centro|semmoldura|920x920px|alt=|Imagens doadas por Henry Zvi Lothane. Autor: Angelo.AA:Ficheiro:Henry-lothane.jpg
Henry Zvi Lothane é um psiquiatra, psicanalista, professor e escritor Norte-Americano. Actualmente exerce actividade como Professor na Área Clínica da Escola de Medicina de Mount Sinai, Nova Iorque, e é especializado na área de psicoterapia. É o autor de oitenta artigos de cariz académico e de diversos ensaios críticos sobre temas relacionados com a psiquiatria, psicanálise, e com a História da psicoterapia, e também de um livro sobre o famoso caso Schreber, intitulado “Em Defesa de Schreber”.
“Em Defesa de Schreber” examina a vida e o trabalho de Daniel Paul Schreber, tendo como pano de fundo a psiquiatria e a psicanálise do século XIX e do início do Século XX.
Vida e Trabalho
1118x1118px|borda
Lothane nasceu numa família Judaica em Lublin, na Polónia, em 1934. Face à divisão da Polónia entre Alemães e Soviéticos em 1939, a família fugiu para a Polónia Oriental, nessa época território sob controlo Russo, e aí viveu entre 1939 e 1941. Pouco tempo antes da invasão Alemã da Rússia em 1941, o pai de Lothane ofereceu-se como voluntário para emigrar para a Rússia, salvando assim a sua família de ser aniquilada. Em 1946 os Lothane regressam a Lublin, onde Lothane frequenta a escola primária. Mais tarde, viria a frequentar o ensino secundário em Lodz até 1950, ano em que a família emigra para Israel. Lothane completa estudos no liceu Ohel Shem, em Ramat Gan, Israel. Tendo demonstrado aptidão para aprender idiomas, trabalha como tradutor militar durante o seu período de serviço nas Forças de Defesa Israelitas. Após terminar o serviço militar, Lothane estuda numa Universidade Hebraica, a Hadassah Medical School, em Jerusalém, na qual se licencia em 1960. Depois de completar o seu internato no Beilinson Hospital em Petach Tikwa no ano de 1962, inicia actividade no Talbieh Psychiatric Hospital, em Jerusalém, então dirigido pelo psiquiatra e psicanalista Professor Heinrich Winnick. Em 1963 emigra para os Estados Unidos com a sua mulher e filha, e completa o seu internato de especialidade no Strong Memorial Hospital, em Rochester, Nova Iorque, orientado pelo Professor John Romano. Lothane foi Chefe de Unidade no Hillside Psychiatric Hospital, em Nova Iorque, de 1963 a 1969. Entre 1966 e 1972 estudou psicanálise no New York Psychoanalytic Institute, na cidade de Nova Iorque.
A partir de 1969 torna-se membro de faculdade na Icahn School of Medicine em Mount Sinai, Nova Iorque, onde se elevou à posição de Professor Clínico de Psiquiatria. No âmbito da sua actividade clínica privada, Lothane exerce psiquiatria, psicoterapia e psicanálise. Trabalha também no Consulado da Alemanha como psiquiatra especialista desde 1994, avaliando os pedidos de reparação apresentados por sobreviventes do Holocausto, incluindo os dos sobreviventes de Auschwitz (o 70º aniversário da libertação do campo foi recentemente celebrado). Lothane é um Distinguished Life Fellow (distinção que reconhece desempenhos profissionais significativos e uma exemplar dedicação à causa pública) da American Psychiatric Association, além de membro das American Psychoanalytical Association e International Psychoanalytical Association. Foi presidente da American Society of Psychoanalytic Physicians.
