Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT) foi uma organização que atuou na luta armada contra a ditadura militar brasileira e que existiu entre setembro de 1969 e abril de 1971. Durante esse período, foi responsável por uma série de ações guerrilheiras que buscavam desestabilizar regime e, ao mesmo tempo, reorganizar a classe trabalhadora para realizar uma revolução socialista. Ao contrário da maioria das organizações guerrilheiras daquele período, formadas majoritariamente por estudantes, o MRT possuía quase que exclusivamente membros operários em sua composição.

A organização foi formada a partir de uma reunião em Campos do Jordão, reunindo o grupo que orbitava em torno de Devanir José de Carvalho e de Plínio Petersen Pereira, egressos da Ala Vermelha. Foi batizado como Movimento Revolucionário Tiradentes em homenagem ao grupo de mesmo nome, vinculado às Ligas Camponesas, que atuou entre 1961 e 1962, bem como para confundir a repressão. Atuando em um período em que as outras organizações da esquerda armada passavam por dificuldades, o MRT buscou articular-se com outros grupos revolucionários, como a Ação Libertadora Nacional (ALN) e a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), na realização das ações de expropriação, de sabotagem e de propaganda.

Entre suas principais ações, constam o assalto a um carro blindado da transportadora de valores Brink's, considerada uma das ações mais lucrativas da luta armada no Brasil, e o assassinato do empresário Henning Albert Boilesen, em represália ao assassinato de Devanir de Carvalho, quando a organização já se encontrava bastante fragilizada. O MRT foi desarticulado pela repressão em abril de 1971, após o início de uma série de prisões de ex-militantes, cujas informações extraídas pela repressão, levaram aos membros da organização a um efeito dominó que levou o grupo a encerrar suas atividades.

História Fundação

O Movimento Revolucionário Tiradentes foi fundado por ex-militantes da Ala Vermelha. A Ala, que surgiu como uma dissidência do Partido Comunista do Brasil (PCdoB), havia optado pela estratégia da luta armada em 1967, e no ano seguinte realizou expropriações, que a princípio deveriam se dar somente no centro urbano de São Paulo e serviriam para financiar a implantação de um foco revolucionário nas zonas rurais, com o objetivo de criar as condições para a guerra popular prolongada. Essas ações eram realizadas pelo Grupo Especial Nacional (GEN), braço armado da organização. Entretanto, tais ações passaram a ser reavaliadas pela direção da Ala Vermelha, que passou a ser crítica da atuação guerrilheira exclusiva no centro urbano de São Paulo, desautorizando novas empreitadas do GEN. Esse posicionamento desagradou alguns dos militantes da Ala, especialmente aqueles que integravam o GEN.

Em meados de 1969, ocorreu uma reunião entre os membros da direção da Ala Vermelha, Derly José de Carvalho e Élio Cabral de Souza, com os integrantes do GEN, Aderval Alves Coqueiro, Devanir José de Carvalho e um militante de codinome "Roberto". Nesta reunião, os membros do GEN propuseram a intensificação das ações armadas, o que não foi aceito pelos membros da direção, que anunciaram que pretendiam dissolver o grupo e integrá-los ao trabalho político junto às classes populares. Não aceitando o acordo, e frente à recusa de suas propostas, os militantes do GEN declararam-se afastados da Ala Vermelha, ainda que não tenham rompido definitivamente com a organização. Os dissidentes tornaram o GEN independente da direção nacional da Ala Vermelha e passaram a atuar como Grupo Especial Nacional Revolucionário (GENR), agindo sem a autorização dos dirigentes da Ala. Em resposta, a Ala Vermelha dissolveu o GEN, e estabeleceu que as ações armadas nos centros urbanos deveriam ter apenas aspectos políticos e de captação de recursos. Nenhuma outra ramificação da Ala seria criada para se dedicar a essas ações, que seriam colocadas em prática por militantes determinados pela direção da organização. O GENR, no entanto, continuou realizando ações à revelia da Ala Vermelha, realizando, em maio de 1969, um assalto ao Banco de Crédito Nacional, instalado dentro da Mercedes-Benz, acusada de financiar os órgãos de tortura e repressão do governo. Em abril do mesmo ano, o grupo realizou a expropriação de uma perua de valores do Banco Francês e Italiano, depois de uma intensa troca de tiros que levou ao falecimento de Francisco Bento da Silva, funcionário de uma empresa de segurança bancária, e Luiz Pereira da Silva, funcionário do banco. Também em abril, a organização realizou um ataque à empresa de ônibus Jurema, em resposta ao aumento das tarifas do transporte público.

Em razão das ações armadas, a Ala Vermelha foi fortemente reprimida pelos militares. A organização, entendendo que as ações armadas na cidades se mostravam ineficazes em seus objetivos de motivar o proletariado urbano a sublevar-se e de estabelecer de fato uma guerrilha nas zonas rurais, partiu para uma mudança de tática, visando a educação, a preparação e a organização das classes populares para a luta política e a luta armada. Aqueles militantes que procuravam se inserir em ações revolucionárias mais imediatas deixaram a Ala Vermelha após essa mudança. Alguns deles ingressaram na Ação Libertadora Nacional (ALN), enquanto os demais, agregados em torno das lideranças de Devanir José de Carvalho e Plínio Petersen Pereira, fundaram o Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT).

