O Políptico do Arco da Calheta é um conjunto de seis pinturas a óleo sobre madeira pintadas cerca de 1550-60 presumivelmente pelo pintor português do período do Maneirismo designado por Mestre de Abrantes que se destinou à Igreja de São Brás do Arco da Calheta, na Ilha da Madeira, onde ainda permanecem.

O Políptico do Arco da Calheta é constituido pelas pinturas Apresentação do Menino no Templo, Descida da Cruz, Ressurreição, S. Tiago Maior, Santa Catarina e S. Brás e os Doadores.Isabel Santa Clara, Das Coisas visíveis às invisíveis, contributos para o estudo da Pintura Maneirista na Ilha da Madeira (1540-1620), Vol. I e II, Tese de Doutoramento em História da Arte da Época Moderna, Universidade da Madeira, 2004, A pintura S. Brás e os Doadores inclui os retratos imaginados dos fundadores da capela, Brás Ferreira e Mécia Vaz, capela que deu origem mais tarde à Igreja de S. Brás.Nota de apresentação da obra na exposição "As ilhas do Ouro Branco Encomenda Artística na Madeira séculos XV-XVI" do Museu Nacional de Arte Antiga, de 16-11-2017 a 18-03-2018.

Embora próximas estilisticamente, não parece haver unidade iconográfica entre as pinturas do Políptico de modo a terem constituído um único retábulo. Se a Apresentação do Menino no Templo, a Descida da Cruz e a Ressurreição estão claramente relacionadas com a vida de Jesus, e S. Brás e os doadores está relacionada com a invocação da igreja, não se conhece a relação de Santa Catarina e S. Tiago com as demais. Pelas medidas, as pinturas podem ter pertencido a um conjunto, ou podem ter sido adaptadas a um conjunto, pois têm sensivelmente as mesmas dimensões, sendo a Apresentação do Menino no Templo e S. Brás e os doadores mais largas, pelo que poderiam estar colocadas no centro, uma sobre a outra, ladeadas pelas restantes, duas de cada lado, ficando o Retábulo constituído por uma fiada de temas cristológicos e outra de temas de santos.

A proveniência destas pinturas não está claramente documentada, sendo o registo mais antigo conhecido o de 1577 relativo a um Retábulo oferecido pela Coroa à igreja matriz do Arco da Calheta, que não é esclarecedor pois se julga que as obras são de data anterior.Funchal Notícias Na década de 1540, na Madeira, continuava-se a recorrer ao mercado flamengo, mas as pinturas religiosas começam a ser encomendadas preferentemente às oficinas de Lisboa. Uma das obras que marca esta mudança é o Retábulo da Matriz de Santa Cruz, atribuível a uma parceria lisboeta, e depois a oficina de Diogo de Contreiras terá realizado os quadros da Igreja Matriz de Machico, o Políptico da Igreja de S. Brás do Campanário e o Políptico da Capela da Madre de Deus do Caniço. O Retábulo da Matriz da Ponta do Sol, que se enquadra na obra do Mestre de Arruda dos Vinhos, e o Políptico do Arco da Calheta, atribuível ao Mestre de Abrantes, comprovam a predominância da escolha dos pintores portugueses mais destacados desta época.

História A freguesia do Arco da Calheta foi desmembrada da Calheta, em 1472, ficando com sede na capela de S. Brás e tido como primeiro vigário o padre Pedro Delgado.Página web da Câmara Municipal da Calheta

Depois, pelo alvará régio de 1572, no Arco da Calheta, onde já existia um capelão, foi criada uma paróquia. A pequena ermida foi transformada em capela-mor e foi acrescentada um novo corpo que ficou sendo a igreja paroquial.

Relativamente à Calheta, Gaspar Frutuoso, em cerca de 1584, refere a existência de uma "grossa fazenda" de Gonçalo Fernandes «com engenho de açúcar e muitas terras de canas, e grandes aposentos de casas e igreja com seu capelão», condizentes com a capacidade financeira para a encomenda de uma obra da envergadura do Político do Arco da Calheta.Gaspar Frutuoso, Livro Segundo das Saudades da Terra, c. 1584, publicado pelo Instituto Cultural de Ponta Delgada, 1968, pp. 112-125, citado por Isabel Santa Clara, op. cit., pag. 61

Sobre pinturas há também o registo da ajuda real para o frete e coisas necessárias para o Retábulo oferecido pelo Fazenda Real para a igreja de S. Brás do Arco da Calheta em 1577-78. O pagamento desta despesa do tempo de D. Sebastião não é esclarecedor porque as pinturas do Políptico parece terem sido executadas em data anterior e porque não é evidente a unidade temática entre elas para terem constituído um retábulo. Há ainda a referência ao conserto do Retábulo e Tabernáculo da capela-mor da Calheta em 1592.

