A Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) é a alteração dos limiares auditivos resultante da exposição prolongada e contínua a elevados níveis de pressão sonora (Anexo 1 - Norma Regulamentadora n° 7 - NR7). Caracteriza-se como uma perda auditiva sensorioneural e tem como características principais a irreversibilidade e a progressão gradual com o tempo de exposição ao risco, isto é, uma vez que as células ciliadas forem lesadas não há como recuperá-las. A princípio, há o acometimento dos limiares nas frequências mais agudas, como, por exemplo, na faixa de 3000 a 6000 Hz. No entanto, caso a exposição não cesse, as frequências graves também serão lesionadas. Existem casos de PAIR relacionados com outros sintomas não comumente associados, como hipertensão arterial, diabetes, medicamentos e agentes ototóxicos.
Como já citado, a deterioração da audição acarretada pela PAIR pode ser devido a exposição crônica e repetida ao ruído mas também pode ocorrer devido a uma exposição curta mas de grande impacto, como um tiro ou uma explosão, chamado de Trauma Acústico. Contudo, o mesmo padrão ocorre: o som forte provoca super estimulação das células ciliadas, levando à lesão permanente ou morte das mesmas.
Por sua etiologia, geralmente ocorre em trabalhadores expostos a ambientes muito ruidosos e pensando nisso, existe a terminologia perda auditiva ocupacional, pois além do ruído, outros agentes de risco presentes nos ambientes de trabalho, como produtos químicos e vibração, que em ação combinada, podem levar ao desenvolvimento de uma perda auditiva. Mas além dos fatores ocupacionais, a PAIR também pode ocorrer devido a exposições ao ruído ambiental ou em atividades recreativas, sociais e militares. Sendo assim fica em evidência a importância de trazer ao conhecimento de todos que a Perda Auditiva Induzida por Ruído (PAIR) acontece não somente em indústria e sim no nosso dia a dia.
Apesar da PAIR por si só não indicar incapacidade ao trabalho, de acordo com a portaria nº 6.734 de 9 de Março de 2020, a Organização Mundial da Saúde (OMS) divulgou que no ano de 2000, a patologia era responsável por 19,0% dos anos vividos com incapacidade causada por todas as doenças e agravos decorrentes de fatores ocupacionais, em todo o mundo.
Os sintomas mais prevalentes, além daqueles relacionados a dificuldade auditiva como a dificuldade de compreensão de fala, o zumbido (tinnitus) e a intolerância a sons intensos, os indivíduos com PAIR ainda podem relatar queixas como cefaleia (dor de cabeça), tontura, irritabilidade, problemas digestivos, entre outros.
Atualmente, existe uma variedade de estratégias de prevenção disponíveis para evitar ou reduzir a perda auditiva, como diminuir a intensidade do som em sua fonte, limitar o tempo de exposição ao ruído e utilizar proteção física. Nos casos onde o ruído é o fator de risco ocupacional são propostos o uso do Equipamento de Proteção Individual (EPI), que pode reduzir os efeitos negativos do ruído excessivo. Se não for prevenida e houver a instalação da perda auditiva pode ser necessário o uso de aparelhos de amplificação sonora individual e a realização de terapias de reabilitação auditiva.
Fatores de Risco
1. Níveis de Intensidade Sonora: Sons acima de 85 dB são considerados prejudiciais, especialmente com exposição prolongada. Sons acima de 120 dB podem causar danos imediatos;
2. Duração da Exposição: A dose de ruído é cumulativa, com risco crescente ao longo do tempo;
3. Atividades Recreativas e Ocupacionais: Shows, fones de ouvido em volume alto e ocupações como construção civil, transporte e indústria aumentam a probabilidade de PAIR;
4. Falta de Proteção Auditiva: O não uso de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs) é um dos principais agravantes da condição.
