O Burevestnik (, lit. "petrel-das-tormentas"; GRAU: 9М730, Designação da OTAN: SSC-X-9 Skyfall) é um míssil de cruzeiro russo de voo a baixa altitude, de propulsão nuclear e com capacidade de transportar ogiva nuclear, em desenvolvimento para as Forças Armadas da Rússia. De acordo com o Ministério da Defesa da Rússia, o alcance do míssil é praticamente ilimitado.
O Burevestnik é uma das seis novas armas estratégicas russas apresentadas pelo presidente da Rússia, Vladimir Putin, em 2018. Esse projeto guarda semelhanças com o descontinuado Projeto Pluto dos Estados Unidos (1957–1964), o qual, embora funcional, foi considerado mais provocativo, dispendioso, ineficaz e emissor de radioisótopos do que os mísseis balísticos intercontinentais.
De acordo com a Nuclear Threat Initiative (NTI) em 2024, "o Burevestnik possui um histórico insatisfatório de pelo menos 13 testes conhecidos, com apenas dois sucessos parciais, desde 2016". Em 2019, uma explosão durante um teste causou o acidente radiológico de Nyonoksa, matando cinco pessoas e ferindo outras. De acordo com o chefe do Estado-Maior Geral das Forças Armadas russas, Valery Gerasimov, o míssil percorreu em um voo de 15 horas, com velocidade média correspondente a 75% da velocidade do som, em 21 de outubro de 2025. Ele é considerado o primeiro míssil de propulsão nuclear e a primeira aeronave de propulsão nuclear a sustentar tal regime.
História
Motivação Os mísseis convencionais impulsionados por foguetes químicos possuem tempo de voo e alcance limitados. A energia gerada pela fissão nuclear oferece muito mais densidade energética a partir de uma massa equivalente de combustível, o que, caso aplicada à propulsão, permitiria hipoteticamente que um míssil fosse disparado a partir de posições muito distantes da zona de defesa do alvo, seguisse rotas sinuosas para desviar de defesas antiaéreas e permanecesse em espera ativa no ar (loiter) por períodos prolongados. Contudo, de acordo com Étienne Marcuz, da Fondation pour la recherche stratégique (FRS), sua autonomia ainda seria limitada pela durabilidade e vida útil dos componentes não nucleares e fluidos do sistema. Os Estados Unidos desenvolveram durante a década de 1950 um míssil de cruzeiro de propulsão nuclear no projeto SLAM (Supersonic Low Altitude Missile), obtendo testes bem-sucedidos em potência máxima com os motores Tory II-A e Tory II-C, mas cancelaram o projeto, em parte devido à poluição radioativa gerada pela sua utilização operacional.
Desenvolvimento miniatura|O 9M730 Burevestnik durante voo de teste em março de 2018 miniatura|Imagem de satélite da instalação de Vologda-20
A indústria de defesa russa iniciou o desenvolvimento de um míssil de cruzeiro de alcance intercontinental com propulsão nuclear capaz de penetrar qualquer sistema de defesa antimíssil baseado em interceptadores em dezembro de 2001, após os Estados Unidos abandonarem o Tratado sobre Mísseis Antibalísticos de 1972. Segundo o professor Mark Galeotti, este míssil constitui o resgate de um projeto concebido originalmente na época soviética.Rocket mystery: What weapon was Russia testing in Arctic? , BBC, 12 de agosto de 2019. Afirma-se que ele possui alcance ilimitado e capacidade de contornar defesas antimísseis. A agência de notícias russa TASS informou em fevereiro de 2019 que a unidade de propulsão nuclear do Burevestnik havia sido testada com sucesso.
Segundo um jornal russo, o míssil foi desenvolvido pelo Instituto Pan-Russo de Pesquisa Científica em Física Experimental em Sarov e é fabricado pela NPO Novator em Ecaterimburgo. Segundo outro periódico russo, o "Burevestnik" só será incorporado pelas forças armadas russas a partir de 2027. Sua incorporação não violará os termos do tratado de redução de armas nucleares entre os Estados Unidos e a Federação Russa (Novo START), o qual a Rússia suspendeu (mas do qual não se retirou formalmente) em 21 de fevereiro de 2023.Козаченко А. . "Что известно о крылатой ядерной ракете «Буревестник»?. aif.ru. 19 de agosto de 2021.
