A Guerra Mojeña foi um conflito militar que ocorreu, a partir de 1763, entre o Império Português e o Império Espanhol, vencido pelo portugueses, que envolveu a disputa de uma pequena porção de terra na margem norte do Rio Guaporé que atualmente pertence ao Estado brasileiro de Rondônia. Nesse conflito prevaleceu a tese do Império Português de que o Rio Guaporé deveria servir de fronteira entre os dois Impérios naquela parte da Floresta Amazônica. Atualmente o Rio Guaporé serve de fronteira entre a Bolívia, ao sul, e o Estado de Rondônia, na margem setentrional.

Antecedentes

A ocupação portuguesa da margem norte do Rio Guaporé

Em 1732, alguns garimpeiros de Cuiabá começaram a se deslocar em direção à bacia do Rio Guaporé, para fazer prospecções em terras habitadas por nativos na etnia "paresi".

Em 1734, uma expedição liderada pelos irmãos bandeirantes Paes de Barros encontraram ouro na faixa de terras entre os rios Sararé e Galera e em seus afluentes, que nasciam na Chapada dos Parecis, na época denominada Chapada de São Francisco Xavier. Esses garimpos ocorreram nas nascentes dos rios Guaporé e Juruena.

A partir de 1738, há registros de extração de ouro no Rio Corumbiara, um afluente da margem setentrional do Rio Guaporé. Essa extração durou cerca de 8 anos e resultou, em 1746, na fundação de um arraial na Ilha Comprida no Rio Guaporé, que teve breve duração, pois, relata-se que, em 1752, estava despovoado.

A mineração levou ao desenvolvimento de outras atividades econômicas na região, para abastecer os mineradores, em uma região distante de outros centro produtores e na qual os comboios de abastecimento estavam sujeitos a ataques de nativos de etnias como os Paiaguás e os Guaicurus, como: a plantação de roças, a pesca e a criação de rebanhos bovino e equinos.

Em 1740, representantes locais e negociantes de Cuiabá enviaram uma comitiva, com o apoio do Ouvidor Geral daquela Comarca, João Gonçalves Pereira, composta de quatro sertanistas, comandados por Antônio Pinheiro de Faria, à "San Rafael de los Chiquitos", cidade que atualmente fica na Bolívia, junto à fronteira com o Brasil, com o objetivo oficial de fazer "negociações comerciais". Essa comitiva ficou conhecida na época como "bandeirinha de 1740".

A expedição também tinha objetivos exploratórios, ou seja, pretendia mapear caminhos para o estabelecimento de rotas comerciais e espionar as reduções jesuíticas da região.

Antônio Pinheiro de Faria, que fora "investido" com o título de embaixador, levava consigo credenciais de apresentação, cartas a comerciantes e fidalgos do Rio da Prata e presentes aos anfitriões. O envio dessa comitiva custou meia arroba de ouro.

A comitiva foi bem recebida San Rafael de los Chiquitos e retornou à Cuiabá em novembro de 1740. Por outro lados, os jesuítas espanhóis comunicaram a inesperada visita às autoridades espanholas, tanto eclesiásticas como civis. Outro aspecto é que essa comitiva não tinha amparo de autoridades superiores do Império Português sediadas em São Paulo, Salvador ou Lisboa.

Ao tomarem conhecimento dos fatos, tanto a coroa portuguesa quanto a espanhola, decidiram proibir qualquer comunicação entre os vassalos dos impérios rivais naquela zona de fronteira.

Em 1742, foi enviada uma nova expedição para descer o curso do Rio Guaporé, composta por dez integrantes: seis paulistas e quatro portugueses, além de criados e escravos. O objetivo dessa nova expedição era estabelecer relações comerciais com as missões jesuíticas situados nos "Llanos de Mojos", pois havia um forte interesse na compra de gado bovino.

Essa expedição, que partiu do arraial São Francisco Xavier, era composta por: Paulistas: Tristão da Cunha Gago, João de Borba Gato, Matheus Correya Leme, Francisco Leme do Prado, Francisco Borges de Miranda e Dionísio Bicudo; Portugueses: Manuel Felix de Lima, Joaquim Ferreira Chaves, Vicente Pereira de Asumpção e Manuel Freitas Machado.