Sinais e sintomas A PAIR gera alguns sintomas e dificuldades que variam conforme o tipo, grau e configuração da perda auditiva. Ela é frequentemente bilateral e simétrica, progredindo de forma lenta e imperceptível nos estágios iniciais. Uns dos primeiros sintomas pode ser a dificuldade em ouvir e/ou manter uma conversa na presença de ruído de fundo, além do frequente aumento do volume da televisão e/ou telefone, dentre outros aparelhos eletrônicos. O efeito da perda auditiva na percepção da fala tem dois componentes. O primeiro é a perda de audibilidade, que pode ser percebida como uma diminuição geral na intensidade que se ouve. Os aparelhos auditivos modernos compensam essa perda com a amplificação sonora. O segundo componente é conhecido como "distorção" ou "perda de clareza" devido à perda seletiva de frequência. Devido à sua maior frequência, as consoantes são caracteristicamente afetadas primeiro. Por exemplo, os sons /s/ e /t/ costumam ser difíceis de ouvir para aqueles com perda auditiva, afetando a clareza e, por sua vez, o entendimento da fala.
Alterações auditivas
Mudança permanente de limiar (em inglês, Permanent Threshold Shift, ou PTS) é uma alteração permanente do limiar auditivo (a intensidade necessária para detectar um som) após um evento, que nunca será recuperada. A PTS é medida em decibel.
Mudança temporária de limiar (em inglês,Temporary Threshold Shift ou TTS) é uma alteração temporária do limiar auditivo, havendo recuperação após algumas horas ou alguns dias. É também chamada de fadiga auditiva, sendo igualmente medida em decibel.
Zumbido O zumbido é descrito como a percepção de um som sem que haja produção por uma fonte sonora externa. Esse som chamado de zumbido, pode ser semelhante a um apito, um ruído ou outro som com características parecidas a determinadas frequências específicas escutadas pelo indivíduo. Existem diversas teorias em relação à fisiopatologia do zumbido; sabe-se que surge como resultado da comunicação de várias regiões do sistema nervoso e do sistema límbico, que pode estar relacionado a alterações e/ou lesões que ocorrem na cóclea. Essas alterações causam desequilíbrios nas vias inferiores do sistema auditivo e acarretam no funcionamento atípico neuronal, depois é evidenciado pelo sistema nervoso central, por último percebido como o zumbido.
O zumbido, condição de saúde caracterizada como a percepção interna de um som na ausência de uma fonte sonora externa, impacta negativamente a vida de seu portador. Essa alteração afeta diretamente a vida social e profissional do indivíduo, podendo estar relacionada insônia, ansiedade, depressão (6). Na última década, o zumbido teve um aumento em sua incidência, passando a acometer 25,3% da população mundial.
Causas relacionadas ao zumbido
Otológicas; Neurológicas e traumáticas; Efeitos adversos de medicamentos; Distúrbios metabólicos; Depressão; Disfunção temporomandibular; Outros.
O zumbido possui algumas características. Pode acometer apenas uma ou ambas as orelhas, ser contínuo ou flutuante, de pitch grave ou agudo. O indivíduo geralmente relata estar escutando um apito (zumbido) fino ou grosso.
É classificado como o terceiro pior sintoma, superado somente pelas dores e tonturas intratáveis. O zumbido afeta de forma direta ou indiretamente a qualidade de vida do indivíduo, em suas atividades profissionais e de lazer, atingindo 17% da população mundial. Causa sofrimento significativo em 4% das pessoas em geral.
Como o zumbido está presente em grupos de diferentes patologias, para seu tratamento, é necessário determinar e conhecer suas características, causas e as consequências que gera na vida do sujeito. Ainda não há um tratamento efetivo e comprovado cientificamente. Porém algumas abordagens terapêuticas podem ser realizadas, como por exemplo: terapias odontológicas; terapias alternativas (acupuntura, técnicas de relaxamento e musicoterapia); terapias comportamentais; medicação; alterações na dieta; encaminhamento para uso de aparelho auditivo anti-zumbido; e terapia com sons externos (ruídos brancos, músicas ou sons da natureza) com o intuito de "mascarar' a percepção do zumbido.
