Maria Carneiro Pereira Gomes (Itajubá, 19 de agosto de 1875 – Itajubá, 14 de agosto de 1925) foi uma filantropa brasileira e esposa de Venceslau Brás, 9.º presidente do Brasil entre 1914 e 1918. Durante o mandato presidencial do marido, exerceu o papel de primeira-dama do país; anteriormente, entre 1910 e 1914, havia sido segunda-dama do Brasil, em razão do exercício da Vice-presidência por Venceslau.

Maria tornou-se conhecida por sua participação em campanhas assistenciais realizadas durante a presidência do marido. Entre as iniciativas documentadas estão a mobilização em favor dos atingidos pela seca de 1915, visitas a retirantes alojados na Hospedaria da Ilha das Flores, a distribuição de socorros durante a gripe espanhola de 1918 e sua vinculação ao comitê feminino da Cruz Vermelha Brasileira. Depois de retornar a Minas Gerais, participou da criação do Asilo Santa Isabel, instituição destinada à assistência e educação de meninas em situação de pobreza.

Embora não correspondesse a um cargo constitucional ou administrativo, a posição de primeira-dama proporcionava visibilidade pública à esposa do presidente. Estudos sobre a história das primeiras-damas brasileiras interpretam a atuação de Maria como um dos primeiros precedentes republicanos de associação sistemática entre a esposa do chefe de Estado e campanhas de assistência social.

Primeiros anos e família

Maria Carneiro Santiago nasceu em 19 de agosto de 1875, em Itajubá, no sul de Minas Gerais. Era filha de João Carneiro Santiago e Lucinda Guimarães Pereira Santiago, integrantes de uma família de projeção social e política na região. Seu irmão, Theodomiro Carneiro Santiago, foi advogado, político e um dos fundadores do instituto de ensino superior que deu origem à atual Universidade Federal de Itajubá (UNIFEI).

Em 12 de setembro de 1892, aos dezessete anos, casou-se com o advogado Venceslau Brás Pereira Gomes, então com vinte e quatro anos. O casal teve sete filhos. Nas décadas seguintes, Venceslau desenvolveu sua carreira na política municipal, estadual e federal, exercendo, entre outras funções, a presidência do estado de Minas Gerais, a Vice-presidência e a Presidência da República.

A residência familiar construída em Itajubá na década de 1910 tornou-se posteriormente conhecida como Casa Wenceslau Braz ou Casa Rosada. De arquitetura eclética, o imóvel foi tombado pelo estado de Minas Gerais em 30 de junho de 2008, com inscrições nos livros do tombo histórico, das belas-artes e das artes aplicadas.

Vida pública

Segunda-dama do Brasil

Venceslau Brás deixou o governo mineiro em 1910 para assumir a Vice-presidência da República na chapa encabeçada por Hermes da Fonseca. Entre 15 de novembro de 1910 e 15 de novembro de 1914, Maria foi, por consequência, designada segunda-dama do país.

A documentação disponível sobre sua atuação nesse período é limitada. Diferentemente de um cargo público, a condição de esposa do vice-presidente não possuía competências legais, remuneração ou estrutura administrativa própria. Sua projeção decorria principalmente das atividades sociais e protocolares tradicionalmente associadas às mulheres das elites políticas da época.

Primeira-dama do Brasil

Com a eleição de Venceslau Brás à Presidência da República, Maria tornou-se primeira-dama em 15 de novembro de 1914, sucedendo Nair de Teffé, esposa de Hermes da Fonseca. Permaneceu nessa posição até o fim do mandato presidencial, em 15 de novembro de 1918, quando foi sucedida por Francisca Ribeiro de Abreu, esposa de Delfim Moreira.

As fontes da época referiam-se frequentemente a ela como “Mme. Wenceslau Braz”, conforme o costume de identificar mulheres casadas pelo nome do marido. Pesquisadores descrevem seu estilo como reservado e pouco voltado à realização de grandes recepções palacianas. Sua visibilidade pública esteve mais relacionada a campanhas filantrópicas do que à vida social da residência presidencial.

O mandato de Venceslau Brás coincidiu com a Primeira Guerra Mundial, a grave seca de 1915 no Nordeste e a epidemia de gripe de 1918. Nesse contexto, Maria participou de mobilizações beneficentes dirigidas às populações atingidas por calamidades.

Campanha em favor dos atingidos pela seca de 1915

Em 1915, uma das mais graves secas das primeiras décadas do século XX provocou deslocamentos populacionais, fome e a formação de campanhas de solidariedade em diferentes regiões do país. No então Distrito Federal, associações civis, instituições religiosas, autoridades e integrantes da elite política organizaram eventos destinados à arrecadação de recursos para os chamados “flagelados do Norte”.

Maria figurou entre as responsáveis pelo patrocínio de uma grande festa beneficente realizada em 17 de outubro de 1915 na Quinta da Boa Vista, no Rio de Janeiro. Segundo a cobertura da Gazeta de Notícias, aproximadamente vinte mil pessoas compareceram ao evento, que reuniu apresentações musicais, jogos, barracas, serviços de alimentação e outras atividades destinadas à arrecadação de donativos.