As suas publicações englobam diversos temas nos domínios da psiquiatria, psicanálise, e da psicoterapia. Entre as principais áreas que abordou encontram-se (1) a história da psicanálise (incluindo estudos sobre Sigmund Freud, Carl G. Jung, Daniel Paul Schreber, Sabina Spielrein e a psicanálise sob o Nazismo), (2) metodologia, técnica clínica e psicanálise contemporânea, (3) amor e sexo, e (4) a “dramatologia”, uma abordagem ao trabalho e técnica clínicos que Lothane desenvolveu. Amiúde, os escritos de Lothane estabelecem pontes entre alguns destes temas. Por exemplo; baseia-se frequentemente na sua pesquisa histórica para corrigir equívocos sobre Freud, surgidos em discussões contemporâneas sobre técnica psicanalítica.
O Caso Schreber direita|semmoldura|231x231px|http://3.bp.blogspot.com/_WC6F7_EBvnw/R6KxO9H3qnI/AAAAAAAAADM/QJyHZj99aSc/s1600-h/Paul_Schreber(11).jpg Daniel Paul Schreber era um juiz Alemão que foi três vezes internado em hospitais psiquiátricos (1884, 1893 e 1907). O segundo episódio de internamento, no decurso do qual foi oficialmente diagnosticado como doente mental, tornou-se um livro publicado em 1903 - Denkwürdigkeiten eines Nervenkranken (Reflexões de um Doente dos Nervos) - que contou com uma publicação em língua Inglesa de 1955, sob o título “Memórias da Minha Doença dos Nervos”.[2]Estranhamente, a tradução Inglesa omitiu o sub-título “Em que circunstâncias pode uma pessoa que é declarada mentalmente insana ser retida num asilo contra a sua expressa vontade?”, subtraindo assim ao título do livro o seu tópico central: a tentativa de Schreber de recuperar a sua liberdade.
Graças à análise pioneira de Freud ao livro de Schreber, escrita em 1911, o “caso Schreber” tornou-se uma referência base da literatura psicanalítica, destacando-se a tese de Freud sobre a causa do segundo episódio da doença mental de Schreber, e em especial da sua paranoia, como foi então denominada. A tese afirmava que essa causa foi o desejo homossexual passivo de Schreber relativamente ao seu primeiro psiquiatra, Paul Flechsig.
O caso Schreber tornou-se novamente famoso em 1959 com a publicação do trabalho "Schreber: father and son”, elaborado pelo psicanalista Norte-Americano W. G. Niederland . Niederland sustentou que Schreber foi molestado pelo seu pai, Moritz, através de uma educação com características sádicas, e do uso de aparelhos ortopédicos torturantes, elementos aos quais, de acordo com Niederland, Schreber se refere no capítulo XI do seu livro. Morton Schatzman defendeu essencialmente a mesma tese no seu best-seller de 1973, “Soul Murder, Persecution in the Family” . Por outro lado, a biografia escrita por Han Israel em 1989 argumenta que o carácter de Moritz Schreber foi injustamente denegrido no que se escreveu sobre o seu filho. Nesse mesmo ano aparece o primeiro ensaio de Lothane sobre Schreber, concentrando-se esse trabalho nos registos históricos da relação entre Schreber e os seus médicos . A investigação de Lothane constituiu uma revisão fundamental da biografia e da interpretação da vida e obra de Paul Schreber, em grande parte porque se baseou numa nova pesquisa de arquivos e factos históricos, concentrando-se em particular nas lacunas abertas por Freud e Niederland. Por exemplo, o estudo de Freud não fazia qualquer menção nem à mãe nem à mulher de Schreber, com excepção para a especulação de Freud sobre o papel desta última, ao constituir uma protecção contra a atracção que Schreber sentiria pelos homens que o rodeavam. De forma semelhante, Niederland pouco diz sobre a mãe e sobre a mulher de Schreber, embora fosse de esperar que ambas tivessem sido dramatis personae muito importantes no drama patente na vida de Schreber, especialmente de um ponto de vista psicanalítico. Embora exista especulação nos trabalhos de Freud e de Niederland acerca das fantasias de Schreber sobre Flechsig, não é evidenciada grande preocupação em perceber a natureza real do relacionamento de Schreber com Flechsig, encontrando-se, porém, esse material registado em diversos arquivos. As pesquisas sobre Schreber, incluindo o estudo, com dimensão de livro, “In Defense of Schreber”, e perto de trinta artigos e análises publicadas entre 1989 e 2014, adicionam dados novos e novas avaliações às quais Freud, Niederland e outros investigadores não tiveram acesso, não só relativamente ao próprio Schreber, mas também às figuras principais da sua vida. Talvez o elemento mais original da abordagem de Lothane seja o respeito que demonstra por Schreber, reconhecendo-o como pensador de valor por mérito próprio, e como professor, tendo facultado lições importantes a psiquiatras e a psicanalistas .
