Sabellidae é uma família da classe Polychaeta. São fáceis de serem identificados pelas suas características marcantes, como uma coroa radiolar e suas belas cores. Em contrapartida, representa o táxon mais diverso da classe Polychaeta, possuindo uma grande variação de tamanho e de volume corporal (com diferença de até cinco ordens de grandeza), com espécies conhecidas que variam de 85mm com 11 segmentos à 45cm com centenas de segmentos. São animais aquáticos, que podem ser encontrados tanto em águas doces quanto no ambiente marinho, distribuídos em todo o mundo. Os sabelídeos vivem presos nos sedimentos e em tubos mucosos, podem ser encontrados desde regiões entre marés até profundezas abissais.BEESLEY, Pamela L.; ROSS, Graham JB; GLASBY, Christopher J. Polychaetes & allies: the southern synthesis. CSIRO publishing, 2000. Algumas espécies são capazes de perfurar substratos de calcário, por isso são comuns em ambientes de recifes de corais. Eles possuem o corpo com segmentação heterônoma, ou seja, que apresenta uma divisão com formas diferentes, separado em tórax e abdômen. Anteriormente, os Sabellidae também incluíam a família Fabriciidae, mas estudos atuais classificaram esses animais em sua própria família.

Diversidade Sabellidae é uma das famílias mais diversas de poliquetas, com mais de 400 espécies descritas até o momento, sendo classificadas em 40 gêneros. Os Sabellidae podem ser encontrados em todos os mares, estando associados a superfícies duras ou sedimentos macios, desde regiões entre marés até profundezas abissais. Alguns táxons (por exemplo, Pseudopotamilla) são capazes de penetrar em substratos de carbonato de cálcio e, assim, são comuns em ambientes de recife de coral.ROUSE, Gregory; PLEIJEL, Fredrik. Polychaetes. Oxford university press, 2001. Muitas espécies habitam substratos rígidos do litoral como epibiontes em algas, associadas a moluscos e ascídias e também em fendas de rochas. miniaturadaimagem|Myxicola infundibulum Montagu, 1808.|alt= A maioria dos animais, principalmente os com corpo maior, nunca saem do tubo que os envolve, por outro lado, as formas menores, como as espécies de Fabricia Blainville, 1828, são capazes de se movimentar.FAUCHALD, Kristian. The polychaete worms. Definitions and Keys to the Orders, Families, and Genera. Natural History Museum of Los Angeles County, Science Series 28:1 - 190, Los Angeles, 1977. Juntamente a isso, animais com tubos que são várias vezes maiores que seu corpo, normalmente possuem esse tubo ligado à substratos duros. Por outro lado, animais com formas menores normalmente possuem seus tubos imersos horizontalmente ou verticalmente em sedimentos macios. A família Sabellidae é incomum entre os poliquetas, que em sua maioria são marinhos, por apresentar grande número de táxons que vivem em água doce, incluindo Caobangia Giard, 1893, Brandtika Jones, 1974, Monroika Hartman, 1951 e Manayunkia Leidy, 1858. Quanto às espécies marinhas, as formas maiores estão normalmente associadas às águas rasas, enquanto que as espécies de formas menores se concentram nas profundidades do mar. esquerda|miniaturadaimagem|Sabella spallanzanii Gmelin, 1761 com movimentação de sua coroa Uma grande característica dos Sabellidae' é a diversidade de olhos que possuem, sendo a maior variação de tipos e arranjos dentro dos Annelida. A diversidade não é encontrada somente entre espécies, mas podem ser encontradas também em um único indivíduo. Isso deve-se à característica dos Sabellidae de possuírem olhos radiolares, peristomiais, segmentais e pigidiais. Olhos pigidiais são comumente encontrados em espécies que possuem a habilidade de sair de seus tubos e construir novos.Purschke, G. (2005): Sense organs in polychaetes (Annelida). Hydrobiologia 535/536: 53–78.

Acerca da diversidade de alimentação desses animais, praticamente todos são capazes de alimentação suspensívora e, algumas formas menores, como Manayunkia aestuarina Bourne, 1883, podem se alimentar de partículas de matéria orgânica no solo ou no sedimento.Fauchald, Kristian and Jumars, Peter A. 1979. "The diet of worms: A study of polychaete feeding guilds." Oceanography and Marine Biology Annual Review. 17:193–284.

