Pruitt-Igoe foi um conjunto residencial urbano desenvolvido entre 1954 e 1955 na cidade de St. Louis, no Missouri, Estados Unidos. Seu nome veio da configuração inicial planejada para os edifícios, onde eram organizados em dois complexos chamados Wendell Olliver Pruitt Homes e William Leo Igoe Apartments.Checkoway, p. 245 O conjunto foi projetado pelo escritório Leinweber, Yamasaki & Hellmuth, liderado pelo arquiteto Minoru Yamasaki, mais tarde conhecido pelo projeto das torres gêmeas do World Trade Center.

Logo após sua conclusão, as condições de vida em Pruitt-Igoe começaram a entrar em decadência, e na década de 1960, a área estava em pobreza extrema, com altas taxas de criminalidade e segregação, o que chamou a atenção da mídia local e internacional a degradação do bairro. Todos os 33 prédios foram demolidos com explosivos em meados dos anos 1970Mendelssohn, Quinn, p. 163, e o projeto se tornou conhecido nos estudos de renovação urbana e planejamento de políticas públicas.

As dimensões do fracasso do conjunto residencial provocaram um intenso debate sobre as políticas de habitação pública. O Pruitt-Igoe foi uma das primeiras demolições de edifícios arquitetônicos modernos e sua destruição foi descrita pelo arquiteto paisagista, teórico e historiador de arquitetura Charles Jencks como "o dia em que a arquitetura moderna morreu"Jencks, p.9, apesar de que na atualidade se considera que os motivos do destino do complexo vão além de simples erros de projeto, e sim de outros fatores legais, econômicos e sociais.

Um documentário, The Pruitt-Igoe Myth, sobre a história dos edifícios e do "mito" em torno dos motivos de seu fim, foi feito em 2011. O material gravado da demolição foi incluído no filme de 1982 Koyaanisqatsi, de Godfrey Reggio, com música de Philip Glass, que compôs uma peça de oito minutos que recebeu o nome do complexo.

Antecedentes Durante as décadas de 1940 e 1950, a cidade de Saint Louis, restrita por seus limites estabelecidos em 1876, estava superlotada, sendo descrita em livros como "se fosse tirada de um romance de Charles Dickens".Larsen, Kirkendall, p. 60 O inchaço urbano piorou muito durante o período entreguerras e a Segunda Guerra Mundial. Mais de 85.000 famílias viviam em apartamentos do século XIX e um estudo oficial de 1947 revelou que 33.000 famílias ainda tinham banheiros comunitários. Residentes de classe média, principalmente brancos, estavam deixando a cidade e suas antigas casas eram ocupadas por famílias de baixa renda. Os bairros negros (ao norte) e brancos (ao sul) da parte antiga da cidade segregaram e se expandiram, se aproximando do centro da cidade.Bristol, p. 353 Para salvar as propriedades do centro de uma desvalorização iminente, as autoridades de St. Louis iniciaram um plano de reordenamento urbano do "anel central" ao redor desta área na qual havia mais interesse financeiro. A decadência estava tão profunda que a gentrificação dos imóveis existentes foi considerada impraticável.

Em 1947, os planejadores de St. Louis propuseram a substituição do bairro predominantemente negro de DeSoto-Carr, por dois e até três novos blocos de edifícios residenciais e um parque público. No entanto, o plano não foi finalmente implementado. Em vez disso, o prefeito Joseph Darst, do Partido Democrata, eleito em 1949, e os líderes republicanos do estado, optaram pela limpeza total das favelas e sua substituição por habitações públicas de alta densidade. Eles argumentaram que os novos projetos criariam um resultado líquido positivo para a cidade através de maiores receitas, novos parques, áreas de recreação e espaços comerciais.Ramroth, p. 169}}

