miniaturadaimagem|Bases de guerrilha operadas de 1961 a 1962 O Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) foi um grupo político clandestino vinculado às Ligas Camponesas e desarticulado em 1962. Sob influência da Revolução Cubana, objetivou com membros das Ligas uma revolução socialista com bases camponesas no Brasil. Oito bases de guerrilha foram criadas no país, dentre as quais a de Dianópolis, Goiás (atualmente Rio da Conceição, Tocantins) foi descoberta no final de 1962.

No início dos anos 60 as Ligas haviam radicalizado suas posições, tanto a direita quanto parte da esquerda brasileira viam no campo a possibilidade de uma revolução e a experiência cubana levava ao questionamento das teses do Partido Comunista Brasileiro (PCB), que não aceitava a luta armada. Com o treinamento de militantes e possível financiamento por Cuba, os campos de guerrilha foram implantados no final de 1961. Francisco Julião, mais conhecido representante das Ligas, não teve participação direta na guerrilha, sendo Clodomir Santos de Morais seu principal líder, mas historiadores discutem se Julião teve responsabilidade indireta.

Os militantes passaram um ano nos campos, dispersos em todas as regiões do Brasil, mas houve pouco preparo militar efetivo devido a disputas internas e falta de recursos. Os órgãos de segurança monitoraram o movimento e o Exército, apoiado pelo governo goiano, desmantelou o dispositivo de Dianópolis no final de 1962. Nesse mesmo período Clodomir de Morais foi preso e documentos ligando Cuba à guerrilha teriam sido encontrados nos destroços do voo Varig 810, caído no Peru. O projeto guerrilheiro, que já estava fraco, chegou assim ao fracasso.

Apesar do pequeno tamanho, a tentativa de guerrilha repercutiu na imprensa nacional, foi levada a sério por autoridades nos Estados Unidos e contribuiu ao declínio das Ligas Camponesas. O MRT é notável como um precursor, ainda no período democrático, da luta armada contra a ditadura militar brasileira, com uma de suas organizações, fundada em 1969, adotando o mesmo nome.

Motivações

As Ligas Camponesas da década de 1960 haviam irradiado a partir da Sociedade Agrícola e Pecuária de Plantadores de Pernambuco (SAPPP), de 1955. Organizando milhares de trabalhadores rurais, atingiram seu auge no governo de João Goulart, com presença em 13 estados brasileiros. O movimento era heterogêneo e “ator importante nos debates sobre a reforma agrária e a revolução brasileira”. O advogado Francisco Julião, chamado a defender a SAPPP, tornou-se importante representante das Ligas. A princípio de caráter legalista, elas defendiam a reforma agrária dentro das instituições, pela ação política e judicial. A partir de 1960–61, isso deu lugar à “reforma agrária na lei ou na marra” e seus documentos adquiriram teor socialista e revolucionário. O termo “na marra”, não necessariamente excluindo “na lei”, podia significar a mudança imediata da estrutura social, a revolução armada ou a ação coletiva por passeatas, greves e invasões de terras. Ele existia num contexto em que a violência já estava presente nos conflitos entre camponeses e grandes proprietários.

Essa mudança ocorreu por influência da Revolução Cubana, inclusive com a visita de Francisco Julião e outras figuras a Cuba, e, em parte justamente à diferença de interpretação dos eventos cubanos, da divergência do Partido Comunista e seu braço no campo, a União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil (ULTAB). Cuba era referência por ter tido uma revolução focada na reforma agrária, ocorrida num país, como o Brasil, com sociedade “agrário-exportadora baseado no latifúndio, monocultura e relações de trabalho pré-capitalistas no campo”. Sua experiência abriu caminho para críticas à ortodoxia dos Partidos Comunistas latinoamericanos, para os quais a revolução teria uma primeira etapa democrático-burguesa, sem necessidade de luta armada, e os camponeses não teriam papel central. Francisco Julião, ao contrário do PCB, acreditava numa revolução inicialmente baseada no campo, imediatamente socialista e sem participação revolucionária da burguesia. Para as Ligas, o papel de vanguarda política caberia não a um partido comunista, mas a uma organização guerrilheira, ao redor da qual as massas se juntariam.