Concernente à distribuição de Sabellidae, há um padrão latitudinal. Trinta gêneros e a maioria das espécies são encontradas em áreas tropicais, principalmente no Indo-Pacífico.Giangrande, A. & Licciano, M. (2004): Factors influencing latitudinal pattern of biodiversity: An example using Sabellidae (Annelida, Polychaeta). Biodiversity and Conservation 13: 1633–1646. Existem grupos exclusivos nos trópicos, como Caobangia Giard, 1893, Amamobaea Krøyer, 1856 e Stylomma Knight-Jones, 1997.Tovar-Hernández, M.A. & Salazar-Vallejo, S.I. (2006): Sabellids (Polychaeta: Sabellidae) from the Grand Caribbean. Zoological Studies 45: 24–66. A maioria dos gêneros abundantes na região do Indo-Pacífico está ausente em altas latitudes. Entretanto, gêneros de regiões mais frias estão ausentes no Indo-Pacífico, como por exemplo Chone Krøyer, 1856, Euchone Malmgren, 1866 e Jasmineira Langerhans, 1880. A região antártica conta com a presença de quinze gêneros em seu território, já a região do Ártico apresenta nove gêneros, mostrando que a Antártica possui mais diversidade, além de maior taxa de endemismo nessa região.

A faixa de distribuição de algumas espécies fora ampliada não intencionalmente, estando fora da faixa de distribuição esperada.El Haddad, M., Capaccioni-Azzati, R. & Garcia-Carrascosa, A.M. (2008): Branchiomma luctuosum (Polychaeta: Sabellidae): a non-indigenous species at Valencia Port (western Mediterranean Sea, Spain). Marie Biodiversity Records 1: e61. Um exemplo desse ocorrido diz respeito à espécie Atlântico-Mediterrânea Sabella spallanzanii Gmelin, 1791 que há 20 anos fora introduzida na Austrália e posteriormente à Nova Zelândia. Nesses países, esse poliqueta tornou-se uma praga que causou diversos impactos ao ecossistema marinho e, consequentemente, causando consequências econômicas costeiras.Lemmens, J.W.T.J., Clapin, G., Lavery, P. & Cary, J. (1996): Filtering capacity of seagrass meadows and other habitats of Cockburn Sound, Western Australia. Marine Ecology Progress Series 143: 187–200. thumb|Glomerula gordialis do Cretáceo Superior, Alemanha.|203x203px

Registro fóssil e evolução Por conta da falta de partes corpóreas duras ou tubos sólidos, o registro fóssil de animais da família Sabellidae é bem escasso, com apenas algumas espécies representantes. Apenas membros do gênero Glomerula Nielsen, 1931, com tubos calcificados, foram encontrados do Hetangiano ao Eoceno.KOČÍ, Tomáš. SABELLIDAE AND SERPULIDAE (POLYCHAETA, CANALIPALPATA) FROM THE LOCALITY KAŇK–NA VRŠÍCH IN KUTNÁ HORA (UPPER CENOMANIAN–LOWER TURONIAN, BOHEMIAN CRETACEOUS BASIN–THE CZECH REPUBLIC). Acta Musei Nationalis Pragae, Series B-Historia Naturalis, v. 68, 2012. A calcificação dos tubos em sabelídeos ocorreu no início do Mesozóico e a ultraestrutura do tubo permaneceu sem alterações até o presente.VINN, Olev; TEN HOVE, Harry A.; MUTVEI, Harry. On the tube ultrastructure and origin of calcification in sabellids (Annelida, Polychaeta). Palaeontology, v. 51, n. 2, p. 295-301, 2008. Um dos casos conhecidos da presença de fósseis é da espécie Glomerula lombricus em que os indivíduos agiam como encrustadores de corais no início do Cretáceo na Bacia de Néunquen, na Argentina, entretanto, outras espécies do gênero Glomerula também apresentam registros fósseis em outros lugares ao redor do mundo.

