lema: Pátria e Meu Direito
A história de Bucareste cobre o período de tempo que vai desde os primeiros assentamentos na área e no vizinho distrito () de Ilfov até à sua existência moderna como cidade, capital da Valáquia e atual capital da Roménia.
Pré-história e Antiguidade Na Antiguidade, a maior parte do território de Bucareste e de Ilfov estava coberto pela densa florestas de Codrii Vlăsiei, onde em alguns locais, especialmente nos vales dos rios Colentina e Dâmbovița, existiram pequenos povoados dispersos desde o Paleolítico. Durante o Neolítico, na área esteve presente a e antes do , a região fazia parte do território da . Durante a Idade do Bronze, uma terceira fase da cultura de Glina (essencialmente pastoril) sobrepôs-se parcialmente à cultura de Gumelniţa. Mais tarde sobreveio a cultura de Tei.
thumb|left|Artefactos da cultura de Tei
Durante a Idade do Ferro, a área foi habitada por uma população identificada com os getas e os dácios, falantes de línguas indo-europeias. Há controvérsia entre os historiadores sobre se os dois grupos seriam realmente distintos, mas a cultura duma fase mais tardia pode ser atribuída aos dácios. Em volta de Bucareste foram descobertos vários pequenos povoados dácios, nomeadamente em Herăstrău, Radu Vodă, Dămăroaia, Lacul Tei, Pantelimon e Popeşti-Leordeni. Estas populações tiveram ligações comerciais com cidades gregas e romanas. Foram encontradas moedas gregas em Lacul Tei e Herăstrău (juntamente com grandes quantias de moedas falsas) e joias e moedas de origem romana em e Lacul Tei.
Bucareste nunca esteve sob o domínio romano, exceto quando a Munténia foi ocupada brevemente pelas tropas de Constantino na década de Foram encontradas moedas do tempo dos imperadores romanos Constantino, Valente , e outros em vários locais de Bucareste e das imediações. Pensa-se que a população local estava romanizada depois da retirada inicial das tropas romanas da região, durante o período das migrações dos povos bárbaros.
Fundação da cidade Origens thumb|Curtea Veche, antiga corte dos príncipes da Valáquia
thumb|Ordem judicial do príncipe Radu, o Belo, emitida em Bucareste em 1465
Os eslavos fundaram vários povoados na região de Bucareste, como se pode deduzir dos topónimos eslavos de Ilfov (de elha; "amieiro"), , Snagov, Glina, Chiajna, etc. Alguns estudos apontam para que a população eslava já tinha sido assimilada antes do fim da Alta Idade Média (séculos VI a X). Para alguns historiadores, a área fez parte do Primeiro Império Búlgaro entre 681 e , ao mesmo tempo que mantinha ligações comerciais com o Império Bizantino, o que é atestado pela descoberta de moedas bizantinas dos séculos IX a XII em escavações em vários locais.
A área foi alvo de sucessivas invasões de pechenegues e cumanos, antes de ser conquistada pelos mongóis durante a invasão mongol da Europa de 1241. Provavelmente foi depois disputada entre os magiares e o Segundo Império Búlgaro.
Segundo uma lenda registada pela primeira vez no , a cidade foi fundada por um pastor chamado (outras versões descrevem-no como um boiardo). Como a generalidade das antigas cidades da Munténia, a fundação de Bucareste foi também atribuída ao lendário príncipe da Valáquia Radu Negru, em histórias cujo registo mais antigo é do . A teoria que identifica Bucareste com a "cidadela de Dâmbovița" e o pârcălab mencionado como ligado a é contradita pela arqueologia, que mostra que a área era praticamente desabitada no .
Primeiros desenvolvimentos A primeira menção histórica a Bucareste é de 30 de setembro de 1459, como sendo uma das residência do príncipe da Valáquia . Tornou-se rapidamente a residência de verão favorita da corte principesca e, juntamente com Târgovişte, uma das duas capitais da Valáquia. Era vista pelos contemporâneos como a cidadela mais forte do país. Em 1476 foi saqueada pelo príncipe moldavo , mas apesar disso foi a residência favorita de muitos governantes que se seguiram. O príncipe Mircea, o Pastor fez importantes melhoramentos no início da década de 1550, como a construção de um palácio e uma igreja na Curtea Veche ("Corte Velha"), dotou a cidade duma paliçada e tomou medidas para abastecer a cidade de água potável e alimentos.
