Dom Quixote é uma série de 370 gravuras em metal e xilogravuras criada por Gustave Doré, eminente artista francês do século XIX, para a ilustração de Dom Quixote de La Mancha de Miguel de Cervantes na edição em francês de 1863.
As ilustrações da obra foram tão influentes que determinaram a representação de Quixote e Sancho Pança em muitas versões ilustradas subsequentes, produções teatrais e cinematográficas e na imaginação dos leitores, ainda que outros grandes artistas tenham sido atraídos pela obra como por exemplo Honoré Daumier, Pablo Picasso, e Salvador Dalí.
Na edição em inglês de 1868 do Dom Quixote com ilustrações de Gustave Doré, é referido que “em todas as casas de língua inglesa onde se pode soletrar a palavra arte encontram-se edições de Doré”, o que demonstra a enorme popularidade das ilustrações de Doré."Gustave Doré’s Exquisite Engravings of Cervantes’ Don Quixote" na página web "Open Culture", consultado em 29 de abril de 2018,
A ilustração por Gustave Doré da obra de Cervantes não era inédita, pois já havia os exemplos de Coypel e Tony Johannot, e dos ilustradores espanhóis da grande edição de Ibarra publicada em Madrid em 1780. Mas Gustave Doré enfrentou o desafio de forma soberba pois se no início pretenderia apenas 40 desenhos, o livro de Cervantes captou a sua imaginação, tendo acabado por criar quase quatro centenas de ilustrações de várias dimensões.
Do total das gravuras de Gustave Doré para ilustração de D. Quixote é apresentada a seguir uma selecção ilustrativa dos capítulos do volume I da edição em inglês de 1880 editado por J. W. Clark e integrada no ebook "Don Quixote" do Project Gutenberg, que utiliza a tradução de John Ormsby de 1885.Miguel de Cervantes, The History of Don Quixote, ilustrador: Gustave Doré, tradução para o inglês de John Ormsby, 1880, .
Para as ilustrações constantes do Volume II ver Dom Quixote (Gustave Doré) II
Volume I
Capítulo I Que trata da condição e exercício do famoso e valente fidalgo Dom Quixote de La Mancha "Num lugar da Mancha, de cujo nome não quero lembrar-me, ..."
"É, pois, de saber que este sobredito fidalgo, nos períodos em que estava ocioso - que eram os mais do ano - era dado a ler livros de cavalarias, com tanto apego e gosto, que esqueceu quase por inteiro o exercício da caça e também a administração de sua fazenda; e nisto a tanto chegou a sua curiosidade e desatino que vendeu muitos hectares de terra de semeadura para comprar livros de cavalaria para ler, e assim, levou para sua casa todos quantos pôde haver deles."
"Em suma, enfrascou-se tanto da sua leitura, que se lhe iam as noites lendo de uma assentada, e os dias de sol a sol; e assim, do pouco dormir e do muito ler, se lhe secou o cérebro de maneira que acabou por perder o juízo".
"E o que primeiro fez foi limpar umas armas que haviam sido de seus bisavós, que cobertas de ferrugem e cheias de mofo, estavam haviam longos séculos postas e esquecidas a um canto. Limpou-as e reparou-as o melhor que pôde".
Capítulo II Que trata da primeira saída de sua terra do engenhoso Dom Quixote
"E assim, sem avisar ninguém e sem que ninguém o visse, uma manhã, ainda de noite,...armou-se de todas as suas armas, montou em Rocinante, enfiou o escudo no braço, pegou na lança e saiu para o campo pela porta furtada do pátio... "
"Com estes ia desfiando outros disparates, todos à maneira daqueles que os seus livros lhe haviam ensinado, imitando sempre que podia a linguagem deles. Com o que, caminhava tão devagar, e o sol subia tão depressa e com tanto calor, que teria bastado para derreter-lhe os miolos, ainda tivesse alguns."
"...e, ao anoitecer, seu cavalo e ele estavam cansados e mortos de fome,...viu, não longe do caminho por onde ia, uma estalagem....Estavam por acaso à porta duas mulheres moças, dessas a que chamam de frete,...".
