Boana cambui é uma espécie de anfíbio anuro da família dos hilídeos (Hylidae). Foi descrita em 2016 a partir de exemplares coletados na Serra Negra, na Serra da Mantiqueira, município de Rio Preto, em Minas Gerais. O epíteto específico refere-se à localidade conhecida como Cambuí, onde a espécie foi descoberta. Morfologicamente, caracteriza-se pelo corpo esguio, pequeno porte, membrana palpebral quase totalmente translúcida, calcar triangular bem desenvolvido e coloração dorsal castanha com faixas dorsolaterais claras e superfícies ocultas das coxas alaranjadas. Entre as espécies aparentadas, é considerada mais próxima de Boana freicanecae, da qual se distingue por diferenças morfológicas e por apresentar distribuição geográfica amplamente disjunta.
A espécie é endêmica do Brasil e permanece conhecida apenas da localidade-tipo, situada em um fragmento de floresta primária na região do Vilarejo do Funil, na Serra Negra, a cerca de 905 metros de altitude, no domínio da Mata Atlântica. Habita ambientes úmidos associados a poças brejosas e riachos florestais, onde os adultos vocalizam sobre gramíneas, lianas, arbustos e galhos próximos à água. Os girinos desenvolvem-se em poças vegetadas associadas ao riacho do Funil. Apesar de inventários realizados em outras áreas montanas da região, incluindo o Parque Estadual do Ibitipoca, o Parque Estadual da Serra do Papagaio e o Parque Nacional do Itatiaia, não existem registros confirmados fora da localidade-tipo, sugerindo que sua distribuição esteja restrita ao vale onde foi descoberta.
A distribuição extremamente restrita faz de B. cambui uma espécie de elevado interesse conservacionista. Em 2021, foi avaliada pela União Internacional para a Conservação da Natureza (UICN) como vulnerável (VU) pelo critério D2, devido à ocorrência em uma única localidade e à suscetibilidade a ameaças capazes de afetar rapidamente toda a população. Em âmbito nacional, foi inicialmente considerada deficiente de dados (DD) em 2017, mas reavaliada como criticamente em perigo (CR) em 2026 sob o critério B1ab(iii), em razão da pequena área de ocorrência, da existência de apenas uma localização conhecida e do declínio contínuo da qualidade do habitat. A espécie não é conhecida em unidades de conservação e está sujeita a ameaças como extração de madeira, uso dos recursos hídricos, incêndios e alterações no uso do solo em sua área de ocorrência.
Taxonomia
Boana cambui é uma espécie de anfíbio anuro da família dos hilídeos, pertencente ao grupo de espécies de Boana pulchella. Foi descrita em 2016 por Paulo D. P. Pinheiro, Tiago L. Pezzuti, Felipe S. F. Leite, Paulo C. A. Garcia, Célio F. B. Haddad e Julián Faivovich, sob a combinação original Hypsiboas cambui, com base em exemplares coletados na Serra Negra, porção da Serra da Mantiqueira situada no município de Rio Preto, em Minas Gerais. O epíteto específico cambui deriva de "cambuí", palavra portuguesa originada do tupi kãbu'i, aplicada popularmente a diversas árvores pequenas ou médias, geralmente retorcidas, da família das mirtáceas, comuns em áreas úmidas e margens de cursos d'água. O nome também corresponde à denominação local da área onde os exemplares da espécie foram coletados, sendo empregado como substantivo em aposição. Entre as espécies do grupo, B. cambui é considerada mais próxima morfologicamente de B. freicanecae, espécie endêmica das florestas montanas do Planalto da Borborema, no Nordeste do Brasil. Apesar da semelhança morfológica, ambas apresentam distribuições amplamente disjuntas: a população mais meridional conhecida de B. freicanecae, no município de Murici, em Alagoas, encontra-se aproximadamente quilômetros ao norte, em linha reta, da localidade-tipo de B. cambui.
Diagnóstico
Boana cambui é atribuída ao grupo de espécies de Boana pulchella pela ausência da porção de origem escapular do músculo depressor da mandíbula. A espécie distingue-se pela combinação de corpo esguio, machos medindo 26,3–32,8 milímetros de comprimento rostro-cloacal e única fêmea conhecida com 32,7 milímetros, membrana palpebral quase inteiramente translúcida, calcar triangular e relativamente grande, dorso de castanho-claro a castanho-escuro e presença de uma faixa dorsolateral clara em cada lado do dorso, contornando a metade posterior externa da pálpebra e expandindo-se anteriormente em um triângulo que cobre a superfície dorsal entre as órbitas e a ponta do focinho. As superfícies ocultas das coxas são alaranjadas em vida, não há barras ou manchas nos flancos e nas faces ocultas das coxas, os calos nupciais estão ausentes e os dentes vomerianos formam duas séries curtas e transversais. A espécie é mais semelhante a B. freicanecae, da qual se diferencia pelo corpo mais esguio, pelo menor tamanho dos machos, pelo calcar proporcionalmente maior e pela coloração alaranjada das superfícies ocultas das coxas e pés em vida, que são creme-claras em B. freicanecae. Também se distingue de numerosas espécies do grupo de B. pulchella pelo menor tamanho corporal dos machos, pela ausência de barras ou manchas verticais nos flancos e nas faces ocultas das coxas, pela ausência de listras ou linhas longitudinais no dorso e pela presença de calcar bem desenvolvido, caráter compartilhado apenas com poucas espécies do grupo.
