A história-mundo ou história global desenvolveu-se com o intuito de escrever a história do mundo e de sua modernidade, incluindo seus episódios considerados mais relevantes, seja de cunho político, cultural, econômico ou social, a partir de longos espaços de tempo. Além de ser muitas vezes factual, a história-mundo busca analisar os eventos mundiais através de uma perspectiva ocidental para compreender a ascensão do ocidente, ainda que nas suas relações com as periferias.

 A chamada história-mundo pode ser encontrada já no nos estudos de Hegel sobre da filosofia da história. O termo aparece em diversos de seus trabalhos, como em Lectures on the Philosophy of World History e Filosofia da História. Ao sustentar a importância de estudar a história mundial, Hegel caracterizou-a como tendo seu início na Ásia e seu fim na Europa, continente entendido por ele como provido do domínio da razão. Se torna evidente a perspectiva do que foi mais tarde chamado de eurocentrismo na filosofia hegeliana ao tratar da história-mundo a partir do caracterização do ocidente cristão-germânico como o caminho a ser seguido para o alcance do progresso das civilizações.

No , após as duas Guerras Mundiais, os estudos na areá da história-mundo começaram a emergir em profusão e trabalhos como The Rise of The West: A history of the Human Community, de William H. McNeill, passaram a impulsionar as produções acadêmicas na área. Ao tentar narrar o avanço do ocidente através da longa duração, o livro caracteriza a metodologia utilizada pela história-mundo, abordando desde a história Antiga do Oriente Médio em 500 a.c., perpassando pela história da América espanhola, do Brasil, China e Japão e chegando nos acontecimentos do mundo ocidental dos séculos XVIII e XX. Mais tarde, a década de 1960 marca o auge das discussões acadêmicas acerca da história-mundo, com influências de trabalhos como os de David Thomson, Historia mundial desde 1914 até 1950. Após a década de 1990, discussões acerca da história-mundo já haviam conseguido desenvolver seus centros de pesquisa e organizações, como exemplo a World History Association, no Hawaí, que desenvolveu o Journal of World History, e a Network of Global and World History Organizations, na Universidade de Cambridge.

Origem O mundo contemporâneo do presenciou diversas mudanças sociais, políticas e econômicas que incentivaram a historiografia a desenvolver novas abordagens epistemológicas, preocupações e problemas que respondessem aos diversos fenômenos que surgiam, superando formas passadas de escrita da história. Em paralelo às novas preocupações historiográficas, manifestou-se a necessidade de descentralização da escrita da História. Segundo a historiadora Natalie Zemon Davis a descentralização da História deve ser uma postura necessária ao historiador pois ela não se restringisse às narrativas de grupos dominantes, permitindo que diversos passados históricos sejam representados e ouvidos, dando vozes a diferentes sujeitos, de diferentes espaços e grupos socioculturais. A descentralização da escrita da história começou a ser explorada principalmente após a Primeira Guerra Mundial, caracterizada por Davis como a primeira onda social na qual sujeitos de classes exploradas e marginalizadas começaram a adquirir protagonismo na escrita da História. Uma segunda onda social teria acontecido na década de 1960 com a emergência das discussões acerca da história das mulheres e, consequentemente, dos estudos de gênero, incorporando também esses outros sujeitos à narrativa histórica.

O processo de globalização que caracterizou o fez emergir novas discussões nas ciências sociais e na historiografia, sobretudo ligadas a novos métodos e categorias de análise que pudessem abranger uma história-mundo, que fosse capazes de abandonar o viés generalizador eurocêntrico e etnocêntrico, levando em consideração as possíveis interações e conexões dos diferentes espaços. Como consequência da globalização e do avanço tecnológico presente nas últimas décadas do século em questão, ocorreu a sensação de aproximação dos espaços geográficos. O fim da chamada Guerra Fria, a queda do Muro de Berlim e o desmantelamento da União Soviética foram considerados marcos para o surgimento e crescimento de novas abordagens historiográficas. Segundo o historiador Georg Iggers, o fim da década de 1980 travou novas novas condições de vida, havendo a demanda por abordagens historiográficas que dessem conta de todos estes novos fenômenos. É neste contexto que surge a institucionalização da chamada história global com o intuito de considerar o fenômeno da globalização para entendimento do presente.

Estabelecimento do campo

América Latina O estabelecimento programático da história global na América Latina se deu no , a partir dos estudos desenvolvidos pelo colombiano Hugo Fazio Vengoa, que buscam entender o fenômeno da globalização através de uma consciência cosmopolita global. Em 2014, o argentino Diego Olstein trouxe novas possibilidades metodológicas para o campo ao propor que a escrita global deve ser pensada a partir da utilização de 4Cs: conectar, comparar, conceituar e contextualizar.

Em 2013 foi criada a Red Historia Global, originária da iniciativa de um grupo de historiadores latino-americanos dedicados a refletir sobre os estudos globais no continente. Associada a Network of Global and World History Organisations, a Red Historia Global estimulou a criação de eventos e congressos na América Latina, em especial o Colóquio Internacional Latinoamérica y la Historia Global, evento que ocorreu em Buenos Aires. O evento congregou discussões a respeito das metodologias e das formas de escrita da história global e contou com a presença de pesquisadores como Patrick Manning, Eduardo Zimmerman, Sandra Kuntz Ficker e Diego Olstein.

