O Museu das Ciências Naturais de Angers (chamado em francês de Muséum d'Angers, por oposição aos museus de arte que são chamados de Musée d'Angers) é um museu municipal da cidade de Angers (Maine-et-Loire, França). Dedicado à história natural, o acervo do Museu soma cerca de objetos, incluindo aves, conchas, fósseis, insetos e coletas de herbário, além de centenas de espécimes conservados em taxidermia ou em líquido, esqueletos, minerais, instrumentos técnicos e documentos.http://www.angers.fr/museum O Museu recebe cerca de visitantes por ano,Le Courrier de l'Ouest : Le 20000e visiteur au muséum des Sciences naturelles e ainda grupos escolares, estagiários, pesquisadores e voluntários.
Histórico
Aberto ao público desde 1801, o Museu das Ciências Naturais de Angers é herdeiro de uma história longa e cheia.
O núcleo inicial do acervo data da Revolução Francesa. Por decreto de 22 de Novembro de 1790, Gabriel Eleanor Merlet de la Boulaye (1736-1807) torna-se responsável por reunir os livros e coleções de história natural que tinham sido apreendidos por todo o departamento do Maine-et-Loire, especialmente nas casas dos émigrés. Os objetos são inicialmente armazenados na Abadia de São Sérgio de Angers. Infelizmente a abadia será saqueada durante o cerco de Angers em Dezembro de 1793.
Em 1795, é criada a Escola Central do Maine-et-Loire e instalada no edifício Barrault. Joseph-Étienne Renou (1740-1809), colaborador de Merlet, é chamado a reger a cadeira de história natural e, com o que restou das coleções na abadia, forma um Gabinete de História Natural destinado ao ensino na nova escola. O acervo será depois aumentado graças em particular a Louis-Marie de La Révellière-Lépeaux (1753-1824), membro do Directório.
La Révellière-Lépeaux convida Renou em 1798 a trazer para o seu gabinete espécimes das coleções do Museu Nacional de História Natural, incluindo uma coleção de 12 peixes fósseis trazidos da Itália (Monte Bolca) por Bonaparte em 1797 (coleção que ainda existe e com as suas etiquetas originais). O gabinete abre finalmente as portas ao público como "Museu de História Natural" no dia 5 de Maio de 1801. Em 1805, após a supressão da Escola Central, o Museu torna-se municipal, permanecendo no edifício Barrault partilhado agora com o Museu das Belas Artes de Angers.
O Museu atrai rapidamente o interesse do público e o seu acervo aumenta. Em 1806, Étienne Geoffroy Saint-Hilaire (1772-1844) enviou a Angers fósseis e moldes de fósseis importantes, em nome do Museu Nacional.
Após a morte de Renou (1809), a administração do Museu passou por um período conturbado. Guilloteau, assistente naturalista, administrou o Museu na época dos diretores Bastard (que também era diretor do Jardim Botânico de Angers e interessava-se menos pelo Museu) e Tussac (que trabalhava a partir de Paris). Em 1821, Auguste Desvaux Nicaise (1784-1856) substituiu Guilloteau como assistente naturalista (após a aposentação deste) e foi nomeado diretor em 1822. Desvaux tenta pôr ordem nas coleções e discute com o município a resolução de muitos dos problemas logísticos do Museu, mas sem resultados.
É somente sob a direção de Alexandre Boreau (1803-1875) que o alargamento do Museu acontece, com novas salas no primeiro andar do edifício Barrault inauguradas em 1849. No mesmo ano, o acervo do Museu é aumenta com o legado da coleção de Pierre-Aimé Millet de La Turtaudière (1783-1873), decano da história natural angevina. A sua coleção compreendia principalmente fósseis do Anjou, mas hoje em dia quase todos estão desaparecidos. Em 1864, uma exposição temporária de geologia tornou-se a exposição permanente. Em 1871 é de notar a criação da Sociedade de Estudos Científicos do Anjou (SESA) por um grupo de sábios intimamente ligados ao Museu. Em 1883, Alphonse Milne-Edwards (1835-1900), professor de ornitologia no Museu Nacional, doou 65 aves ao Museu.
