A Frente Nacional de Libertação de Angola (FNLA) é um partido político angolano orientado no espectro de centro-direita à direita.

Foi fundado em 1954, com o nome de "União das Populações do Norte de Angola" (UPNA), assumindo em 1958 o nome de "União das Populações de Angola" (UPA). Em 1962, a UPA, ao absorver outro grupo anticolonial — o Partido Democrático de Angola (PDA) —, constituiu a FNLA. John Marcum, The Angolan Revolution, vol. I.

A FNLA foi um dos movimentos nacionalistas angolanos durante a guerra anticolonial de 1961 a 1974, juntamente com a União Nacional para a Independência Total de Angola (UNITA) e o Movimento Popular de Libertação de Angola (MPLA). No processo de negociação da descolonização de Angola, em 1974/1975, bem como na Guerra Civil Angolana de 1975 a 2002, combateu o MPLA ao lado da UNITA. Desde 1991 é um partido político cuja importância tem vindo a diminuir drasticamente, em função dos seus fracos resultados nas eleições legislativas desde 1992.

História A FNLA, enraizada principalmente entre os congos, mas com aderentes também entre os ambundos e os ovimbundos, foi o primeiro movimento anticolonial a desenvolver actividades relevantes em Angola. Sua orientação era mais tribalista em vez de nacionalista (como era o caso do MPLA), além de ser mais conservadora que o MPLA e a UNITA, dado os compromissos imediatos com seus aliados externos: o Congo-Léopoldville de Joseph Kasa-Vubu e depois o Zaire de Mobutu Sese Seko, além dos Estados Unidos.

Fundação miniatura|200px|esquerda|Emblema da UPA A FNLA foi criada em 7 de julho de 1954 como União dos das Populações do Norte de Angola (UPNA), em uma reunião realizada na cidade de Matadi, no actual Congo-Quinxassa, por Sidney Manuel Ventura Barros Necaca, João Eduardo Pinnock (pai de Johnny Eduardo Pinnock) e Francisco Borralho Lulendo, tendo como finalidade inicial a disputa pela sucessão no Reino do Congo após a morte, no ano seguinte, do rei Pedro VIII. Os objetivos iniciais da UPNA, portanto, era mais autonomia e independência de sua base tribal das autoridades portuguesas, apresentando como candidatos ao trono congolês Manuel Quidito, João Eduardo Pinnock e Álvaro Holden Roberto, bem como uma linha ideológica religiosa mais próxima ao protestantismo. Outra reunião da UPNA foi realizada clandestinamente no mesmo ano no Lobito por Roberto e, por fim, em Quinxassa ocorre a fundação oficial a 10 de outubro de 1954, quando, aconselhados pelo Comitê Americano para os Assuntos Africanos, passa a incluir ativistas de várias origens do norte de Angola. Roberto e Necaca eram os líderes da organização, com o primeiro tomando a condução dos negócios externos e contactos políticos e o segundo as tarefas administrativas. Nos primeiros dois anos de existência, por iniciativa de Barros Necaca, a UPNA operava em estreita colaboração com o partido quinxassa-congolês Associação dos Bacongos para a Unificação, a Conservação e o Desenvolvimento da Língua Congo (Abako) e estava fortemente influenciada por Joseph Kasa-Vubu.

Durante a I Conferência dos Povos Africanos, em 7 de dezembro de 1958, a UPNA é convertida em União das Populações de Angola (UPA) por influência do Comitê Americano para os Assuntos Africanos e de Julius Nyerere, Houari Boumédiène, Omar Oussedik, Frantz Fanon e Kwame Nkrumah. Os líderes africanos convenceram a liderança da organização a adotar o nacionalismo e uma luta global pan-africanista que incluísse todas as etnias pela descolonização angolana, muito embora o tribalismo continuasse a dominar a ideologia partidária até o início da década de 1970. Roberto já participa da reunião como agente duplo da Agência Central de Inteligência (CIA).

