thumb|Víbora-de-russell sensando A víbora-de-russell (Daboia russelii) é uma espécie de serpente venenosa da família Viperidae. Daboia é um género monotípico de víboras venenosas do Velho Mundo. A única espécie deste género, D. russelii, é encontrada na Ásia em todo o subcontinente indiano, grande parte do sudeste asiático, sul da China e Taiwan. O epíteto específico desta espécie foi escolhido como homenagem a Patrick Russell (1726–1805),Beolens, Bo; Watkins, Michael; Grayson, Michael (2011). The Eponym Dictionary of Reptiles. Baltimore: Johns Hopkins University Press. xiii + 296 pp. . (Daboia russelii, pp. 229-230). um herpetólogo escocês que foi o primeiro a descrever muitas das serpentes indianas, e o nome do género é uma palavra hindi que significa "que permanece escondido", ou "espreitador".Weiner ESC, Simpson JA (editors) (1991). The Compact Oxford English Dictionary: New Edition. USA: Oxford University Press. . Além de ser uma das quatro grandes serpentes da Índia, Daboia é também um dos géneros responsável pelo maior número de incidentes e mortes por mordeduras de serpentes dentre todas as serpentes venenosas devido a vários factores, como a sua ampla distribuição geográfica, temperamento geralmente agressivo, e a sua presença frequente em zonas populosas.Whitaker Z (1989). Snakeman: The Story of a Naturalist. Bombay: India Magazine Books. 184 pp. ASIN B0007BR65Y.
Daboia russelli é vulgarmente conhecida como víbora-de-russell, entre outros nomes.Mallow D, Ludwig D, Nilson G (2003). True Vipers: Natural History and Toxinology of Old World Vipers. Malabar, Florida: Krieger Publishing Company. 359 pp. .Snakes of Thailand: Venomous snakes at Siam-Info. Retrieved 20 October 2006.
Descrição thumbnail|Víbora-de-russell no zoológico de Pune left|thumb D. russelii pode atingir um comprimento total máximo (corpo + cauda) de 166 cm e 120 cm em média entre as populações asiáticas continentais, embora as populações insulares possam ser ligeriamente menores, em média. Tem constituição mais esbelta do que a maioria das víboras.Stidworthy J (1974). Snakes of the World. Revised Edition. New York: Grosset & Dunlap Inc. 160 pp. . Ditmars (1937) reportou as seguintes dimensões para um "espécime adulto de bom tamanho":Ditmars RL (1937). Reptiles of the World: The Crocodilians, Lizards, Snakes, Turtles and Tortoises of the Eastern and Western Hemispheres. New York: The McMillan Company. 321 pp.
Comprimento total124 cmComprimento da cauda18 cmGrossura15 cmLargura da cabeça5 cmComprimento da cabeça5 cm
thumbnail|Víbora-de-russell em estado selvagem A cabeça é achatada, triangular, e distinta do pescoço. O focinho é rombo, arredondado, e levantado. As narinas são grandes, cada uma situada no meio de uma única grande escama nasal. A orla inferior da escama nasal toca a escama nasorostral. A escama supranasal tem forma de crescente, e separa anteriormente a escama nasal da escama nasorostral. A escama rostral é larga e alta. thumb|180px|Cabeça da víbora-de-russell A coroa da cabeça está coberta por escamas irregulares muito fragmentadas. As escamas supra-oculares são estreitas, singulares e separadas por seis a nove escamas transversais à cabeça. Os olhos são grandes, com manchas amarelas ou douradas, e rodeados por 10 a 15 escamas circum-orbitais. Esta serpente tem 10 a 12 escamas supralabiais, a quarta e quinta das quais são significativamente maiores. Os olhos são separados das escamas supralabiais por três ou quatro filas de escamas suboculares. Apresenta dois pares de escamas geniais, a quarta e quinta das quais são significativamente maiores que as demais. Os dois ossos maxilares suportam pelo menos dois e até cinco ou seis pares de presas simultâneamente: os primeiros estão activos e os demais são de substituição. As presas atingem um comprimento de 16,5 mm num espécime médio.Daniels JC (2002). Book of Indian Reptiles and Amphibians. USA: Oxford University Press. 252 pp. . (Russell's viper, pp. 148–151).
