O primeiro impeachment de Donald Trump, o 45º presidente dos Estados Unidos, ocorreu em 18 de dezembro de 2019, quando a Câmara dos Representantes aprovou dois artigos de impugnação contra o presidente, acusando-o de abuso de poder e obstrução do Congresso. O "impeachment" do presidente ocorreu após um inquérito conduzido pela Câmara revelar que Trump havia solicitado ajuda da Ucrânia para interferir na eleição presidencial de 2020 de modo a favorecer sua candidatura à reeleição. O inquérito indicou que Trump suspendeu o envio de ajuda militar e um convite para que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky visitasse a Casa Branca de modo a pressioná-lo a anunciar uma investigação sobre Joe Biden, rival político de Trump, bem como promover a desacreditada teoria de que a Ucrânia, e não a Rússia, estava por trás da interferência estrangeira na eleição de 2016.

Desde a posse de Trump, em janeiro de 2017, personalidades, políticos e grupos oposicionistas defendiam a abertura de um processo de impugnação contra ele, majoritariamente por conta da interferência russa na eleição presidencial de 2016, na qual foi acusado de estar envolvido. Nas eleições de 2018, os republicanos mantiveram a maioria no Senado, mas os democratas recuperaram o controle da Câmara. A nova presidente da Câmara, a democrata Nancy Pelosi, resistiu em iniciar tal processo. No entanto, Pelosi anunciou a abertura de um inquérito de "impeachment" após um delator apresentar uma denúncia contra Trump, na qual alegou que o presidente havia abusado de seu poder.

Após a decisão de Pelosi, iniciou-se imediatamente a fase investigatória, que durou até novembro. Neste período, os deputados realizaram audiências públicas e privadas que colheram depoimentos de testemunhas. Em 10 de dezembro, o Comitê Judiciário relevou os artigos de impugnação contra o presidente Trump: abuso de poder e obstrução do Congresso. Ambos os artigos foram aprovados pelo Comitê em 13 de dezembro, seguindo linhas partidárias, e seguiram para votação pelo pleno. Em 18 de dezembro de 2019, a Câmara aprovou os dois artigos, também por linhas partidárias, tornando Trump o terceiro presidente do país a sofrer impeachment.

O processo foi submetido ao Senado, controlado pelo Partido Republicano, ao qual Trump pertencia. Por duas vezes, os senadores republicanos rejeitaram as tentativas de intimar novas testemunhas e documentos. Em 5 de fevereiro, Trump foi inocentado pelo Senado de ambas as acusações: por 52 a 48 votos da acusação de abuso de poder e por 53 a 47 da acusação de obstrução do Congresso. Todos senadores democratas e independentes consideraram o presidente culpado. Um único republicano, Mitt Romney, votou a favor da acusação de abuso de poder, tornando-se o primeiro senador dos EUA a votar para condenar um presidente de seu próprio partido em um julgamento de impeachment.

Contexto thumb|esquerda|Trump durante o juramento de posse, em 2017

O empresário republicano Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos na eleição de 2016 após derrotar a democrata Hillary Clinton, uma vitória imprevista pela maioria dos analistas, imprensa e políticos. Os esforços para cassar-lhe o mandato começaram antes mesmo da posse, em janeiro de 2017, por pessoas e grupos que afirmavam que Trump havia incorrido em conduta criminosa. Alegava-se que o presidente havia violado a Constituição ao aceitar pagamentos de dignitários estrangeiros, praticado conluio com a Rússia para influenciar indevidamente a eleição presidencial de 2016, obstruído a justiça no decorrer das investigações sobre a interferência russa e associado a presidência ao nacionalismo branco, neonazismo e "ódio." Trump refutou as acusações, afirmando ser vítima de um "caça às bruxas" por inimigos políticos inconformadas pela derrota em 2016 e que procuravam deslegitimá-lo.

Como o Partido Republicano controlava a Câmara dos Representantes e o Senado em 2017 e 2018, a probabilidade de ocorrer a impugnação de Trump durante esse período era considerada uma fantasia partidária. Em dezembro de 2017, uma resolução demandando o impeachment foi rejeitada pela Câmara por 58–364. Nas eleições de 2018, o Partido Democrata obteve maioria na Câmara, e a nova presidente da casa Nancy Pelosi, vista pela ala mais à esquerda como moderada, relutou em aceitar dar início ao impeachment, afirmando considerar tal medida muito divisiva. Conforme relatado pela mídia, Pelosi teria dito durante uma reunião com colegas democratas em 2019 que preferia ver Trump preso e que insistir no impeachment iria ajudá-lo a ser reeleito.

