A maskirovka (, lit. mascaramento), é uma doutrina militar soviética desenvolvida a partir do início do século XX, que abrange uma ampla gama de medidas de desinformação militar.

Essas medidas incluem, dentre outras, a ocultação e o mimetismo de tropas e equipamentos, enganar o inimigo com réplicas e manequins, e manobras destinadas a negar informações, confundir e enganar. A Enciclopédia Militar Soviética de 1944 define a maskirovka como "meios de assegurar as operações de combate e as atividades diárias das forças; uma complexidade de medidas direcionadas a enganar o inimigo quanto à presença e disposição de forças". Versões posteriores da doutrina passaram a incluir meios estratégicos, políticos e diplomáticos, e a manipulação de fatos, situação e percepções para afetar a mídia e a opinião pública no mundo todo ou em países específicos, de modo a alcançar ou facilitar objetivos táticos e estratégicos, nacionais e internacionais.

A maskirovka contribuiu para as grandes vitórias soviéticas na Segunda Guerra Mundial, incluindo a Batalha de Stalingrado, a Batalha de Kursk e a Operação Bagration. Nesses casos, a surpresa foi alcançada apesar de concentrações muito grandes de forças, tanto no ataque quanto na defesa. A doutrina também foi colocada em prática em tempo de paz, com operações de desinformação em eventos como a Crise dos Mísseis de Cuba, a Primavera de Praga e a anexação da Crimeia.

Desenvolvimento da doutrina A doutrina russa da maskirovka evoluiu com o tempo e abrange vários significados. O termo russo maskirovka (маскировка) tem como correspondente direto em língua portuguesa o termo mascaramento. Um significado militar primitivo era o de camuflagem, logo estendida ao mascaramento do campo de batalha usando fumaça e outros métodos de encobrimento. A partir disso, veio a ter o significado mais amplo de dissimulação militar, ampliando para incluir a negação e a enganação.

Antecedentes históricos miniaturadaimagem| Na Batalha de Kulikovo em 1380, o exército moscovita de Demétrio derrotou um exército mongol muito maior, ao surpreendê-lo. A prática da desinformação militar antecede a própria Rússia. A Arte da Guerra, atribuída ao antigo estrategista militar chinês Sun Tsu, descreve uma estratégia de desinformação: "Eu forçarei o inimigo a tomar nossa força pela fraqueza e nossa fraqueza por força, e assim transformarei sua força em fraqueza". No início da história da Rússia, na Batalha de Kulikovo, em 1380, o Príncipe Dmétrio Donskói derrotou os exércitos da Horda Dourada mongol usando o ataque surpresa de um regimento escondido na floresta. As táticas dessa batalha ainda são citadas em escolas de cadetes russas.

Antes da Segunda Guerra Mundial O exército russo contou com uma escola dedicada a ensinar técnicas de desinformação, criada em 1904 e dissolvida em 1929. Enquanto isso, a desinformação militar foi desenvolvida como uma doutrina na década de 1920. A diretriz soviética de 1924 para comandos superiores afirmava que estratégias operacionais de dissimulação deveriam ser "baseadas nos princípios de atividade, naturalidade, diversidade e continuidade, e inclui o sigilo, a imitação, as ações demonstrativas e a desinformação".

O Regulamento de Campo do Exército Vermelho, de 1929, afirma que "a surpresa tem um efeito atordoante sobre o inimigo. Por essa razão, todas as operações das tropas devem ser realizadas com a maior ocultação e velocidade".

A ocultação era para ser atingida confundindo o inimigo com movimentos, camuflagem e uso de terreno, velocidade, uso da noite e de neblina, e por meio do sigilo. "Assim, na arte militar soviética durante a década de 1920, a teoria operacional da maskirovka foi desenvolvida como um dos meios mais importantes de obter surpresa nas operações".

As Instruções sobre Batalha Profunda, de 1935, e depois as Normas de Campo, 1936, salientam crescentemente a importância da desinformação em batalhas. Em particular, as Instruções definem os métodos para obter surpresa como a superioridade aérea, tornar as forças móveis e manobráveis, ocultar concentração de forças, manter segredo de preparações de fogo, enganar o inimigo, ocultação com fumaça e desinformação técnica, e usar a escuridão como cobertura. Na invasão russa da Finlândia em 1939, uma camuflagem branca, adaptada ao terreno coberto por neve, foi usada pelas tropas soviéticas.