O forte contacto político com a Frente de Libertação Nacional da Argélia e com os chineses permitiu o envio de cerca de 20 guerrilheiros angolanos para serem formados na Base Militar de Ghardimaou (Tunísia), que constituiu a primeira célula operacional e embrionária do que seria o Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA), já no ano de 1959. Foi criada a icônica Base de Quincuzo da FNLA, em solo quinxassa-congolês, em 1959.

No ano de 1959, porém, ocorre justamente a primeira grande dissidência no seio do partido, com Jean-Pierre Mbala, Borralho Lulendo e Miguel Moniz reclamando pela suavização ideológica e uma transição política negociada com Portugal, em vez da linha combativa e luta armada defendida por Roberto. Mbala e Lulendo chegam a afastar Barros Necaca do comando do partido em outubro de 1960, com o primeiro a assumir a administração da agremiação política. Barros Necaca atribui a Roberto o comando partidário interino, porém sua morte precoce faz com que um congresso seja convocado com urgência para janeiro de 1961 para eleição de um novo líder e para solucionar a divisão cada vez maior do grupo. Tal divisão interna, inclusive, foi um dos pontos que impediu a UPA de supervisionar os ataques a Luanda em fevereiro de 1961, realizados pelo MPLA. No congresso, Roberto acaba por ser eleito líder máximo da UPA, e o grupo de Jean-Pierre Mbala, que havia sido reconhecido em janeiro de 1961 como representantes da UPA na Conferência de Chefes de Estado Africanos, no Congo-Brazavile, se desfilia para formar o Movimento de Defesa dos Interesses de Angola (MDIA).

Guerra anticolonial

A UPA iniciou a sua luta armada anticolonial em Angola nos ataques ao norte de Angola em 1961, nomeadamente nos territórios provinciais do Uíge e do Zaire, estendendo-se mais tarde para o sul, até o território equivalente a atual província do Bengo. O ataque estava sob supervisão de Holden Roberto (que estava nos Estados Unidos), e comando de terreno direto de Rosário Neto, João Baptista Traves Pereira e Marcos Kassanga. Porém, durante os ataques, a UPA teve sofreu uma grave fragmentação interna, causada pela insistência de Roberto em concentrar poderes em si. Para isto, removeu da frente principal, em Nambuangongo, a capital do "Estado Livre de Angola" declarado pela UPA, a Baptista Traves, o principal comandante militar de terreno do posto de Comandante-em-Chefe das operações, em seguida removendo também o comandante Marcos Kassanga. Porém, os ataques indiscriminados contra trabalhadores brancos, e em especial contra povos africanos não-congos deu margem para a denúncia de que havia uma ideologia tribalista na UPA, minando a legitimidade do movimento aos olhos da comunidade internacional. Em seguida, Roberto tentou se desvincular dos ataques, fazendo a moral das tropas cair. Por fim, Roberto foi acusado de ordenar o assassinato de Baptista Traves, o que piorou a crise interna partidária, ocorrendo uma deserção em massa em 1962, na Conferência de Kassanga-Kassinda, liderada por Marcos Kassanga e André Martins Kassinda, com os dissidentes da UPA, do ELNA e de seu organismo sindical Liga Geral dos Trabalhadores de Angola (LGTA) se filiando ao MPLA.

Os referidos ataques, bem como todos os posteriores, tiveram retaguarda de luta na República do Congo/Zaire, actual República Democrática do Congo, a seu tempo liderada por Joseph Kasa-Vubu e Mobutu Sese Seko que — no quadro da sua política regional — mantiveram boas relações com o líder da FNLA, Holden Roberto. Este apoio possibilitou a constituição em Quinxassa, imediatamente depois da formação da FNLA, do Governo de Resistência de Angola no Exílio (GRAE), cujos vice-presidentes eram de proveniência ambunda, e cujo secretário-geral era o ovimbundo Jonas Savimbi, e posteriormente fundador da UNITA. O braço armado do GRAE era o Exército de Libertação Nacional de Angola (ELNA), cujos comandantes provinham de várias partes de Angola, inclusive de Cabinda. Nem o MPLA nem a Frente para a Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) quiseram participar do GRAE, o que viria a ser decisivo para a complexa e contraditória configuração da luta anticolonial em Angola.

