O Palácio Pimenta, também designado Casa da Quinta da Pimenta, Casa da Madre Paula e Palácio Galvão Mexia, é um edifício oitocentista que alberga actualmente uma das secções do Museu de Lisboa.

O edifício encontra-se classificado como Imóvel de Interesse Público (Dec. 27:396, de 26 de Dezembro de 1936).Ficha na base de dados da DGPC

A sede do Museu de Lisboa está instalada no Palácio Pimenta, palácio de veraneio da primeira metade do século XVIII, enquadrado pelo que resta de uma antiga quinta senhorial. Mandado construir por Diogo de Sousa Mexia, figura de relevo dos reinados de D. Pedro II e D. João V, e foi edificado entre 1734 e 1746, desconhecendo-se a autoria do edifício.

História

Origens da propriedade Os primórdios da ocupação aristocrática do terreno recuam ao ano de 1720, momento em que o tio do desembargador Diogo Sousa Mexia determinou a instituição de um morgadio em seu favor. A 28 de Fevereiro de 1722, o magistrado casou-se com Luísa Helena Teresa de Santa Cruz Berger, vindo, em 1725, a tornar-se de conselheiro de fazenda, cargo até então ocupado pelo progenitor, Bartolomeu de Sousa Mexia, mediante a cedência paterna que lhe garantiu o vencimento de 300 mil réis, além de quatro moios de trigo e outros quatro de cevada. Em 1732 o casal adquiriu uma primeira parcela no Campo Grande; sete anos mais tarde, deu-se a compra de grande parte da propriedade actual a D. Madalena Pereira de Brito por uma quantia aproximada de 20 mil cruzados. A transacção contemplava dois prazos, abrangendo uma capela previamente instituída pelo cónego João Vicente e uma pequena vinha pertencente aos clérigos do Colégio da Santíssima Trindade de Coimbra.

O solar foi edificado entre 1734 e 1748, embora persista a história (não provada) de que o rei D. João V promoveu a sua construção para albergar a sua amante, Madre Paula, freira oriunda do Mosteiro de São Dinis de Odivelas. Não se sabe exactamente quem desenhou o projecto do palácio, sugerindo-se nomes como Manuel da Costa Negreiros, Mateus Vicente de Oliveira, ou até João Frederico Ludovice e a sua escola.

As campanhas ornamentais sucederam-se entre 1744 e 1746, época em que a Grande Oficina de Lisboa de Bartolomeu Antunes forneceu os painéis de azulejos, da autoria de Valentim de Almeida ou Nicolau de Freitas, verificando-se em igual medida a contribuição de mestres como António de Oliveira Bernardes e André Gonçalves.

Durante a década de 1740, o desembargador expandiu a propriedade ao adquirir uma quinta vizinha em Telheiras pelo montante de 2 010 000 réis; na década seguinte, comprou ainda, por 300 mil réis, duas courelas de vinha contíguas, o que permitiu estender os seus domínios ininterruptamente do Campo Grande à povoação de Telheiras.

A fábrica têxtil da família Lefranc Na sequência da morte do herdeiro Bartolomeu de Sousa Mexia em 1777, o complexo transitou para a posse do seu sobrinho, Lourenço Anastácio Mexia Galvão, que arrendou o espaço a Alberto Mayer pelo período de seis anos logo em Janeiro desse ano. De Janeiro de 1793 até Dezembro de 1831, a propriedade acolheu a Fábrica Lefranc & Companhia, manufactura dedicada à tecelagem de algodões, lãs e sedas, englobando também a confecção de chapéus de seda.

Em 1796, com a morte de Galvão, o primogénito Rui Galvão de Moura Teles e Albuquerque ascendeu à posse do reduto, acordando, a 8 de Maio de 1801, a venda de uma porção do foro da Quinta da Palmeira aos irmãos Lefranc, pelo encargo de 195 mil réis anuais. Em Abril de 1802, Estêvão Lefranc faleceu, concentrando-se a propriedade fabril no irmão José Estevão, que em Junho de 1810 adquiriu nova parcela por 50 mil réis, abatendo os foros devidos a Rui Galvão para 140 mil réis anuais, um valor inferior aos 424 mil réis que custeava entre os anos de 1790 e 1801. A actividade industrial cessou em definitivo aquando da morte de José Estevão, a 2 de Dezembro de 1831.