"...Acudiu a segurar o estribo a Dom Quixote, o qual se apeou com muita dificuldade e trabalho, como alguém que passara o dia todo sem comer.... nunca souberam nem puderam desencaixar-lhe o capacete que trazia preso por umas tiras verdes, e que seria preciso cortar, ao que ele não autorizou, de maneira alguma, e assim ficou com ele posto toda a noite."
"Puseram-lhe a mesa à porta da estalagem, à fresca, e trouxe-lhe o estalajadeiro uma porção de mal demolhado bacalhau e um pão tão escuro e sujo como as suas armas; mas vê-lo comer era matéria de grande riso, pois tinha o capacete na cabeça e apenas com a viseira levantada,....Mas dar-lhe de beber não fora possível se o estalajadeiro não tivesse furado uma cana e com uma ponta na boca despejava o vinho pela outra ponta, e tudo isto ele suportava com paciência porque não queria cortar as fitas com que amarrara o capacete."
"Nisto, passou pela estalagem um castrador de porcos e quando chegou tocou uma gaita de canas quatro ou cinco vezes, o que para Dom Quixote foi confirmação de estar num castelo e que o serviam ao som de música, sendo as rameiras as damas e o estalajadeiro o castelão do castelo.....Mas o que mais o afligia era o não ser armado cavaleiro, por lhe parecer que não poderia legitimamente ir em aventura alguma sem receber a ordem de cavalaria".
Capítulo III Onde se conta a graciosa maneira que teve Dom Quixote de ser armado cavaleiro
"E assim, com este pensamento a afligi-lo, abreviou a sua ceia, e quando acabou, chamou o estalajadeiro e levou-o para a cavalariça, e ajoelhou-se diante dele dizendo-lhe: - Jamais me levantarei donde estou, valoroso cavaleiro, até que vossa senhoria me outorgue um dom que resultará em vossa honra e em favor do género humano..., é que amanhã, sem mais tardar, me armeis cavaleiro, e esta noite na capela deste vosso castelo velarei as armas,..."
"O estalajadeiro que era um tanto manhoso, e entendia já a falta de juízo do seu hóspede, o que comprovou com tal pedido,...disse-lhe que naquele seu castelo não havia capela, pois fora derrubada para se fazer uma nova, mas que as armas se podiam velar em qualquer parte e que o poderia fazer num pátio do castelo, ..."
"E assim, recolhendo as suas armas, Dom Quixote as colocou por cima de uma pia que estava junto a um poço... e com gentil compostura começou a passear diante da pia".
"Os companheiros dos feridos começaram a atirar pedras a Dom Quixote,...e antes que outra desgraça sucedesse, determinou o estalajadeiro dar-lhe depressa a ordem de cavalaria, ...que consistia na pescoçada e na espadeirada,..."
"O estalajadeiro trouxe um livro onde assentava a palha e a cevada que dava aos arrieiros, e com um coto de vela que lhe trazia um rapaz, e perante as duas ditas donzelas, mandou ajoelhar a Dom Quixote e, lendo o livro como quem reza uma oração, tocou-lhe com a espada no pescoço e deu-lhe depois uma gentil espadeirada. Feito isto, mandou que uma das damas lhe cingisse a espada, o que ela fez com muita desenvoltura dizendo:
- Deus faça vossa senhoria um muito venturoso cavaleiro e lhe dê sorte nas lides."
"Feita pois à pressa a cerimónia até então nunca vista, Dom Quixote selou rapidamente o Rocinante, abraçou o estalajadeiro agradecendo-lhe a mercê de o ter armado como cavaleiro, montou a cavalo e partiu, sem que o estalajadeiro lhe tivesse pedido o custo da pousada deixando-o ir embora."
Capítulo IV Do que sucedeu ao nosso cavaleiro quando saiu da estalagem
"Dom Quixote saiu da estalagem contente destinado a volver a sua casa para recolher provisões e um escudeiro,.e não andara muito quando lhe pareceu ouvir alguém a queixar-se. Encaminhou o Rocuinante para onde ouvui vozes, e mais à frente viu uma égua atada a uma azinheira e noutra um rapaz de tronco nu o qual gritava porque um lavrador de bom porte lhe dava açoites com uma correia."
"Dom Quixote, vendo o que se passava gritou:
- Ó descortês cavaleiro, mal parece bateres a quem não pode defender-se. Monta o teu cavalo e pega na tua lança (que estava arrumada à azinheira) e eu te farei ver que é de cobarde o que estás a fazer."