“In Defense of Schreber” motivou cerca de 40 ensaios críticos, um conjunto que inclui reacções muito positivas e reacções muito negativas. Por exemplo, o psiquiatra Richard Chessick comenta de forma positiva o livro, considerando-o uma correcção de “inúmeros erros históricos”: “Lothane, através da sua meticulosa investigação histórica, disponibiliza uma compreensão integral sobre o estatuto da psiquiatria nessa época, e a noção daquilo que Schreber teve de suportar, no que diz respeito à sua mulher e a diversas figuras de autoridade.” Outros críticos foram mais negativos; por exemplo, Gerd Busse, sobre a edição de 1992, e Ernst Falzeder, sobre a edição revista de 2004. Algumas das interpretações singulares de Lothane sobre o caso Schreber surgiram no filme “Shock Head Soul”, de 2011, que aborda o caso.
Sabina Spielrein esquerda|semmoldura|299x299px|:Ficheiro:Sabina Spielrein.jpg
Sabina Spielrein foi uma médica e psicanalista Russa Judaica, e a segunda mulher a integrar o círculo de Freud em Viena. Em 1904, aos 19 anos de idade, Spielrein viajou para a Suíça com a intenção de estudar na Universidade de Zurique. Pouco depois da sua chegada, sofreu um esgotamento nervoso e foi internada no hospital psiquiátrico Burghölzli, tornando-se paciente do director Eugen Bleuler e do seu assistente C. G. Jung, nessa época com 29 anos de idade. Spielrein tornou-se também uma doente invulgar, participando nas experiências sobre Associação de Palavras de Jung e de Franz Riklin, e matriculando-se efectivamente na escola de medicina de Zurique onde, em 1911, completou o curso, escrevendo a primeira investigação psicanalítica sobre um paciente esquizofrênico para a sua dissertação. Após vários anos de actividade como psicanalista na Europa, Spielrein regressou à União Soviètica em 1923, onde leccionou psicanálise e tratou tanto adultos como crianças, até ao momento em que a psicanálise é banida pelo regime de Stalin. Depois da invasão Alemã em 1942, Spielrein e as suas duas filhas foram assassinadas e enterradas numa sepultura comum. Uma colectânea dos trabalhos de Spielrein foi publicada na Alemanha. O mais famoso desses escritos abordava a destruição como geradora de algo novo, trabalho que inspirou a teoria do Instinto de Morte de Freud.
Em 1906, Jung contou a Freud que tratava uma estudante, que não identificou; um caso difícil que se foi tornando ainda mais difícil, até alcançar um clímax dramático em 1909. Este episódio não se fez notar até 1980, ano em que o analista Aldo Carotenuto, seguidor das ideias de Jung, publicou o livro “A Secret Symmetry: Sabina Spielrein between Jung and Freud” (a versão em Inglês é de 1982), baseado no diário Alemão de Spielrein e em cartas trocadas entre Jung e Freud. Como resultado desse livro, tornou-se amplamente aceite que Spielrein, enquanto paciente, e Jung, ainda na qualidade de seu psiquiatra, se envolveram num relacionamento amoroso. Tal implicaria má conduta profissional da parte de Jung, e possível escândalo e desgraça, uma vez que Jung suspeitaria que Spielrein fosse capaz de espalhar rumores sobre si. Esta hipótese também implica que Jung e Freud entraram em conluio para suprimir a hipótese de tal escândalo.