Maria Bethânia: A Menina dos Olhos de Oyá foi o enredo apresentado pela Estação Primeira de Mangueira no desfile das escolas de samba do Rio de Janeiro de 2016. Com a apresentação, a escola conquistou o seu 19.º título de campeã do carnaval carioca, quebrando o jejum de quatorze anos sem conquistas. O título anterior da escola foi conquistado em 2002. O desfile homenageou os cinquenta anos de carreira de Maria Bethânia, abordando a religiosidade da cantora e sua ligação afetiva com a cultura popular brasileira. A homenageada participou do desfile. O enredo foi assinado por Leandro Vieira, que fez sua estreia como carnavalesco do Grupo Especial. Leandro modernizou o visual da agremiação, tirando o excesso de componentes de cima dos carros, colocando alas coreografadas, fazendo um carro abre-alas sem as cores da escola, colocando as componentes da comissão de frente de seios nus e a porta-bandeira "careca".
A Mangueira foi a última escola a desfilar na segunda noite do Grupo Especial, encerrando sua apresentação sendo seguida pelo público aos gritos de "é campeã!". O desfile teve a participação de diversos amigos famosos de Bethânia, como Alcione, Alexandre Pires, Ana Carolina, Cauã Reymond, Regina Casé, Renata Sorrah, Vanessa da Mata, entre outros, além de seu irmão Caetano Veloso e de Beth Carvalho, que retornou ao desfile da escola após três anos afastada devido a problemas de saúde. A imprensa especializada elogiou o desfile, colocando a Mangueira entre as favoritas ao título ao lado de Portela e Salgueiro. A Mangueira foi campeã do carnaval de 2016 com um décimo de vantagem sobre a segunda colocada, Unidos da Tijuca. A escola recebeu seis notas abaixo da máxima, sendo que quatro foram descartadas seguindo o regulamento do concurso. Com isso, a agremiação perdeu apenas dois décimos na avaliação oficial, ambos no quesito Comissão de Frente. A escola recebeu diversos prêmios, dentre eles o Estandarte de Ouro. O carnavalesco Leandro Vieira também recebeu diversas premiações e foi contemplado com a Medalha Pedro Ernesto, a maior honraria da Câmara Municipal do Rio de Janeiro.
O desfile foi tema de dois documentários: Fevereiros, de Marcio Debellian, e O Próximo Samba, de Marcelo Lavandoski. Maria Bethânia gravou um álbum em agradecimento ao desfile: Mangueira: A Menina dos Meus Olhos, lançado em 2019, reúne músicas de compositores mangueirenses e canções sobre a escola de samba e o Morro da Mangueira, além da regravação do samba oficial do desfile e de duas obras concorrentes derrotadas na disputa de samba-enredo da escola. O samba-enredo do desfile, composto por Alemão do Cavaco, Almyr, Cadu, Lacyr D Mangueira, Paulinho Bandolim e Renan Brandão, foi escolhido numa disputa com outras 33 obras concorrentes.
Antecedentes esquerda|miniaturadaimagem|Chiquinho da Mangueira na quadra da escola com o troféu de campeã do carnaval 2016. Jejum de títulos e renovação miniaturadaimagem|281x281px|Desfile da Mangueira em 2002 A Mangueira amargava um jejum de trezes anos sem títulos. Sua última conquista havia sido em 2002, com um desfile sobre a Região Nordeste do Brasil. Desde então, a escola passou por várias gestões, trocou de carnavalesco várias vezes, mas seus melhores resultados foram o vice-campeonato de 2003 e o terceiro lugar conquistado nos carnavais de 2004, 2007 e 2011. Além disso, outro jejum incomodava a Mangueira: desde 2011, a escola não era classificada para o Desfile das Campeãs, ou seja, não ficava entre as seis mais bem colocadas do carnaval. Após o carnaval de 2013, a escola elegeu Chiquinho da Mangueira como seu novo presidente. Para o carnaval de 2014, Chiquinho contratou a carnavalesca Rosa Magalhães, que havia sido campeã com a Unidos de Vila Isabel no carnaval anterior. Com um desfile sobre festas brasileiras, a Mangueira obteve a oitava colocação, mantendo o jejum de títulos e mais um ano fora do Desfile das Campeãs. Para o carnaval de 2015, a Mangueira contratou Cid Carvalho, que havia trabalhado na escola entre 2012 e 2013. Mas o resultado foi ainda pior. A Mangueira desfilou sob forte chuva, se classificando em décimo lugar, seu pior resultado desde 2008. Apenas dois quesitos alcançaram a pontuação máxima: Mestre-sala e porta-bandeira e samba-enredo. Cid Carvalho foi demitido em meio a troca de acusações com o presidente. Para o carnaval de 2016, a Mangueira contratou Leandro Vieira, que estava com a Caprichosos de Pilares na segunda divisão. Pela Mangueira, Leandro fez sua estreia como carnavalesco do Grupo Especial e também foi o carnavalesco mais novo que já assumiu a preparação de um desfile da escola. Para comandar a comissão de frente da escola, a Mangueira contratou Junior Scapin, outro talento premiado do grupo de acesso, que também faria sua estreia no Grupo Especial. O casal de mestre-sala e porta-bandeira Raphael Rodrigues e Squel Jorgea, na escola desde 2014, foram mantidos em seus cargos, assim como os diretores de bateria Rodrigo Explosão e Vitor Art e o diretor de carnaval Júnior Schall, ambos na escola desde 2015.