O corpo é grosso, e em corte transversal tem forma arredondada a circular. As escamas dorsais são fortemente enquilhadas; apenas a fila mais baixa é suave. A meio-corpo, contam-se 27 a 33 escamas dorsais. As escamas ventrais são de 153 a 180. A placa anal é indivisa. A cauda é curta, cerca de 14% do comprimento total, com escamas subcaudais emparelhadas que são de 41 a 68.
O dorso apresenta uma padrão de cores consistindo de um amarelo profundo, bronze ou castanho terroso, com três séries de manchas castanho-escuro dispostas longitudinalmente ao corpo. Cada uma destas manchas tem um anel negro em seu redor, cujo limite exterior é sublinhado com uma orla de branco ou amarelo. As manchas dorsais, que normalmente são de 23 a 30, podem crescer juntas, enquanto as manchas lateriais podem separar-se. A cabeça tem um par de manchas escuras distintivas, uma em cada têmpora, junto com uma marca em forma de X ou V de cor rosada ou acastanhada que forma um ápice na direcção do focinho. Atrás do olho tem um uma risca negra, com contorno branco ou rosado. O ventre é branco, amarelado ou rosado, frequentemente com manchas escuras dispersas de forma irregular.
Distribução geográfica
D. russelii pode ser encontrada na Índia, Sri Lanka, Bangladesh, Nepal, Mianmar, Tailândia, Paquistão, Camboja, Tibete, China (Guangxi, Guangdong), Taiwan e Indonésia (Endeh, Flores, Java oriental, ilhas de Komodo e Lomblen). A localidade-tipo indicada é "Índia". Mais especificamente, tratar-se-ia da Costa de Coromandel, por inferência de Russell (1796).
Brown (1973) menciona que também pode ser encontrada no Vietname, Laos, e na ilha indonésia de Sumatra.Brown JH (1973). Toxicology and Pharmacology of Venoms from Poisonous Snakes. Springfield, Illinois: Charles C. Thomas. 184 pp. LCCCN 73-229. . Ditmars (1937) supostamente recebeu igualmente um espécime de Sumatra. Porém, a distribuição desta espécie no arquipélago indonésio, não é ainda conhecida de forma clara.Belt P, Warrell DA, Malhotra A, Wüster W, Thorpe RS (1997). Russell's viper in Indonesia: snakebite and systematics. In: Thorpe RS, Wüster W, Malhotra A (editors)). Venomous Snakes: Ecology, Evolution and Snakebite. Oxford: Clarendon Press. Symposia of the Zoological Society of London (70): 219–234.
Dentro da sua zona de distribuição, pode ser muito comum em algumas áreas e escassa noutras. Na Índia, é abundante no Punjab, muito comum ao longo da costa ocidental e suas montanhas, no sul da Índia e para norte até Bengala, e Assam. É prevalente em Mianmar. É ainda comum na Tailândia na região de Pattaya e outras localidades turísticas onde as suas principais presas, os ratos, dispõem de alimento abundante.
Habitat A D. russelii não se restringe a um habitat particular, mas tende a evitar florestas densas. Esta serpente é encontrada sobretudo em áreas abertas com vegetação herbácea ou arbustiva, mas pode também ser encontrada em zonas de floresta secundária, em plantações florestadas e terrenos de cultivo.É comum em planícies, terras baixas costeiras, e elevações com habitat adequado. Geralmente, não é encontrada a altitudes elevadas, mas existem relatos de observações a altitudes entre os 2 300 e os 3 000 metros. Evita os ambientes húmidos, como marismas, pântanos e bosques tropicais.
Esta espécie é frequentemente encontrada em áreas urbanizadas e assentamentos rurais, sendo atraída pelos roedores comensais das populações humanas. Por esta razão, aquelas pessoas que trabalham no exterior nestas zonas correm um maior risco de ser mordidas. D. russelii não está tão associada às habitações humanas como as espécies do géneros Naja e Bungarus.
Comportamento D. russelii é terrestre e caça sobretudo durante a noite. Contudo, durante épocas de clima mais fresco, modifica o seu comportamento, tornando-se mais activa durante o dia.