thumb|Escadaria do antigo edifício do município, Muséum d'Angers O Museu tinha sede no edifício Barrault, mas em 1885 o município de Angers decide adquirir os fósseis da coleção Soye, o que torna o espólio de paleontologia demasiado grande para as instalações do edifício Barrault. Esse espólio é então instalado no antigo edifício do município e abre ao público como Museu Paleontológico. Pouco depois, as coleções de geologia são mudadas também para o novo espaço. No mesmo ano, um molde de ictiossáurio de Holzmaden foi comprado ao Museu Cantonal de Geologia de Lausana, onde o original ainda se pode ver. Um fóssil autêntico de ictiossáurio de Holzmaden será adquirido posteriormente.
As coleções de botânica desenvolveram-se em Angers a partir da criação da Sociedade dos Botanófilos em 1777. Conservadas no Jardim Botânico de Angers durante quase todo o século XIX, os herbários foram acomodados em 1895 na antiga casa dos maires, na ala norte do antigo edifício do município, ao lado do Museu Paleontológico. A SESA foi ali instalada junto com os herbários. O herbário de Alexander Boreau foi comprado pelo município em 1875, e o de James Lloyd (1810-1896) foi legado ao município em 1897. Todos os herbários serão reagrupados no Arboretum Gaston Allard em 1964 e a SESA acompanhará essa mudança. De 1898 a 2005, esse espólio constituiu o Museu Botânico.
Sob a direção de Georges Bouvet (1850-1929) muitos objetos entraram no espólio do Museu (o número de espécimes mais do que quintuplicou) e uma classificação geral das coleções foi concluída. O seu sucessor, Olivier Couffon (1882-1937), doou espécimes geológicos e paleontológicos da sua própria coleção. As coleções de pré-história iniciaram-se no final do século XIX, especialmente graças ao sítio paleolítico de Roc-en-Pail, em Chalonnes-sur-Loire (Maine-et-Loire).
Em 1958, sob a direção de Philippe Maury (1892-1978), o espólio de zoologia sai do edifício Barrault e é instalado como Museu Zoológico no edifício Demarie-Valentine, perto do Museu Paleontológico. O Museu Zoológico abre ao público no dia 28 de Abril de 1963. As duas instituições são finalmente reunidas para recriar o Museu de História Natural em 1990 e os dois edifícios são ligados em 1991 por um pequeno jardim sobre as antigas muralhas de Angers, permitindo aos visitantes um percurso contínuo entre as salas de zoologia e a galeria de paleontologia. Em 2005, o Museu Botânico, ainda que permanecendo no sítio do Arboretum, é absorvido pelo Museu de História Natural, que muda a sua designação para Museu das Ciências Naturais. Em 1 de Janeiro de 2017 o Museu é unido administrativamente aos outros cinco museus municipais de Angers.
Ao contrário da maioria dos outros museus de história natural da França, o Museu das Ciências Naturais de Angers e o seu acervo não sofreram muito com as duas guerras mundiais, nem nenhum incêndio, inundação ou desastre destruiu ou danificou as suas coleções. A maior catástrofe terá sido provavelmente a pilhagem ocorrida em 1793. Embora muitas peças tenham sido perdidas ou roubadas ao longo do tempo, o Museu mantém uma continuidade e integridade raras para um Museu com mais de 200 anos.