Em meados do século XVIII iniciaram-se os trabalhos de construção duma nova igreja, que é a actual, tendo sido benzida solenemente no dia 1 de Janeiro de 1755.Padre Fernando Augusto da Silva, Subsídios para a História da Diocese do Funchal, Funchal, 1946, p. 151., citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 173.

Sobre a autoria A referência crítica a este núcleo de pinturas é escassa. Cayola Zagallo, em 1937, assinala-as pela primeira vez nos tempos modernos, descrevendo e indicando as medidas aproximadas de Descida da Cruz, Circuncisão (que é uma Apresentação no Templo), S. Brás e os Doadores e Ascensão (que é uma Ressurreição), integrando-as numa escola quinhentista portuguesa.Cayola Zagallo, «Algumas palavras sobre o património artístico da Ilha da Madeira», Arquivo Histórico da Madeira, vol. V, 1937, pp. 134-138., citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 174 As falhas na identificação iconográfica foram posteriormente por ele corrigidas e, baseado em Reynaldo dos Santos,Reynaldo dos Santos, «O Calvário da Misericórdia de Abrantes» in Boletim da Academia Nacional de Belas Artes, vol. VI, Lisboa, 1940, pp. 42-47.citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 174 adianta a hipótese de atribuição ao Mestre do Retábulo de Abrantes da Descida da Cruz, atribuindo S. Brás e os Doadores e Apresentação do Menino no Templo a uma escola portuguesa do 2º quartel do século XVI.Cayola Zagallo, A Pintura dos séculos XV e XVI da Ilha da Madeira, 1943, citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 174-175.

Eduardo Pereira realça a qualidade de algumas peças e acrescenta, sem precisar a fonte, que «Há quem filie a Apresentação, S. Brás e Ressurreição na Renascença italiana e Descida da Cruz na escola portuguesa de Grão Vasco». Assinala também a existência das tábuas de Santa Catarina e S. Tiago, que não foram até então objecto de estudo.Padre Eduardo C. N. Nunes Pereira, As Ilhas de Zargo, 3ª ed., Funchal, 1968. citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 174-175.

Mais recentemente as tábuas de Descida da Cruz, S. Bras e os doadores e Apresentação do Menino no Templo foram incluídas por Joaquim Oliveira Caetano na lista das obras atribuíveis ao Mestre de Abrantes.Joaquim Oliveira Caetano, O que Janus via. Rumos e Cenários da Pintura Portuguesa. 1535-1570, Tese de Mestrado em História da Arte na Faculdade de Ciências Sociais e Humanas da Universidade Nova de Lisboa, Lisboa, 1996, pp. 219-200, citado por Isabel Santa Clara, op. cit. pag. 174-175.

Na análise de Descida da Cruz, Joaquim Oliveira Caetano considera que o Mestre de Abrantes faz uma síntese do flamengo Maarten van Heemskerck com os modelos de Gregório Lopes, e, atendendo à cronologia das obras, considera provável que o seu autor seja Cristóvão de Utreque, documentado entre 1534 e 1564, assim como se aproxima da fase mais recuada de Francisco de Campos.

Para Isabel Santa Clara, a influência de Heemskerck não parece ir além da intensidade dramática e da preferência pela concentração de elementos, não permitindo os dados disponíveis identificar o Mestre de Abrantes com Cristóvão de Utreque. Antes se inclina para a hipótese de se tratar de Cristóvão Lopes, sobretudo pela proximidade deste com os modelos do pai dele, Gregório Lopes. A hipótese de o Mestre de Abrantes poder ser Cristóvão Lopes foi levantada por Vítor Serrão,Vítor Serrão, «As tábuas do Santuário do Bom Jesus de Valverde: uma encomenda de D. Henrique ao pintor Gregório Lopes» in Estudo da Pintura Portuguesa. Oficina de Gregório Lopes, Lisboa, Instituto José de Figueiredo, 1999, p. 79. no que é acompanhado por José A. Seabra de Carvalho.Carvalho, José A. Seabra de, Gregório Lopes, Lisboa, Inapa, 1999, p.107.