Otalgia
Hiperacusia
Plenitude auricular
Dificuldade de discriminação de fala
Tontura ou Vertigem Fisiologia dos sintomas
Os sintomas auditivos mencionados acima são os sinais externos da resposta fisiológica à super estimulação coclear. Essa resposta, é proveniente de ao menos 3 fatores. O primeiro deles, a danificação das células ciliadas da cóclea que não se regeneram, fazem com que a perda auditiva seja irreversível. Já o segundo está atrelado a inflamação das áreas expostas, que por sua vez geram um fluxo sanguíneo ruim nos vasos sanguíneos expostos (estase vascular) e um mau suprimento de oxigênio para o líquido dentro da cóclea (hipóxia endolinfática), piorando a degeneração e danificando as células ciliadas. Por último, os danos sinápticos por excitotoxicidade são gerado a partir da super estimulação do ruído, o qual provoca uma liberação excessiva de glutamato, fazendo com que o botão pós-sináptico inche e estoure. No entanto, a conexão do neurônio pode ser reparada, e a perda auditiva causada apenas pela excitotoxicidade pode ser recuperada dentro de 2 a 3 dias.
A PAIR e o Trauma acústico apresentam alguns sintomas, como:
Alterações não auditivas A exposição ao ruído pode acarretar também em efeitos sobre o organismo, como:
Dificuldade de concentração
Irritabilidade
Alteração no sono
Diminuição da qualidade de vida A avaliação dos efeitos não-auditivos da PAIR está relacionada com as consequências na vida diária do indivíduo. Essa avaliação se faz necessária para analisar o quanto a perda auditiva está interferindo na vida pessoal e profissional do indivíduo, demonstrando o real cenário das delimitações do problema e orientando possíveis estratégias de reabilitação.
Um instrumento importante para analisar as implicações da PAIR na qualidade de vida é a Classificação Internacional de Funcionalidade, Incapacidade e Saúde, publicado em 2003 pela Organização Mundial da Saúde e Organização Pan-Americana da Saúde. Por sua vez, ela busca classificar através de bases científicas a compreensão e o estudo da saúde. Oferece uma explicação sobre situações relacionadas ao funcionamento humano e suas restrições, envolvendo funções e estruturas corporais, atividades e participação, relacionados às ações tanto individuais como coletivas.
A PAIR tem implicações na qualidade de vida que vão além dos sintomas a ela relacionados e da capacidade de ouvir. A análise da escala Disability-adjusted life years (DALYs) foi realizada para trabalhadores norte-americanos expostos ao ruído. O DALYs representam o número de anos saudáveis perdidos devido a uma doença ou outra condição de saúde.
Desse modo, o NIOSH utilizou essa escala no artigo do CDC Morbidity and Mortality Weekly Report " Deficiência auditiva entre trabalhadores expostos ao ruído nos Estados Unidos, 2003-2012 " para avaliar o impacto da PAIR. Os resultados mostraram que em média, 2,5 anos saudáveis foram perdidos a cada ano para cada 1.000 trabalhadores, sendo que esse valor pode ser maior no caso de trabalhadores na área de mineração, os quais perdem cerca de 3,5 anos.
Interações sociais desafiadoras podem levar a uma diminuição da autoestima, vergonha e medo, principalmente em indivíduos mais jovens, justamente pela perda auditiva ser considerada socialmente algo ligado a velhice. Entretanto, independentemente da idade, podem levar ao isolamento social, que é conhecido por afetar negativamente a saúde geral e o bem-estar, podendo até mesmo ocasionar quadros depressivos.
Causas Existem dois tipos básicos de PAIR:
PAIR causada por trauma acústico PAIR desenvolvida gradualmente.
PAIR x Trauma acústico A PAIR causada por trauma acústico agudo pode ser originada através de um som explosivo instantâneo com pico de pressão sonora que excede 140 dB. Esses níveis, por sua vez, prejudicam diretamente as estruturas cocleares. Algumas fontes podem ser explosões, tiroteio, batida de um grande tambor e fogos de artifício.
PAIR desenvolvida gradualmente