Religião universal (também religião universalizadora), no contexto convencionado da classificação morfológica das religiões, pode conceituar-se como uma religião cujas leis ou preceitos sagrados, bem como sua cosmogenia são postos como de observância obrigatória para todos, nesse caso entendida toda a humanidade. Assim entendida, qualquer que seja (pois podem-se conceber várias, sem reserva), uma tal religião pode ser diretamente contrastada com as, por assim dizer, "religiões étnicas", em termos de suas características, já que estas últimas são, conforme João Hinnells, matizadas por traços étnicos ou de âmbito nacional. Cornelis Tiele é, geralmente, considerado a primeira pessoa a formalizar essa classificação no estudo ocidental da religião. Então, pelo já estabelecido, religião universal pode ter feição plural, isto é, muitas podem-se conceber.
"Universalizar a(s) religião(ões)" é diferente de, embora relacionado a o termo "universalismo", e pode-se entender como estratégia de "universalizar" (ou seja, "absorver, tanto quanto possível, qualquer e toda religião, das preexistentes, em sua estrutura e em seus princípios sagrados, ou, ainda mais contraria e extremadamente, regar tudo até o ponto em que todas as religiões venham a ser encaradas necessariamente como as mesmas, forçosamente e de qualquer maneira"). Contudo, não é, de forma alguma, sinônimo de "universalismo", de feição espontânea e natural.
Características Dentre as religiões conhecidas na história da humanidade, Jainismo é, usualmente, considerado como o mais antigo "modelo religioso universalizador" conhecido, segundo os conceitos apresentados.
As chamadas religiões universalizadoras estão, comumente, ligadas à vida do fundador, em contraste com as religiões étnicas, que se acham mais ligadas ao ambiente físico. As religiões universalizadoras que creem em um universo eterno afirmam, muitas vezes, também, que sua religião é eterna e que é regenerada de tempos em tempos e que o fundador mais recente é apenas o regenerador atual na cadeia infinita de regeneradores. Seu calendário é geralmente baseado em um evento importante na vida do fundador. Elas (as religiões universalizadoras) celebram eventos importantes da vida do fundador, tais como o nascimento, a morte, as datas ou as épocas de pronunciamentos relevantes ("sermões"), a data da iluminação etc.. Creem que o Ser Supremo revela as leis de interação entre as várias entidades do Universo, seja direta ou indiretamente, sobre a Terra. Alguns também acreditam que o mesmo Ser Supremo cria o Universo para usufruto do homem. Creem, ainda, na existência de "pessoas especiais", que compilam as leis do Universo, como lhes é revelado pelo Ser Supremo. Religiões universalizadoras são geralmente, mas não necessariamente, generalizadoras. Ainda uma outra característica das religiões universalizadoras, que raramente se encontra em religiões étnicas, é a facilidade de conversão. Converter-se a uma religião universalizadora é relativamente fácil e muito encorajado pelos praticantes da fé.
Alguns estudiosos de religiões comparadas têm sugerido que pode haver um preconceito discriminativo na nomenclatura de religiões de nível superior para classificações morfológicas e que os ramos do budismo devem ser considerados religiões separadas se forem aplicados critérios uniformes em todas as religiões.Religious Conversion: Religion Scholars Thinking Together, Shanta Premawardhana, John Wiley & Sons, 2015, page 35.
Tomando forma desde o início na consciência religiosa de uma pessoa, essas religiões enfatizam o lado interno e subjetivo da relação religiosa. A relação do homem com seu deus não é um fato pronto, mas um fim espiritual a ser realizado. O espírito interior não é monopólio de nenhuma casta ou povo ou espécie. É no seu próprio espírito que o homem é religioso. A fé é possível para todos. As religiões universais pretendem ser, por assim dizer, "individualizadas", isto é, internas e pessoalmente realizadas, o que, em todo caso, não significa serem individualistas, no sentido de retirar, egoisticamente, o penhor de comunhão entre as pessoas que assim creem. Como todos os homens (e, ainda, espécies, para algumas religiões) têm a mesma natureza espiritual, eles podem compartilhar e participar da mesma experiência religiosa. Nem o parentesco físico de um grupo, nem a participação em um determinado sistema ritual podem criar em um homem ou espécie, ou tirar deles o espírito com o qual eles adoram e servem seu deus, como o concebam. Daí, religião universal mostra-se atraente para o espírito, sem distinção de classe ou raça ou espécie. A salvação ou redenção que oferece está aberta a todos. Assim como o objeto de adoração é um, o método do serviço divino em todos os lugares também é o mesmo. O zelo missionário que têm demonstrado tem correspondido à sua vitalidade interior. Depois de passar por muitas vicissitudes, essas religiões ainda estão vivas.
