Língua taíno, também grafada taino, é uma língua extinta e escassamente atestada da família arawak, falada pelos taínos das Antilhas. Na época do primeiro contato com os espanhóis, era a língua mais difundida do Caribe.
No final do século XV, o taíno já havia suplantado as línguas faladas anteriormente nas Grandes Antilhas, exceto no extremo oeste de Cuba e em alguns redutos de Hispaniola. Entretanto, com o declínio da cultura taíno devido à colonização europeia, a língua foi substituída pelo espanhol, pelo inglês e pelo francês. Estima-se que ela tenha deixado de ser falada cerca de cem anos após o contato, embora bolsões isolados no Caribe possam ter sobrevivido até as últimas décadas do século XIX.
Por ter sido a primeira língua indígena com que os europeus tiveram contato nas Américas, o taíno foi fonte importante de empréstimos para as línguas europeias, sobretudo em campos semânticos ligados à fauna e flora locais e às práticas culturais americanas. Desde a década de 2010, diferentes iniciativas comunitárias e acadêmicas vêm tentando revitalizar a língua em uma variedade moderna, o neotaíno.
Linguisticamente, sabe-se muito pouco sobre o taíno; era uma língua ágrafa e as únicas informações sobreviventes são de relatos e transcrições espanholas.
Etimologia
O nome "taíno" tem sua origem no termo nativo nitayno, que se referia a classe social de elite dos "homens de bem", mas não era um endônimo étnico nem linguístico. Cristóvão Colombo e os demais conquistadores espanhóis se referiram aos taínos somente como "índios", sem menção alguma ao nome nativo utilizado por eles.
Historicamente empregaram-se as denominações "arawak insular" ou somente "arawak". O termo taíno consolidou-se somente a partir da década de 1980 como uma proposta acadêmica para evitar a confusão com as línguas arawak da América do Sul.
Distribuição As estimativas para a população taíno pré-colombiana são disputadas, com cálculos que vão de dezenas de milhares a milhões de pessoas. Geograficamente, os taíno habitavam as Bahamas, a Jamaica, Porto Rico, as Ilhas Leeward e a maior parte de Cuba e de Hispaniola.
Essa unidade linguística dos taíno é notada pelo próprio Cristóvão Colombo e por Bartolomeu de las Casas. Na carta de Colombo sobre a primeira viagem, ele registra que se falava uma língua comum nas "islas de India" e que os habitantes de diferentes ilhas se visitavam de canoa e se entendiam entre si. Na Historia de las Indias, las Casas descreve que a maior parte dos habitantes de Cuba provinha da Hispaniola, ao passo que a população mais antiga da ilha se assemelhava à das Ilhas Lucaias, havendo diferenças étnicas, mas sendo a língua a mesma.
O taíno clássico funcionava como a língua franca das Antilhas. O dialeto de prestígio era o do Cacicado de Xaraguá, que se havia expandido até o extremo oeste de Cuba pouco antes do contato europeu.
Dialetos miniaturadaimagem|upright=1|Distribuição dos povos e línguas arawak taíno, caribe (inheri) e guanahatabey nas Antilhas, na época da chegada dos espanhóis.
A divisão clássica dos dialetos distingue duas variedades a partir dos relatos de Bartolomeu de las Casas, um oriental e outro ocidental:
Taíno clássico (oriental), falado nas áreas culturais do taíno clássico e do taíno oriental: as Pequenas Antilhas ao norte de Guadalupe, Porto Rico, o centro de Hispaniola e o extremo sul das Ilhas Turcas e Caicos. Na época da conquista espanhola, encontrava-se em expansão para o leste e mesmo para o centro de Cuba. Taíno ciboney (ocidental), falado nas áreas culturais ciboney e lucaiana: centro-oeste de Cuba, arquipélago das Lucaias, as zonas rurais do oeste de Hispaniola e a Jamaica.
Entretanto, classificações mais antigas reconheciam um número maior de variedades. Rafinesque (1836), por exemplo, arrolava os seguintes dialetos: aipiri-cibonei (Cuba e Bahamas); bimini (sul da Flórida); boriken (Porto Rico); cairi (Trindade); eyeri (Pequenas Antilhas e Porto Rico); haitiano; jamaicano; e lucaiano (Bahamas).