A Quinta do Pimenta A 13 de Abril de 1833, Mariana Lefranc, irmã e única sucessora do industrial, trespassou a locação a Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho, sucedendo-se a 16 de Abril uma visita inspectiva deste com o escrivão José Luís Matias. Nas décadas seguintes, Pimenta de Carvalho comprou sistematicamente terrenos anexos, tornando-se enfiteuta da Quinta da Palmeira em 1835, tentando, em 1854, obter o título de domínio directo dessa mesma parcela, cuja capela era administrada à data por João de Melo Brito Garcês Palha de Almeida.

Ainda em 1835, Pimenta de Carvalho adquiriu a Quinta de Santo António do Alecrim a Manuel José Vilar, posicionada a Norte, bem como o prazo da Quinta da Marateca ou Malpique, fixada a Sul, sobre a via que unia o Campo Grande a Telheiras. Em 1840, solicitou a certidão de posse da Quinta do Arcediago, adquirida a Maria Herculana Nobel de Barros, viúva de João Manuel Xavier de Pontes, e iniciou a absorção do domínio directo da Quinta da Figueira, obtendo finalmente um novo foro perante a Câmara Municipal dos Olivais em 1860. Nos finais da década de 1860, as aglomerações fundiárias materializaram-se numa ampla área de 40 hectares baptizada como Quinta do Pimenta, agrupando num só bloco as parcelas do Arcediago, Arciprestes, Estanceiro, Palmeira e Santo António do Alecrim. Manuel Joaquim Pimenta de Carvalho faleceu em 1877, seguindo-se a sua viúva Cândida Márcia de Campos em 1889 e o próprio filho herdeiro em 1898, momento em que se havia já inciado a inventariação do património móvel, transitando a exploração para as mãos de primos direitos que, entre 1900 e 1901, acabaram por agravar o património assumindo quatro hipotecas.

Século XX e expropriação No ano de 1902, o terreno foi dividido em 17 talhões e foi arrematado a 6 de Maio pela Sociedade Anónima de Responsabilidade Limitada Bairro Europa a 13 de Dezembro desse mesmo ano. A sociedade propôs ao município de Lisboa, em 1903, um plano de urbanização caracterizado por habitações unifamiliares integradas em hortos arborizados, pretendendo assim alinhar-se com a expansão das Avenidas Novas planeada pelo engenheiro Ressano Garcia, mas prevendo a conservação do Palácio, do jardim e da mata. A edilidade reprovou a incursão arquitectónica em 1910 com os argumentos de especulação sobre solo rústico e de intenção da própria Câmara em florestar aquela mancha.

Extinta a referida sociedade a 7 de Julho de 1914, o conjunto edificado e a Quinta da Figueira transitaram para a égide do casal Jorge Lobo de Ávila Graça e Honorina Amélia de Morais, dando-se intensos restauros sobre os elementos arquitectónicos e sobre os painéis azulejares até 1916. O novo templo anexo às residências abriu portas aos ofícios religiosos a 5 de Junho de 1929.

Um artigo no periódico Ilustração de 1 de Junho de 1926 trouxe interesse cívico ao conjunto, instigando até a visita do arquitecto Raul Lino. A quinta foi elevada a pelo Decreto n.º 27396, de 26 de Dezembro de 1936.

O fotógrafo Mário Novais documentou extensivamente os jardins do palácio em 1952 e nas valências interiores em 1957.

O falecimento de Honorina a 17 de Novembro de 1957 propiciou o leilão e a disseminação de todo o recheio pela mão de Jorge Graça e dos seus enteados. Partes do terreno foram expropriadas em 1959 para se rasgar a Segunda Circular entre os subúrbios de Benfica e o Aeroporto. Em 1961, deu-se a alienação total da Quinta da Figueira ao Município de Lisboa.