Em 1948, os eleitores rejeitaram a proposta de um empréstimo municipal para financiar a mudança, mas logo a situação mudou com a Housing Act (Lei de Habitação) de 1949 e as leis do estado de Missouri que forneciam um co-financiamento de projetos habitacionais públicos. A abordagem feita pelo prefeito Darst, de renovação urbana, foi compartilhada pela gestão do presidente estadunidense Harry S. Truman e prefeitos de outras cidades, pressionados pelos trabalhadores industriais recrutados durante a guerra.Larsen, Kirkendall, p. 61 Em particular, a Saint Louis Land Clearance and Redevelopment Authority ("Autoridade de Limpeza e Reordenamento das Terras de Saint Louis") foi autorizada a adquirir e demolir os bairros mais pobres do anel central e, assim, vender o terreno a preços mais baixos para promotores privados, incentivando o retorno da classe média e o crescimento do setor empresarial. Outra agência, a Saint Louis Housing Authority ("Autoridade de Habitação de Saint Louis"), teve que limpar a terra com o objetivo de construir habitação pública para a antiga população dos bairros mais pobres.

Em 1950, St. Louis já havia obtido um compromisso federal para financiar 5.800 unidades de habitação pública.Bristol, p. 354 O primeiro grande projeto deste tipo na cidade, Cochran Gardens, foi concluído em 1953 e foi destinado a pessoas brancas de baixa renda - a habitação pública no Missouri manteve a segregação racial até 1956. Consistia de 704 habitações dispostas em doze grandes edifícios e suas continuação foram os condomínios Pruitt-Igoe, Darst-Webbe e Vaughan. Pruitt-Igoe era destinado a jovens brancos e negros de classe média, isolados em diferentes edifícios; enquanto Darst-Webbe teria como alvo inquilinos brancos de baixa renda. Larsen, Kirkendall, p. 62

Projeto e construção miniaturadaimagem|413x413px|Concepção para um corredor comum do Pruitt-Igoe. Em 1950, a cidade contratou a empresa Leinweber, Yamasaki & Hellmuth para projetar o Pruitt-Igoe, um novo projeto habitacional urbano. O nome do complexo veio de Wendell Olliver Pruitt, um piloto afro-americano natural de St. Louis que lutou na Segunda Guerra Mundial, e William Leo Igoe, ex-congressista estadunidense.Sisson, p. 1237 Inicialmente, a cidade planejou o complexo em duas partes: as habitações do Capitão W.O. Pruitt voltadas para residentes negros e os apartamentos de William L. Igoe para brancos.Hall, p. 256 A área era limitada pela Avenida Cass ao norte, a Avenida North Jefferson Avenue a oeste, a Rua Carr ao sul e a Rua North 20th ao leste, no bairro de DeSoto-Carr.

O projeto foi feito pelo arquiteto Minoru Yamasaki, que mais tarde projetaria o World Trade Center em Nova Iorque. Este foi o primeiro grande trabalho de Yamasaki, conduzido sob a supervisão e restrições impostas pela Public Housing Authority (PHA, "Autoridade de Habitação Pública"). A proposta inicial consistia em uma mistura de edifícios altos, médios e baixos. O projeto foi aceito pelas autoridades de St. Louis, mas excedeu os limites do orçamento federal impostos pela PHA. A agência interveio, impondo um edifício uniforme de onze andares. A escassez de materiais causada pela Guerra da Coreia e as tensões no Congresso aumentaram o controle da PHA. miniaturadaimagem|413x413px|O Pruitt-Igoe e seu entorno. Em 1951, a revista especializada Architectural Forum elogiou a proposta original de Yamasaki e chamou-a de "o melhor apartamento em altura" do ano. A densidade total foi estabelecida em um nível moderado de 50 unidades por acre (maior que nos bairros pobres do centro), e ainda, seguindo os princípios de planejamento de Le Corbusier e do Congresso Internacional de Arquitetura Moderna (CIAM), os edifícios foram organizados em onze andares, numa tentativa de alocar os jardins e o térreo para áreas comuns.Newman, p. 10 A Architectural Forum descreveu o projeto como "bairros verticais para pessoas pobres". Supunha-se que cada fileira de edifícios seria flanqueada por "um rio de árvores", de acordo com o desenvolvimento de uma ideia por Harland Bartholomew. No entanto, os parques e áreas de recreação não foram feitos até que os proprietários pressionaram pela sua instalação.

