miniaturadaimagem|400x400px|Representação de Sócrates e Diotima. Sócrates com um Discípulo e Diotima, Franc Kavčič, antes de 1810

Scala amoris (termo convencional, em latim) ou escada do amor é um conceito que se refere à noção platônica de uma elevação do amor em graus ascendentes. Em especial, ela é atribuída por Sócrates no diálogo platônico O Banquete à sacerdotisa Diotima de Mantineia, que caracteriza a analogia utilizando-se o termo “ἐπαναβασμοῖς” (épanabasmoîs, do grego antigo, “degraus”), em “Essa é a abordagem ou indução correta para questões de amor (ta erôtika). A partir de belezas óbvias, ele deve, pelo bem daquela beleza mais alta, subir sempre ao alto, como em degraus”.Platão. O Banquete, 211b-c

Platão, por meio de Sócrates em seus diálogos, aborda o conceito de amor definindo-o de forma abrangente sob o termo de Eros (em grego antigo, ἔρως), que foi utilizado significando desde o amor sexual ou romântico até um amor divino ideal (ver p. ex. amor platônico), em contraste com seu uso mais comum em referência ao amor corpóreo. A ideia do Eros em graus de elevação e intensidade variados remete à Teoria das Formas, como pode ser visto em O Banquete e Fedro (ver abaixo),de Almeida, Yuri Galvão Oberlaender. (2018). Scala Amoris: Síntese da Educação Filosófica no Banquete de Platão. Dissertação de mestrado em Filosofia ao Programa de Pós-graduação em Filosofia da Universidade Federal de Santa Catarina. o que explica o amor platônico ser inclusivo de todos seus tipos, exemplificados do "eros" corpóreo aos conceitos divinos mais elevados, como philia ou ágape, este último posteriormente desenvolvido na filosofia.Nicholson, Graeme (1999). Plato's Phaedrus: The Philosophy of Love (em inglês). Purdue University Press. ISBN 9781557531193. p. 221.

Contexto Em O Banquete, essa escala é gradualmente ampliada através de diversas abordagens do Amor. Ele é apresentado em oito discursos pelos interlocutores do simpósio (banquete), cada um dando-lhe diferentes definições: em ordem, Fedro, Pausânias, Erixímaco, Aristófanes, Agatão, Sócrates/Diotima (in absentia) e Alcibíades.

Fedro afirma que Eros é enobrecedor, pois seu efeito nos amantes é inspirar o desejo de ser o melhor na presença do amado, “viver bela e retamente”Platão. O Banquete, 181a. Tradução: Carlos Alberto Nunes. (2007) Belém: EDUFPA.

Pausânias divide o amor em duas partes: uma divina, o Amor Celeste, que eleva os amantes; e outra corporal, que é passageira como a beleza do corpo. Ele afirma essa dualidade através da imagem mitológica de haver duas Afrodites, uma, filha de Urano e portanto celeste; outra, filha de Zeus e Dione, apelidada de “Pandêmia” ou vulgar, concluindo que “nem todo amor é belo e merecedor de encômios, mas apenas o que se alia à nobreza”. Ele associa o Amor Celeste ao amor da virtude (aretê), central na paideia, a educação do contexto de sua época, e o direcionamento dos jovens por Eros na sociedade ateniense visava à contemplação metafísica, impedindo-lhes dos “amores vulgares”.

Erixímaco expande a noção de Amor para além das relações conjugais e interpessoais, e afirma que Eros está presente no cosmos e nos ciclos da natureza. Isso tem relação com a função cósmica do Amor na mitologia grega, desde Hesíodo, em que Eros e Afrodite regulam as ações dos deuses, até seu movimento universal explícito na cosmologia de Empédocles. Fedro também citou anteriormente no mesmo diálogo Hesíodo: “Narra Hesíodo que antes o Caos existiu, vindo a Terra a seguir, de amplos seios, inabalável assento das coisas; depois chegou Eros”,Platão. O Banquete, 176b. Tradução: Carlos Alberto Nunes. (2007) Belém: EDUFPA. e Parmênides: “Eros nasceu em primeiro lugar; nenhum deus antes dele”. Devido à harmonia e consonância, Erixímaco chama a música de “ciência do amor relativamente à harmonia e ao ritmo”.Platão. O Banquete, 187c. Tradução: Carlos Alberto Nunes. (2007) Belém: EDUFPA.