Classificação miniaturadaimagem|upright=1|Mapa dos cacicados em Hispaniola, na época da chegada dos espanhóis.
A classificação interna das línguas arawak é tópico de extensas discussões acadêmicas, sobretudo pela alta dispersão da família, grande número de línguas extintas e falta de dados. Apesar disso, é consenso que o taíno faz parte de um subgrupo de línguas arawak insulares, que inclui algumas línguas faladas na América do Sul.
A partir do que se sabe do taíno, ela foi uma língua próxima do lokono e ainda mais do inheri, também extinta. Há, inclusive, a hipótese de que o taíno e o inheri tenham sido dialetos de uma mesma língua; contudo, o vocabulário sobrevivente dessas línguas não permite provar ou descartá-la. Uma das evidências para essa classificação é que, em contexto intervocálico, há a correspondência fônica /d/ (lokono) - /r/ (inheri) - /r/ (taíno).
A seguir está a classificação de Henri Ramirez (2020) para o subgrupo do taíno:
Arawak Central-Amazonas-Antilhas ? (supergrupo) Amazonas-Antilhas Amazonas-Bahamas Marawá Lokono Inheri-taíno Inheri Garifuna Taíno Maracaibo Wayuu Paraujano ? Waraiku ? Wirina
Contato com outras línguas
O taíno convivia nas Grandes Antilhas com línguas de filiação não arawak, sobre as quais exercia posição dominante. Em Hispaniola falavam-se o macorís, em duas variedades da costa norte, e o ciguaio, na Península de Samaná. Os únicos vocábulos atestados dessas línguas foram registrados por contraste com o taíno. Bartolomeu de las Casas anota que os ciguaios chamavam "ouro" de tuob, e não caona, como na maior parte da ilha, e que no macorís se dizia baeza para "não", quando em taíno usava outra forma não mencionada.
Granberry e Vescelius (2004) atribuem às duas línguas filiações distintas. O macorís, tal como o guanahatabei do extremo oeste de Cuba, pertenceria a uma família waroide, aparentada ao warao do delta do Orinoco e do litoral venezuelano. Já o ciguaio seria aparentado às línguas tolanas de Honduras e, por extensão, ao hokano, hipótese que os próprios autores classificam como logicamente incerta por assentar em apenas dois itens lexicais. Eles reconstroem o contato linguístico pré-colombiano no Caribe como a substituição progressiva de um estrato waroide pelo taíno em Porto Rico e no leste e centro de Hispaniola, e como mescla no oeste de Hispaniola e em Cuba, de onde teria resultado, entre os séculos V e X, o dialeto cibonei. Entretanto, esse substrato waroide também teria deixado vestígios lexicais no próprio taíno, como duho "banco cerimonial", no taíno clássico, e nosái "ouro", no cibonei.
História
Origens miniaturadaimagem|upright=1|Recostrução de uma aldeia taíno em Cuba.
A presença do taíno nas Antilhas resulta da expansão, a partir da América do Sul, dos povos arawak que introduziram a cerâmica e a agricultura intensiva no arquipélago. O deslocamento de portadores da cerâmica cedrosana saladoide, falantes de uma língua arawak ancestral do taíno clássico, teriam saído do continente a partir das Guianas por volta do século I d.C., segundo dados glotocronológicos, ou entre os séculos III e V, segundo datações radiocarbônicas. Esse movimento populacional tem uma origem muito anterior, no interior da Amazônia, partindo do Rio Solimões e atravessando os rios Negro e Branco até o litoral Atlântico das Guianas para, por fim, chegar às Antilhas.
No Caribe, entretanto, já havia duas camadas populacionais anteriores, hipotetiza-se que a mais antiga tenha sido de fala jicaqueana, chegada antes de 3000 a.C. da costa entre Belize e Honduras, e que a outra tenha sido waroide, presente por volta de 1000 a.C. e oriunda do litoral norte da América do Sul, atual Venezuela. Um estudo de DNA antigo, publicado em 2021, concluiu que as linhagens da Idade Arcaica, associadas a essas camadas populacionais anteriores, foram substituídas em mais de 98% por uma população geneticamente homogênea, associada à cerâmica e aparentada a povos falantes de línguas arawak do nordeste da América do Sul, correspondente aos ancestrais dos taíno.
miniaturadaimagem|upright=1|Escultura taíno de um espírito ancestral (chamados de Zemí).
