Telheiras é um bairro das freguesias do Lumiar e Carnide, portanto na parte Norte do concelho de Lisboa. O bairro não tem fronteiras físicas consensualmente definidas, correspondendo, pelo menos originalmente, a um “triângulo” de 98 hectares delimitado pelo Eixo Norte-Sul (a Oeste), pela Avenida Padre Cruz (a Leste) e a Avenida General Norton de Matos / 2.ª Circular (a Sul).
História
Telheiras antiga A zona de Telheiras será habitada pelo Homem desde a Pré-História, em muito devido à sua fertilidade. Os povos celta e lusitano, adoradores do deus Lug, terão construído neste lugar um povoado em redor da antiga capela de São Vicente, tendo esta malha urbana inicial provavelmente dado origem à disposição do núcleo antigo de Telheiras.
É também tido como provável que Telheiras tenha sido habitada por Romanos — a igreja de Nossa Senhora das Portas do Céu poderá ter sido um templo, hipótese apoiada pelo facto de a antiga entrada do local ser exposta a Sul.
O Convento da Nossa Senhora das Portas do Céu
No século XVII, a povoação ganhou alguma notoriedade, quando o príncipe D. João de Cândia, proveniente do Ceilão (actual Sri Lanka) aqui decidiu construir uma Igreja e um Convento para perpetuar a sua memória, aplicando os fundos que a Coroa lhe pagava generosamente.
O núcleo antigo de Telheiras miniaturadaimagem|334x334px|Antiga capela na Quinta de São Vicente As mais antigas referências concretas ao povoado de Telheiras (preservado ainda hoje no chamado núcleo antigo — Estrada de Telheiras, antigo Convento e envolvências) estão contidas em documentos dos séculos XVIII e XIX. miniaturadaimagem|334x334px|Estrada de Telheiras O lugar é descrito como um conjunto de propriedades agrícolas, bem como de residências de veraneio e recolhimento da nobreza fugida para os arrabaldes da cidade, à semelhança dos aglomerados urbanos de Carnide, Luz e Paço do Lumiar.
Em 1758, nas suas Memórias Paroquiais, o Padre Feliciano Luiz Gonzaga, prior do Lumiar, escrevia que em Telheiras “se [achavam] noventa e dois fogos e quatrocentos e quarenta pessoas”.
Gonzaga descreveu o património religioso existente na zona: o Convento da Nossa Senhora das Portas do Céu, “que sempre passava de vinte religiosos conventuais”; a ermida da Quinta de São Vicente, antiga propriedade dos Condes de Alvito (“do Illustríssimo e Excelentíssimo Conde-Barão”); e a actualmente inexistente ermida de Santo António, na posse de António Francisco George.
As construções presentes nestas quintas caracterizam-se por fachadas de traço rectilíneo e sóbrio, onde apenas se destacam “as molduras de alvenaria dos vãos, das portas, das janelas dos quartos senhoriais e dos portais”. Um exemplar ainda existente é o Solar da Nora, cuja nora ainda se conserva. Funciona hoje neste edifício a parte central da Biblioteca Orlando Ribeiro, renovada em 2003. Anexo a este palácio, está a antiga Capela de São Vicente, que servia como espaço de culto da quinta homónima.
Simultaneamente, fixam-se em Telheiras lavradores e assalariados agrícolas — os chamados “saloios de Tilheiras [sic]”, que trabalhavam nas quintas dos nobres proprietários. Em 1863, no Archivo Pittoresco, era assim descrito por Vilhena Barbosa, num artigo intitulado Fragmentos de um roteiro em Lisboa, o povoado de Telheiras:Do fim do passeio do Campo Grande partem duas estradas, uma pelo lado direito que vai ao Lumiar, Loures, etc., e a outra segue para a esquerda, e conduz a Telheiras, Nossa Senhora da Luz e Carnide. Deixando a primeira para outra excursão, encaminharemos o leitor pela segunda.“Telheiras” é uma pequena aldeia de trinta e tantos fogos, com umas cento e cinquenta almas, pertencente à freguesia de S. João Baptista do Lumiar. Tem muitas quintas, algumas com boas casas, mas nenhuma merece menção especial. Tiveram um convento em Telheiras os religiosos de S. Francisco, da província de Portugal, dedicado a Nossa Senhora das Portas do Céu, cujo edifício se acha em bastante ruína. Foi fundado no ano de 1633 por um príncipe asiático, chamado D. João, senhor de Cândia, na ilha de Ceilão, de onde veio para Lisboa, e aqui faleceu em 1642, ao cabo de longa residência. Na igreja deste convento jaz o dito príncipe em túmulo de mármore.O Bairro Jardim, atravessado pela Alameda Ventura Terra, começou a ser construído em 1923. Na altura, a estrada seria de terra batida, recebendo iluminação apenas depois de 1930, e a água para consumo provinha do chafariz de Telheiras de Cima, onde actualmente existe uma entrada para o Metro. Uma testemunha oral conta que havia comércio local, “onde somente os proprietários serviam moradores, raramente tinham empregados”. Em Telheiras de Cima, havia cerca de “15 lojas e um médico” (Dr. José de Sousa Gomes), e em Telheiras de Baixo, 4 lojas e vários ofícios (“relojoeiro, bordadeira, vendedeira de tachos e alguidares de barro e duas leiteiras”, que vendiam o leite de porta em porta em bilhas de metal).
