A história pública por país trata do estudo do desenvolvimento da história pública nos diferentes contextos nacionais. Desde a criação do conceito de história pública nos Estados Unidos em 1976, essa tem se espalhado para diversos países em todos os continentes. Sobretudo a partir da década de 1990, passa a se tornar um fenômeno internacional, antes limitado aos países anglófonos. Em 2011 é criada a Federação Internacional de História Pública, que promove o desenvolvimento dos estudos e práticas de história pública em mais países do mundo. Como a história pública tem seu conceito ligado sobretudo às diferentes práticas que a constituem, em cada país a ela se define de diferentes formas, e se caracteriza pelas diferentes práticas.

África

África do Sul

miniaturadaimagem|upright=1.3|Banco exposto no Museu do Distrito Seis na Cidade do Cabo, onde se lê: "Apenas europeus. Apenas brancos."|alt=

As origens da história pública na África do Sul remontam as décadas de 1970 e 1980, sobretudo dentro de um contexto universitário de resistência ao Apartheid.  Em 1977, foi criado o curso intitulado "Oficina de História" na Universidade de Witwatersrand em Joanesburgo, com fortes influências teóricas da história social marxista, que promoveu pesquisas sobre as histórias de trabalhadores sul-africanos através de técnicas de história oral, promoveu datas comemorativas relacionadas à diversidade das culturas africanas nas universidades e produziu materiais em linguagem de fácil acesso. Igualmente importante para o desenvolvimento da história pública na África do Sul, foi a organização de uma fundação, em 1989 na Cidade do Cabo, em cooperação com historiadores da Universidade de Western Cape, de preservação da memória do Distrito Seis, bairro da cidade onde residiam muitos alforriados e que foi destruído em 1966 pelo governo sul-africano por não enquadrar-se nos planos de segregação racial da política de Apartheid, removendo mais de 60 mil pessoas de suas casas no distrito. Nos anos seguintes, a fundação criou o Museu do Distrito Seis, com o intuito de resgatar e proteger a memória do lugar, e servir como mecanismo contra as distorções históricas acercas do período do Apartheid.

O curso "Oficina de História" e a fundação do Museu do Distrito Seis são tidos pelos pesquisadores do campo como o início da história pública na África do Sul. Eles são exemplos do engajamento social dos historiadores sul-africanos neste período, tendo como base os princípios da participação democrática e a oposição à segregação racial simbolizada pelo governo do Apartheid.

A partir de 1994, com a redemocratização do país, discussões sobre patrimônio passaram a ser centrais no processo de formação de uma nova identidade nacional sul-africana, através de uma ampla iniciativa do governo na construção de museus, monumentos, arquivos, bibliotecas e instituições voltadas para a afirmação do valor e da dignidade da população negra do país, sob um ideal de reconciliação. Paradoxalmente, o desinteresse pela disciplina História aumentou durante este mesmo período, sobretudo nos cursos de graduação no país, conforme relatos de diversos historiadores sul-africanos ao longo da década de 1990. Neste sentido, durante os primeiros anos da democracia, as políticas patrimoniais de Estado passaram a ocupar um espaço que a história escrita nas universidades sul-africanas não ocupava. Dessa forma, a partir da década de 1990, a divisão e competição entre história e patrimônio passou a definir o cenário da história pública no país.

A partir da presidência de Thabo Mbeki, que sucedeu Nelson Mandela em 1999, e ao longo de toda a década seguinte, se inicia a chamada renascença africana na África do Sul, um movimento político e intelectual que tinha como intenção dar destaque positivo à africanidade nas diversas esferas da sociedade, valorizando a cultura africana no país muito além da luta anti-apartheid. Na esfera patrimonial, isso implicou no crescimento de estudos de história oral e da documentação das formas de conhecimento sobre o ambiente, valores espirituais, costumes, símbolos e línguas próprios das diferentes comunidades africanas do país.

A partir da década de 1990, passou a haver, por parte de amplos setores da historiografia sul-africana uma diminuição, ou mesmo negação, da importância das políticas patrimoniais no país, considerando-as como uma história de baixa qualidade, feita por amadores. Para esses estudiosos, a história era um estudo cuidadoso do passado, enquanto que o estudo patrimonial seria apenas a preservação e recriação do passado, muitas vezes vinculados a interesses comerciais do setor turístico ou do Estado. Apesar disso, a partir da segunda metade da década de 2000, houve um crescimento da participação de historiadores em projetos de história pública em parceria com Conselho Nacional de Patrimônio, sobretudo coletando relatos de história oral relacionados ao Apartheid e à crise do vírus HIV no país.