Morfologia
Os machos da série-tipo medem 26,3–32,8 milímetros de comprimento rostro-cloacal, com média de 30,3 milímetros, enquanto a única fêmea conhecida mede 32,7 milímetros. Nos machos, o comprimento da cabeça varia de 9,3 a 11,3 milímetros, a largura da cabeça de 9,2 a 10,8 milímetros, o diâmetro do olho de 3,2 a 3,9 milímetros, a distância olho-narina de 2,4 a 3,0 milímetros, a distância internarial de 1,8 a 2,1 milímetros, a largura da pálpebra de 2,1 a 3,0 milímetros, a distância interorbital de 2,6 a 3,5 milímetros e o diâmetro do tímpano de 1,3 a 1,7 milímetros. A tíbia mede 14,0–16,8 milímetros, o tarso 8,3–10,3 milímetros, o pé 11,6–14,1 milímetros, o focinho 4,0–4,8 milímetros, a coxa 12,7–15,9 milímetros, o disco do terceiro dedo 1,2–1,6 milímetro, o disco do quarto artelho 1,1–1,5 milímetro e o calcar 0,6–1,1 milímetro. O holótipo é um macho adulto com 32,8 milímetros de comprimento rostro-cloacal. O corpo é esguio, a cabeça é mais larga que o corpo e quase tão larga quanto longa. O focinho é arredondado em vista dorsal e em perfil, o canto rostral é levemente curvado em vista dorsal e arredondado em seção transversal, e a região loreal é ligeiramente côncava. As narinas não são protuberantes e dirigem-se dorsolateralmente. Os olhos são grandes e protuberantes, com membrana palpebral translúcida, sem reticulações e fracamente pigmentada na porção inferior. O tímpano é pequeno, distinto, dirigido dorsolateralmente e separado do olho por distância ligeiramente maior que seu próprio diâmetro. A prega supratimpânica é pouco desenvolvida e cobre a porção superior do anel timpânico.
Os membros anteriores são esguios, não hipertrofiados e sem membrana axilar. Há uma fileira de pequenos tubérculos ulnares justapostos entre a mão e o cotovelo. Os dedos são longos, com discos arredondados, e o comprimento relativo é I < II < IV < III. A fórmula de membrana manual no holótipo é I—II 2—3½ III 3—2½ IV, com franjas laterais presentes nos dedos. Os tubérculos subarticulares são distintos, arredondados em vista ventral, cônicos nos dedos I e II e achatados nos dedos III e IV; há tubérculos supranumerários, tubérculo metacarpal interno achatado e alongado, e tubérculo metacarpal externo grande, achatado e bífido. O calo nupcial está ausente, mas o prepólex é aumentado e pontiagudo, formando uma espinha óssea visível sob a pele. Os membros posteriores são longos e esguios. A prega tarsal está presente e se estende do tubérculo metatarsal interno até o calcanhar. O calcar é grande e triangular em vista dorsal. Os artelhos são longos, com discos arredondados, ligeiramente menores que os dos dedos; o comprimento relativo é I < II < III = V < IV. A fórmula de membrana pedal no holótipo é I 1—2 II 1—2 III 1½—2+ IV 2+—1+ V, com franjas laterais presentes. Há uma camada espessada de tecido na linha mediana da membrana entre os artelhos IV e V. Os tubérculos subarticulares são moderadamente grandes e arredondados em vista ventral; há tubérculos supranumerários, o tubérculo metatarsal externo está ausente e o interno é distinto, achatado e elíptico. A pele é lisa no dorso, mas granular na região peitoral, no abdome e nas superfícies ventrais das coxas. A prega peitoral está ausente. A abertura cloacal é dirigida posteroventralmente, ao nível superior das coxas; a bainha cloacal está ausente, mas há uma crista dérmica supracloacal branca e tubérculos cloacais dispersos que se estendem até a metade das coxas. A língua é ovoide e pouco livre posteriormente. Os processos dentígeros dos vômeres são proeminentes, dispostos em duas séries separadas, quase retas e convergentes medialmente, com seis dentes à direita e oito à esquerda no holótipo. As coanas são grandes e quase arredondadas. Os machos possuem saco vocal único, mediano e subgular, e fendas vocais moderadamente longas.
Em vida, durante a noite, o dorso é castanho-escuro, com pequenos pontos castanho-claros. Há uma faixa dorsolateral castanho-clara de cada lado, contornando a metade posterior externa da pálpebra e expandindo-se anteriormente em um triângulo claro que cobre a região entre as órbitas e a ponta do focinho. Uma linha creme delimita internamente essas faixas e o triângulo, estendendo-se pelo canto rostral até a ponta do focinho, onde se une a uma faixa labial. Lateralmente, uma faixa castanho-escura delimitada ventralmente por uma linha creme estende-se de trás do olho até a região inguinal, cobrindo a porção superior do tímpano. Os tubérculos ulnares, a ponta do calcar e a crista cloacal são branco-creme. As superfícies ocultas das coxas e a membrana dos pés são alaranjadas. A íris varia de cobre a dourada, com fina reticulação negra, e os ossos são verdes, visíveis através da pele. Durante o dia, as cores tornam-se mais pálidas e o contraste entre as áreas claras e escuras diminui; pequenos pontos vermelhos podem ser observados sobre as superfícies dorsais. Em preservativo, a coloração desbota, os pontos vermelhos desaparecem, os pontos claros do dorso tornam-se esbranquiçados e a coloração alaranjada das superfícies ocultas das coxas e membranas dos pés torna-se pálida ou desaparece. A intensidade das manchas dorsais, das faixas dorsolaterais, do triângulo cefálico e da linha creme varia entre indivíduos. A única fêmea conhecida apresenta faixas dorsolaterais, triângulo cefálico, manchas dorsais e partes dorsais dos membros branco-creme, além de faixa lateral castanho-escura cobrindo todo o tímpano. Não foram observadas diferenças evidentes de tamanho ou desenvolvimento dos antebraços entre os sexos, mas a fêmea possui prepólex menos desenvolvido que os machos.
Girino