No século XIX e até meados do século XX, funcionou também na Quinta de São Vicente um restaurante “fora de portas”.
As já referidas quintas de lazer das famílias abastadas de Telheiras eram compostas de duas partes distintas — os terrenos de cultura e a zona da casa e jardim do proprietário. A prevalência de propriedades de tamanha extensão aliada à fraca ligação viária a este lugar dos arredores de Lisboa explica o número tão reduzido de habitantes que Telheiras teve até à década de 1960.
Para uma melhor compreensão dos limites das quintas de Telheiras, poderá ser consultado um mapa da Cartografia História de Lisboa, concebido por Júlio António da Silva Pinto em 1909.
A urbanização de Telheiras
O Plan Masse de Telheiras Em 1967, o Plano Geral de Urbanização da Cidade de Lisboa (PGUCL) indicava Telheiras como área para fins habitacionais. A Câmara Municipal de Lisboa encomendou o primeiro plano de urbanização do bairro a uma equipa francesa coordenada pelo arquitecto Gilles O’Callaghan, envolvendo as empresas OTAM (Omnium Technique d’Aménagement) e Interlande — Sociedade de Estudos e Programações Lda. A OTAM, dedicada ao planeamento urbano, era então fortemente influenciada pelos ideais do sociólogo e filósofo francês Henri Lefebvre.
Foram apresentados documentos em duas fases distintas:
Programme d’Amenagement de la Maille de Telheiras (Programa de Desenvolvimento da Malha de Telheiras), entregue a 8 de Julho de 1969, mais enquadrado num plano de análise e definição de objectivos e planeamento. Teve o parecer do então Conselheiro da Cidade de Lisboa, Georges Meyer-Heine; Zone d’ Habitation de Telheiras: Dossier de Plan Masse (Zona habitacional de Telheiras: Plano de Implantação), apresentado a 10 de Abril de 1972, que constitui a proposta final, sendo assim o primeiro plano de ordenamento efectuado para a zona da actual Telheiras. Este plano inicial procurava atingir um carácter acentuadamente urbano, distinguindo três “redes” de intervenção: uma primária (transversal Nascente-Poente), uma secundária (partindo da transversal e servindo os quarteirões adjacentes) e uma terciária (de ligação aos edifícios).
O projecto foi condicionado por vários obstáculos e infra-estruturas ao redor do “triângulo” onde se insere o bairro – o enquadramento rodoviário (que isolava o bairro), o depósito de água da EPAL (a Norte), as vias interiores e o património da antiga aldeia – a histórica Estrada de Telheiras, o Convento de Nossa Senhora das Portas do Céu, o jardim do palacete Burnay, o “Bairro Jardim” (vivendas alemãs na Avenida Ventura Terra)…
O traçado urbanístico apresentava uma estrutura celular com um sistema viário claramente definido e hierarquizado, em que o estacionamento se distribuía ao longo das ruas segundo o princípio de Radburn, libertando assim o interior das células da presença de veículos. Uma mancha contínua de espaço verde, distribuída pelo plano, envolvia os equipamentos sociais localizados no centro de cada célula. O Plan Masse definiu como núcleo central do projecto o centro da antiga aldeia, ligado a uma zona comercial orientada para o peão e para a vida comunitária. O plano não se limitava à concepção de um parque habitacional, antes se fundamentava na criação de um bairro multifacetado, dotado de equipamentos comerciais, culturais, de lazer e de ensino.
O alojamento seria dividido em quatro tipologias (T2, T3, T4 e T5) e duas categorias principais (habitação social e fogos de promoção privada), com inspiração nos recém-construídos bairros dos Olivais e da Quinta do Morgado. Assim se repartiriam os fogos:
Habitação social — 1300 unidades (60% de T2, 30% de T3, 10% de T4), com um rácio de 0,7 lugares de estacionamento por fogo; Fogos de promoção privada — no mínimo 1600 unidades (36% de T2, 34,5% de T3, 21,5% de T4, 8% de T5), com um rácio de 1 lugar de estacionamento por fogo.
Assinale-se ainda que o plano francês abrangia uma área substancialmente maior do que o actual bairro, incluindo toda a zona oriental para além da Av. Padre Cruz até ao limite do aeroporto.
Porém, a situação política e social instável que Portugal vivia na época (a substituição de Salazar por Caetano como Presidente do Conselho de Ministros e, posteriormente, a Revolução dos Cravos) afectou o rumo do projecto de Telheiras, e o Plan Masse de O’Callaghan acabou por ser descartado.
O Plano Urbanístico de Telheiras (Vieira de Almeida)