miniaturadaimagem|Exemplo de um Aparelho de Amplificação Sonora e Individual (AASI). A habilitação e reabilitação auditiva é um dos campos de atuação da Fonoaudiologia que compreende desde a seleção e adaptação do Aparelho de amplificação sonora e individual (AASI) até a reabilitação audiológica, por meio da terapia fonoaudiológica. O objetivo da reabilitação auditiva é desenvolver ou devolver a capacidade de percepção auditiva ao indivíduo com deficiência auditiva, com auxilio de dispositivos que possam amplificar o som. O desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem, durante o processo de reabilitação auditiva, depende de alguns fatores determinantes como: tempo de privação auditiva, etiologia, engajamento do paciente e da família, entre outros.
O processo de reabilitação pode ser categorizado ainda em duas abordagens: bebês/crianças e adultos/idosos. No contexto pediátrico, é fundamental estabelecer como prioridade e otimizar a funcionalidade auditiva através da utilização desses dispositivos eletrônicos, visando o desenvolvimento das habilidades auditivas e a construção da linguagem. Nesse sentido, é imprescindível envolver ativamente a família, considerando que é com ela que a criança interage durante a maior parte do tempo. Já no caso de adultos e idosos, é de suma importância incluir, dentro de um programa eficaz de reabilitação auditiva, o treinamento das habilidades auditivas, memória e linguagem, bem como a estimulação de diferentes experiências acústicas (variações ambientais).YOSHIDA, Fernanda de Lourdes Antonio. Método aurioral no desenvolvimento de crianças com deficiência auditiva: 30 anos de prática em um serviço público especializado. 2021. 204 f. Tese (Doutorado) - Curso de Doutorado em Ciências no Programa de Fonoaudiologia, Universidade de São Paulo, Baruru, 2021.
Abordagem aurioral A abordagem aurioral é uma intervenção que tem como proposta priorizar a alteração primária: a audição, de forma que haja auxílio para que a criança possa usar sua audição residual e aprender a ouvir e falar de forma a evoluir conhecimentos, se integrar com as pessoas, e a participarem de atividades sociais, como dentro da própria família, escola e em grupos no geral. Ela visa desenvolver a sua audição residual, por menor que seja, para que seja aproveitada.
Dentro da abordagem aurioral o canal sensorial da audição é priorizado, e considerado fundamental para o desenvolvimento da comunicação oral. Mesmo que durante o trabalho outros canais sensoriais sejam utilizados, de forma que auxiliem o desenvolvimento de linguagem oral, como a visão, se necessário, a leitura labial, estes são apoios de terapia, mas a prioridade sempre se mantém com sensação auditiva.
A abordagem aurioral tem como objetivo as habilidades auditivas, que é adquirir e desenvolver a comunicação oral, os aspectos cognitivos da linguagem e fornecer orientações para familiares e escolas. Por isso existem estratégias terapêuticas para que seja estimulado a aquisição e o desenvolvimento da linguagem oral trabalhando a audição, contribuindo para o aproveitamento satisfatório do aparelho auditivo, isso se mostra eficaz na reabilitação auditiva de pacientes que apresentam perda auditiva. Além da terapia, o uso de prótese auditiva ou implante coclear é fundamental, para assim alcançar mais resultados positivos, já que a criança com deficiência auditiva ao utilizar terá acesso amplo às informações acústicas dos sons da língua, gerando grandes chances para o desenvolvimento da linguagem oral. Essa tecnologia é indicada para variados tipos e graus de perdas auditivas.
Diante disso é de fundamental importância os princípios da abordagem aurioral que são eles:
Detecção e intervenção precoce da deficiência auditiva: Existe um exame para identificação precoce da deficiência auditiva, ele é feito diretamente no berçário através da triagem auditiva neonatal. O diagnóstico precoce possibilita um melhor prognóstico da intervenção, já que é aproximadamente até os dois anos de idade que ocorre a plasticidade auditiva, quanto maior forem os inputs nas crianças maior será a forma de construção da linguagem oral.
Princípios Existem oito princípios que norteiam esse projeto, definidos em: detecção e intervenção precoce, dispositivos eletrônicos, desenvolvimento da função auditiva, integração, comunicação, etapas das habilidades auditivas, avaliação, escola.
Detecção e Intervenção Precoce
O cérebro nos primeiros anos de vida está apto a desenvolver linguagem e isso só é possível de ocorrer se houver integridade do sistema auditivo. Enquanto o cérebro sofre maturação, as informações advindas do ambiente— chamadas de "Input"— são facilmente processadas e culminam na obtenção da linguagem oral. Levando isso em consideração, o diagnóstico precoce é muito importante para o desenvolvimento da crianças com deficiência auditiva pois propicia uma intervenção rápida e um melhor prognóstico.
Dispositivos eletrônicos miniaturadaimagem|188x188px|Aparelho de Amplificação Sonora Individual A amplificação e o uso constante e correto do aparelho de amplificação sonora individual ou do implante coclear (IC) multicanal, pois é por meio destes que a criança poderá ouvir a fala e os sons ao seu redor.
A audição consistente engloba não apenas a exposição, mas também a duração e a qualidade com que a informação sonora é percebida pela criança. Quando se trata de utilizar dispositivos eletrônicos, independentemente do grau de perda auditiva, a duração e a qualidade da informação desempenham um papel fundamental no desenvolvimento da criança.Novaes BCAC, Mendes BCA. Habilitação Auditiva: intervenção em bebês e crianças pequenas In: Tratado de Otorrinolaringologia - Aborlccf. 2 ed. Roca; 2011. p.371-80. miniaturadaimagem|214x214px|Implante coclear
Desenvolvimento da função auditiva
A terapia fonoaudiológica visa desenvolver habilidades auditivas como: detecção, discriminação, reconhecimento e compreensão, praticando isso levará a criança ao aprendizado da linguagem oral e atribuição de significado que ela possa dar ao mundo. O desenvolvimento da função auditiva acontece quando existe um ambiente acústico favorável, e a partir da introdução da criança em um mundo sonoro, com contextos significativos. Isso envolve não apenas o processo de terapias, mas também o dia a dia da criança, por meio da linguagem incidental, sendo um processo prazeroso e divertido.