Conceito de 1944 miniaturadaimagem| Uso precoce: Soldados do Exército Vermelho com camuflagem de neve durante a Batalha de Moscou, em dezembro de 1941. A Enciclopédia Militar Soviética de 1944 define o logro militar como o meio de assegurar as operações de combate e as atividades diárias das forças, e desinformar o inimigo sobre a presença e a disposição de forças, objetivos, prontidão de combate e planos. Ela afirma que o engodo militar contribui para alcançar a surpresa, preservando a prontidão de combate e a integridade dos objetivos.

Conceito de 1978 A Enciclopédia Militar Soviética de 1978 define o logro militar de maneira semelhante, colocando mais ênfase nos níveis estratégicos e explicitamente incluindo medidas políticas, econômicas e diplomáticas, além das militares. Ela repete amplamente o conceito da enciclopédia de 1944, mas acrescenta que

Doutrina moderna miniaturadaimagem| Gueorgui Júkov foi um dos principais defensores das táticas de maskirovka. |242x242pxO termo maskirovka é amplamente definida como uma estratégia russa de dissimulação militar.

O termo maskirovka é geralmente distinguido de khitrost, que é o dom pessoal do comandante de perspicácia e astúcia, parte de sua habilidade militar. A maskirovka é uma doutrina praticado por toda a organização, e não carrega o senso de astúcia pessoal nem implica que o engodo seja pensado como "mal".

Michael Handel lembra os leitores, no prefácio ao livro do analista militar David Glantz, da alegação de Sun Tzu em A Arte da Guerra de que toda a guerra é baseada no engano. Handel sugere que o engano é uma parte normal e necessária da guerra. O objetivo da dissimulação militar é a surpresa, vnezapnost, e consequentemente esses dois conceitos são naturalmente estudados juntos.

No entanto, segundo o analista militar William Connor, a doutrina de dissimulação militar, no sentido soviético, cobre muito mais do que camuflagem e engano, e possui também a conotação do controle ativo do inimigo. Segundo ele, na época da Operação Bagration, em 1944, argumenta Connor, a doutrina russa do engano militar já incluía todos esses aspectos. O significado evoluiu na prática e doutrina soviética para incluir objetivos estratégicos, políticos e diplomáticos, em outras palavras, operando em todos os níveis. Isso difere das doutrinas ocidentais de desinformação, e das doutrinas de guerra da informação, por sua ênfase nos aspectos pragmáticos. direita|miniaturadaimagem|205x205px| Uma visão ocidental: a desinformação militar soviética em diferentes níveis operacionais de guerra, como teorizada pelo pesquisador de defesa americano Charles Smith. Na inteligência militar, a doutrina russa corresponde aproximadamente às noções ocidentais de negação e engano. O Glossary of Soviet Military Terminology do Exército dos Estados Unidos de 1955 definiu a maskirovka como "camuflagem; ocultação; disfarce". O International Dictionary of Intelligence de 1990 definiu-a como o termo da inteligência militar russa (GRU) para dissimulação (no sentido de engano). O Historical Dictionary of Russian and Soviet Intelligence, de Robert Pringle, de 2006, definiu-a como um logro estratégico. The Art of Darkness, de Scott Gerwehr, resumiu-a como engano e segurança operacional. O historiador Tom Cubbage comentou que o engano militar foi um enorme sucesso para os soviéticos, e era algo para ser usado tanto na guerra quanto em tempo de paz. Um artigo no The Moscow Times explicou:

"Mas maskirovka tem um significado militar mais amplo: engano estratégico, operacional, físico e tático. Na terminologia militar americana, isso é chamado de CC & D (camuflagem, ocultação e engano) ou, mais recentemente, D & D (negação e decepção). É a coisa toda - desde homens com máscaras de esqui ou uniformes sem insígnias, até atividades secretas, transferências ocultas de armas, até iniciar uma guerra civil, mas fingindo que você não fez nada disso."

