"Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" é uma canção do músico inglês George Harrison, lançada como a faixa de abertura do seu álbum Living in the Material World (1973). Também foi lançada como o primeiro single do álbum em maio de 1973 e se tornou a segunda música de Harrison a atingir a primeira posição nos Estados Unidos, depois de "My Sweet Lord". Ao fazê-lo, a canção retirou "My Love", do grupo Wings de Paul McCartney, do primeiro lugar da Billboard Hot 100, marcando a única ocasião na qual dois ex-Beatles detiveram as duas maiores posições nas tabelas musicais norte-americanas. O single também atingiu o top dez na Grã-Bretanha, no Canadá, na Austrália e em outros países.
"Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" é uma das canções mais populares de Harrison, tanto entre fãs quanto entre críticos musicais. Ela é marcada por uma série de solos de Harrison na slide guitar. A gravação demonstrou um afastamento deliberado de seu trabalho inicial pós-Beatles, na redução do grande som, que tanto marcou All Things Must Pass e suas outras co-produções com Phil Spector ao longo de 1970–71. Além de Harrison, os músicos na faixa são Nicky Hopkins, Jim Keltner, Klaus Voormann e Gary Wright. A letra fala do desejo de Harrison de se ver livre de carma e do constante ciclo de reencarnação; mais tarde, ele descreveu a canção como "uma prece e uma declaração pessoal entre eu, o Senhor, e quem mais gostar dela."
Harrison tocou "Give Me Love" em todos os shows durante suas raras turnês como artista solo, e uma versão ao vivo foi incluído no álbum Live in Japan (1992). A gravação original de estúdio aparece nas compilações The Best of George Harrison (1976) e Let It Roll: Songs by George Harrison (2009). No tributo Concert for George, em novembro de 2002, Jeff Lynne tocou "Give Me Love" com Andy Fairweather-Low e Marc Mann tocando as partes de slide guitar. Marisa Monte, Dave Davies, Elliott Smith, Ron Sexsmith, Sting, James Taylor e Elton John estão entre os outros artistas que também fizeram versões da música.
Antecedentes e inspiração
Como a maioria das canções em Living in the Material World, George Harrison escreveu "Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" ao longo de 1971–72. Durante este período, ele se dedicou a ajudar refugiados da Guerra de Independência de Bangladesh,Ensaio de Kevin Howlett em notas de encarte, The Apple Years 1968–75 (Apple Records, 2014; produzido por Dhani Harrison), p. 31. montando o Concerto para Bangladesh (uma série de dois shows beneficentes com grandes nomes da música) em Nova Iorque e preparando o álbum ao vivo e o filme do show para lançamento. Além disso, boa parte de seu tempo foi gasta com problemas legais e comerciais que afligiram o projeto de assistência humanitária. O autor Andrew Grant Jackson escreve que a frustração de Harrison com esta última questão resultou num qualidade sombria que permeia muito de Material World, embora ele "tenha posto sua desilusão de lado para o primeiro single ['Give Me Love']".
O mesmo período coincidiu com o ápice da devoção de Harrison à espiritualidade hindu. Assim como "My Sweet Lord", seu sucesso de 1970-71 com temática religiosa, e seus singles posteriores "What Is Life" e "Bangla Desh", Harrison escreveu "Give Me Love" bem rapidamente. O autor Alan Clayson descreveu a canção como tendo "fluído de Harrison com uma facilidade tão desprovida de agonias quanto uma think piece de Yoko Ono". Em sua autobiografia, I, Me, Mine, Harrison relembra o processo de composição:
Composição "Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" continua a tradição que Harrison iniciou em "My Sweet Lord", através da fusão do bhajan hindu (ou música sagrada) com a tradição da música gospel ocidental. O autor Simon Leng comenta que a canção repete outras fórmulas de sucesso do seu compositor, como o uso de um motivo musical lírico de três sílabas no título, tal qual "My Sweet Lord", "What Is Life" e "Bangla Desh".