América

Brasil esquerda|miniaturadaimagem|upright=1.3|Apresentação do samba-enredo "Meu Deus, Meu Deus, Está Extinta A Escravidão?", pela escola Paraíso do Tuiuti, no Carnaval do Rio de Janeiro de 2018.|alt= Desde a década de 1990, no Brasil, a expressão história pública aparece em trabalhos voltados ao estudo da história oral, da memória, dos museus, do patrimônio histórico e da história do tempo presente. Porém, o "Curso de Introdução à História Pública", realizado na Universidade de São Paulo em 2011, é considerado o marco inicial do tema no país. O curso centrava-se em assuntos como a história oral, as representações históricas em materiais audiovisuais, os princípios básicos do trabalho em arquivo, as formas de divulgação científica de conteúdos históricos, e a confecção de conteúdo histórico para programas de rádio e podcasts. Em linhas gerais, privilegiava-se uma história feita tendo o público como um ponto de partida, buscando explorar as ferramentas necessárias para a incorporação do historiador em um amplo mercado de trabalho e promoção de material historicamente referenciado nas diversas mídias existentes. Também em 2011, Juniele Rabêlo de Almeida e Marta Gouveia de Oliveira Rovai lançaram Introdução à História Pública, pensando a história pública como uma possibilidade de difundir o conhecimento histórico produzido em instituições de pesquisa para amplas audiências por meio de arquivos, jornais, revistas, programas de rádio, editoras, museus, organizações governamentais, entre outros.

O aumento do interesse em história pública no Brasil na década de 2010 é associado, por alguns autores, ao crescimento da demanda social por história e memória em um contexto de pós-redemocratização. São comumente apresentadas como respostas a essa demanda a criação da Comissão Nacional da Verdade, em 2011, e a expansão o número de livros, revistas, filmes e documentários de caráter histórico produzidos para serem consumidos por um público mais amplo. Igualmente importante para o desenvolvimento do interesse em história pública no Brasil foi a discussão sobre a regulamentação da profissão de historiador, encaminhada por meio do Projeto de Lei 4699/2012, enviado pelo senador Paulo Paim em 2012.

A preocupação de parcela significativa de historiadores brasileiros com a legitimidade e o rigor de muitas das produções de livros de divulgação histórica que surgiam e se popularizavam durante as décadas de 1990 e 2000, e também a falta de preparação técnica por parte dos historiadores para produzir materiais acessíveis a um público maior, foram os principais elementos que incentivaram a criação dos primeiros eventos e simpósios sobre história pública no Brasil. Em 2012, realizou-se o 1º Simpósio Internacional de História Pública e, no mesmo ano, fundou-se a Rede Brasileira de História Pública, que passou a organizar o bienal Simpósio Internacional de História Pública, além de promover a publicação de livros que incentivem a discussão sobre história pública no contexto brasileiro. Em 2019, foi inaugurado o primeiro curso de Mestrado em história pública no país, na Universidade Estadual do Paraná.

Uma das discussões levantadas pela história pública no país é a da disputa pela herança memorialística de movimentos sociais como no caso do antigo Partido Comunista Brasileiro.

Estados Unidos miniaturadaimagem|upright=1.3|Prédio da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, considerada o lugar de origem da história pública estadunidense.|alt=A história pública teve início nos Estados Unidos em meados da década de 1970, como uma resposta ao número crescente de desempregados entre os formados no curso de história, em particular no estado da Califórnia. Com a limitação nas vagas para professores em universidades, diversos historiadores passaram a ser empregados em sociedades históricas, museus, agências governamentais, empresas privadas e demais campos não-universitários. Muitos desses historiadores organizaram congressos e conferências daquilo que chamaram de história pública, um movimento que cresceu gradualmente ao longo da década de 1970. Importante marco para a história pública estadunidense foi a criação do periódico The Public Historian, em 1978, sob financiamento da Fundação Rockefeller. O periódico inicialmente foi publicado pela editora da Universidade da Califórnia em Santa Bárbara, passando em 1981 para as mãos da University of California Press, mesmo ano em que a revista se tornou publicação oficial do Conselho Nacional de História Pública.

Em suas primeiras três décadas, entre 1970 e 2000, a preocupação da história pública estadunidense com a empregabilidade do historiador no espaço público foi contestada por muitos setores da historiografia, sobretudo por pesquisadores vinculado à história oral, que criticavam as relações de periódicos importantes como o Public Historian com o governo estadunidense através do Escritório do Historiador do Departamento de Estado dos Estados Unidos, com bancos como o Wells Fargo e com o exército através da Central do Exército dos Estados Unidos de História Militar. O argumento principal defendido por esses profissionais era que estas parcerias acabariam por corporativizar a profissão, limitando o campo de ação do historiador.

Durante a década de 2010, a história pública nos Estados Unidos se encontrava organizada sobretudo dentro das universidades e coordenada nacionalmente pelo Conselho Nacional de História Pública com mais de 50 programas de pós-graduação em história pública listados. O campo de ação dos historiadores públicos no contexto estadunidense se dá sobretudo através de parcerias entre as universidades e organizações responsáveis por gerenciar lugares de memória como museus, prédios históricos, parques nacionais, havendo portanto forte ligação da história pública com a preservação e o estudo do patrimônio.

Ásia

China A história pública na China começou a ser estudada com esse nome a partir da primeira década do , entretanto, práticas que podem ser consideradas características da história pública são apontadas por alguns autores como existindo desde o final do , na chamada revolução historiográfica chinesa após a derrota na Guerra Sino-Japonesa. Neste período, os intelectuais do país se voltaram para a escrita histórica com o objetivo de construir um nacionalismo chinês baseado no sentimento antijaponês. Este processo, sobretudo durante o período republicano chinês, incluía diversas práticas voltadas ao público, como leituras de documentos históricos, teatros baseados em eventos históricos e a narração de histórias populares da literatura chinesa.