Quando Mircea foi deposto pelos otomanos, de quem o principado valaquiano era vassalo, em 1554, Bucareste foi devastada por tropas de janízaros. Quando Mircea retomou o poder, em 1558, houve novamente violência, com perseguição dos que tinham apoiado Pătrașcu, o Bom. Em 1574, o conflito entre e Alexandre Mircea também afetou a cidade, o mesmo acontecendo durante o reinado tirânico de , no início da década de 1590.
Século XVII Crescimento e declínio thumb|left|Pintura de 1601 de Frans Francken, o Jovem com o príncipe Miguel, o Valente e Maria Cristina de Habsburgo, princesa da Transilvânia
Em sintonia com o aumento das exigências dos otomanos e da importância crescente do comércio com as Bálcãs, o centro político e comercial da Valáquia começou a deslocar-se para sul. Antes do fim do , Bucareste tornou-se a cidade com mais população na Valáquia e uma das maiores da região, tornando-se bastante cosmopolita. Contudo, isso foi acompanhado por um declínio drástico da autoridade do príncipe e dos recursos do estado.
Em 13 de novembro de 1594,a cidade testemunhou uma onda de violência generalizada, que marcou o início da revolta de Miguel, o Valente contra os otomanos e o massacre dos credores otomanos, que detinham o controlo dos recursos da Valáquia, a que se seguiu um confronto entre os valaquianos e as tropas otomanas estacionadas em Bucareste. Como retaliação, a cidade foi atacada e quase completamente destruída pelas tropas de . Foi depois reconstruída lentamente ao longo das duas décadas seguintes, voltando a disputar protagonismo a Târgovişte durante o reinado de , no início da década de 1620. Matei Basarab, o príncipe que dividiu o seu governo entre Târgovişte e Bucareste, restaurou os edifícios da corte arruinados .
Em 1655 Bucareste foi novamente devastada, durante a rebelião dos mercenários seimeni contra o governo de . As tropas rebeldes prenderam e executaram vários boiardos de alta patente antes de ser derrotadas por tropas da Transilvânia em junho de 1655. Constantin Şerban mandou construir vários edifícios importantes, mas foi também responsável por um fogo que provocou danos elevados, ateado para impedir e os seus aliados otomanos de ficarem com a cidadela intacta, após Constantin ter sido deposto pelos otomanos. O viajante otomano Evliya Çelebi conta que a cidade foi reconstruída tão rapidamente quanto foi destruída: «casas de pedra e tijolo [...] são poucas e desafortunadas, pois os seus chefes revoltam-se a cada sete ou oito anos e consequentemente os turcos e [seus aliados] os nogais deitam fogo à cidade; mas os habitantes, no mesmo ano restauram as suas pequenas mas robustas casas». No início da década de 1660 Bucareste foi afetada por um surto de fome e por uma epidemia de peste bubónica. Em 1675 correu outra epidemia de peste.
Final do século XVII thumb|
Entre o reinado de e o fim do reinado de , Bucareste viveu um período de relativa paz e prosperidade, não obstante a prolongada rivalidade entre as famílias e e, posteriormente, pela deterioração das relações entre os Băleanu e os .
O apogeu desse período aúreo ocorreu durante os reinados de Şerban Cantacuzino e de , quando a cidade abraçou o Renascimento numa forma original conhecida como o estilo Brâncovenesc. A cidade também cresceu, passando a integrar a área de Cotroceni, foi dotada de estalagens mantidas por príncipes e das primeiras instituições de ensino, como o Colégio de São Sava, fundado em 1694. Brâncoveanu renovou a Curtea Veche (onde provavelmente funcionou a nova versão do conselho de boiardos) e construiu dois novos palácios. Um desses palácios, o , é de estilo veneziano e destaca-se pela sua lógia. Outra obra desse período foi a rua atualmente chamada Calea Victoriei, em terrenos que faziam parte da floresta Codrii Vlăsiei.