O compasso (música) da música é 4/4 do começo ao fim, e sua tonalidade é fá maior. Assim como na gravação de Harrison, isto requer a colocação de um capo na terceira casa da guitarra, para transpor as acordes de ré à tonalidade correta."Give Me Love (Give Me Peace on Earth)", in George Harrison Living in the Material World: Sheet Music for Piano, Vocal & Guitar, Charles Hansen (New York, NY, 1973), pp. 63–65. A introdução traz um violão dedilhado, em estilo semelhante à abertura de "Mr. Tambourine Man", de Bob Dylan.Lindsay Planer, "George Harrison 'Give Me Love (Give Me Peace on Earth)'", AllMusic (acesso em 19 de julho de 2016). A canção cresce gradualmente desde sua introdução suave, com a seção rítmica se mostrando de fato apenas depois da primeira ponte. Gary Tillery, biógrafo de Harrison, descreve o ânimo da música como "animado, mas, ao mesmo tempo, suavizante".
Na letra, Harrison expressa sua visão para a vida no mundo físico.Notas de encarte de Kevin Howlett, livreto que acompanhada o relançamento de Living in the Material World (EMI Records, 2006; produzido por Dhani & Olivia Harrison), pp. 7, 8. Depois da parte instrumental de abertura, a canção inicia com um refrão,"Give Me Love (Give Me Peace on Earth)", in George Harrison Living in the Material World: Sheet Music for Piano, Vocal & Guitar, Charles Hansen (New York, NY, 1973), p. 63. no qual ele, primeiro, suplica por uma vida isenta do ônus cármico da reencarnação: "Dê-me amor, dê-me amor, dê-me paz na terra / dê-me luz, dê-me vida, mantenha-me livre de nascer." Esta letra traz uma mensagem simples e universal, uma mensagem que, no contexto da época, relacionou-se tanto ao idealismo dos anos 1960 de "paz e amor" quanto à busca espiritual pessoal de Harrison.
Harrison também pede por assistência divina para "enfrentar este pesado fardo" (cope with this heavy load, no original), enquanto sua tentativa de "tocar-lhe e alcançar-lhe com o coração e a mente" (touch and reach you with heart and soul, no original) relembra o mesmo apelo por uma relação direta com sua divindade expresso em "My Sweet Lord". Estes dois versos, que completam o refrão, sugerem uma deficiência ou insatisfação do cantor. De acordo com o autor Ian Inglis, eles servem como "um reconhecimento dos sofrimentos e afições que ele estava enfrentando num cenário mais terreno" no período depois do Concert for Bangladesh.
Nas duas seções da ponte, Harrison incorpora o termo sagrado "Om" dentro da frase "Oh... my Lord". O autor Joshua Greene descreve isto como exemplo de um tema encontrado em diversas canções em Material World, por meio do qual Harrison "destilou" conceitos espirituais em frases "tão elegantes que parecem sutras védicos: códigos curtos que contém grandes quantidades de significado". O uso da palara "Om" foi outro comentário de Harrison sobre a universalidade da fé, o primeiro tendo sido a troca que fez do refrão "aleluia" para o mantra Hare Krishna em "My Sweet Lord". Referindo-se à segunda metade da ponte de "Give Me Love", Inglis vê o prolongado "Por favor..." (Please..., no original) como "altamente simbólico", dado o "conflito não resolvido" no cerne da música.
Gravação thumb|esquerda|130px|O pinanista Nicky Hopkins, cuja performance figura proeminentemente na canção, junto com a slide guitar de Harrison. O compromisso de Harrison em supervisionar o lançamento do documentário sobre o Concert for Bangladesh o impediu de começar seu próximo trabalho depois do álbum All Things Must Pass até a metade de 1972. Outra demora foi causada pela irresponsabilidade do produtor Phil Spector, que Harrison ficava esperando comparecer no começo das sessões. O autor Bruce Spizer escreve que "a frequência irregular do produtor fez com que George percebesse que o projeto nunca seria terminado se ele continuasse esperando por Spector", e, em outubro daquele ano, Harrison decidiu produzir o álbum sozinho.