É importante também todos os cuidados possíveis com as condições acústicas do ambiente, sempre que possível atenuar ruídos para tornar-se uma qualidade mais clara do som, e manter o Aparelho de amplificação sonora e individual (AASI) ou do Implante coclear (IC) sempre o mais eficientes possível.
Integração
Na abordagem aurioral é fundamental desenvolver o resíduo auditivo, e assim integrar a audição à personalidade da criança. A integração sensorial é o processo neurológico que organiza as sensações do próprio corpo e do meio ambiente, tornando possível que o corpo utilize para o uso na vida cotidiana. O som está em toda a parte e provê contato emocional com o meio ambiente continuamente e significativamente. A criança deve ser capaz de monitorar sua fala em desenvolvimento, ou seja, ouvir suas próprias emissões, a voz de outras pessoas e compará-las. Assim, deve ser trabalhado o saber ouvir, para que haja o uso adequado do resíduo auditivo e a atenção aos sons e aos significados que transmitem, possibilitando o domínio das habilidades da comunicação verbal.
Comunicação
O princípio de comunicação se refere às atividades comunicativas, que se iniciam desde de o primeiro ano de vida, quando a mãe conversa com o bebê. Mesmo os cuidadores de bebês surdos, devem falar e estimular a comunicação, pois se os cuidadores forem bons falantes, a criança também será. A comunicação envolve o falar e ouvir, essencial para efetividade comunicativa. Quando os pais ouvem e compreendem os filhos praticam um incentivo ao desenvolvimento da linguagem, já que é um meio da criança perceber que sua atividade comunicativa tem função.
Etapas das habilidades auditivas
As etapas das habilidades auditivas é o sexto princípio. Nele, o objetivo é fazer com que a criança com deficiência auditiva vivencie as mesmas etapas auditivas pelas quais as crianças ouvintes passam naturalmente, que são detecção auditiva, discriminação auditiva, reconhecimento auditivo e a compreensão. Estas etapas envolvem os sons ambientais e da fala, além dos processos psíquicos de atenção e memória, os quais são fundamentais para o desenvolvimento.
Avaliação
Durante todo processo terapêutico a criança deve estar sendo avaliada, tanto quanto a linguagem, ao aparelho de amplificação sonora e individual ou do implante coclear (IC) , ao grau da deficiência auditiva e seus relacionamentos sociais. Para a efetiva avaliação, é essencial ter em mente que cada criança é única, com suas individualidades e seu próprio desenvolvimento, de acordo com fatores internos e ambientais, de convivência e etc.
E por conta disso, é difícil estabelecer exatamente o que esperar de cada um, o que pode ser feito é ter possibilidades gerais de certos objetivos a serem alcançados pelo trabalho terapêutico.
Avaliação das habilidades auditivas e linguagem A avaliação das habilidades auditivas é realizada por meio de uma combinação de testes e exercícios específicos. Existem diferentes abordagens e ferramentas utilizadas, dependendo dos objetivos e do contexto da avaliação. Também é possível realizar avaliações clínicas mais abrangentes, como testes de processamento auditivo, que analisam a capacidade do sistema auditivo de processar e interpretar informações sonoras. Contudo, é importante ressaltar que essas avaliações devem ser realizadas por um profissional especializado, como o fonoaudiólogo, que possui o conhecimento e a experiência necessários para interpretar os resultados e fornecer orientações adequadas para o treinamento auditivo, por exemplo, que busca desenvolver as habilidades auditivas.
O desenvolvimento das habilidades auditivas e de linguagem ocorre nos primeiros anos de vida, pois a maturação do sistema auditivo central acontece neste intervalo de tempo, proporcionando o maior período de neuroplasticidade da vida humana, assim permitindo o estabelecimento de novas conexões neurais que são de extrema importância para um desenvolvimento típico da audição e da linguagem.
Com o desenvolvimento das habilidades auditivas, ocorre a melhora no processo da linguagem oral bem como da compreensão e ajuda principalmente as crianças, a dar significado ao mundo.
O completo funcionamento das estruturas responsáveis pela audição é de suma importância para aquisição e desenvolvimento da linguagem. A criança apenas estará apta para abranger e reconhecer a fala após compreender, entender, detectar, discriminar, localizar sons, memorizar e integrar as experiências auditivas.
Uma pequena alteração na via auditiva faz com que a criança apresente dificuldades não só para ouvir, mas para compreender e entender os sons aos quais entra em contato, ocasionando grandes prejuízos na aquisição e desenvolvimento da linguagem.
O desenvolvimento procede da mesma maneira para crianças com audição normal e para as crianças com deficiência auditiva. Mas as crianças com deficiência auditiva que fazem uso ou não do aparelho de amplificação sonora e individual ou do Implante coclear (IC) devido à perda auditiva o desenvolvimento ocorre num ritmo mais lento.
O desenvolvimento da Linguagem está diretamente ligada ao desenvolvimento das habilidades auditivas. A crianças desenvolvem a linguagem escutando as palavras ao seu redor. Se a criança tiver uma perda auditiva, dificulta para ela captar e reconhecer essas palavras e aprender. A perda auditiva quanto maior o grau maior é a dificuldade da percepção e discriminação da fala e maior é o défice de linguagem.