Leandro Vieira miniaturadaimagem|258x258px|Leandro Vieira em 2016 Artista plástico formado pela Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro e Gestor em carnaval, com graduação pela Universidade Estácio de Sá, Leandro Vieira começou no carnaval na equipe da Portela nos anos de 2007 e 2008. Em 2009 foi para a Grande Rio, onde ficou até 2012. Também foi figurinista da Imperatriz Leopoldinense em 2013 e 2014; esteve na Unidos do Porto da Pedra em 2010 e no Império Serrano em 2013. Em 2014 retornou a Grande Rio, sendo coautor da sinopse, figurinista responsável pelo conjunto de fantasias de ala e responsável pelo desenvolvimento do projeto artístico de alegorias da escola. Pelo seu trabalho, Leandro Vieira recebeu os troféus Plumas & Paetês de melhor desenhista e de melhor figurinista do Grupo Especial de 2014. No mesmo ano foi responsável pelo projeto artístico das alegorias e pelo conjunto de fantasias de ala dos Acadêmicos do Cubango. No carnaval de 2015 foi figurinista da Unidos da Tijuca e autor da sinopse do enredo da Grande Rio. Também em 2015, fez sua estreia como carnavalesco, na Caprichosos de Pilares. Com um desfile elogiado, a escola obteve o sétimo lugar na segunda divisão do carnaval. Pelo seu trabalho na Caprichosos, Leandro recebeu diversos prêmios como S@mba-Net (Revelação e melhor enredo), SRZD (Destaque da Série A), Estrela do Carnaval (Revelação), Plumas & Paetês (Melhor figurinista da série A) e Gato de Prata (Revelação). O desempenho chamou a atenção de Chiquinho da Mangueira, que convidou Leandro para assumir o posto de carnavalesco da Mangueira. "Sempre gostei de trabalhar com renovação. Já tinha acompanhado o Leandro, quando ele fazia serviços em outras escolas. No ano passado, acompanhei o trabalho dele na Caprichosos, foi um trabalho de superação, ele botou até dinheiro do bolso dele. Aquilo mexeu comigo, vi que é um cara diferenciado." miniaturadaimagem|O intérprete Luizito, morto em 2015 durante os preparativos para o carnaval de 2016.|270x270px|esquerda Morte de Luizito
No dia 6 de setembro de 2015, morreu Luizito, o intérprete oficial da Mangueira. O cantor passou a madrugada anterior na quadra da Mangueira, onde foi realizada mais uma eliminatória da disputa de samba-enredo para o carnaval de 2016. Ao chegar em casa, no Morro da Mangueira, onde morava com a esposa, sofreu um infarto fulminante, morrendo aos 61 anos de idade. Para ocupar o posto de Luizito, a Mangueira promoveu Ciganerey, que desde 2009 era cantor de apoio do carro de som da agremiação.
Preparativos
Faltando três meses para o desfile, a Mangueira iniciou seus ensaios de rua. Foram onze ensaios realizados na comunidade, mais o ensaio técnico no sambódromo, realizado no dia 20 de dezembro de 2015, além dos treinos específicos de alas e bateria. No dia 9 de junho de 2015 foi sorteada a ordem dos desfiles para o carnaval de 2016. A Mangueira foi sorteada para ser a sexta escola da segunda noite, ou seja, a última a desfilar, posição preferida de muitas agremiações por ser a que mais rendeu títulos a desfiles no sambódromo.