Era fanariota Primeiros fanariotas thumb|left|Gravura da captura em 1716 por tropas austríacas na Corte Velha de Bucareste de , o primeiro hospodar fanariota da Valáquia
Em 1716, a seguir à rebelião antiotomana de Ştefan Cantacuzino e no contexto da Grande Guerra Turca, os otomanos colocaram no governo da Valáquia fanariotas (gregos) da sua confiança. O primeiro desses governantes fanariotas foi , que anteriormente tinha reinado na Moldávia. Os fanariotas marcaram decisivamente o desenvolvimento de Bucareste em vários aspetos. Durante esse tempo, a cidade foi a capital sem rival, tendo sido favorecida pela diminuição de importância do senhorialismo e dos centros rurais; o estatuto de boiardo (nobre) passou a depender principalmente de cargos na administração e muitos destes estavam centrados na residência do príncipe. Um exemplo desses cargos políticos importantes era, depois de 1761, o banato da Olténia.
O governo do príncipe Nicolau ( ; ) coincidiu com uma série de calamidades: um grande fogo, a primeira invasão dos Habsburgos durante a guerra austro-turca de 1716–1718 e outra epidemia de peste. Mas também foi um período de grandes acontecimentos culturais, inspirados pelo iluminismo, como a criação de uma biblioteca principesca mantida pelo académico , que teve vida breve. e desenvolveram a infraestrutura comercial da cidade e dotaram-na de um grande mercado, situado provavelmente na área de Lipscani, e de uma alfândega. Em 1737, durante a guerra austro-turca de 1737-1739, a cidade foi novamente atacada pelos Habsburgo e saqueada por nogais, antes de sofrer mais uma grande epidemia de peste, que voltou a correr várias vezes na década de 1750. A economia também declinou ligeiramente, devido à disputa de cargos oficiais entre gregos, levantinos e locais.
Guerras russo-turcas Bucareste foi ocupada duas vezes por tropas imperiais russas durante a guerra russo-turca de 1768–1774. A primeira teve o apoio dos rebeldes boairdos antiotomanos liderados por . A segunda inavsão foi protagonizada pelo general . O tratado que pôs fim à guerra foi parcialmente negociado em Bucareste.
thumb| no Conselho dos Boiardos
thumb|Gravura de 1837 dos moinhos de água do Dâmbovița, nos arrabaldes de Bucareste, com o Dealul Spirii e o ao fundo
Durante o reinado de (; ) foram levadas a cabo obras de grande envergadura para abastecer a cidade de água potável. A Curtea Veche, que tinha sido destruída pelos conflitos anteriores, foi substituída em 1776 por uma nova residência principesca na (Dealul Spirii), a ("Corte Nova"). As obras prosseguiram durante o reinado de .
Em 1787 eclodiu outra guerra russo-austro-turca e em 1789 Mavrogenes retirou em face duma nova invasão austríaca comandada pelo príncipe Josias de Saxe-Coburgo. Apesar disso, de outras epidemias , dos pesados impostos decretados por e do grande sismo de 4 de outubro de 1802, a que se seguiram outros em 1804 e 1812, a população da cidade continuou a aumentar. Durante a guerra russo-turca de 1806–1812, tropas russas comandadas por entraram em Bucareste no final de dezembro de 1806 para devolver o poder a . Foi durante o governo deste último que foi construído o , um caravançarai ainda existente atualmente, que é a estalagem mais antiga de Bucareste.
Depois da paz ter sido assinada em Bucareste, o governo de trouxe uma série de eventos culturais e sociais à cidade, como uma lei reformista, o primeiro voo em balão de ar quente do país, a primeira representação teatral, a primeira fábrica de vestuário, a primeira tipografia privada e a primeira escola em língua romena, fundada por Gheorghe Lazăr. Porém, o governo de João Caragea foi ensombrado por mais uma epidemia devastadora de peste em 1813 e 1814, que matou entre e pessoas e ficou conhecida pela "". As fontes históricas dessa época indicam que na cidade havia áreas densamente povoadas que alternavam com extensas hortas e pomares, o que torna impossível calcular a área urbana.