A iniciativa integrava um movimento mais amplo de mobilização das mulheres pertencentes às famílias políticas e às instituições de beneficência da capital. Os recursos arrecadados eram encaminhados a organizações encarregadas de prestar auxílio aos retirantes e às comunidades atingidas pela estiagem.

Em 1916, a revista Careta publicou uma fotografia de Maria durante visita a retirantes instalados na Hospedaria da Ilha das Flores, na baía de Guanabara. A instituição funcionou em diferentes períodos como hospedaria de imigrantes e local de acolhimento de pessoas deslocadas por secas e enchentes.

Atuação durante a gripe de 1918

A epidemia de gripe espanhola chegou ao Brasil em 1918 e atingiu de forma especialmente severa o Rio de Janeiro. O colapso de serviços, a escassez de alimentos e o elevado número de doentes e mortos levaram à criação de postos de socorro e distribuição de gêneros alimentícios em escolas, instituições religiosas e outros edifícios públicos.

Uma fotografia publicada pela revista Careta em 2 de novembro de 1918 registrou Maria e algumas de suas filhas distribuindo socorros à população pobre. A imagem é uma das principais evidências visuais de sua participação nas ações emergenciais promovidas durante a epidemia.

Um retrato produzido no contexto das atividades da Cruz Vermelha e preservado pela Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos identifica Maria como presidente do comitê feminino da Cruz Vermelha Brasileira. O registro foi recebido pelo acervo norte-americano em março de 1919, poucos meses depois do encerramento da presidência de Venceslau Brás.

A documentação não permite determinar com precisão a duração, a estrutura institucional ou todas as atribuições exercidas por Maria no comitê. O registro, entretanto, demonstra que sua vinculação às atividades da Cruz Vermelha foi reconhecida publicamente naquele período.

Retorno a Itajubá e Asilo Santa Isabel

Encerrado o mandato presidencial em novembro de 1918, Maria e Venceslau regressaram a Itajubá. O ex-presidente afastou-se progressivamente da política nacional, embora continuasse a receber lideranças e visitantes em sua residência.

Em sua cidade natal, Maria participou da criação de uma instituição destinada ao acolhimento e à educação de meninas pobres. Segundo o historiador local Armelim Guimarães, ela solicitou contribuições a empresários e industriais e empregou os recursos obtidos na construção do Asilo Santa Isabel.

O asilo foi inaugurado em 20 de junho de 1921 e confiado à administração de religiosas das Irmãs da Providência. A instituição oferecia abrigo, educação e formação doméstica às meninas atendidas, de acordo com os padrões assistenciais e educacionais vigentes no início do século XX.

A criação do Asilo Santa Isabel deu continuidade, em âmbito local, à atuação assistencial desenvolvida por Maria durante os anos em que o marido ocupou a Presidência. A obra tornou-se uma das iniciativas mais frequentemente mencionadas pelas fontes biográficas relativas aos seus últimos anos de vida.

Morte

Maria morreu em Itajubá em 14 de agosto de 1925, cinco dias antes de completar cinquenta anos. Venceslau Brás sobreviveu à esposa por mais de quatro décadas, falecendo em 1966.

As fontes consultadas não registram de forma suficientemente consistente a causa de sua morte. Por essa razão, versões não documentadas sobre as circunstâncias do falecimento não são reproduzidas neste artigo.

Legado e interpretações historiográficas

A trajetória de Maria é analisada principalmente no contexto da formação histórica do chamado primeiro-damismo brasileiro. A historiadora Dayanny Deyse Leite Rodrigues considera sua atuação um dos primeiros casos em que a esposa de um presidente da República se dedicou de maneira mais sistemática a ações assistenciais associadas à visibilidade proporcionada pela posição de primeira-dama.

Essa interpretação não significa que Maria tenha ocupado um cargo estatal ou dirigido uma política pública formal. Suas atividades ocorreram sobretudo por meio de campanhas beneficentes, comissões femininas, redes religiosas e organizações civis, refletindo tanto as limitações impostas às mulheres na vida política daquele período quanto as formas socialmente aceitas de intervenção feminina no espaço público.

A mobilização de 1915, o auxílio prestado durante a epidemia de 1918, o vínculo com a Cruz Vermelha e a criação do Asilo Santa Isabel contribuíram para estabelecer uma associação entre a esposa do presidente e o campo da assistência social. Essa associação seria ampliada e institucionalizada de maneiras diferentes por primeiras-damas posteriores.

A preservação da Casa Wenceslau Braz, em Itajubá, também mantém parte da memória material da família. O tombamento estadual reconheceu o valor histórico e arquitetônico do imóvel, associado à vida privada do ex-presidente e de Maria em Minas Gerais.

Ver também

Primeira-dama do Brasil Lista de primeiras-damas do Brasil Venceslau Brás Cruz Vermelha Brasileira

Bibliografia

Ligações externas

Retrato de Maria Carneiro Pereira Gomes no acervo da Biblioteca do Congresso dos Estados Unidos Edição da Gazeta de Notícias de 18 de outubro de 1915, na Hemeroteca Digital Brasileira Casa Wenceslau Braz, no Instituto Estadual do Patrimônio Histórico e Artístico de Minas Gerais

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