O contato direto entre as Ligas e o Partido Comunista era por comunistas liderados por Clodomir de Morais, conhecidos como o grupo “antipartido”, que discordava da direção do PCB. Clodomir foi expulso do partido em 1962 por sua participação no projeto guerrilheiro com as Ligas, o que chegou ao conhecimento do PCB através de informantes no Exército.

Segundo Clodomir, as Ligas abraçaram a guerrilha por motivos mais defensivos do que ofensivos: o fornecimento de armas aos latifundiários pelo governador de São Paulo Adhemar de Barros e as possibilidades de uma invasão americana, com o precedente da invasão da Baía dos Porcos, ou de uma tentativa de golpe de Estado, como já ocorria com frequência no país.

Não era apenas dentro das Ligas que o homem do campo era visto como possível revolucionário armado. Assim também pensava uma pequena parte da esquerda brasileira, inspirada pelo maoísmo e guevarismo, e a direita, para a qual essa radicalização justificou o golpe de Estado de 1964 como uma defesa da legalidade. O governo dos Estados Unidos também pensava nessa possibilidade, especialmente no Nordeste, onde estavam concentradas as Ligas, e direcionou os fundos da Aliança para o Progresso para a região. A Central Intelligence Agency (CIA), situando uma revolução brasileira no contexto internacional, avaliava que Cuba era favorável, mas a União Soviética era contrária.

A inspiração na Revolução Cubana não veio dos camponeses — que eram em grande parte analfabetos, não se viam como partícipes da Guerra Fria e estavam focados nas disputas pela terra e melhores condições de trabalho — mas de Francisco Julião, do Partido Comunista e de outras figuras da esquerda. Ainda assim, mesmo entre os setores das Ligas não envolvidos na área militar havia certo grau de simpatia ao projeto guerrilheiro.

Fundação Criado em Ouro Preto em 21 de abril de 1962 por Francisco Julião, o MRT era organismo político das Ligas Camponesas, mas com uma base de apoio mais ampla do que o campo. Seus membros eram intelectuais e jornalistas inicialmente engajados na divulgação do trabalho de Julião, e, em seguida, nos núcleos guerrilheiros, cuja fundação datava do final do ano anterior. Porém, o Movimento é também citado como tendo sido organizado em 1961.

Lideranças Francisco Julião era o principal dirigente das Ligas e visto tanto pela esquerda quanto pela direita golpista, “não à toa”, como possível líder de uma revolta armada de camponeses. Porém, não participou da implantação das bases de guerrilha e nem mesmo sabia onde estavam; esse desconhecimento da localização é confirmado por Clodomir de Morais. Fidel Castro sugeriu a divisão das Ligas em setores militar, político e de massas, em ordem hierárquica. Eles seriam respectivamente comandados por Adauto Freire da Cruz, Clodomir de Morais e Francisco Julião. Assim, Clodomir, não Julião era a figura envolvida com a guerrilha. Os setores militar e de massas divergiam. Julião criticava a facção pró-guerrilha das Ligas, que, por sua vez, não aceitava a participação nas eleições, um caminho já tomado por ele ao eleger-se deputado nas eleições de 1962. Em seus depoimentos, Julião e Clodomir criticam um ao outro quanto aos rumos das Ligas Camponesas.

Segundo Julião em seus escritos posteriores, ele foi contrário à guerrilha desde o início e não tem responsabilidade por seu preparo. Isso já foi questionado, pois a organização dos campos não teria sido possível sem sua conivência e ele discursava em defesa de soluções revolucionárias, por fora das instituições, preocupando assim seus inimigos políticos e os órgãos de segurança. Esse radicalismo, porém, pode ter sido apenas retórico e representado a voz do movimento e não suas opiniões pessoais.