Aristófanes propõe um mito que explica Eros como sendo a reminiscência de uma era em que dois sexos estariam em uma mesma alma e corpo ao mesmo tempo, e que Zeus os teria dividido porque nessa condição ambos eram fortes demais em seu amor e ousavam desafiar os deuses. Após a separação, restaria a saudade da unidade divina e o desejo de se reunir, explicando-se o amor conjugal. Essa analogia é notória pela imagem da metade-gêmea ou “cara metade”. Deste mito ficou famoso o termo “andrógino”, para os seres que eram ambos homem e mulher, mas também havia aqueles homem e homem ou mulher e mulher, o que servia de explicação para o amor homoafetivo.

Agatão louva Eros elogiando-o pela juventude, beleza e inspiração que concede aos poetas.

Sócrates afirma que aprendeu as questões de Amor com aquela que ele afirma ter sido sua instrutora no assunto, Diotima de Mantineia, uma sacerdotisa. Diotima inicialmente discorre sobre a relação genealógica de Eros com outros deuses e descreve a Sócrates quais são as suas manifestações na natureza e nas ações humanas, demonstrando-lhe que o objetivo do Amor é o belo e que elas são meramente um caminho para isso. Encerrada a descrição dos particulares, que ela chama de “mistérios menores”, inicia-se a seção de sua narrativa que é distinguida como os mistérios maiores, pelo que Diotima compara o Amor a uma iniciação, a qual é difícil de se realizar.Platão. O Banquete, 210a Ela conclui que o degrau mais alto é a Ideia do Bem e do Belo em si como objeto verdadeiro e último do amor, em suas maiores intensidades; transcendente, mas que no entanto os amantes atingirão a sua contemplação sendo conduzidos em seu olhar, de grau em grau ascendendo.Quando um homem tem sido ensinado até agora na sabedoria do amor, passando de vista em vista a coisas bonitas, na ascensão correta e regular, de repente (ἐξαίφνης) se revelará a ele, à medida que se aproxima de seus fins em suas relações amorosas, uma visão maravilhosa, bonita por sua natureza; e este, Sócrates, é o objeto final de todos aqueles trabalhos anteriores. Antes de tudo, é eterno, não veio a ser nem perece, nem cresce nem diminui;... Nem nosso iniciado encontrará o belo que lhe é apresentado sob o disfarce de um rosto, mãos ou qualquer outra parte do corpo, nem como uma descrição ou pedaço de conhecimento particular, nem como existindo em algum lugar de outra substância, como um animal. ou a terra ou o céu ou qualquer outra coisa; mas existindo sempre na singularidade da forma independente por si só, enquanto toda a multidão de coisas bonitas participa dela de tal maneira que, embora todas elas venham a existir e perecer, ela não cresce, nem é maior nem menor, e não é afetada por nada."Platão. O Banquete, 210e-211bEla afirma que o objeto do Amor é 'possuir o bem sempre',Sócrates conclui seu depoimento  Um fato curioso é de que, em O Banquete, Sócrates afirma uma das poucas vezes saber algum tipo de conhecimento além de “só sei que nada sei”: “A única coisa que eu digo que sei é a arte do amor (ta erôtika)"Platão, O Banquete 177d8–9, o que também é repetido no diálogo Teages.“Eu não conheço virtualmente nada, exceto um pequeno assunto - amor (τῶν ἐρωτικῶν), embora sobre esse assunto, eu sou pensado como incrível (δεινός), mais do que ninguém, passado ou presente". Em Teages, 128b. Outra mulher que também lhe teria filosofado a arte do amor, segundo Plutarco, foi Aspásia, esposa de Péricles.D’Angour, Armand (7 de março de 2019). Socrates in Love: The Making of a Philosopher (em inglês). Bloomsbury Publishing. ISBN 9781408883907 p. 156 Ésquines, um dos discípulos de Sócrates, aponta-a como mestra em eloquência e que ela sabiamente recomendava a virtude no relacionamento amoroso, sendo reconhecida como casamenteira e narrado que ela realizou um aconselhamento marital para Xenofonte e sua esposa.