O Museu da Cidade

A intenção de se constituir uma instituição museológica alusiva à história da capital começou com o vereador Anselmo Braamcamp Freire, mas a proposta foi impelida pelo vereador António Tomás Cabreira na sessão de 15 de Julho de 1909. O projecto ganhou novo fôlego graças a figuras como D. José Pessanha, Eduardo Freire de Oliveira e Gabriel Pereira, mas da inauguração do efémero Museu Olisiponense no Convento do Carmo a 10 de Junho de 1922 pela Associação dos Arqueólogos Portugueses concluiu-se que o espaço era insuficiente para acomodar o acervo. Um projecto mais ambicioso foi criado após sessão camarária de 1935, marcada por iniciativa do coronel Pereira Coelho. O museu, organizado por Mário Chicó, foi finalmente aberto em 1942, embora provisoriamente alojado nos aposentos do Palácio da Mitra, em Marvila.

O Palácio Pimenta ganhou novamente relevância quando o Brasil intentou a aquisição da casa com vista a ali estabelecer o seu corpo diplomático em 1962. A autarquia fez uma inspecção in loco a 16 de Outubro, comprando o sítio por 9000 contos e assinando a escritura a 7 de Dezembro.

Na última reunião camarária desse ano, oficializou-se a intenção de transformar a quinta no Museu da Cidade e, já em 1963, decidiu-se que o edifício da Mitra acolheria o Museu Municipal da Cerâmica Olissiponense. O projecto de adaptação do Palácio Pimenta foi liderado pelo arquitecto Raul Lino a 29 de Janeiro de 1963, elaborando este as devidas alçadas ao longo do mês seguinte. Lino foi assessorado pela conservadora-chefe Julieta Ferrão, que interveio activamente até à chegada da investigadora Irisalva Moita em 1968. A orografia exterior testemunhou arranjos dirigidos pelo referido arquitecto entre 1967 e 1970. Em 1971 começou a reconstrução de uma estufa que visava acolher uma mostra de orquídeas.

O processo de instalação do museu sofreu entraves em 1971, durante o mandato do presidente Santos e Castro, que encomendou novos estudos ao arquitecto Francisco Keil do Amaral que a tutela acabou por rejeitar. Entre 1971 e 1972, demoliram-se os antigos estábulos e cavalariças, para a criação de salas de ensaio destinadas a orquestras. O palácio foi ainda brevemente sede do Museu Instrumental do Conservatório Nacional, mas o edil António Jorge da Silva Sebastião deliberou em 1973 a transferência definitiva da colecção musical para o Palácio Cabral. Este autarca ditou ainda o encerramento do espaço museológico na Mitra para centralizar o acervo no Palácio Pimenta e aprovou o projecto do decorador Carlos Ribeiro que visava a adaptação do sótão aos serviços técnicos.

Após a autarquia recusar a cedência do imóvel ao ISCTE, procedeu-se à edificação de uma Casa do Guarda em 1974 e à desocupação integral do espólio do conservatório até Janeiro de 1976. No ano de 1977, sob a presidência de Aquilino Ribeiro Machado, o arquitecto Duarte Nuno Simões foi encarregado de desenhar o projecto arquitectónico que materializaria o programa museográfico concebido por Irisalva Moita.

A reabertura ao público deu-se em Maio de 1979, estando a exposição permanente (sobre a história da cidade, desde os tempos pré-históricos, passando pela presença romana, visigótica e árabe, até aos nossos dias) pronta somente a 18 de Maio de 1985.

O Gabinete de Estudos Olissiponenses foi movido para o Palácio da Rosa em 1984.

A quinta tornou-se Zona Especial de Protecção em 1981. Em 1994, construiu-se o Pavilhão Preto, com projecto dos arquitectos Fezas Vital e João Guimarães e que acolhe actualmente exposições temporárias. Seguiu-se, a 26 de Julho de 1995, a edificação do Pavilhão Branco no flanco sul, projecto da arquitecta Daniela Ernano.

Descrição

Exterior O edifício implanta-se de forma isolada no extremo noroeste do Campo Grande e a sul da Segunda Circular. A fachada virada a este é antecedida por um espaço ajardinado e por um pano de muro em formato de meia lua. O imóvel exibe uma planta rectangular composta, desenvolvendo-se em torno de um pátio central quadrangular para onde convergem três alas de configuração rectilínea cobertas por telhados de quatro águas. A volumetria principal assenta num embasamento de cantaria e divide-se em dois pisos demarcados por um friso, possuindo amplas mansardas revestidas a telha nos alçados laterais e no alçado posterior. O remate das fachadas, rebocadas e caiadas, é feito através de cunhais de cantaria sobrepujados por urnas e bustos de feição clássica.

Fachada principal