Após enfrentarem dificuldades ao longo do caminho, o grupo se separou em dois, com a dissidência de Tristão da Cunha Gago e Borba Gato, o grupo principal continuou a expedição que passou a ser chefiada por Manuel Félix e seguiria a viagem, alcançado as missões jesuíticas de São Miguel, Santa Maria Madalena e Exaltação de Santa Cruz.

Na redução de Santa Maria Madalena, os primeiros contatos previam a venda do gado, enquanto na redução de São Miguel o rebanho estava em formação e, desse modo não havia interesse na venda.

Com o intuito de comprar mais gado, o grupo se dividiu novamente, de modo que:

O grupo liderado por Prado, Mateus e Verneque foi para a redução de "Exaltação de Santa Cruz", à margem do Rio Mamoré. No então, naquela redução, os jesuítas já tinham recebido ordens de seus superiores hierárquicos para rechaçar quaisquer aproximações com os portugueses;

O grupo liderado por Manuel Felix, desceu o Rio Guaporé e prosseguiu viagem pelo Rio Madeira até chegar no Pará, onde Manuel Machado e Manuel Felix foram presos e enviados a Lisboa, por violar uma lei de 27 de outubro de 1733, que proibia a busca de caminhos novos para entrar ou sair de quaisquer minas estabelecidas.

Entre 1743 a 1752, ocorreram pelo menos sete expedições, que estabeleceram uma nova rota comercial, interligando as minas de Mato Grosso com o governo do Pará, dentre essas expedições, podem-se citar as realizadas em 1743, liderada por Barbosa de Sá e Francisco Leme do Prado, que resultou em um relatório minucioso sobre a geografia e a etnografia do Rio Guaporé; 1744, liderada por Miguel da Silva e Gaspar Barboza Lima, que obteve pouco sucesso; 1746, liderada por José de Souza Azevedo, que desceu o Rio Tapajós; 1747, liderada por José Leme do Prado e Francisco Xavier de Abreu, que também desceu o Rio Tapajós; 1749, liderada por João de Souza Azevedo, que subiu o Rio Tapajós com o primeiro a primeira carregamento de mercadorias oriundas do Pará com destino às minas do Mato Grosso, onde chegou 10 de julho; 1749, liderada por José Gonçalves da Fonseca, ex-secretário do Governador da Capitania de Grão Pará, que saiu de Belém do Pará no dia 14 de julho, com o objetivo de fazer o levantamento da navegação do Rio Madeira e seus afluentes; 1750, que subiu os rios da Bacia Amazônica, trazendo tropas, e chegou ao destino (Mato Grosso) em abril; e 1752, que trouxe diversas mercadorias do Pará.

A partir de 1752, o comércio da Capitania de Mato Grosso passou a ser realizado, preferencialmente, com o Pará.

Em 1748, foi fundada a Capitania de Mato Grosso, com a reunião dos distritos de Mato Grosso e Cuiabá, que teve como primeiro governador Antônio Rolim de Moura Tavares.

Em 1751, Rolim de Moura recebeu uma instrução régia que ordenava: uma política de contenção aos ataques dos paiaguás e caiapó e à proteção aos parecis, que eram considerados mansos; a fundação de missões ou aldeias administrativas para os nativos mansos, com o objetivo de transformar tais nativos em vassalos luso-brasileiros, como se brancos fossem; tratar os nativos mansos com respeito e urbanidadeEm 1757, a política de incorporação dos povos nativos como vassalos seria reforçada com a publicação do Diretório dos Índios.;

Em 12 de março de 1752, foi fundada a Vila Bela da Santíssima Trindade, que seria a nova capital da Capitania de Mato GrossoMISSÃO JESUÍTICA COLONIAL NA AMAZÔNIA MERIDIONAL: SANTA ROSA DE MOJO UMA MISSÃO NUM ESPAÇO DE FRONTEIRA (1743-1769) , acesso em 16 de janeiro de 2018..

A ocupação espanhola da margem sul e de uma porção da margem norte do Rio Guaporé

Os espanhóis acreditavam na lenda do "El Dorado de Mojos" estaria localizado nas terras baixas a leste de Cuzco e ao norte do Paraguai, portanto, na área correspondente aos "Llanos de Mojos".