Base de apoio Dentro do país O MRT serviria para conectar as Ligas Camponesas ao meio urbano e à esquerda radical (Partido Comunista do Brasil (PCdoB), Política Operária (Polop) e parte do movimento estudantil), atraindo estudantes e intelectuais. Eles logo se associaram ao esquema guerrilheiro das Ligas. Entre os envolvidos estavam Wanderley Guilherme dos Santos e Alípio de Freitas. Segundo Clodomir, o MRT consistia num “pequeno grupo de intelectuais de asfalto que tentou artificialmente se infiltrar no esquema guerrilheiro e assaltar os dispositivos militares das Ligas”. Já Alípio de Freitas define sua base social como a das próprias Ligas. A penetração obtida entre os estudantes foi mínima., MOVIMENTO REVOLUCIONÁRIO TIRADENTES (MRT).

Segundo Clodomir, haveria recrutamento local e os recrutados para o treinamento guerrilheiro eram “donas de casa, pescadores, alfaiates, mineradores, estudantes, operários, mas a maioria eram camponeses”. No caso de Dianópolis, afirma que o núcleo era apoiado pela população, incluindo a maçonaria de Barreiras, Natividade e Rio da Conceição, composta de comerciantes e donos de terras. Adauto Monteiro da Silva, integrante do dispositivo de Dianópolis, ressalta que os recrutados não eram moradores locais e não havia intenção de treinar esses moradores. O envolvimento da maçonaria é negado por Hagaús Araújo, político da região. Segundo ele, a população local era atraída pelos serviços sociais e desconhecia as reais intenções dos guerrilheiros, que eram jovens sonhadores e despreparados. Para seu irmão, que trabalhou como dentista para as Ligas, os moradores posteriormente acusados de envolvimento não tinham motivos ideológicos e nem aderiram à proposta revolucionária.

Afora a questão cubana, o financiamento da guerrilha vinha, segundo Clodomir, de burgueses e donos de terra revoltados com “as tendências golpistas que se manifestavam desde a morte de Getúlio Vargas” e “a intervenção do imperialismo americano em nossa economia”. Entre eles, cita D. Maria Prestes Maia, esposa de Prestes Maia, prefeito de São Paulo, Duque Estrada, do Partido Socialista de São Paulo, e setores da indústria paulista.

Relação com Cuba O apoio de Cuba através do treinamento de quadros é conhecido com certeza, enquanto o financiamento é mais polêmico. Ainda em 1961, no governo de Jânio Quadros, os cubanos mostraram-se dispostos a treinar guerrilheiros brasileiros, e Francisco Julião perguntou sobre o assunto enquanto estava em Cuba. Clodomir e os demais líderes militares, 12 ao todo, receberam treinamento em Cuba entre 28 de julho e 20 de agosto de 1961, de forma a poderem transmitir esse conhecimento a outros militantes em campos no Brasil. Porém, esse curso ocorreu sob condições improvisadas e decepcionou Clodomir, pois foi puramente militar e não ensinou sobrevivência. Alguns militantes fizeram visitas de treinamento posteriores. O Departamento de Ordem Política e Social (DOPS) do Rio de Janeiro sabia em maio de 1962 do envio de militantes das Ligas para treinar em Cuba.

O curso foi aprovado por insistência de Fidel Castro, pois Che Guevara era contra devido às boas relações com o governo brasileiro. O Estado cubano estava dividido entre os interessados na “exportação da revolução” e os conhecedores das dificuldades de implantar focos nos outros países. Havana tinha boas relações com Jânio e Jango, e assim, preferia que as Ligas se aproximassem do governo brasileiro. Mas a "exportação da revolução" era esforço real, conclamado a todos os revolucionários latinoamericanos através da Segunda Declaração de Havana, “evento que soou como um grito de guerra” em fevereiro de 1962. No Brasil, maior país da América Latina, as Ligas Camponesas eram a única opção para aplicar essa política, pois a outra organização disposta a iniciar uma guerrilha, a Polop, só a faria no meio urbano. Os Partidos Comunistas alinhados à URSS não eram opção.