Mesmo com os cortes iniciais do governo federal, o custo final de Pruitt-Igoe ficou em 36 milhões de dólares, 60% acima da média nacional de habitação pública na época nos Estados Unidos. Os conservadores atribuíram os custos excessivos aos salários inflacionados devido à influência dos sindicatos, que também levaram à instalação de um sistema de aquecimento caro; esses custos extras levaram a uma série de cortes arbitrários em outras partes essenciais dos edifícios e do projeto em geral, como os "rio de árvores", parques infantis, banheiros no térreo e prédios menores que ficariam entre os blocos.miniaturadaimagem|256x256px|O complexo em 1968.Com a sua conclusão em 1955, Pruitt-Igoe consistia, então, em 33 edifícios de onze andares cada um em uma área de 23 hectares localizada no norte de St. Louis. O complexo abrigava 2.870 apartamentos, com uma população projetada de cerca de dez mil pessoas, tornando-se um dos maiores dos Estados Unidos. Os apartamentos eram extremamente pequenos, tendo cozinhas mínimas. Os elevadores suspensos pararam apenas no primeiro, quarto, sétimo e décimo andar devido aos cortes de gastos, forçando os vizinhos a usar as escadas na tentativa de descongestionar o uso do elevador. Os andares térreos eram equipados com grandes corredores, lavanderias, salas comuns e canos de lixo. No entanto, escadas e corredores atraíram assaltantes, o sistema de ventilação era ruim e não havia ar-condicionado.

Apesar disso, Pruitt-Igoe teve, no início, boas críticas, pois foi visto como um avanço na renovação urbana. Apesar da má qualidade dos edifícios, os fornecedores de materiais fizeram referência ao Pruitt-Igoe em seus anúncios, aproveitando a exposição nacional do projeto urbano.

Decadência miniaturadaimagem|255x255px|Janelas quebradas do decadente Pruitt-Igoe, que, abandonado, tornou-se alvo de vândalos. Uma decisão de 1956 da corte do Missouri acabou com a política de segregação racial no estado e o novo complexo de edifícios foi integrado sob o nome Pruitt-Igoe, sendo habitado principalmente por inquilinos negros, com os brancos evitando fazer parte do bairro novo e inclusivo. Em 1957, os prédios teriam atingido sua ocupação máxima, com apenas 9% dos apartamentos vagos. Três anos depois, 16% dos apartamentos estavam vagos e as desistências só aumentaram com os anos.Hoffmann miniaturadaimagem|255x255px|Uma área comum do Pruitt-Igoe já bastante degradada. Os edifícios permaneceram parcialmente desabitados durante anos, embora diferentes fontes diferem em termos de níveis de despovoamento: de acordo com Newman, a ocupação nunca excedeu os 60%; enquanto Ramroth afirmou que a desocupação foi de um terço em 1965.Ramroth, p. 165 Apesar disso, todos os autores concordam que no final da década de 1960 o Pruitt-Igoe já estava em um estado avançado de negligência e deterioração, com mais de 65% dos apartamentos vagos, transformando o bairro em foco de decadência social, insegurança e criminalidade, com entregadores e trabalhadores de manutenção evitando entrar no complexo.

O arquiteto, Minoru Yamasaki, lamentou essa situação: "Nunca pensei que as pessoas fossem tão destrutivas"Patterson, p. 336, e disse em entrevista mais tarde que "é um projeto que eu gostaria de não ter feito" - ele seria lembrado por muitos anos e até mesmo responsabilizado pelo fracasso do Pruitt-Igoe.. Em 1971, Pruitt-Igoe abrigava apenas seiscentos pessoas em dezessete edifícios; os outros dezesseis foram abandonados.Larsen, Kirkendall p. 63 Enquanto isso, o vizinho bairro de Carr Village, de composição demográfica semelhante, permaneceu totalmente ocupado e sem problemas durante a construção, ocupação e declínio do Pruitt-Igoe.Newman, p. 11