O povo ryukyuano (em japonês: 琉球民族; rōmaji: Ryūkyū minzoku; em oquinauano: Ruuchuu minzuku); também conhecido como léquios ou uchinaanchu (em japonês: 沖縄人; rōmaji: okinawajin), é um povo indígena das Ilhas Ryukyu, entre as ilhas de Kyushu e Taiwan. Politicamente, vivem nas prefeituras de Okinawa ou Kagoshima. Suas línguas são chamadas de línguas ryukyuanas, que são consideradas um dos ramos das línguas japônicas.

Os ryukyuanos não são uma minoria reconhecida no Japão, pois as autoridades japonesas os consideram como um subgrupo do povo japonês (Yamato). Mesmo não sendo um grupo reconhecido, os ryukyuanos são a maior minoria etnolinguística no Japão, com 1,3 milhões indivíduos vivendo na Prefeitura de Okinawa. Há também uma numerosa diáspora ryukyuana. Ao menos 600 mil ryukyuanos e seus descendentes estão espalhados em outras prefeituras do Japão e em outros países, principalmente no Brasil, no Havaí e em outros lugares com diásporas japonesas significantes. Na maioria dos países, as diásporas ryukyuana e japonesa não são distinguidas.

Etimologia O termo "Ryukyu" deriva do nome chinês para o arquipélago, Liuqiu, que é pronunciado como "Ryukyu" na língua japonesa. O termo nativo para a ilha de Okinawa são Uchinaa, Uchinaanchu para o povo e Uchinaaguchi para a língua.

Origens De acordo com estudos genéticos recentes, o povo ryukyuano compartilha de mais alelos com os caçadores-coletores do Período Jōmon (há entre 3000 a 16 mil anos) e com o povo ainu do que com os yamato, e possuem contribuições genéticas menores de populações continentais da Ásia, o que está de acordo com a teoria de K. Hanihara (1991), que defende que os yamato são mais miscigenados com populações agricultoras continentais da Ásia (principalmente da península coreana) do que os ainus e os ryukyuanos, com eventos de miscigenação significantes ocorrendo durante e após o Período Yayoi (há entre 1700 a 3000 anos). Quando comparados geneticamente com a população japonesa em geral, os ryukyuanos constituem um grupo genético próximo, porém separado. A ancestralidade Jōmon é estimada em aproximadamente 28%. Estima-se que o evento de miscigenação que formou o povo ryukyuano ocorreu há 1075 a 1100 anos, o que corresponde com o Período Gusuku e considera-se que tal evento esteja relacionado com a chegada de imigrantes do Japão.

Estudos comparativos de diversidade dentária demonstraram que houve fluxo genético de fontes externas a longo prazo (tanto do Japão, quanto do sul da Ásia oriental), isolação prolongada e deriva genética que produziram a diversificação morfológica dos ryukyuanos modernos. Porém, a análise contradiz a ideia de continuidade genética direta e afinidade entre os jōmon e os ryukyuanos, no entanto, várias análises genéticas, craniais, dentárias e de infecções virais indicam uma relação próxima que, de acordo com dados antropológicos, estão consistentemente entre os yamato e os ainus.

De acordo com evidências arqueológicas, há uma diferenciação cultural entre as ilhas ryukyuanas do norte (Amami e Okinawa) e as ilhas ryukyuanas do sul (Miyako e Yaeyama). A diferenciação genômica foi pronunciada, especialmente entre Okinawa e Miyako. Considera-se que tenha surgido por divergência genética ao invés de miscigenação com outras populações. Tal divergência data do Holoceno, sem contribuições genéticas significativas de populações do Pleistoceno para os ryukyuanos do sul de atualmente. Os ryukyuanos de Amami são levemente mais similares aos Yamato do que os de Okinawa.