O míssil de cruzeiro recebeu o nome Burevestnik (o petrel-das-tormentas, uma ave marinha) por meio de uma votação pública aberta promovida no sítio eletrônico do Ministério da Defesa da Rússia.
Em 5 de outubro de 2023, o presidente russo Vladimir Putin declarou que o míssil havia sido testado com sucesso em voo, embora veículos de comunicação ocidentais, como a BBC, tenham manifestado ceticismo quanto à alegação, ressaltando a ausência de confirmações independentes. Segundo a Nuclear Threat Initiative (NTI) em 2024, uma organização não governamental dedicada à redução de riscos nucleares, biológicos e de tecnologias emergentes, "o Burevestnik possui um histórico de testes insatisfatório, com pelo menos 13 testes conhecidos e apenas dois sucessos parciais desde 2016".
De acordo com os pesquisadores norte-americanos Decker Eveleth e Jeffrey Lewis, com base na análise de imagens de satélite de 2024 das estruturas de plataformas de lançamento e depósitos, o provável local de desdobramento operacional do Burevestnik é a instalação Vologda-20, situada 15 km a sudoeste de Tchebsara, cerca de ao norte de Moscou.
O chefe do Estado-Maior Geral da Rússia, general Valery Gerasimov, declarou que o Burevestnik — para o qual se alega um alcance entre e a capacidade de voar a apenas do solo — realizou em 21 de outubro de 2025 um voo de com duração superior a 15 horas, durante o qual foram testadas manobras verticais e horizontais em conformidade com as especificações, demonstrando "alta capacidade de superar sistemas de defesa antiaérea e antimísseis". A Autoridade Norueguesa de Radiação e Segurança Nuclear (DSA) inicialmente não registrou nenhum aumento nos índices de suas estações de monitoramento de radioatividade, mas a inteligência militar da Noruega confirmou o disparo de teste do Burevestnik a partir do arquipélago de Nova Zembla.
Especulações sobre o projeto Segundo Vladimir Putin e o Ministério da Defesa russo, as dimensões da fuselagem são comparáveis às do míssil de cruzeiro Kh-101, embora com alcance operacional anunciado muito maior. Ele é dotado de uma unidade de potência nuclear de tamanho reduzido. Apresentações oficiais indicam que o míssil parte de uma rampa inclinada com auxílio de um propulsor de combustível sólido ejetável.
Pavel Ivanov, do periódico VPK-news, afirma que o míssil possui entre uma vez e meia e duas vezes o tamanho do Kh-101 e que as asas do Burevestnik estão fixadas "na parte superior da fuselagem, e não na parte inferior, como ocorre no Kh-101". Ele ressalta ainda a presença de "saliências características por onde o ar atmosférico é provavelmente aquecido pelo reator nuclear". Conforme Ivanov, a massa do Burevestnik é várias vezes superior — e provavelmente uma ordem de grandeza (cerca de dez vezes) maior — que a do Kh-101, o que descarta os bombardeiros Tu-160 e Tu-95 como eventuais plataformas de lançamento aéreo.
Segundo o jornal Nezavissimaia Gazeta, o Burevestnik é um foguete termonuclear com motor acelerador de propelente sólido. O comprimento da fuselagem atinge no lançamento e em voo após o descarte do acelerador. A seção frontal possui formato elíptico com dimensões de × .
O especialista militar Anton Lavrov sugeriu em artigo no jornal Izvestia que o Burevestnik utiliza um motor do tipo estatorreator (ramjet) que, diferentemente de sistemas nucleares isolados, libera continuamente efluentes radioativos na atmosfera pelo bocal de exaustão.
A plataforma de inteligência geopolítica Stratfor supõe que o Burevestnik emprega um motor turborreator combinado com um acelerador inicial de combustível líquido.
Conforme James Hockenhull, ex-chefe da Inteligência de Defesa do Reino Unido (CDI), o Burevestnik é um "sistema de míssil de cruzeiro de propulsão nuclear subsônico que possui alcance global, permitindo ataques a partir de direções inesperadas", além de exibir "um tempo de espera no ar praticamente indefinido".