Comparação entre religiões universais +Comparação entre algumas ditas "religiões universais" (ateísmos incluem-se para fins comparativos, embora possam ser ou não ser considerados religiões)Elemento de fé Cristianismo Budismo Ateísmos Jainismo IslamismoCarma(Causa & Efeito) Aceita Aceita Rejeita Aceita AceitaPós-vida Vida eterna/Inferno eterno RenascimentoDamien Keown (2013), Buddhism: A Very Short Introduction, 2nd Edition, Oxford University Press, , pages 32-46 RejeitaHaribhadrasūri (Translator: M Jain, 1989), Saddarsanasamuccaya, Asiatic Society, Reencarnação Vida eterna/Inferno eternoPré-vida Rejeita Renascimento Rejeita Reencarnação RejeitaVida ascética Rejeita Aceita Rejeita Aceita Rejeita, exceto SufismoRituais, Bhakti(Pali: Bhatti) Aceita Aceita, opcionalKarel Werner (1995), Love Divine: Studies in Bhakti and Devotional Mysticism, Routledge, , pages 45-46 Rejeita Aceita, opcionalJohn Cort, Jains in the World : Religious Values and Ideology in India, Oxford University Press, ISBN, pages 64-68, 86-90, 100-112 AceitaNão homicídio e Vegetarianismo Aceita, só para humanos, e em caso de guerra justa Aceita (é obscuro...) para alimentaçãoU Tahtinen (1976), Ahimsa: Non-Violence in Indian Tradition, London, , pages 75-78, 94-106 Maior defensor da não-violência,Vegetarianismo,não-violência aos animaisU Tahtinen (1976), Ahimsa: Non-Violence in Indian Tradition, London, , pages 57-62, 109-111 Aceita, só de muçulmanos, e em caso de guerra justaLivre-arbítrio humano Aceita (exceto os protestantes calvinistas) Aceita AceitaHoward Coward (2008), The Perfectibility of Human Nature in Eastern and Western Thought, State University of New York Press, , pages 103-114;Harold Coward (2003), Encyclopedia of Science and Religion, Macmillan Reference, see Karma, RejeitaMaya, existência Aceita Aceita (prapañca)Damien Keown (2004), A Dictionary of Buddhism, Oxford University Press, , Entry for Prapañca, Quote: "Term meaning ‘proliferation’, in the sense of the multiplication of erroneous concepts, ideas, and ideologies which obscure the true nature of reality". Rejeita Aceita AceitaAlma, existência Aceita Rejeita[a] Steven Collins (1994), Religion and Practical Reason (Editors: Frank Reynolds, David Tracy), State Univ of New York Press, , page 64; "Central to Buddhist soteriology is the doctrine of not-self (Pali: anattā, Sanskrit: anātman, the opposed doctrine of ātman is central to Brahmanical thought). Put very briefly, this is the [Buddhist] doctrine that human beings have no soul, no self, no unchanging essence.";[b]KN Jayatilleke (2010), Early Buddhist Theory of Knowledge, , pages 246-249, from note 385 onwards;[c]John C. Plott et al (2000), Global History of Philosophy: The Axial Age, Volume 1, Motilal Banarsidass, , page 63, Quote: "The Buddhist schools reject any Ātman concept. As we have already observed, this is the basic and ineradicable distinction between Hinduism and Buddhism";[d]Katie Javanaud (2013), Is The Buddhist ‘No-Self’ Doctrine Compatible With Pursuing Nirvana?, Philosophy Now;[e]Anatta Encyclopædia Britannica, Quote:"In Buddhism, the doctrine that there is in humans no permanent, underlying substance that can be called the soul. (...) The concept of anatta, or anatman, is a departure from the Hindu belief in atman (self)." RejeitaRamkrishna Bhattacharya (2011), Studies on the Carvaka/Lokayata, Anthem, , page 216 Aceita AceitaDeus criador Aceita Rejeita Rejeita Rejeita AceitaDeus pessoal Aceita Rejeita Rejeita Aceita AceitaEpistemologia(Pramana) Onisciência (Deus, apenas), Conhecimento sensitivo, Base racional, Escrituras sagradas Conhecimento sensitivo,Base racionalJohn A. Grimes, A Concise Dictionary of Indian Philosophy: Sanskrit Terms Defined in English, State University of New York Press, , page 238D Sharma (1966), Epistemological Rejeitative dialectics of Indian logic — Abhāva versus Anupalabdhi, Indo-Iranian Journal, 9(4): 291-300 Conhecimento sensitivo,MM Kamal (1998), The Epistemology of the Carvaka Philosophy, Journal of Indian and Buddhist Studies, 46(2), pages 13-16 Naturalismo metodológico Onisciência, Telepatia, Percepção remota, Conhecimento sensitivo,Base racional,Escrituras sagradas Onisciência (Deus, apenas), Conhecimento sensitivo, Base racional, Escrituras sagradasAutoridade epistêmicaCatolicismo romano, Igrejas ortodoxas e ala anglo-católica do Anglicanismo: Bíblia, Magistério e Tradição;Protestantismo: Bíblia (Sola Scriptura), exceto a ala anglo-católica do Anglicanismo.Buda, escritosChristopher Bartley (2011), An Introduction to Indian Philosophy, Bloomsbury Academic, , pages 46, 120 Jain AgamasAlcorãoSalvação (Soteriologia) Céu eterno Nirvana (Śūnyatā)Jerald Gort (1992), On Sharing Religious Experience: Possibilities of Interfaith Mutuality, Rodopi, , pages 209-210 SiddhaJohn Cort (2010), Framing the Jina: Narratives of Icons and Idols in Jain History, Oxford University Press, , pages 80, 188 Céu eternoMetafísica(Realidade final) Deus, Matéria, Tempo, Espaço, Almas Skandha, ŚūnyatāMasao Abe and Steven Heine (1995), Buddhism and Interfaith Dialogue, University of Hawaii Press, , pages 105-106Chad Meister (2009), Introducing Philosophy of Religion, Routledge, , page 60; Quote: "In this chapter, we looked at religious metaphysics and saw two different ways of understanding Ultimate Reality. On the one hand, it can be understood as an absolute state of being. Within Hindu absolutism, for example, it is Brahman, the undifferentiated Absolute. Within Buddhist metaphysics, fundamental reality is Sunyata, or the Void." Matéria, Tempo, Espaço Matéria, Tempo, Espaço, Almas, Princípio do movimento, Princípio do repousoChristopher Key Chapple (2004), Jainism and Ecology: Nonviolence in the Web of Life, Motilal Banarsidass, , page 20 Deus, Matéria, Tempo, Espaço, Almas
Categoria:Crenças, tradições e movimentos religiosos