Estudos genéticos miniaturadaimagem|Frequências dos haplogrupos D e O do cromossomo Y em diferentes partes do Japão O DNA mitocondrial (mtDNA) e marcadores do cromossomo Y são utilizados para estudar migrações humanas. Estudos sobre restos de esqueletos dos períodos Kaizuka e Gusuku de Okinawa mostrou a predominância dos haplogrupos femininos D4 e M7a e sua continuidade nas populações modernas de Okinawa. Considera-se que o haplogrupo M7a representa um "genótipo Jōmon" introduzido por um ancestral paleolítico do sudeste ou do sul da Ásia, por volta do Último Maximo Glacial, com o arquipélago de Ryukyu sendo um ponto de origem provável. Em contraste, a frequência do haplogrupo D4 é relativamente alta em populações do leste asiático, incluindo o Japão. Porém, na população japonesa moderna, o haplogrupo M7 mostrou um declínio, enquanto o haplogrupo N9b mostrou um aumento do sul para o norte, o que indica que os padrões de mobilidade de homens e mulheres foi diferente, pois a distribuição dos haplogrupos do cromossomo Y não mostram um gradiente geográfico como o mtDNA, o que significa origens maternas diferentes entre os ryukyuanos e os ainus modernos.

Pesquisas de haplogrupos do cromossomo Y de ryukyuanos modernos mostrou as seguintes frequências: 55,6% do haplogrupo D-P37.1, 22,2% de O-P31, 15,6% de O-M122, 4,4% de C-M8 e 2,2% de outros. Considera-se que os haplogrupos do cromossomo Y expandiram em uma difusão dêmica. Considera-se que os haplogrupos D e C tenham uma origem paleolítica, com origem estimada há cerca de 19400 anos e expansão há 12600 anos para o haplogrupo D e origem há 14500 anos e expansão há 10820 anos para o haplogrupo C. Ambos foram isolados por milhares de anos assim que as ligações geográficas entre o Japão e a Ásia continental foram submergidas no final do Último Glacial Máximo há aproximadamente 12 mil anos. O haplogrupo O começou a se expandir há aproximadamente entre 3000 e 4000 anos, e pode dizer-se que os haplogrupos D1b e C1 pertençam à linhagem masculina dos Jōmon e que o haplogrupo O pertença à linhagem masculina dos Yayoi. O haplogrupo M12 é considerado como o correspondente mitocondrial do haplogrupo D. Este raro haplogrupo foi detectado apenas em japoneses, coreanos e tibetanos, com frequência e diversidade maiores no Tibete.

História

Antiguidade As ilhas Ryukyu são habitadas há pelo menos de 32 mil à 18 mil anos. Durante o Período Jōmon tardio (Kaizuka), também chamado de Período dos Sambaquis (há entre 1000 e 6700 anos) das ilhas Ryukyu do norte, a população vivia em sociedades caçadoras-coletoras, com cerâmica similar à dos Jōmon do Japão. Na última parte do Período Jōmon, sítios arqueológicos mudaram para o litoral, sugerindo a prática de pesca. Considera-se que na última metade do Período Jōmon as ilhas Ryukyu tenham desenvolvido sua própria cultura. É considerado por alguns estudiosos que a influência linguística e cultural teve muito mais alcance do que a miscigenação. A cultura Yayoi, datada entre os séculos III a X a.C., é notável pela introdução da cerâmica do tipo Yayoi, de ferramentas de metal e do cultivo de arroz, mas apesar de algumas ferramentas e cerâmicas do tipo Yayoi terem sido encontradas em Okinawa, o arroz não foi cultivado até o séc. XII e nem a cultura Yayoi, nem a cultura Kofun expandiram no arquipélago. As ilhas Ryukyu do sul foram isoladas das ilhas do norte e seu Período Shimotabaru (há entre 3000 e 4500 anos) foi caracterizado por um estilo específico de cerâmica, e durante o Período Acerâmico (há entre 800 e 2500 anos), nenhum tipo de cerâmica foi produzido.