Hans M. Kristensen, diretor do Projeto de Informação Nuclear da Federação de Cientistas Americanos, destaca que o Burevestnik permanece tão vulnerável a interceptações quanto qualquer outro míssil de cruzeiro subsônico convencional e questiona a lógica estratégica do artefato, visto que, quanto mais tempo ele permanecer voando em círculos, mais tempo as defesas adversárias terão para detectá-lo e rastreá-lo.
Cheryl Rofer, ex-pesquisadora nuclear do Laboratório Nacional de Los Alamos, e Thomas Countryman, ex-diplomata sênior do Departamento de Estado dos EUA na Arms Control Association, apontaram o risco de contaminação radiológica severa para o próprio território russo, com Countryman classificando o conceito da arma como "uma estupidez sem paralelo" e denominando-o de "um Chernobil voador".
Conforme estudo técnico conduzido por Jake J. Hecla e R. Scott Kemp no Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), baseado em dados abertos, o míssil emprega muito provavelmente um motor turborreator nuclear de ciclo direto, uma vez que circuitos fechados indiretos com trocadores de calor adicionais seriam volumosos e pesados demais para as dimensões da fuselagem. Esse arranjo permite deslocamentos em altas velocidades subsônicas. Contudo, o ar atmosférico que atravessa diretamente os canais do núcleo do reator sofre intensa irradiação e arrasta produtos residuais de fissão, descarregando isótopos radioativos de argônio, criptônio e carbono na esteira de voo. Voos prolongados também tenderiam a degradar e corroer o núcleo do reator pelo atrito do ar comprimido sob calor extremo, ampliando a emissão de partículas radiológicas. Segundo William Alberque, ex-diretor do Instituto Internacional de Estudos Estratégicos (IISS), a pluma radioativa facilitaria o rastreamento do míssil e a degradação acelerada dos componentes internos tornaria a premissa de alcance infinito irrealizável, reiterando os motivos que levaram as superpotências a abandonarem o conceito na Guerra Fria. Hecla e Kemp ponderaram que os estudos do Burevestnik podem, contudo, servir de base para projetos futuros de drones de vigilância nuclear ou propulsão espacial.
Locais de teste miniatura|Área de testes do míssil Burevestnik em Pankovo, fotografada em 24 de junho de 2018 O especialista em não proliferação nuclear Jeffrey Lewis identificou os locais mais prováveis de teste do Burevestnik. Essas instalações compartilham um abrigo ambiental móvel sobre trilhos característico, visível em imagens orbitais.
Pan'kovo miniatura|Imagem de satélite da Planet Labs de 15 de junho de 2018 mostrando o local de lançamento de Pan'kovo com abrigo móvel sobre trilhos O campo de testes de Pan'kovo situa-se ao norte da base aérea de Rogachevo na Ilha Yuzhny, no arquipélago de Nova Zembla, no Oceano Ártico.
Em novembro de 2017, a localidade abrigou um ensaio malsucedido do míssil Burevestnik que, após dois minutos de voo e percorrer cerca de , caiu nas águas do Mar de Barents. Três navios de apoio — um dos quais aparelhado para manusear materiais radioativos — foram mobilizados em missões para resgatar os destroços da arma do fundo do oceano.
Imagens de satélite da Planet Labs captadas em 15 e 24 de junho de 2018, divulgadas por Lewis e pelo Instituto Middlebury de Estudos Internacionais em Monterey (MIIS), exibem o abrigo sobre trilhos no campo de Pan'kovo que Lewis aponta como padrão nas bases de teste do Burevestnik.
Registros de satélite da Planet Labs de 7 de agosto de 2025 divulgados pelo MIIS foram identificados por Lewis e pelo pesquisador de mísseis Decker Eveleth como indicativos de preparativos para testes do Burevestnik no complexo de Pan'kovo.
Campo de Testes Navais Central do Estado de Nyonoksa O Campo de Testes Navais Central do Estado está situado nas imediações de Nyonoksa, próximo a Severodvinsk, no norte da Rússia.
Imagens orbitais da Airbus de 14 de maio de 2019 divulgadas por Lewis mostram o mesmo tipo de abrigo ambiental sobre trilhos associado aos testes do Burevestnik nas instalações de Nyonoksa.