A imagem de graus do amor também é vista no diálogo Fedro. Nele, Sócrates considera que também são utilizados para o Amor os dois procederes gerais de raciocínio, que são partes da Teoria das Ideias: “Aquele de se cortar a forma novamente, em classes ([sub]formas), em relação às suas articulações naturais, e não tentando quebrar qualquer parte, como um péssimo açougueiro”Platão. Fedro, 265eEros também é considerado no Fedro em relação à alegoria da biga, em que ele representa um caminho de ascensão dos indivíduos análogo à escada do amor e é comparado a asas que permitem um vôo. Ele é dividido em um eros ascendente e um eros em direção inferior, dos desejos mortais. Assim, os amantes são representados alados na narrativa quando estão na terra e suas asas crescem em contato do belo. Quando as asas estão perfeitas, a alma se eleva.Fierro, María Angélica. «The Myth of the Winged Chariot in the Phaedrus: A Vehicle for Philosophical Thinking». Berlin, München, Boston: DE GRUYTER. ISBN 9783110436549"A propriedade natural (dýnamis) de uma asa é transportar o que é pesado para cima, elevando-a até a região onde reside a raça dos deuses."Platão. Fedro, 246d

“Quando [a Alma] está perfeita e plenamente alada, viaja acima da terra e governa todo o cosmos; mas aquele que perdeu as asas é arrastado até se prender a algo sólido, onde se estabelece, assumindo um corpo terreno, que parece se mover por causa do poder da alma”Platão. Fedro, 246b-c

Escala Kristian Urstad resume a analogia afirmando 'o primeiro degrau é que o amante ame um corpo';Urstad, Kristian. (2010). Loving Socrates: The Individual and the Ladder of Love in Plato’s Symposium. Res Cogitans 7 (1): 33-47'O segundo, amar todos os corpos belos;''O terceiro, amar a beleza que uma alma pode ter.''Tendo chegado a amar a beleza mental ou a beleza da alma, o amante não terá outra escolha senão ascender para amar as belas instituições, leis e atividades públicas.'"...finalmente, ele pode ser obrigado a contemplar o belo como aparecendo em nossas observâncias e leis, e contemplar tudo unido em parentesco e, assim, estimar a beleza do corpo como um assunto pequeno."Platão. O Banquete, 210c'Ele então se apressa ao penúltimo estágio para amar a beleza das ciências ou do conhecimento em geral.'"A partir das observâncias, ele deve ser levado aos ramos do conhecimento, para que ali também ele possa contemplar uma província da beleza, e ao olhar assim para a beleza na massa possa escapar da escravidão mesquinha e meticulosa de uma única instância, onde ele deveria centralizar todo o seu cuidado"'Dito isso para que finalmente se culmine no amor ao Belo-em-si (auto to kalon), que Diotima descreve como contemplar um vasto mar de beleza'

Interpretação Platão utiliza termos específicos dos mistérios de Elêusis, cujos ritos conduzem ao objetivo final (telos) da revelação da contemplação perfeita (epoptika); inicialmente, o iniciado é levado por um mistagogo pelos mistérios menores preparatórios, e os mystai que depois participassem do clímax secreto realizariam uma experiência comum através da visão, individual e não mediada por uma hierarquia sacerdotal, em que perceberiam a união com o divino e a imortalidade; o termo epoptika, usado para a epifania eleusina, foi incorporado por Diotima aos graus que são referidos como "mistérios maiores", ao final dos quais o filósofo torna-se um amante do divino (theophiles) e verdadeiro imortal.Loredo, Carlos Roberto (2009). Ser Iniciado ao Amor - As Relações Entre Cultos de Mistério e Paidéia a partir do Banquete de Platão. Síntese 36 (116). esquerda|miniaturadaimagem|509x509px|Escada de Jacó (1800), de William Blake, pode ter sido influenciado pela escada do amor platônica, como visto pelos dois amantes.