O achado de dinheiro de faca chinês nas proximidades de Naha indica um provável contato com o antigo estado chinês de Yan já no século III a.C. De acordo com o Shan Hai Jing, o estado de Yan tinha relações com o povo de Wa, que vivia a sudeste da Coreia, que pode ter sido relacionado tanto com os Yamato antigos quanto com os ryukyuanos. A história sobre a busca de Qin Shi Huang, fundador da Dinastia Qin, pelo elixir da imortalidade, conta que o imperador tentou cooperar com "imortais felizes" que habitavam ilhas pode se referir tanto ao Japão antigo quanto a Ryukyu. Faltam evidências de que as missões da Dinastia Han chegaram às ilhas, mas como os japoneses chegaram à capital de Han, registros do ano 57 mencionam uma prática geral de tatuamento entre os povos dos "cem reinos" das ilhas orientais, um costume que era comum, mas sobreviveu apenas entre os ainus, as mulheres ryukyuanas e o povo Atayal de Taiwan. Registros das dinastias Wei e Han mostram que os habitantes do leste e do sul do Japão e de Okinawa tinham muito em comum em relação a instituições político-sociais até o século II — eram baixos, criavam suínos e vacas e eram governados por mulheres, com influência especial de sacerdotisas, relacionadas às sacerdotisas ryukyuanas Noro, que eram fortemente associadas ao poder político local até o século XX e à economia da criação de suínos até a Segunda Guerra Mundial. Sugere-se que a menção de uma sacerdotisa específica chamada Pimeku, sua morte e o conflito que se sucedeu sejam relacionados a desafios sócio-políticos do antigo sistema matriarcal.

A primeira menção definitiva às ilhas e a seu povo pelos chineses e japoneses data do século XVII. O imperador Yang de Sui fez expedições à procura da "Terra dos Imortais Felizes" entre os anos de 607 e 608. Como os enviados chineses e os ilhéus não conseguiam se entender e não queriam aceitar a autoridade de Sui, os enviados chineses levaram vários prisioneiros para a corte. As ilhas, batizadas de Liuqiu pelos chineses, seria pronunciada em japonês como Ryukyu e em oquinauano como Ruuchuu. Porém, quando o diplomata japonês Ono no Imoko chegou à capital chinesa, ele notou que os prisioneiros tinham provavelmente vindo da ilha Yaku ao sul de Kyushu. Em 616, os anais japoneses mencionam o "Povo das Ilhas do Sul" pela primeira vez. De acordo com o Shoku Nihongi, em 698, uma pequena força enviada pelo Japão dominou com sucesso as ilhas de Tane-jima, Yakushima, Amami, Tokunoshima, entre outras ilhas. Em 699 são mencionadas as ilhas Amami e Tokara, em 714 Shingaki e Kume, em 720 umas 232 pessoas que tinham se submetido à capital japonesa Nara, e finalmente a Okinawa em 753. Não obstante a menção ou autoridade, ao longo dos séculos a influência japonesa se espalhou lentamente entre as comunidades.

Período Gusuku miniaturadaimagem|Gusuku de Nakijin A falta de registros escritos resultou em contos posteriores do século XVII, sob influência chinesa e japonesa, que foram esforços dos chefes locais para explicar o "direito divino" de sua autoridade real, bem como os interesses políticos dos xoguns de Tokugawa do clã Minamoto, que queria legitimar a dominação japonesa sobre Okinawa. A tradição diz que o fundador da Dinastia Tenson descendia da deusa Amamikyu e que a dinastia regeu por 17 mil anos e teve 25 reis/chefes. Porém, o 24º trono foi usurpado por um homem chamado Riyu, que foi derrotado numa revolta liderada por Shunten (1187 – 1237), senhor de Urasoe. A origem paterna de Shunten é matéria de debate. De acordo com romances do século XVII, ele era neto de um chefe local (anji) cuja filha o tinha gerado com um aventureiro japonês, geralmente especulado ser Minamoto no Tametomo, enquanto evidências históricas e arqueológicas indicam homens do clã Taira que fugiram da vingança do clã Minamoto. A Dinastia Shunten gerou mais dois chefes, Shunbajunki (舜馬順熙, r. 1237–1248) e Gihon (義本, r. 1248–1259). Quando Gihon abdicou, seu sessei (摂政) Eiso fundou a Dinastia Eiso.