O pesquisador de defesa americano Charles Smith identificou diferentes dimensões do engano militar russo. Ele dividiu em vários tipos (óptico, térmico, radar, rádio, som/silêncio) e em vários ambientes (aquáticos, espaciais, atmosfera); cada um envolvendo medidas ativas ou passivas e aspectos organizacionais (mobilidade, nível e organização). Seus níveis são os militares convencionais (estratégicos, operacionais e táticos) enquanto a organização se refere ao ramo militar em questão. Finalmente, Smith identificou princípios (plausibilidade, continuidade através da paz e da guerra, variedade e persistente atividade agressiva) e factores contributivos (capacidade tecnológica e estratégia política).

Smith também analisou a doutrina soviética, considerando-a como "um conjunto de processos destinados a enganar, confundir e interferir na coleta precisa de dados sobre todas as áreas dos planos, objetivos e pontos fortes ou fracos soviéticos". + Medidas empregadas na dissimulação militar russa A medida Nome russo Equivalente ocidental Técnicas Exemplo Ocultação сокрытие (sokritie) Camuflagem Toldos, cobertura de fumaça, redes, silêncio de rádio Construção de tanques em uma fábrica de automóveis Imitação имитация (imitatsia) Mimetismo Manequins, bonecos militares Tanques falsos com refletores de radar; pontes falsas criadas por uma linha de refletores de radar flutuantes Simulação симуляция (simuliatsia) Simulação Réplicas não funcionais de equipamentos Bateria de artilharia fictícia completa com ruído e fumaça Desinformação дезинформация (desinformatsia) Desinformação Cartas falsas; informações falsas divulgadas na mídia; mapas imprecisos; ordens falsas; encomendas com datas falsas Manobras demonstrativas демонстративные   маневры (manivri Demonstrativnie) Finta Trilhas falsas Ataques longe objetivo tático aparente; pontes longe de rotas de ataque

Ver também

Medo, incerteza e dúvida Guerra de manobra Arte operacional Guerra por procuração Batalha Soviética Profunda

Bibliografia Albats, Evgeniia (1994). "Chapter 4: Who Was Behind Perestroika?". The State within a State: the KGB and Its Hold on Russia: Past, Present, and Future. Catherine A. Fitzpatrick, translator. New York: Farrar, Straus and Giroux. ISBN 0-374-52738-5. Bar-Joseph, Uri (2012). The Watchman Fell Asleep: The Surprise of Yom Kippur and Its Sources. SUNY Press. p. 25. ISBN 978-0-7914-8312-1. Beaumont, Roger (1982). Maskirovka: Soviet Camouflage, Concealment and Deception. College Station, Texas: Texas A&M University Press, Center for Strategic Technology, Texas Engineering Experiment Station. ASIN B0006EEPGA. Connor, William M (1987). Analysis of Deep Attack Operations: Operation Bagration, Belorussia, 22 June–29 August 1944. Diane Publishing. pp. 22–30. ISBN 978-1-4289-1686-9. Cubbage, Tom; Handel, Michael I., editor (2012). Strategic and Operational Deception. War, Strategy and Intelligence. Routledge. p. 416. ISBN 978-1-136-28631-5. Frank, Willard C.; Gillette, Philip S. (1992). Soviet Military Doctrine from Lenin to Gorbachev, 1915–1991. Westport, Conn.: Greenwood Publishing Group. p. 352. ISBN 978-0-313-27713-9. Gerwehr, Scott; Glenn, Russell W.; Johnson, Dana J.; Flanagan, Ann (2000). The Art of Darkness: Deception and Urban Operations. Rand Corporation. p. 33. ISBN 978-0-8330-4831-8. Glantz, David (1989). Soviet Military Deception in the Second World War. London: Routledge. Frank Cass. ISBN 0-7146-3347-X. Hutchinson, William (28 June 2004). "The Influence of Maskirovka on Contemporary Western Deception Theory". Proceedings of the 3rd European Conference on Information Warfare and Security: 165–174. ISBN 0-9547096-2-4.