Iniciadora foi uma canhoneira operada inicialmente pela Armada Imperial Brasileira e, após a Proclamação da República, pela Marinha do Brasil. Foi o primeiro navio de guerra de casco de ferro construído em arsenais brasileiros. O projeto, de autoria do engenheiro naval João Cândido Brazil, baseou-se nos planos das canhoneiras britânicas HMS Medina e HMS Medway. Em junho de 1885, foi incorporada à Flotilha de Mato Grosso. Em 1892, durante o movimento político-militar ocorrido em Mato Grosso, esteve inicialmente sob controle das forças revoltadas; em maio daquele ano, sua guarnição aderiu às forças do governo. A canhoneira permaneceu em serviço até ter sua baixa determinada em 26 de junho de 1907.
Construção A construção da canhoneira Iniciadora integrou o programa desenvolvido durante a administração do Ministro da Marinha José Rodrigues Lima Duarte (1880–1882) para ampliar a construção de navios de guerra com cascos de ferro e aço nos arsenais brasileiros. O programa previa cinco canhoneiras projetadas pelo engenheiro naval Capitão-Tenente João Cândido Brazil, com base nos planos das canhoneiras britânicas HMS Medina e HMS Medway. A Iniciadora tornou-se o primeiro navio de guerra de casco de ferro construído em arsenais brasileiros, e seu nome fazia referência a esse pioneirismo. A construção ficou a cargo do Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro, então denominado Arsenal de Marinha da Corte. Sua quilha foi batida pelo imperador D. Pedro II em 27 de outubro de 1881, e o navio foi lançado ao mar em 21 de abril de 1883.
Durante o lançamento, o casco fez água pelos rebites e chegou a ameaçar afundar. O problema foi atribuído à má colocação dos rebites por operários ainda pouco experientes na construção de cascos metálicos. Os trabalhos posteriores sofreram atrasos, pois a mão de obra do arsenal também estava empregada na construção de outras canhoneiras e no reparo de navios em serviço.
As fontes divergem quanto à data de incorporação do navio. A ficha histórica da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha registra 21 de abril de 1883 como data de incorporação e informa que a experiência de máquinas e velocidade ocorreu em 12 de maio de 1885. O Navios de Guerra Brasileiros, por sua vez, registra 12 de maio de 1885 como data de incorporação.
Características A Iniciadora tinha 270 toneladas de deslocamento total. Possuía 37,30 metros de comprimento total e 35 metros de comprimento entre perpendiculares, 7,88 metros de boca, 2,44 metros de pontal e 1,65 metros de calado. Sua propulsão era composta por uma máquina a vapor do tipo compound, com potência total de 260 HP, que acionava duas hélices e proporcionava velocidade máxima de nove nós.
O armamento principal era constituído por dois canhões Armstrong de 120 milímetros, instalados um à proa e outro à popa. Segundo a ficha histórica da Marinha, o armamento também incluía quatro canhões Armstrong de 37 milímetros e duas metralhadoras Nordenfelt de 25 milímetros. O Navios de Guerra Brasileiros apresenta uma configuração diferente para parte do armamento secundário e menciona ainda quatro metralhadoras de calibre não especificado.
A estrutura do casco empregava ferro fundido de Ipanema, enquanto o revestimento e os perfis utilizavam aço alemão. Para proteção contra a corrosão, o casco recebia externamente um embono de madeira revestido por folhas de cobre. O navio possuía ainda dois redutos couraçados, um à proa e outro à popa, construídos com chapas de aço de 10 milímetros de espessura para proteção dos canhões. Suas dimensões e características tornavam-no adequado principalmente à defesa costeira, à operação em águas abrigadas e ao serviço nas fronteiras fluviais. A tripulação era composta por 51 oficiais e praças.
Histórico Após as experiências de máquinas e velocidade realizadas em maio de 1885, a Iniciadora foi incorporada à Flotilha de Mato Grosso em junho daquele ano. A canhoneira permaneceria vinculada à flotilha durante a maior parte de sua carreira.
Em 1892, uma crise política e militar eclodiu em Mato Grosso, envolvendo partidários do ex-presidente do estado Antônio Maria Coelho e do presidente Manuel José Murtinho. A crise ocorreu após a renúncia do presidente da República Deodoro da Fonseca, em 23 de novembro de 1891, e as disputas políticas que se seguiram no estado. Forças ligadas ao grupo de Antônio Maria Coelho obtiveram apoio de unidades militares em diferentes localidades, inclusive de parte da Flotilha de Mato Grosso. Em Corumbá, o coronel João da Silva Barbosa obteve o apoio de cerca de 200 soldados e de três das quatro embarcações da flotilha, entre elas a Iniciadora.
Em 31 de março de 1892, militares revoltados reunidos em Corumbá discutiram a possibilidade de declarar Mato Grosso independente. Hernâni Donato afirma que os revoltosos chegaram a proclamar a chamada República Transatlântica do Mato Grosso, ou Estado Livre de Mato Grosso. Outras fontes, contudo, descrevem o episódio como uma proposta que não chegou a se concretizar: estudo publicado em 2023 pela Revista do Instituto Histórico e Geográfico de Mato Grosso afirma que os militares apenas cogitaram a proclamação do novo Estado. A reação governista incluiu combates em Rosário e Boa Vista, além do cerco e posterior ocupação de Cuiabá.
Em maio, as forças revoltadas encontravam-se em situação desfavorável. No dia 18, a Iniciadora chegou a Assunção, capital do Paraguai, em missão relacionada aos acontecimentos em Mato Grosso. A embarcação havia sido enviada em missão pelo grupo de João da Silva Barbosa. Em Assunção, foi impedida de regressar pela atuação da canhoneira Taquari, comandada pelo Capitão-Tenente Francisco Forjaz de Lacerda. Antes que ocorresse um confronto entre os dois navios, a guarnição da Iniciadora declarou-se favorável ao governo e submeteu-se ao comandante da Taquari.
No ano seguinte, durante a Revolta da Armada, a Iniciadora esteve em Montevidéu, onde realizava reparos gerais. Também se encontravam na capital uruguaia o cruzador Tiradentes e o monitor Bahia. Posteriormente, a canhoneira retornou ao serviço da Flotilha de Mato Grosso. Pelo Aviso de 26 de junho de 1907, foi determinada sua baixa do serviço ativo.
Ver também
Lista de navios descomissionados da Marinha do Brasil
Categoria:Navios construídos no Brasil Categoria:Navios construídos pelo Arsenal de Marinha do Rio de Janeiro Categoria:Navios da Armada Imperial Brasileira Categoria:Navios da Marinha do Brasil Categoria:Navios de 1883