thumb|upright=1.5| direita|A famosa Gema Augusteia, uma peça romana antiga esculpida em duas camadas de ônix (19 x 23 cm) Gema esculpida ou gema gravada, frequentemente chamada de intaglio, é uma gema pequena e geralmente semipreciosa que foi esculpida (cinzelada), geralmente com imagens ou inscrições em apenas uma das faces na tradição ocidental.Etta M. Saunders, noted (Saunders, "Goddess Riding a Goat-Bull Monster: A Ceres Zodiac Gem from the Walters Art Gallery" The Journal of the Walters Art Gallery 49/50 (1991/1992;7-11) nota 19 As escultura de gemas era uma das formas de arte mais luxuosas na Antiguidade e continuou importante em períodos posteriores. As três mais importantes coleções europeias de gemas esculpidas pós-clássicas são o Cabinet des Médailles, da Biblioteca Nacional de Paris, a coleção Habsburgo, em Viena, e a coleção do Museu Britânico, em Londres.O. M. Dalton, "Mediæval and Later Engraved Gems in the British Museum — I" The Burlington Magazine for Connoisseurs 23 No. 123 (June 1913:128-136) e "II" The Burlington Magazine for Connoisseurs 24 No. 127 (October 1913:28-32).

"Glípticos" ou "arte glíptica" são um subconjunto das gemas esculpidas, geralmente incluindo pequenos selos cilíndricos e inscrições, especialmente num contexto arqueológico. Embora eles tenham sido fervorosamente colecionados na Antiguidade, a maioria das gemas esculpidas originalmente serviam como selos (ou sinetes), geralmente montadas em anéis. Isto porque desenhos esculpidos são mais fáceis de visualizar pelo destinatário de uma correspondência como uma impressão em cera endurecida. Um selo finamente esculpido era prático e dificultava falsificações — uma assinatura pessoal claramente distinguível era virtualmente inexistente na Antiguidade.

Estritamente falando, "esculpir" significa "gravar in intaglio" (com o desenho recortado no fundo plano da gema), mas altos-relevos (com o desenho se projetando "para fora" do fundo, como no caso de quase todos os camafeus) também estão cobertos pelo termo. Neste artigo, a palavra "camafeu" é utilizada no seu sentido estrito, denotando uma gravura explorando as camadas de diferentes cores da gema. Referências a gemas e intaglios antigos em um contexto de joalheria quase sempre é uma referência a gemas esculpidas ao passo que para escultura monumental, contrarrelevo geralmente tem o mesmo significado que intaglio e é geralmente o termo preferido. Vasilhames, como a Taça dos Ptolomeus e cabeças ou figuras esculpidas num formato circular são também conhecidas como "esculturas em pedra dura" ().

História A técnica da escultura em gemas tem uma tradição muito antiga no Oriente Médio e está representada em todas ou quase todas as primeiras culturas da região; o mesmo ocorre com a civilização do Vale do Indo. O selo cilíndrico, cujo desenho só aparece quando é rolado sobre argila molhada (um precursor do anel sinete) era a forma padrão de assinatura na Mesopotâmia, Assíria e outras culturas e dali se espalhou para o mundo minoico, incluindo partes da Grécia e Chipre. Eles eram feitos de vários tipos de pedra, nem todas elas pedras duras. A tradição grega emergiu na arte da Grécia Antiga sob influência minoica na cultura heládica no continente e alcançou um apogeu de refinamento e sutileza no período helenístico. Os selos do Egito pré-helênico tendem a ter inscrições em hieróglifos ao invés de imagens. O Livro do Êxodo bíblico descreve o hoshen, uma couraça peitoral vestida pelo sumo-sacerdote decorada com doze gemas esculpidas com os nomes das doze tribos de Israel. thumb|Camafeu do imperador romano Cláudio em calcedônia no Cabinet des Médailles de Paris Gemas gregas arredondadas ou ovais (assim como objetos similares em osso e marfim) foram encontrados a partir dos séculos VIII e VII a.C., geralmente com desenhos de animais em energéticas poses geométricas e frequentemente com bordas marcadas por pontos ou um anel.Boardman, 39. Veja Beazley para mais detalhes. Exemplos mais antigos foram esculpidos geralmente em pedras mais moles. Gemas do século VI a.C. são com maior frequência ovais ("lenticulares") com um escaravelho no fundo (no passado este tipo era conhecido como "scarabeus") e figuras humanas, divinas ou animais; esta forma foi aparentemente aprendida na FeníciaBeazley, Later Archaic Greek gems: introduction.. As formas são sofisticadas para o período apesar do geralmente diminuto tamanho das gemasBoardman, 68-69. No século V a.C., as gemas se tornaram algo maiores, mas ainda tinham apenas 2-3 centímetros de altura. Apesar disto, o desenho apresenta detalhes muito finos, incluindo os cílios numa cabeça masculina, possivelmente um retrato. Quatro gemas assinadas por Dexamenos de Quio são as mais finas do período, duas delas com desenho de garças.Boardman, 129-130

Escultura em relevo se tornou comum na Grécia do século V a.C. e gradualmente a maioria das mais espetaculares gemas esculpidas na tradição ocidental eram esculpidas em relevo, apesar de os sassânidas e outras tradições tenham se mantido fiéis ao formato intaglio. Geralmente uma imagem em relevo é mais impressionante que uma em intaglio. Na forma mais antiga, o destinatário de um documento percebia isto na impressão deixada na cera endurecida utilizada para selá-lo, ao passo que nos relevos posteriores era geralmente o dono do selo que o guardava consigo, provavelmente marcando a emergência de gemas criadas para ser colecionadas ou vestidas como jóias ou pingentes em colares ao invés de sinetes — as gemas mais modernas eram grandes demais para serem utilizadas para selar correspondências. Porém, inscrições ainda eram geralmente gravadas em reverso ("escrita espelhada") de forma que elas só se tornavam legíveis em impressões (ou vistas pelo verso em gemas transparentes). Este aspecto também explica parcialmente o hábito de colecionar as impressões em gesso ou cera dessas gemas, muito mais fáceis de apreciar do que o original na gema.