"O lavrador, vendo vir contra si aquela figura brandindo a lança sobre o seu rosto, julgou que morria e respondeu ao cavaleiro: - Estou a castigar este meu criado que me guarda um rebanho de ovelhas e é tão descuidado que perde uma em cada dia. E ele diz que o castigo por velhacaria, para não lhe pagar a soldada que lhe devo".
O lavrador soltou o jovem e comprometeu-se a pagar-lhe, mas assim que Dom Quixote se foi embora voltou a atá-lo na azinheira e deu-lhe tantos açoites que o deixou quase morto.
Dom Quixote continuara caminho muito contente com o princípio das suas cavalarias quando encontrou um grande tropel de gente, que eram seis mercadores de Toledo com guarda-sóis de sela e quatro criados a cavalo e três moços de mulas pé, para quem Dom Quixote gritou: - Alto a toda a gente, se não confessarem que a mais bela do mundo é a sem-par Dulcineia de Toboso.
Ao que um deles respondeu que tal não podiam dizer porque não a conheciam e se assim era que ele a mostrasse. Irado com a resposta, Dom Quixote investiu com a lança baixa contra o que respondera, mas o Rocinante tropeçou e caiu e com ele o seu dono que rebolou no chão.
Nisto um dos moços das mulas apanhou a lança e quebrou-a em pedaços e com estes começou a bater em Dom Quixote e deu-lhe tantas pauladas que este ficou miseravelmente caído.
Cansou-se o moço e os mercadores foram-se embora deixando o pobre Dom Quixote desancado, e quando se viu só tentou levantar-se, e mesmo assim se dizia com sorte pois aquela desgraça era própria dos cavaleiros andantes atribuindo o mal sucedido à falha do seu cavalo.
Capítulo V Onde continua a narrativa da desgraça do nosso cavaleiro
Vendo que não podia mover-se, Dom Quixote lembrou-se do seu remédio habitual, que era pensar nalguma passagem dos seus livros, e veio-lhe à memória o de Valdovinos e do Marquês de Mântua,Personagens do ciclo carolíngio que têm origem na canção de gesta do século XII Ogier le Danois. e começou a recitar: "- Onde está, senhora minha, que não te dóis do meu mal? Ou não sabes, senhora, ou és falsa e desleal."
Por sorte, aconteceu passar por ali um lavrador seu vizinho que tinha ido levar uma carga de trigo ao moinho, o qual, quando o viu ali estendido, lhe perguntou quem era e porque assim estava tão combalido. Dom Quixote julgando que estava a falar com o Marquês de Mântua respondeu-lhe em conformidade com a trama do romance de cavalaria. O lavrador admirado de ouvir tais disparates, tirou-lhe a viseira, que estava desfeita das pauladas, limpou-lhe o rosto e reconheceu-o: - Senhor Quijana (assim era o verdadeiro nome de Dom Quixote antes de se tornar em cavaleiro andante), quem o deixou neste estado?
O lavrador tirou-lhe a couraça do peito mas não encontrou sangue nem ferida. Com dificuldade montou Dom Quixote no seu burro, recolheu as armas do cavaleiro e amarrou-as no Rocinante e pegando nas rédeas dos dois animais dirigiu-se para o povoado, ouvindo os disparates que Dom Quixote, moído e quebrantado, ia dizendo entremeadas com suspiros.
Quando o lavrador lhe perguntou como ia, respondeu-lhe Dom Quixote conforme uma das histórias de Diana de Jorge de Montemor, confirmando o lavrador que o seu vizinho estava louco e ansiando para que chegassem depressa ao destino.
Chegaram ao povoado quando anoitecia e dirigiram-se a casa de Dom Quixote que encontraram toda alvoroçada estando nela o padre e o barbeiro, que eram grandes amigos de Quixote, e a ama deste que dizia ao padre que já há três dias que o seu patrão não aparecia, faltando o cavalo e as armas, e que a culpa só podiam ser os malditos livros de cavalaria que ele lia tão habitualmente que lhe deram volta ao juízo. E que o ouvira dizer muitas vezes que queria armar-se como cavaleiro andante e ir em busca de aventuras.