Em setembro de 1969, ocorreu uma reunião em Campos do Jordão, no interior de São Paulo, na qual estiveram presentes os grupos agregados em torno de Devanir de Carvalho e Plínio Petersen, representantes da Vanguarda Armada Revolucionária Palmares (VAR-Palmares), do Partido Operário Comunista (POC) e da Rede Democrática (REDE). Após as discussões iniciais, as linhas políticas de cada organização pareciam bem definidas, havendo liberdade para os militantes que participaram da reunião de tomar a decisão que mais lhe agradasse, podendo optar por se inserir em qualquer uma dos agrupamentos ali representados. Assim, Devanir de Carvalho, Plínio Petersen, Waldemar Andrew, Armênio de Souza Rangel, Nelson Ferreira, João Moraes, Antônio André Camargo Guerra, Jorge Kurban Abraão e outros integrantes do GENR decidiram aderir a um novo agrupamento que resultou daquele encontro, que viria a ser batizado como Movimento Revolucionário Tiradentes (MRT). Os demais presentes decidiram-se pelo ingresso na VAR-Palmares.

Foi somente alguns dias depois desse encontro que a organização foi batizada. A escolha do nome "Movimento Revolucionário Tiradentes" fazia alusão às origens mais remotas da Ala Vermelha, cujos membros fundadores de maior destaque, como Diniz Cabral Filho, Élio Cabral de Souza e Tarzan de Castro, fizeram parte do movimento de mesmo nome ligado às Ligas Camponesas. Esse nome também foi escolhido para confundir a repressão, a fim de levar os órgãos repressivos a pensar que se tratava de fato da organização que havia atuado no início da década de 1960. Da mesma forma, para o grande público, a presença de ações do MRT, sigla dada como desbaratada pela repressão, poderia desmoralizar o governo militar, da mesma forma que fizeram os militantes da Dissidência Comunista da Guanabara quando assumiram a sigla do Movimento Revolucionário 8 de Outubro (MR-8), outra organização dada como vencida pela repressão.

Primeiras ações

Desde o início, o MRT buscou viabilizar o maior número possível de ações armadas na região metropolitana de São Paulo. Para isso, buscou articular-se com outras organizações guerrilheiras de esquerda. Logo após a reunião na qual o MRT foi fundado, os militantes decidiram realizar uma expropriação em um supermercado na Avenida Santo Amaro, em conjunto com a REDE, mas que acabou não ocorrendo por que uma viatura da Rádio Patrulha interceptou o grupo formado por Devanir, Armênio, Waldemar e militantes da REDE, havendo troca de tiros e a morte de um soldado.

Algum tempo depois, o MRT realizou junto a REDE um assalto a um carro pagador do Instituto Nacional de Previdência Social (INPS), ação na qual um funcionário do INPS foi morto. Outra expropriação em conjunto com a REDE foi realizada em 8 de setembro, na agência da Light, no bairro de Belém, em São Paulo, comandada por Devanir de Carvalho e Eduardo Collen Leite. Também participaram dessa ação os militantes Gilberto Faria Lima, James Allen da Luz, Geraldo Virgílio Godoy e outro identificado apenas como Ismael.

Em fins de 1969, após o bem sucedido sequestro do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick, a repressão se abateu ainda mais sobre os grupos armados da esquerda revolucionária. Carlos Marighella, principal líder da ANL, foi assassinado, e diversos militantes caíram vítimas da repressão. As organizações revolucionárias decidiram criar uma frente para articular as ações armadas entre si, somando esforços e buscando a união, ainda que sem propor uma fusão em uma única e grande organização. MRT, ALN, VPR, POC e REDE participaram de uma reunião em dezembro 1969 para a criação de uma frente armada revolucionária. Devanir de Carvalho, líder do MRT, teve um papel importante na construção dessa frente. Na reunião, foi elaborado um documento intitulado "Projeto de declaração", com sete pontos que as organizações concordavam para garantir o objetivo de contribuir para uma "revolução dos trabalhadores no Brasil", como uma maior articulação entre as ações dessas organizações revolucionárias; a realização de reuniões sistemáticas com um ou dois representantes de cada um dos agrupamentos que compunham a frente; a decisão de que se a realização das ações, o modo e a participação de cada organização fossem decididos de maneira unânime pelas signatárias, a ação poderia ser assinada em nome da frente; o conhecimento técnico das ações ficaria restrito aos participantes das reuniões preparatórias; as organizações deveriam apoiar-se mutuamente, logística e financeiramente; as organizações que compunham a frente se reconheceriam enquanto organizações revolucionárias e a frente estaria aberta para outras organizações que aceitassem tais termos; e por fim, para além das reuniões sistemáticas e ações conjuntas, se reconhecia a necessidade de se desenvolver discussões ideológicas entre os militantes, por meio de documentos e dentro das normas de respeito mútuo. Ficou decidido que Devanir de Carvalho e Plínio Petersen ficariam responsáveis pela representação do MRT nessa frente.

Assaltos, panfletagens e sabotagens

Logo na reunião que formou a frente armada, foi combinada uma expropriação simultânea em dois bancos situados na Avenida Brigadeiro Luís Antônio. A ação foi realizada no dia 29 de dezembro de 1969, em uma ação conjunta na qual os militantes assaltaram ao mesmo tempo o Banco Mercantil de São Paulo e o Banco Itaú. Devanir de Carvalho, Plínio Petersen e Waldemar Andrew participaram da ação pelo MRT. O dinheiro expropriado ficou com Guiomar Lopes, e mais tarde foi repartido entre ALN, MRT e REDE. Essa ação também teve um caráter simbólico, uma vez que as organizações guerrilheiras pretendiam retomar ações significativas que demonstrassem a sua força e organização após o assassinato de Marighella.

Depois dessa, uma série de outras ações articuladas pela frente ocorreram em São Paulo. Essas ações, em sua maioria, eram voltadas para a captação de recursos que garantissem a manutenção das organizações guerrilheiras e para possibilitar a instauração das mesmas no campo, para estabelecer uma guerrilha rural.