Assim como a maior parte de Living in the Material World, Harrison gravou a faixa básica de "Give Me Love" no outono de 1972 com a ajuda de Phil McDonald, antigo engenheiro de som dos Beatles. O local de gravação foi ou o FPSHOT, estúdio doméstico de Harison em Friar Park,Mat Snow, "George Harrison: Quiet Storm", Mojo, November 2014, pp. 70, 72. ou o Apple Studio em Londres. Mudando o método das co-produções de Harrison com Spector, nas quais um grande número de músicos era a norma, "Give Me Love" trouxe um arranjo mais reduzido e uma instrumentação mais sutil.Notas de encarte de Kevin Howlett, livreto que acompanhada o relançamento de Living in the Material World (EMI Records, 2006; produzido por Dhani & Olivia Harrison), p. 8. Outro contraste foi a adoção por Harrison de um estilo de produção que, em parte, evocou o trabalho de George Martin com os Beatles.John Metzger, "George Harrison Living in the Material World", The Music Box, vol. 13 (11), Novembro de 2006 (acesso em 19 de julho de 2016). Em "Give Me Love", Inglis observa a "mesma execução de um violão dócil e claro que distinguiu 'Here Comes the Sun'" em 1969, enquanto a produção menos grandiosa, em relação a All Things Must Pass, permitiu maior expressão a Harrison como guitarrista de slide guitar.David Cavanagh, "George Harrison: The Dark Horse", Uncut, August 2008, p. 47.
Harrison realiozu overdubs na faixa de apoio, incluindo partes de slide guitar gêmeas, durante os primeiros dois meses de 1973. Além da performance de Harrison na guitarra, o instrumento mais notável na gravação é o piano de Nicky Hopkins, duplicado com a técnica de double tracking e tocado em seu estilo melódico usual. A seção rítmica consistiu do baixista Klaus Voormann e do baterista Jim Keltner. O organista foi o músico americano Gary Wright, cujo álbum Footprint (1971) foi um dos vários projetos musicais com os quais Harrison esteve envolvido entre All Things Must Pass e Material World. Peter Lavezzoli, autor de The Dawn of Indian Music in the West, comenta quão rápido a "abordagem única" de Harrison para a slide guitar havia amaderecido desde 1970, incorporando sitar, veena e outros estilos musicais hindustani, e classifica o solo no meio de "Give Me Love" como "um de seus [solos] mais complexos e melódicos".
Lançamento "Give Me Love (Give Me Peace on Earth)" foi o primeiro single de Harrison em quase dois anos, depois de "Bangla Desh" em julho de 1971. Contudo, assim como Living in the Material World, seu lançamento foi adiado para permitir o lançamento de outros itens no calendário da Apple Records durante o primeiro semestre de 1973: as coleções 1962–1966 e 1967–1970 dos Beatles, e o segundo álbum do Wings, Red Rose Speedway. Desde All Things Must Pass, de acordo com o autor Robert Rodriguez, as brigas públicas entre John Lennon e McCartney e a música "abaixo da média" destes diminuíram bastante a "distinção de ser um ex-Beatle". Em seu livro The Beatles Forever (1977), Nicholas Schaffner escreveu que, por causa do altruísmo inerente ao projeto Bangladesh comparado aos "fiascos" Wild Life, de McCartney, e Some Time in New York City, de John Lennon e Yoko Ono, "[um] público receptivo estava garantido" para as novas canções de Harrison.
Tendo a canção "Miss O'Dell" como lado B, "Give Me Love" foi lançada em 7 de maio de 1973 nos EUA (como Apple R 5988) e em 25 de maio na Grã-Bretanha (como Apple 1862). Três semanas depois, a música apareceu como a faixa de abertura em Living in the Material World. Assim como todas as canções no álbum, exceto "Sue Me, Sue You Blues" e "Try Some, Buy Some", Harrison concedeu os direitos autorais de "Give Me Love" para a recém-criada Material World Charitable Foundation.