A língua apurinã, ou ipurina, é uma língua aruaque meridional falada pelo povo apurinã que vive na Bacia do rio Amazonas. Apurinã é uma palavra da língua portuguesa usada para descrever o povo popikariwakori e sua língua. As comunidades indígenas apurinã são predominantemente encontradas ao longo do rio Purus, na região noroeste da Amazônia no Brasil, no estado do Amazonas. Sua população está espalhada em vinte e sete diferentes terras indígenas ao longo do rio Purus, com uma população total estimada em 9.487 pessoas. É predito, no entanto, que menos de 30% da população apurinã fala a língua fluentemente. Um número definido de falantes não pode ser determinado com certeza devido à variada distribuição regional de sua população devido a migrações. A migração para diferentes regiões se dá por conflitos internos entre os próprios apurinãs, doenças ou morte de parentes próximos, o que consequentemente levou nativos a perderem a habilidade de falar o idioma devido à falta de prática e também pelas interações com outras comunidades.
Além disso, como uma consequência da violência e opressão contra povos indígenas, alguns nativos e descendentes escolhem não se identificar como indígenas, reduzindo ainda mais o número de pessoas categorizadas como falantes da língua. A pouca transmissão e cultivo do uso do idioma resultam em vulnerabilidade da mesma. O nível de vulnerabilidade do apurinã é atualmente 3, o que significa que apesar de adultos ainda falarem, as crianças já não são mais expostas ao idioma. Já que são ensinadas português, uma redução ainda maior no número de pessoas que falam apurinã pode ocorrer ao longo dos anos, eventualmente levando à sua extinção.
Em 2023, foi declarada língua oficial do Amazonas, juntamente com outras 15 línguas indígenas.
Etimologia A etimologia do termo “apurinã” é possivelmente de uma palavra da língua jamamadi, povo que habita o sul do estado do Amazonas, em local próximo aos apurinã.
Distribuição
Distribuição geográfica Os falantes de apurinã estão localizados no oeste da Amazônia no Brasil, ao longo do rio Purus, no oeste do estado do Amazonas e norte do do Acre. No entanto, a distribuição geográfica não é exata devido às frequentes migrações dos apurinãs.
Dialetos Por meio de uma análise fonológica, é possível determinar variantes de fala sistemáticas o suficiente para constituir dialetos. Contudo, a migração para diferentes aldeias onde diferentes variantes estão presentes e a falta de um estudo mais sistemático e aprofundado, não se pode afirmar a existência de dialetos. Logo, é usado o termo "variante de fala", por ser mais neutro que "dialeto".
Línguas relacionadas No que tange ao contato com outras línguas, as principais relacionadas são o jamamadi, paumari e katukina, devido ao fato de haver falantes de apurinã que vivem em nas mesmas aldeias que falantes dos outros idiomas. Além disso, há contato frequente com o português brasileiro, mesmo com indígenas da aldeia Tumiã, que sempre tiveram uma forte tradição de evitar contato com não-indígenas.
No que se refere à relação genética entre línguas, o apurinã é parte do purus meridional da família aruaque, e a língua viva mais próxima do apurinã é o piro. O termo "aruaque" costumava ser utilizado para incluir um grupo genético que envolvesse os grupos Maipure, Arawá, Guahibo, Puquina e Hakakmbet, sendo essa classificação baseada principalmente na localização geográfica dos idiomas do que de qualquer metodologia linguística.
Fonologia
Vogais
Há 5 qualidades de vogais em apurinã, que podem variar em nasalidade (nasais ou orais) e duração (longas ou curtas). Elas são obrigatoriamente nasalizadas por vogais nasais adjacentes, mesmo através de limites de palavras.The World Atlas of Language Structures Online – Chapter 10 – Vowel Nasalization CurtasLongasAnteriorCentralPosteriorAnteriorCentralPosteriorOralNasalOralNasalOralNasalOralNasalOralNasalOralNasalFechadaiĩɨɨ̃i:ɨ̃ːɨ:ɨ̃ːMédiaeẽoõe:ẽ:o:õ:Abertaaãa:ã:
Fenômenos gerais
Vogais orais curtas Posterioridade de /ɨ/. A vogal oral curta /ɨ/ pode ser pronunciada mais ao fundo da boca por alguns falantes.
/e/ baixo. /e/ pode ser pronunciado como [ԑ] quando a vogal da sílaba seguinte é [o] ou [a]. Ainda se duas sílabas com /e/ precedem uma com /o/ ou /a/, em ambos os casos /e/ é pronunciado como [ԑ]. No entanto, esse fenômeno não ocorre sempre.
Altura do /o/. A vogal /o/ está em variação livre [o] ~ [ʊ] ~ [u].