O enredo No dia 8 de junho de 2015, a Mangueira anunciou seu enredo para o carnaval de 2016, em homenagem à cantora Maria Bethânia, que estava completando cinquenta anos de carreira em 2015. No mesmo dia foi divulgada a sinopse do enredo, assinada por Leandro Vieira. O carnavalesco optou por não fazer um desfile linear, contando a história de vida e a carreira de Bethânia cronologicamente, e sim, celebrando sua religiosidade e sua ligação com a cultura popular brasileira. Segundo Bethânia, após receber o convite de Mangueira, ela precisou consultar o Terreiro do Gantois "para ver se Iansã autorizava, já que era um enredo da filha dela. E ela autorizou". miniaturadaimagem|283x283px|Caetano Veloso, Gal Costa, Maria Bethânia e Gilberto Gil no desfile da Mangueira de 1994 em homenagem aos Doces Bárbaros. Com o enredo, a Mangueira retomou a tradição de homenagear personalidades da cultura brasileira, como já havia feito com Heitor Villa-Lobos (1966), Monteiro Lobato (1967), Braguinha (1984), Chiquinha Gonzaga (1985), Dorival Caymmi (1986), Carlos Drummond de Andrade (1987), Tom Jobim (1992), Chico Buarque (1998) e Nelson Cavaquinho (2011), sendo que, em cinco ocasiões (1967, 1984, 1986, 1987, 1998) a escola foi campeã. A própria Bethânia já havia sido homenageada pela escola no carnaval de 1994, ao lado de Caetano Veloso, Gal Costa e Gilberto Gil, com o enredo sobre os Doces Bárbaros, grupo formado pelo quarteto. Na ocasião, apesar do sucesso do samba-enredo ("Atrás da Verde e Rosa Só não Vai Quem Já Morreu"), a escola desfilou mal, se classificando em 11.º lugar. Mesmo com a Mangueira enfrentando uma crise financeira, o presidente da escola, Chiquinho, apostou no enredo autoral proposto por Leandro Vieira, e recusou propostas de enredos patrocinados - um sobre a cidade de Belém do Pará e outro sobre lutas do tipo vale-tudo (MMA). miniaturadaimagem|283x283px|Leandro Vieira e Bethânia no Desfile das Campeãs de 2016. "Homenagear a Bethânia é uma ideia que estava guardada na gaveta faz tempo. Na Mangueira, especificamente, me senti confortável para levar o projeto adiante já que aqui ele encontra terreno fértil para atingir a plenitude de seu desenvolvimento. Aos meus olhos, revela potencial para levar a escola ao resgate de seu período áureo. O enredo junta vocações tradicionalmente bem sucedidas na Mangueira: homenagem, aspectos nordestinos, cultura afro e universo musical. Acredito que esses ingredientes serão os temperos da nossa volta por cima." Desenvolvimento O enredo foi desenvolvido em seis setores. Segundo o roteiro oficial do desfile, elaborado pela escola, o enredo "se debruça no universo pessoal e artístico da cantora para construir uma narrativa carnavalesca que lança luz em aspectos religiosos, em dados associados à carreira da intérprete, e a sua ligação afetiva com a cultura baiana, sobretudo, com a cultura local de sua cidade natal, a pacata Santo Amaro da Purificação, localizada na região do Recôncavo da Bahia".
Primeiro setor: "Cabeça Feita" Num Candomblé de Ketu
O enredo começa celebrando a ligação de Bethânia com o candomblé. Iniciada num candomblé de Ketu pela famosa ialorixá baiana popularmente conhecida como Mãe Menininha do Gantois, Bethânia foi consagrada a Oiá (no Brasil, mais conhecida como Iansã) e Oxum, tendo em Oiá, o seu eledá (guardiã ancestral) e a sua personificação mais definidora. A cantora professa publicamente sua fé no candomblé, nos deuses e nos ritos que envolvem a prática, levando para a sua obra musical, as marcas de sua ligação com o candomblé ancestral de uma das mais populares casas de Ketu da Bahia e a sua particular veneração pelas orixás de seu orí (cabeça).
Segundo setor: Bethânia: Dos Orixás e dos Santos de Altar