O camafeu, que é bastante raro na forma de intaglio, parece ter chegado à Grécia por volta do século III; a Taça Farnese é o único grande exemplo helenístico sobrevivente (dependendo da data aceita para o Camafeu Gonzaga — veja abaixo), mas outras imitações em pasta de vidro com retratos sugerem que camafeus na forma de gemas eram de fato produzidos neste período.Boardman, 187-188 As conquistas de Alexandre, o Grande, abriram novas rotas comerciais para o mundo grego e aumentaram a gama de gemas disponíveis.Beazley, "Hellenistic gems: introduction"

As gemas romanas geralmente continuaram os estilos helenísticos e podem ser difíceis de datar até que sua qualidade abruptamente declinou no final do século II. Filósofos são geralmente as figuras mais populares: Cícero faz referência a pessoas ostentando a efígie de seus preferidos em suas taças e anéis.Boardman, 275-6 Os romanos inventaram o vidro camafeu, mais conhecido por causa do Vaso Portland, como uma forma mais barata para camafeus e uma que permitia a existência de camadas consistentes e previsíveis em objetos perfeitamente redondos.

Durante a Idade Média europeia, gemas esculpidas antigas eram uma forma de arte clássica muito apreciada e uma grande quantidade de gemas antigas (o total exato é desconhecido), ao contrário de outras formas de arte antiga, jamais foram soterradas e depois redescobertas. Gemas eram utilizadas para decorar rebuscadas obras de ourivesaria, como coroas votivas, capas de livros e crucifixos, por vezes de forma muito pouco apropriada dado o tema abordado pela gema. Matthew Paris ilustrou diversas gemas de propriedade da Abadia de Santo Albano, incluindo um grande camafeu do período romano tardio chamado "Kaadmau" que era utilizado para induzir partos atrasados — ele era lentamente descido pelo decote da mãe pela sua corrente enquanto se fazia uma oração a Santo Albano, pois acreditava-se que o bebê fugiria para baixo para escapar deleHenderson, 112-113, uma crença em acordo com as visões do "pai da mineralogia", Georgius Agricola (1494–1555) a respeito do jaspe. Algumas gemas eram gravadas, especialmente cenas religiosas em intaglio, neste período, tanto no Império Bizantino quanto na Europa.Exemplos: , , ambos em ônix e no MMA New York.

No ocidente, a produção de gemas recomeçou a partir do período carolíngio, quando o cristal de rocha era o material mais comum. O Cristal de Lotário (ou "Crista de Susana", no Museu Britânico, com 11,5 cm de diâmetro), que claramente não era utilizado como sinete, é a mais conhecida das vinte grandes gemas em intaglio carolíngeas sobreviventes com cenas figurativas complexas, a maioria das quais utilizada, de fato, como sinetes.Kornbluth, 1, 4 Diversos cristais foram projetados, assim como o Cristal de Susana, para serem admirados através da gema pelo lado não esculpido, o que permitia que suas inscrições fossem lidas diretamente. Em testamentos e inventários, gemas esculpidas eram geralmente citadas no topo da lista de tesouros mais valiosos.Kornbluth, 1, 4-6

Algumas gemas foram esculpidas no sul da Itália num estilo que evocava incrivelmente o clássico para a corte de Frederico II do Sacro Império Romano-Germânico na primeira metade do século XIII, várias delas preservadas no Cabinet des Médailles em Paris. Neste mesmo período, a igreja liderou o desenvolvimento de grandes matrizes metálicas de sinetes, geralmente de dupla-face, para selos em cera que ficavam permanentemente anexados a cartas de concessão e documentos legais similares pendurados em barbantes; apesar disto, selos circulares menores que eram quebrados quando uma carta era aberta continuaram em uso. Não se sabe, porém, em que extensão essa prática era uma continuação ou não de costumes mais antigos. thumb|centro|Antiga gema esculpida romana montada numa joia em ouro|594x594px

Renascimento thumb|esquerda|Camafeu de Adriano, parte da coleção berlinense As cortes medievais tardias francesas e burgúndias colecionavam e encomendavam novas gemas esculpidas e começaram a utilizá-las para retratos pessoais. O Museu Britânico, por exemplo, preserva uma gema que provavelmente é o retrato de João, duque de Berry sentado em intaglio numa safira e o Hermitage abriga um camafeu da cabeça de Carlos VII da França.Campbell, 411

O interesse por estas gemas reacendeu no início do Renascimento italiano, especialmente na República de Veneza, que rapidamente se tornou um importante centro de produção. Juntamente com as estátuas e sarcófagos romanos que passaram a ser escavados e procurados, gemas antigas eram importantes fontes de inspiração para artistas ansiosos por recuperar o vocabulário figurativo clássico. Cópias moldadas em bronze dessas gemas eram feitos e circulavam por toda a Itália e, mais tarde, pela Europa.. Entre os muitos exemplos de inspiração que podem ser recuperados com segurança, a gema "Felix" ou "Diomedes", de propriedade de Lourenço, o Magnífico (veja abaixo), com uma pose pouco usual, foi copiada por Leonardo da Vinci e pode ter sido o "ponto de partida" para um dos ignudi ("nus") de Michelângelo no teto da Capela Sistina. Outra das gemas de Lourenço inspirou, através de um desenho de Perugino, uma pose utilizada por Rafael.