Missão do Museu
O Museu das Ciências Naturais de Angers, tal como o Museu Nacional de História Natural, adopta cinco missões principaishttp://www.mnhn.fr/fr/propos-museum/missions: conservação das coleções, disseminação do conhecimento, perícia técnica, pedagogia e pesquisa científica (no entanto, os dois últimos só são realizados em Angers através da mediação científica, do empréstimo de espécimes e do acolhimento de estagiários e pesquisadores externos). O Museu faz parte de redes de museus e contribui para as bases de dados patrimoniais nacionais e internacionais. O Museu subscreve a definição de museu do ICOM e apresenta-se assim como "uma instituição permanente sem fins lucrativos, ao serviço da sociedade e do seu desenvolvimento, aberta ao público, que adquire, conserva, investiga, comunica e expõe o património material e imaterial da humanidade e do seu meio envolvente com fins de educação, estudo e deleite".Estatutos do ICOM art.2 §.1 http://icom-portugal.org/2015/03/19/definicao-museu/ O Museu recebeu em 2003 a denominação de "Musée de France", na acepção da Lei nº 2002-5 de 4 de Janeiro de 2002.Base Muséofile des musées de France, site culture.gouv.fr, http://www.culture.gouv.fr/public/mistral/museo_fr?ACTION=RETROUVER&FIELD_98=TOUT&VALUE_98=angers&NUMBER=8&GRP=0&REQ=%28%28angers%29%20%3aTOUT%20%29&USRNAME=nobody&USRPWD=4%24%2534P&SPEC=9&SYN=1&IMLY=&MAX1=1&MAX2=1&MAX3=50&DOM=All
Coleções
As coleções do Museu classificam-se em quatro grandes disciplinas científicas : botânica, zoologia, ciências da Terra e pré-história. O Museu conserva ainda coleções menores de etnologia, de tecnologia e de belas artes. Doações, apreensões alfandegárias e novas aquisições continuam ainda hoje a contribuir para enriquecer o acervo do Museu.
O objeto mais antigo preservado é un fóssil de trilobite do género Paradoxides do período Câmbrico, datado de cerca de 500 milhões de anos. Historicamente, os objetos mais antigos são os herbários du século XVIII (e mesmo algumas raras coletas de herbário do século XVII). Herbários e animais taxidermizados anteriores ao século XIX detêm um valor patrimonial considerável, mas a maior parte das coleções provém de recolhas nos séculos XIX e XX. Em botânica, zoologia e paleontologia, as coleções do Museu contém vários espécimes tipo, principalemente de asteráceas, de lepidópteros e de trilobites.
Botânica
thumb|Uma parte das reservas dos herbários, Muséum d'Angers As coleções de botânica representam o espólio mais numeroso do Museu, com mais de metade do número de espécimes do total do acervo. Os herbários agrupam mais de coletas, datando principalmente do século XIXhttp://www.angers.fr/vie-pratique/culture/les-equipements-culturels/le-museum-des-sciences-naturelles/site-arboretum/index.html e articulando-se em torno de três coleções importanteshttp://www.tela-botanica.org/page:herbiers_recherche?module=FichePersonne&id=103242 https://www.recolnat.org/en/nos-partenaires/angers/: o herbário geral, o herbário de Alexandre Boreau e o herbário de James Lloyd. Os três juntos somam 80 % da totalidade das coleções de herbários. O herbário geral contém vários espécimes tipo, incluindo tipos da ilha da Reunião, coletas de Commerson (viagem de Bougainville), La Billardière (expedição de Entrecasteaux), Poiteau (Saint-Domingue) e mesmo algumas raras amostras do século XVII. O herbário Boreau contém mais de coletas, um material que serviu à redação da Flore du centre de la France, a flora regional com maior reputação na sua época. O herbário Lloyd (cerca de coletas) contém espécies, foi a base da Flore de l'ouest de la France e é acompanhado de uma imponente biblioteca. No acervo do Museu encontram-se igualmente coleções de musgos (Bouvet, Bruneau), de líquenes (Decuillé, Thuillier), de fungos (Gaillard, Guépin, Rabenhorst) e de algas (Lloyd, Bory, Corillion). A botânica especializada não está ausente, já que em Angers conserva-se uma das mais importantes coleções do género Rubus da Europa. Uma carpoteca-seminoteca contém amostras pedagógicas (cerca de espécies francesas e tropicais) e uma coleção Vilmorin de sementes de árvores do início do século XX, que agrupa coletas do Museu Nacional e de Roland Bonaparte ( amostras). A xiloteca junta amostras de árvores abatidas no Jardim Botânico de Angers e no Arboretum Gaston Allard e ainda uma coleção de 69 amostras de madeiras preciosas da Guiana Francesa recolhidas em 1802.
Zoologia
thumb|left|upright=1.6|Insetos em caixas arrumadas verticalmente numa parte das reservas de entomologia, Muséum d'Angers