Antimovimento social é um conceito que se refere a formas de mobilização marcadas uma lógica autoritária de ação coletiva, em que o adversário é considerado como inimigo, traidor ou simples obstáculo a eliminar. Diferentemente dos movimentos sociais propriamente ditos – que se estruturam a partir do conflito entre atores em torno da definição e da condução de valores culturais centrais da sociedade, reconhecendo a legitimidade do adversário –, o antimovimento elimina a dimensão relacional do conflito ao negar o outro como sujeito. Nesse tipo de mobilização, o oponente é reduzido à condição de inimigo, obstáculo ou ameaça absoluta, cuja existência deve ser suprimida ou marginalizada. Ao fazer isso, o antimovimento restringe as possibilidades de liberdade, expressão e construção identitária, tanto no plano individual quanto coletivo, impedindo a produção de subjetividades vinculadas a projetos culturais diversos. Ou seja, é uma dinâmica que rompe com os fundamentos democráticos da ação social e transforma o conflito societal em imposição autoritária, esvaziando seu caráter propriamente social.TOURAINE, Alain. Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes. Rio de Janeiro: Vozes, 1998.
Nesse sentido, para Touraine um antimovimento social é caracterizado quando:
“[…] um ator social se identifica inteiramente com uma aposta cultural, por exemplo no progresso, e então rejeita seu adversário como inimigo, traidor ou simples obstáculo a eliminar. O que define um movimento societal (social) – isto é, o conflito de atores pela gestão social de uma aposta cultural, conflito que nunca se reduz completamente aos interesses de um e de outro – quebra-se, então, e a ação que questiona as grandes orientações da sociedade degrada-se em seita ou em mobilização autoritária"
Origem do conceito A formulação do conceito de antimovimento social tem como pano de fundo a tradição da sociologia da ação, particularmente desenvolvida por Alain Touraine, cuja perspectiva parte do entendimento de que a ação social nunca ocorre de maneira isolada ou descontextualizada. Nessa abordagem, os comportamentos individuais e coletivos são sempre respostas a estímulos sociais e se constituem em relações marcadas por conflitos, acomodações e negociações contínuas. Tal concepção desloca o foco das estruturas rígidas para a centralidade da agência, enfatizando a capacidade dos sujeitos de intervir ativamente na realidade social.
Para Touraine, o sujeito não pode ser reduzido a uma posição estrutural previamente definida, mas deve ser compreendido como vontade, resistência e ação, ou seja, como ator que produz demandas, elabora reivindicações e disputa sentidos no mundo social. Essa condição de sujeito implica o reconhecimento de uma identidade pessoal e coletiva que se constrói na luta por transformação do ambiente material, social e cultural, fazendo do indivíduo e dos coletivos agentes históricos dotados de intencionalidade política. A partir dessa definição restritiva e normativa de movimento social – entendida como ação coletiva voltada à contestação de formas amplas de dominação e à afirmação de direitos sociais e culturais, e não como qualquer tipo de conflito ou iniciativa política – é possível delimitar, por contraste, a noção de antimovimento social, associada a ações coletivas que, em vez de questionarem modelos dominantes, tendem a reforçá-los, bloqueando a emergência de novos sujeitos e a ampliação de direitos.GOHN, Maria da Glória. A contribuição de Alain Touraine para a produção do conhecimento na sociologia urbana: sujeitos coletivos e multiculturalidade. In: GOHN, Maria da Glória. Novas teorias dos movimentos sociais. São Paulo: Edições Loyola, 2010CALDAS, Renan Rubim. "O antimovimento social “Escola_Sem_Partido” e a negação da produção de subjetividades nos espaços públicos". Encontro Nacional Anpuh, 2017. Disponível em <https://www.snh2017.anpuh.org/resources/anais/54/1502744165_ARQUIVO_TextocompletoEncontroNacionalAnpuh2017.pdf>SILVA, Maria Salete. Democracia e sujeito: uma relação indissociável na obra de Alain Touraine. Emancipação, Ponta Grossa, 8(2), 2008
Ver também Associações (relação com a democracia)
Controlo social
Democracia participativa
Participação social (participação pública)
Encaixes socioestatais
Referências Categoria:Ciência política Categoria:Administração pública