Os indivíduos adultos são geralmente lentos excepto se forem incomodados para lá de um certo limite, a partir do qual podem tornar-se muito agressivos. Por outro lado, os juvenis são geralmente mais nervosos.
Quando ameaçadas, formam com o corpo uma série de voltas em S, erguem o primeiro terço do corpo, e produzem um silvo que é supostamente o mais forte d entre todas as serpentes. Quando atacam desde esta posição, podem gerar uma força tal que até um indivíduo de grande tamanho pode levantar a maior parte do corpo do solo. Estas serpentes são fortes e podem reagir de forma violenta quando agarradas. A mordedura pode ser de duração muito curta ou durar muitos segundos.
Embora este género não esteja provido dos órgãos sensíveis ao calor comuns entre os Crotalinae, é um dentre vários viperinos que podem aparentemente reagir a estímulos térmicos, o que parece apoiar a ideia de também eles possuírem um órgão sensorial sensível ao calor. A identidade deste sensor não é conhecida com certeza, mas as terminações nervosas no saco supranasal destas serpentes assemelham-se às encontradas em outros órgãos sensíveis ao calor. thumb|D. russelii em Bangalore, Índia
Reprodução D. russelii é uma espécie ovovivípara. O acasalamento ocorre geralmente no início do ano, embora as fêmeas prenhes possam ser encontradas ao longo de todo o ano. O período de gestação é maior que seis meses. Os juvenis nascem de maio a novembro, mas sobretudo entre junho e julho. São procriadores prolíficos. As ninhadas com 20 a 40 juvenis são comuns, embora o número de crias possa ser menor, inclusivamente até apenas uma. O máximo relatado é 75Russell’s Viper delivers 75 snakelets - Bangalore Mirror crias de uma mesma ninhada. À nascença os juvenis têm comprimento total entre 215 e 260 mm. O comprimento total mínimo para uma fêma prenhe é aproximadamente 1 m. Aparentemente a maturidade sexual é atingida por volta dos 2-3 anos de idade. É conhecido um caso em que um espécime demorou quase 4,5 horas para dar à luz 11 crias.
Presas thumb|D. russelii caçando D. russelii alimenta-se sobretudo de roedores, especialmente de espécies de murídeos. Porém, pode comer de quase tudo, incluindo ratazanas, ratos, toupeiras, esquilos, lagartos,caranguejos terrestres, escorpiões e outros artrópodes. Os juvenis têm hábitos crepusculares, alimentando-se de lagartos e buscando activamente alimento. À medida que crescem e se tornam adultos, começam a especializar-se em roedores. De facto, a presença de roedores e lagartos é a principal razão pela qual estas serpentes são atraídas a habitações humanas.
Sabe-se que os juvenis podem ser canibais.
Mimetismo thumb|right|A boa-da-areia, Gongylophis conicus, possivelmente mimetiza a aparência de D. russelii. Alguns herpetólogos crêem que como D. russelii é uma espécie bem-sucedida, e com uma reputação temível no seu ambiente natural, outra serpente mimetiza a sua aparência. Superficialmente, a boa-da-areia, Gongylophis conicus, possui um padrão de cores que frequentemente se assemelha ao de D. russelii, embora seja completamente inofensiva.
Veneno miniaturadaimagem|As mortais presas da Víbora-de-russell são retráteis e capazes de injetar grandes quantidades de veneno A quantidade de veneno produzida por espécimes individuais de D. russelii é considerável. Os volumes de veneno reportados para espécimes adultos variam de 130-250 mg até 21-268 mg. Para 13 juvenis com um comprimento total médio de 79 cm, o volume médio de veneno medido foi 8-79 mg (média 45 mg).
O valor de LD50 para ratos, que é usado como possível indicador da toxicidade do veneno da serpente, é 0.133 mg/kg intravenoso, 0.40 mg/kg intraperitoneal, cerca de 0.75 mg/kg subcutâneo. Para a maioria dos humanos, uma dose letal é aproximadamente 40–70 mg. Em geral, a toxicidade depende de uma combinação de cinco fracções de veneno diferentes, sendo cada uma delas menos tóxica quando testada separadamente. A toxicidade do veneno e os sintomas produzidos pela mordedura em humanos varia dentro de uma mesma população e ao longo do tempo.