Taxonomia e filogenia Taxonomia miniaturadaimagem|311x311px|Sabellidae com tubo mucoso e coroa radiolar, duas das suas principais características taxonômicas A família Sabellidae foi descrita por Latreille em 1825 e é composta por anelídeos marinhos que vivem em tubos. Os organismos dessa família possuem diversos caracteres morfológicos característicos, amplamente utilizados no estudo de sua taxonomia, sendo estes: presença de tubo mucoso com partículas de sedimento; coroa radiolar com dois lobos basais fundidos dorsalmente com suporte numa estrutura interna de células vacuolares arroladas em ao menos duas linhas radiolares (exceto em Caobangia Giard, 1893, com apenas uma linha); presença de lábios ventrais e dorsais, frequentemente apoiados nas linhas de células vacuolares; peristômio subdividido em dois anéis; notopodia no segmento 1 e neuropódia no segmento 2, ambos com estruturas acessórios (ganchos); olhos compostos ou pontos visuais presentes no radíolo, peristômio, segmentos corpóreos e pigídio.CAPA, M. et al. Sabellidae Latreille, 1825. The Handbook of Zoology. De Gruyter, Berlin, v. 42, 2014.

O grupo conta com 40 gêneros atualmente, citados abaixo:

Filogenia Na classificação atual, feita a partir de análise cladística e sistematização por Rouse e Fauchald em 1997,ROUSE, Gregory W.; FAUCHALD, Kristian. Cladistics and polychaetes. Zoologica Scripta, v. 26, n. 2, p. 139-204, 1997. a família Sabellidae se encontra na sub-ordem Sabellida, cuja apomorfia é a fusão do prostômio com o peristômio e na ordem Canalipalpata, cuja apomorfia é a presença de palpos estriados utilizados na alimentação.

Um dos primeiros poliquetos descritos formalmente com enquadramento na família Sabellidae foi Sabella penicillus Linnaeus, 1758. Anteriormente à existência dessa família, classificações mais antigas agrupavam Sabellidae e Serpulidae como um outro grupo, chamado de Serpulacea,Grube, A.E. (1850): Die Familien der Anneliden. Archiv für Naturgeschichte . Berlin 16: 249–364. SabelliformiaBenham, W.B. (1896): The Archiannelida, Polychaeta, Myzostomaria. In Harmer, S.F. & Shipley, A.E. (eds.). The Cambridge Natural History . England, MacMillan and

Co., Ltd., p. 241–344. e Serpulimorpha.Uschakov, P.V. (1955): Polychaete worms of the far-eastern seas of the USSR. Keys to the fauna of the USSR 56: 1–443. A ordem Sabellida foi estabelecida apenas em 1962 por Dales,Dales, R.P. (1962): The polychaete stomodeum and the inter-relationship of the families of Polychaeta. Proceedings of the Zoological Society of London 139: 389

–428. que foi mudando sua composição com o tempo, mas atualmente abriga três famílias: Sabellidae, Serpulidae e Fabriciidae.Capa, M., Hutchings, P., Aguado, M.T. & Bott, N. (2011a): Phylogeny of Sabellidae (Annelida) and relationships with other taxa inferred from morphology and multiple

genes. Cladistics 27: 449–469.Kupriyanova, E.K. & Rouse, G.W. (2008): Yet another example of paraphyly in Annelida: molecular evidence that Sabellidae contains Serpulidae. Molecular

Phylogenetics and Evolution 46: 1174–1181. miniaturadaimagem|Desenho esquemático de Sabella penicillus Linnaeus, 1758.|270x270px|alt=

Recentemente se alterou o entendimento de Sabellidae como grupo quando Capa adicionou a presença de lábios ventrais e dorsais como caracteres diagnósticos desse taxa. Atualmente, a família Sabellidae contém 40 gêneros. A filogenia mais parcimoniosa, incluindo caracteres tanto morfológicos quanto genéticos, inclui 20 desses gêneros, com vários grupos externos utilizados como referência. Segundo essa filogenia, Sabellidae reúne dois grandes clados, nenhum deles com suporte robusto de fato, entretanto, consistentes com hipóteses filogenéticas baseadas em caracteres morfológicos.Nogueira, J.M.M., Fitzhugh, K. & Rossi, M.C.S. (2010): A new genus and new species of fan worms (Polychaeta: Sabellidae) from Atlantic and Pacific Oceans-The

formal treatment of taxon names as explanatory hypotheses. Zootaxa 2603: 1–52.

Morfologia miniaturadaimagem|231x231px|Imagem microscópica do tubo de calcário de Glomerula piloseta.|alt= Externa