A partir de 1536, ocorreram várias tentativas de penetração na região, a partir de expedições por expedições saíram de Cuzco e Assunção:

Em 1543, Cabeza de Vaca, partiu de Puerto de los Reyes, com trezentos homens e alguns cavalos, tentou abrir um caminho pelo norte do território habitado pelos chiquitos, tentando chegar até o Peru, mas fracassou.

Em 1548, Ñuflo de Chávez, partiu do "Puerto de San Fernando" que atravessou território habitado pelos chiquitos, mas não encontrou o "El Dorado de Mojos".

Em 1558, Ñuflo de Chávez, partiu com o objetivo inicial de fundar um povoado na região da Lagoa dos Xaraiés (Pantanal Matogrossense), que, no entendimento da época, corresponderia as nascentes do Rio Paraguai, mas que foi desviada para oeste para buscar uma "terra rica" e que resultou na fundação da cidade de Santa Cruz de la Sierra, que se converteria em um ponto de partida de novas expedições em direção aos "Llanos de Mojos", pois naquela região estão as nascentes do Rio Grande (também conhecido como Guapay), que é um dos principais afluentes do Rio Mamoré, que ao norte terá seu encontro com o Rio Guaporé.

Além das expedições que partiram do Vice-Reino do Rio da Prata, existiram outras que partiram do Vice-Reino do Peru em busca do "El Dorado de Mojos":

Em 1539, Candia foi enviado por Francisco Pizarro, liderando um expedição com duzentos homens, para explorar terras a leste de Cuzco, mas chegou apenas até Opatari a trinta léguas do ponto de partida, pois houve uma rebelião dos homens que o acompanhavam; Expedição de Pedro de Anzures, que seguiu para leste pela rota de Camata, com os homens que participaram da expedição de Candia, chegou aos "Llanos de Mojos", mas houve uma grande falta de alimentos que obrigou os expedicionários a retornar ao Peru; No final de 1561, o Conde de Nieva, Vice-Rei do Peru, enviou uma expedição, liderada por Juan Nieto, para seguir para leste pela rota de Camata e fundar um povoado, essa expedição chegou a Apolobamba, foi bem recebida por nativos da etnia dos chunchos e retornou três meses depois; Em 1562, Antón de Gastos, partiu de Cochabamba liderando uma pequena expedição que explorou a região de "Llanos de Mojos"; Em 1563, Diego Alemán liderou uma expedição, autorizada do Conde de Nieva, que passou por Cochabamba e ingressou na região de "Llanos de Mojos". Após passar pela montanhas orientais chegou a Pauma, povoado habitado por nativos da etnia pomay, onde foi morto pelo nativos; Em 1565, Luján liderou uma expedição, autorizada pela Audiência de Charcas, que passou por Cochabamba e ingressou na região de "Llanos de Mojos" em busca de minas. Luján foi morto pelos nativos, juntamente com oito companheiros; Em 1567, Juan Alvarez Maldonado partiu com uma expedição das proximidades Cuzco em direção ao leste para fundar uma nova província. Passou por Opatari e chegou até Toromonas, mas não conseguiu se manter. Em 1569, retornou ao Peru, passando por San Juan del Oro; Em 1569, uma expedição, com setenta homens, liderada por Cuéllar y Ortega, partiu do Peru, passou por Cochabamba, mas foi suspensa por ordem da Audiencia de Charcas, por não possuir autorização.

Os jesuítas, começaram a chegar na região, a partir da fundação de colégios em: Cuzco (1571), em Potosí (1576) e La Paz (1580). Em 1587, os Padres Diego Samaniego e Diego Martínez criaram uma residência em Santa Cruz de la Sierra. Em 1590, essa residência contava com 4 padres, os fundadores, aos quais se juntaram Ângelo Monitola e Jerônimo de Andión.

A partir de 1597, os jesuítas que residiam em Santa Cruz de la Sierra começaram atuar nas regiões onde seriam estabelecidas as reduções nas regiões habitadas por chiquitos e por mojos.

Os primeiros jesuítas que penetraram na região acompanhavam expedições militares no final do Século XVI, como Juan Soto que incorporou-se a uma dessas expedições como cirurgião e ao chegar a uma importante aldeia mojeña, pediu e obteve permissão do chefe para predicar aos nativos de língua arauque. Durante a predicação tentou convencer os nativos a cooperarem com os espanhóis que seriam "terríveis com seus inimigos, mas muito corteses e amáveis com seus amigos".