Desvozeamento de vogais. Em sílabas não-tônicas ao final de palavras são desvozeadas, como em [kaˈjathɨ̥] ("paca"). Essa mudança está relacionada à fala rápida e não é tão consistente quanto às outras mencionadas acima.
Alternância de /a/ e [ԑ]. Em fala rápida, /a/ pode ser pronunciado por alguns falantes como [ԑ], como em /ata/ (pronome da primeira pessoa do plural) e ['atԑ]
Vogais nasais curtas Neutralização do contraste por nasalidade. Quando precedem consoantes nasais, vogais orais e nasais alternam sem mudança de sentido, como em [ʃi'makɨ] ~ [ʃĩ'makɨ] (“peixe”).
Ditongos Os ditongos do apurinã são /ai, ei, oi, ao e io/. Também podem ser encontrados ditongos nasais no idioma, apesar de serem menos frequentes; são eles: /ãĩ, ãũ, ẽĩ e ũĩ/.
Consoantes As consoantes do apurinã se encontram na tabela a seguir: Bilabial Alveolar Palatal ou Postalveolar Velar Glotal Nasal oclusiva Plosiva Africada Fricativa Tepe Aproximante
Fenômenos gerais
Vozeamento. Apesar de não haver contraste entre consoantes vozeadas ou surdas, as consoantes vozeadas são muito mais frequentes após vogais nasais do que as desvozeadas, como em [ĩboˈrã] ~ [ĩpoˈrã] (chuva). Notadamente, quanto maior a fluência do falante de apurinã em português, maior a sua percepção das diferenças entre consoantes vozeadas e surdas no próprio apurinã. Além disso, há seis palavras que geralmente são pronunciadas com consoantes vozeadas e não seguem o padrão supracitado. É incerto se se tratam de empréstimos de outras línguas ou qual seja a razão que causa o vozeamento. Essas palavras são: [doˈroɰa] (tipo de sapo) [beˈsorɨ] (golfinho de rio) [dãmo] (tipo de lagarto) [ˈgesɨ] (arco-íris) [bãˈkota] (banco – do português “banco”) [agaˈõ] (tipo de fruta)
Palatalização. /k/ é pronunciado [kj] quando precede [ԑ], um alofone de /e/, que ocorre de acordo com as condições mencionadas na seção das vogais. O mesmo ocorre com a forma vozeada da consoante. Esse fenômeno é exemplificado abaixo: [kʲɛˈɾopa] ("quem é ela?") [ĩˈɡʲɛta] (noite)
Aspiração. Plosivas são aspiradas em sílabas finais não-tônicas precedendo vogais surdas, como em [kaˈjatʰɨ̥] (paca). /t/ para "trás" antes de /a/. /t/ pode ser realizado como o plosiva apical alveolar [t] ou plosiva laminar alveolar [t>]. [t] e [t>] alternam-se livremente quando precedem /a/. Assim, [t>] pode ser postalveolar/pre-palatal ou às vezes um pouco retroflexo.
Escrita A escrita apurinã foi proposta por Sidney Facundes, estudioso do idioma, e tem influência da escrita portuguesa e do AFI, com o foco em facilitar o aprendizado da escrita pelos falantes nativos; por exemplo, para representar o fonema /s/, usa-se apenas "s", apesar de o português fazer uso de "s", "sc", "ç" etc. Vogais longas são escritas pela repetição do caractere, e vogais nasais com o uso do diacrítico til.
Vogais Apurinã:AFI:Aproximação do som em português:a/a/amore/e/essei/i/amigoo/o/todau/ɨ/pequeno no dialeto europeuã/ã/amanhãẽ/ẽ/presenteĩ/ĩ/simõ/õ/somũ/ɨ̃/ --
Consoantes Apurinã:Representação fonológica:Aproximação do som em português:p/p/patot/t/tatuk/k/cavalom/m/macacon/n/navios/s/sapox/ʃ/xícarah/h/~Øcalor no dialeto carioca ou silenciosow/w/aumentary/j/constrói
Dígrafos Apurinã:AFI:Aproximação do som em português:aa/aː/amor, porém mais longoee/eː/esse, porém mais longoii/iː/amigo, porém mais longooo/oː/toda, porém mais longouu/ɨː/pequeno no dialeto europeu, porém mais longoãã/ãː/amanhã, porém mais longoẽẽ/ẽː/presente, porém mais longoĩĩ/ĩː/sim, porém mais longoõõ/õː/som, porém mais longoũũ/ɨ̃ː/ --io/iʷ/subiuei/eʲ/seioi/oʲ/foiai/aʲ/caiao/aʷ/aumentarãĩ/ãj̃/mãeãũ/ãw̃/mãoẽĩ/ẽj̃/semõĩ/õj̃/põenh/ɲ/ninhots/t͡s/pizzatx/t͡ʃ/tchau
Gramática O apurinã possui uma sintaxe de língua ativa-estativa.Aikhenvald, "Arawak", in Dixon & Aikhenvald, eds., The Amazonian Languages, 1999. É uma língua aglutinante. Possui classes abertas de palavras (substantivos e verbos), às quais, à princípio, novas palavras podem ser facilmente adicionadas, e classes fechadas (pronomes, demonstrativos, partículas, palavras interrogativas e numerais), com as quais ocorre o contrário.