Brasil No Brasil, o debate sobre história global ainda é recente e encontra-se em constante crescimento nos últimos anos. Em 2014, em parceria com a Red Historia Global, o Centro de Pesquisa e Documentação de História Contemporânea do Brasil (CPDOC) organizou o evento Global History Conference, no Rio de Janeiro. Além disso, houve a criação de laboratórios e centros de estudos, como o Laboratório de Estudos sobre o Brasil e o Sistema Mundial (Labmundi), da Universidade de São Paulo (USP), no intuito de reunir pesquisadores, professores e alunos e possibilitar o debate acerca das conexões do Brasil no sistema-mundo moderno. Em 2015, a Associação Nacional de História (Anpuh) organizou o primeiro Simpósio Temático inserido nas discussões teórico-metodológicas sobre história global. Além de o campo já ter conquistado espaço em eventos acadêmicos, destaca-se também alguns dossiês publicados acerca do tema, como “O Brasil na história global”, realizado pela Revista Brasileira de História. Recentemente, no ano de 2017, foi fundado na Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), o primeiro Programa de Pós-graduação em História do país com área de concentração em história global. Esta nova iniciativa vêm promovendo maneiras de se pensar a prática da história global, seus desafios e perspectivas, possibilitando a criação de disciplinas acadêmicas, palestras, seminários e minicursos que discutam a área.

Estados Unidos A relevância das diversas produções acadêmicas de autores estadunidenses e centros de pesquisas dos Estados Unidos deve ser considerada no processo de estabelecimento da área na década de 1990. Ressalta-se a influência do pensamento do sociólogo Immanuel Wallerstein, considerado como percursor do campo nos Estados Unidos com sua obra O sistema mundial moderno, publicada em 1974. Ao introduzir o conceito de sistema-mundo, o autor desenvolveu métodos de reflexão acerca das concepções globais que emergiam na História e nas ciências sociais no . Sua abordagem passava pelo exame das relações desiguais da descolonização em escala global a partir dos conceitos de centro, periferia e semi-periferia.

Em 1993, Bruce Mazlish e Ralph Buultjens lançaram Conceptualizing Global History no intuito de ampliar os objetos da pesquisa histórica, pensando em novos temas e perspectivas historiográficas que evitassem as metodologias nacionalistas e eurocêntricas. O livro foi um dos pioneiros no campo da história global em âmbito estadunidense, desenvolvendo aportes teórico-metodológicos para o início desta área de estudos históricos. Em 2008, outro trabalho marcou o campo nos Estados Unidos, A Global History of Modern Historiography, de Georg Iggers, aborda a história global a partir de um viés das interações entre os espaços. A historiadora norte-americana Natalie Zemon Davis também contribuiu significativamente para o estabelecimento do campo, principalmente ao pensar na descentralização da história, que busca dar a mesma voz aos diferentes sujeitos históricos. No desenvolvimento do campo historiográfico estadunidense também ressalta-se a obra de Kenneth R. Curtis e Jerry H. Bentley intitulada Architects of World History, que apresenta um levantamento das discussões do campo, apontando a existência de diversos historiadores globais, seus legados e suas motivação na escrita da História a partir de um enfoque global.

França As discussões historiográficas da França do início do trouxeram diversos aportes teóricos e metodológicos, que sustentaram a ascensão do campo da história global anos mais tarde. Estas influências dizem respeito aos estudos da segunda geração da Escola dos Annales, os quais trouxeram novas preocupações historiográficas relacionadas às noções de tempo histórico, das conjunturas, dos espaços geográficos e dos acontecimentos, pensados na perspectiva da história total, ou seja, de fazer um estudo completo dos problemas históricos. Dentre os estudiosos desta geração, destacam-se as contribuições de Fernand Braudel, principalmente com o clássico O Mediterrâneo e o mundo mediterrâneo na Era de Philip II. Nele Braudel definiu o tempo histórico como uma mistura entre o tempo geográfico, tempo social e tempo individual, pensando nos acontecimentos históricos na perspectiva da chamada longa duração. Explorando também a experiência histórica brasileira sob uma perspectiva global, Braudel demonstrou a relevância de escrever a história para além dos conceitos de fronteira e de nações, destacando as possibilidades de interações humanas e ambientais. A historiografia produzida pelos Annales permitiu aos historiadores e historiadoras pensar nas correlações humanas em diversos contextos.

A história global se estabelece como campo de estudos na França sobretudo a partir da publicação do dossiê "Uma História em Escala Global" lançado na Revista dos Annales, no ano de 2001. Este dossiê englobou trabalhos dos historiadores Sanjay Subrahmanyam, Serge Gruzinski e Roger Chartier, trazendo as discussões acerca da temática global para o âmbito acadêmico francês. Em 2007, outro dossiê intitulado "História Global, Histórias Conectadas" é publicado pela revista Revue d'Histoire Moderne et Contemporaine, repensando sobretudo as formas metodológicas das conexões do mundo global. Em 2013, as discussões acerca do campo efervesciam, e é neste contexto que Sanjay Subrahmanyam realiza a aula inaugural no Collège de France, buscando desvendar as origens da história global através de um levantamento de várias histórias relatadas desde a Antiguidade, perpassando por diferentes espaços do globo . O debate travado nas instituições acadêmicas francesas impulsionaram as discussões e publicações sobre história global, confirmando a atenção dada pela historiografia às questões como as escalas regionais, globais e o estudo das conexões sociais. Também cabe destacar o livro dirigido por Patrick Boucheron Histoire mondiale de la France (História global da França) que traz a polêmica proposta de se analisar a história francesa por meio de elementos que vêm do mundo todo e que são visíveis na vida francesa apesar de não serem considerados franceses.

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