Entre os anos 400 e 900, o avanço do taíno para oeste do Caribe acompanhou a difusão das cerâmicas ostionoide e meillacoide primitiva. Nesse intervalo a língua teria substituído o estrato waroide em Porto Rico e no leste e centro da Hispaniola, ao passo que no oeste da ilha e em Cuba com ele se mesclou, dando origem ao dialeto ciboney. Duas expansões posteriores delimitam o espaço taíno no período pré-colombiano. Por volta de 1200, os taínos chegaram às Ilhas Turcas e Caicos, movimento atestado pela presença de cerâmica chicoide na região; por volta de 1450, falantes do taíno clássico atravessaram o Canal de Barlavento do noroeste do atual Haiti para o extremo leste de Cuba, onda de migração que a chegada dos espanhóis vai acelerar.
Contato com europeus miniaturadaimagem|upright=1|Mulheres taíno preparando pão de mandioca em gravura espanhola.
O desembarque de Cristóvão Colombo em Guanahani, a 12 de outubro de 1492, deu-se nas Ilhas Lucaias, habitadas por povos taíno. Um cativo taíno batizado Diego Colón tornou-se o principal intérprete da armada, mas o alcance da língua franca tinha limites: em meados de abril de 1494, durante a segunda viagem, ele não conseguiu entender a fala dos habitantes do golfo de Batabanó, no extremo oeste de Cuba.
O taíno foi a primeira língua indígena que os europeus ouviram e registraram nas Américas, por conta disso, o taíno legou ao espanhol numerosos termos relativos a plantas, animais e práticas culturais americanas até então desconhecidas dos europeus. Do espanhol, muitos desses vocábulos passaram a outras línguas, entre as quais o português, o inglês e o francês. O taíno deixou marcas ainda no espanhol de Porto Rico e teria contribuído para a formação do crioulo haitiano. +Empréstimos do taíno em línguas europeias Taíno Sentido Formas em línguas contemporâneas barbakoa grelha barbacoa (espanhol), barbecue (inglês), barbacoa kasiké chefe cacique (espanhol), cacique kaimã jacaré caimán (espanhol), caiman (inglês), caimão kaniba caribe canibal kanowa canoa canoa (espanhol), canoe (inglês), canoa kasabi mandioca casabe (espanhol), cassava (inglês) kaya ilha cayo (espanhol), cay, caye ou key (inglês), caye (francês) seba ceiba ceiba (espanhol), ceiba wayaba goiaba guayaba (espanhol), guava (inglês), goyave (francês), goiaba hamaka rede de descanso hamaca (espanhol), hammock (inglês), hamac (francês), maca hurakã (/hodakã/?) tempestade huracán (espanhol), hurricane (inglês), ouragan (francês), furacão iwana iguana iguana (espanhol), iguana mahis, máhisi milho maíz (espanhol), maize (inglês), maisena manatí peixe-boi manatí (espanhol), manatee (inglês), lamantin (francês), lamantino (italiano), manati papaya mamão papaya (espanhol), papaia batata batata-doce patata (espanhol), potato (inglês), patata (italiano), patate (francês), patata (basco), patates (turco), πατάτα (grego), batata sabana campo com poucas árvores sabana (espanhol), savanna (inglês), savane (francês), savana (italiano), Savanne (alemão), savana taíno parentes taíno tabako tabaco tabaco (espanhol), tobacco (inglês), tabac (francês), Tabak (alemão), tabaco A documentação mais extensa do taíno é, entretanto, posterior e retrospectiva, quando a população falante já se encontrava em declínio, já que Bartolomeu de las Casas e Gonzalo Fernández de Oviedo escreveram décadas depois do contato. Las Casas dedicou à edição da Historia de las Indias o período entre 1547, quando se retirou definitivamente para a Espanha, e a sua morte, em 1566.
Extinção miniaturadaimagem|upright=1|Gravura espanhola da Batalha de Vega Real, na qual as forças de Colombo derrotaram a resistência taíno em Hispaniola.