Pronomes
Pessoais Como mostra a tabela abaixo, existem quatro pronomes independentes do singular e três pronomes independentes do plural. Como os exemplos demonstram, os pronomes podem ser usados em uma sentença tanto para o sujeito quanto para o objeto. Os pronomes pessoais independentes do apurinã se encontram na tabela a seguir: Pessoa e gêneroPronomesSingularPluralPrimeira pessoanotaataSegunda pessoapitehĩteTerceira pessoaMasculinouwaUnawa/nunawa/nunowaFemininoowa Os pronomes independentes podem ser usados como sujeito e objeto, com marcas pronominais que se referem ao sujeito ou ao objeto:
nhi-nhipolo-ta nota
1SG-comer-VBLZ 1SG
"Eu estava comendo"pi-nhipoko-ta pita
2SG-comer-verbalizador 2SG
"Tu estavas comendo"o-nhipoko-ta owa
3SG-comer-VBLZ 3SG
"Ela/ele estava comendo"
n-etama-ta-i pita
1SG-ver- VBLZ- 2O 2SG
"Eu te vi"
p-etama-ta-no nota
2SG-ver-VBLZ 1SG
"Você me viu"
Ø-atama-ta-ro owa
3M-verVBLZ-3F.O 3F
"Ele a viu"
O idioma possui, além dos pronomes pessoais independentes, marcadores pronominais que podem ser conectados a outras palavras. Pessoa e gêneroMarcadores pronominaisSujeito/PossuidorObjetoPrimeira pessoa do singularnu-, no -ruSegunda pessoa do singularpu- -iTerceira pessoa do singular masculinau- -ruTerceira pessoa do singular femininao- -roPrimeira pessoa do plurala- -waSegunda pessoa do pluralhĩ- -iTerceira pessoa do plural masculinau-...-na -ruTerceira pessoa do plural femininao-...-na -ro
Possessivos Os pronomes independentes supracitados podem ainda ser usados para indicar possessão, como nos exemplos a seguir:
nota aiko-te
1SG casa-POSSED
"Minha casa"
uwa aiko-te
3M casa-POSSED
"Casa dele"
ata aiko-te
1PL casa-POSSED
"Nossa casa"
Demonstrativos Apesar de estarem incluídos neste artigo como pronomes, os demonstrativos podem ser analisados como uma classe sintática distinta, visto que para alguns falantes, eles não são usados para substituir expressões nominais com função de argumentos do verbo. Eles não variam em número porém variam em gênero. Com exceção do demonstrativo nakara (usado para referentes fora do campo de visão, o qual é encontrado apenas na vila Fortaleza) e wera (usado para referentes distantes e não possui flexão de gênero, e sua distribuição é incerta), os demonstrativos do apurinã se encontram na tabela: GêneroMasculinoFemininoPróximoi-yeo-yeDistanteu-kirao-kira Os pronomes demonstrativos precedem os substantivos aos quais se referem, como nos seguintes casos:
i-ye hãtako-ru
M-PROX jovem-M
"este garoto"
o-kira hãtako-ro
F-DIST jovem-F
"aquela garota"
Quando modificam substantivos no plural, a distinção de gênero é neutralizada em favor do uso do masculino, como indicado nos exemplos a seguir:
u-ye hãtako-ro-wako-ro
M-PROX jovem-F-PL-F
"estas garotas"
o-kira hãtako-ro-wako-ro
F-DIST jovem-F-PL-F
"aquelas garotas"
Substantivos Os nomes/substantivos em apurinã são, morfologicamente, palavras que consistem em uma base nominal a qual se conectam morfemas inerentemente nominais (que podem indicar gênero, número e posse/não posse). Gênero e categorias
Em apurinã, os substantivos podem ser categorizados de acordo com gênero e outras propriedades gramaticais. A categorização dos nomes pode ser representada a seguir:
NOMES Nomes simples: nomes simples são os que não podem ser reanalisados em elementos morfológicos menores; tem apenas uma raiz.