Em 27 de março de 1962 a UPA absorve em suas estruturas o Partido Democrático de Angola (PDA), liderado por André Ndomikalay Masaki, como tentativa de formar uma frente única de luta anticolonial baseada em princípios étnicos-raciais. O PDA chamava-se antes "Aliança Nacional Zombo" (Aliazo) e tinha raízes no tocoísmo, uma comunidade religiosa sincrética fundada por Simão Toco. A constituição da FNLA, como absorção do PDA pela UPA, na data referida, deu-se quando a breve experiência de uma frente comum com o MPLA, em Quinxassa, fracassou em 1961. Meses depois, houve em Brazavile uma segunda tentativa de constituir uma frente comum, a "Frente Democrática de Libertação de Angola (FDLA)", que tampouco alcançou o seu objectivo, e acabou sendo absorvida pelo MPLA. Na fundação da FNLA, David Livromentos assumiu a presidência da organização, mas faleceu no mesmo ano sendo substituído por André Ndomikalay Masaki que lidera a organização até 1972, quando centraliza-se tudo novamente com Holden Roberto — a destacar que Roberto como presidente do GRAE era o líder de facto da FNLA. miniatura|200px|esquerda|Recrutas da FNLA em treinamento em uma base no Zaire, em 1973 A aparente apatia no processo de luta armada e política no partido levou a formação de frações internas, chegando a haver confrontos militares, como foi o caso da sublevação e tentativa de golpe de Alexandre Pedro Claver Taty, que tentou tomar o comando da FNLA e depois (ao ter falhado no plano) rompeu com a liderança para ingressar nas forças portuguesas, na Frente de Libertação do Enclave de Cabinda (FLEC) e na Junta Militar Angolana no Exílio (JMAE).

Apesar dos apoios por parte de Mobutu, mas também durante algum tempo da parte da China e da Roménia, a luta armada desenvolvida pela FNLA/ELNA contra a potência colonial portuguesa teve fortes limitações, havendo inclusive a opção por combater preferencialmente o MPLA. Ao dar este apoio, chineses e romenos (estes somente num primeiro momento apoiaram a FNLA) fizeram deliberadamente frente à então União Soviética que tinha optado por um apoio exclusivo ao MPLA. Diferentemente dos outros dois grupos, a FNLA/ELNA não conseguiu resistir aos contra-ataques militares portugueses, além de ser continuamente limitada por Mobutu, que trabalhava somente por seus próprios interesses. Não teve a capacidade de manter o controle sobre qualquer parcela do território angolano — para além do autoproclamado "Estado Livre de Angola", no noroeste do país, durante alguns meses em 1961 — embora tivesse marcado certa de presença, sob a forma de actividades de guerrilha, no norte e noroeste angolano. Uma tentativa de abrir uma segunda frente no leste de Angola, a partir de 1966, não foi para além da constituição de um pequeno núcleo de guerrilha em Alto Chicapa, cujas actividades foram muito limitadas dada a presença da UNITA e do MPLA na mesma área.

De 1972 a 1976 Em meados de 1972 Holden Roberto tenta uma aproximação com Agostinho Neto, incluíndo a proposta de retorno do MPLA ao GRAE com o objetivo da criação de uma frente única que lutasse contra Portugal. Roberto deveria permanecer na presidência, enquanto que Neto seria o vice-presidente. Com a publicação de denúncias de uma purga interna na FNLA com fuzilamento dos comandantes do ELNA na Base de Quincuzo, no Congo-Quinxassa, Roberto afasta o presidente André Masaki, sem passar pelo congresso como estipulava os estatutos da FNLA; Roberto tornou-se novamente presidente da FNLA. A repressão faz com que vários oficiais da FNLA filiem-se ao MPLA em Brazavile, com a aproximação dos movimentos declinando definitivamente.