Descrição

Apresentação de Jesus no Templo

Apresentação de Jesus no Templo é uma pintura a óleo sobre madeira com cerca de 120 cm de altura e 140 cm de largura de cerca de 1550-60, que faz parte do Políptico do Arco da Calheta e representa obviamente o homónimo episódio bíblico.

A Apresentação do Menino no Templo segue a narração de , no momento em que Simeão levanta Jesus nos braços, com as mãos respeitosamente encobertas por um pano. Ocupando o centro da pintura, Ana, a profetisa, segura uma vela e aponta para o Menino Jesus dirigindo o olhar para Maria. É com este gesto premonitório que aparece em várias pinturas da época sobre o mesmo tema, ora apontando para a Virgem, ora para o Menino. A Virgem Maria numa atitude desenvolta ocupa o primeiro plano da metade esquerda da pintura tendo S. José a seu lado numa atitude de humildade e deferência. Por detrás de Maria vê-se um grupo de mulheres com velas acesas, associando assim a pintura o rito da Apresentação ao da festa da Candelária. Pelo tipo de indumentária, estas figuras femininas aproximam-se das que estão em segundo plano na Apresentação do Políptico da Capela do Salvador.

Simeão está representado como um sacerdote tendo a mitra a forma de crescente lunar para simbolizar o povo hebreu. A sua fisionomia assemelha-se à do Sacerdote da Circuncisão do mesmo Mestre de Abrantes (MNAA). A decoração do sebasto da sua capa tem evidentes afinidades com peças equivalentes de pinturas de Gregório Lopes. A figura representada no sebasto é a de Moisés segurando as Tábuas da Lei, o que era corrente nas pinturas sobre os rituais da lei judaica da Circuncisão e da Apresentação. Por detrás de Simeão surgem ainda duas figuras masculinas, uma semi-oculta pela cortina e outra que segura um bordão.

Sobre a mesa/altar circular estão duas rolas, ou pombas, um candelabro com uma vela acesa, e um livro aberto. O candelabro segue um modelo simples já usado por Gregório Lopes na Anunciação de Retábulo de Santos-o-Novo e na Circuncisão do próprio Mestre de Abrantes.

Joaquim Oliveira Caetano sintetiza referindo que «as figuras organizam-se a toda a altura do painel, rodeando a mesa circular, num entrechocar de panos quebrados. Os rostos, em cujos modelos ainda se reconhecem alguns tipos de [Gregório] Lopes, são marcados por um expressionismo acentuado e um desenho muito caracterizado».Joaquim Oliveira Caetano, O que Janus via…, p. 219, citado por Isabel Santa Clara, op. cit. Para Isabel Santa Clara, a ocupação de todo o painel pelas figuras num interior sem enquadramento arquitectónico não era prática nem de Gregório Lopes, nem dos Mestres de Ferreirim, nem do Mestre de Abrantes. Por este facto e porque a mitra de Simeão está cortada e falta espaço para definir o interior do templo, de que se veem apenas fustes das colunas e a base de duas janelas ao fundo, pode-se deduzir que a pintura foi em tempos truncada na parte superior.

Descida da Cruz

Descida da Cruz é uma pintura a óleo sobre madeira com cerca de 120 cm de altura e 85 cm de largura de cerca de 1550-60, que faz parte do Políptico do Arco da Calheta e representa o homónimo episódio bíblico.

O corpo inanimado de Cristo amparado por São João e José de Arimateia revela através da contorção dos dedos de mãos e pés do rigor mortis um intenso sofrimento, recurso expressivo também presente na Deposição no Túmulo (c. 1540) do MNAA, atribuída a Gregório Lopes, e na Deposição no Túmulo da Misericórdia de Abrantes. Nicodemos com fisionomia semelhante à do S. José da Natividade do Museu de Évora debruça-se, num movimento acentuado, para desprender Cristo, sendo notória a semelhança, na fisionomia e na posição da cabeça, com o soldado do canto direito da Ressurreição.