Em abril de 2019, com a divulgação do relatório de Robert Mueller, referente à interferência russa na eleição de 2016, as perspectivas para um processo de impugnação de Trump eram remotas. Ainda que as investigações não isentaram o presidente, dentre a liderança democrata ponderou-se que as conclusões do relatório não eram suficientes para iniciar o processo. Os democratas, contudo, continuaram suas investigações através dos comitês da Câmara dos Representantes, convocando audiências com figuras ligadas a Trump e buscando a divulgação de sua declaração de imposto de renda, eis que acreditavam que tais informações poderiam ser negativas ao presidente. Em maio, Pelosi indicou que as ações continuadas de Trump, por ela classificadas como obstrução de justiça e recusa em obedecer as ordens do Congresso, poderiam exigir a abertura de processo de impeachment. Ao mesmo tempo, o apoio a tal medida cresceu entre os representantes democratas.

Escândalo envolvendo a Ucrânia

thumb|Trump cumprimentando Barack Obama, ao lado de Joe Biden, em janeiro de 2017

De maio a agosto de 2019, Trump e seu advogado pessoal Rudy Giuliani pressionaram o governo da Ucrânia a investigar Hunter Biden, filho de Joe Biden, um dos principais candidatos à nomeação democrata para a eleição presidencial de 2020. Ao mesmo tempo, Trump suspendeu uma ajuda militar de US$ 400 milhões à Ucrânia, a qual liberou mais tarde. Em meados de setembro de 2019, o caso foi reportado pela imprensa, que relatou que um delator, integrante da comunidade de inteligência norte-americana, apresentou uma denúncia aos seus oficiais superiores relativas a "diversas ações" de Trump, as quais envolvia um líder estrangeiro.

Em meados de agosto de 2019, embora tenha identificado que o delator possuía um "viés político discutível" contra Trump, a denúncia foi classificada como "urgente e credível" pelo Inspetor Geral da Comunidade de Inteligência (ICIG), sendo então submetida a Joseph Maguire, diretor de Inteligência Nacional (DNI). Embora a legislação ordene que o DNI deva encaminhar a queixa aos Comitês de Inteligência do Senado e da Câmara, Maguire se recusou a fazê-lo, bem como a Casa Branca e o Departamento de Justiça. A negativa levou membros do Senado e da Câmara a exigirem que o executivo compartilhasse a denúncia. No Senado, a resolução demandando o recebimento do material foi apoiada por todos os 100 senadores.

Em 22 de setembro, Trump reconheceu que havia falado sobre Joe Biden durante um telefonema com o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky, na qual teria dito: "não queremos nosso povo, como o vice-presidente Biden e seu filho, criando a corrupção que já existe na Ucrânia." Em 24 de setembro, Trump permitiu a divulgação de um dos telefonemas, no qual o norte-americano pediu um "favor" ao homólogo ucraniano antes de demandar uma investigação sobre Biden e seu filho. Apesar das alegações de Trump, não havia evidências de que Hunter ou Joe Biden tivessem cometido alguma irregularidade. Ainda, de acordo com a legislação norte-americana, constitui-se um crime federal concordar ou solicitar a um governo estrangeiro assistência em campanhas eleitorais. No entanto, o Departamento de Justiça, liderado por William Barr (nomeado por Trump), afirmou que não processaria o presidente.

Processo na Câmara dos Representantes Abertura do inquérito de impugnação thumb|210px|Trump e a presidente da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi, em maio de 2019.

Na noite de 24 de setembro, Pelosi anunciou a abertura de um inquérito formal para a impugnação de Trump, ordenando que seis comitês da Câmara dos Representantes ficassem encarregados de produzirem o documento, que poderia recomendar a cassação do mandato do presidente. Pelosi acusou Trump de trair seu juramento de posse, a segurança nacional dos Estados Unidos e a integridade das eleições no país, afirmando que ninguém estava acima da lei. A abertura do inquérito foi saudada pelo líder democrata no Senado, Chuck Schumer, e rechaçada pelos líderes republicanos no Congresso, Kevin McCarthy e Mitch McConnell.

Antes da determinação de Pelosi, a Câmara já estava investigando potenciais condutas passíveis de impugnação por Trump. Eram encarregados desta função seis comitês, quais sejam, os comitês de Serviços Financeiros, Judiciário, Permanente de Seleção de Inteligência, Assuntos Externos, Supervisão e Reforma e Caminhos e Meios. Com o anúncio da presidente, tais comitês continuariam seus trabalhos em um escopo posteriormente definido pelos representantes. As investigações poderiam resultar no Comitê do Judiciário produzindo acusações passíveis de impeachment contra Trump, que então seriam votadas pelo plenário da Câmara. Por maioria simples, os representantes declarariam, ou não, o "impeachment". Se aprovado, o processo seguiria para julgamento no Senado.

Trump recebeu a decisão de Pelosi com incredulidade. Ainda que temesse sofrer um processo de impugnação desde que os democratas retomaram o controle da Câmara, o presidente acreditou que sua decisão de divulgar o conteúdo do telefonema com Zelensky seria suficiente para acalmar a oposição. No Twitter, afirmou que a abertura do inquérito representava um "caça às bruxas" e "assédio presidencial." Em entrevista coletiva, Trump rejeitou as acusações de que teria cometido irregularidades, bem como defendeu a inexistência de quid pro quo.

Inquérito A fase de investigações iniciou imediatamente após Pelosi anunciar sua decisão. Durante o mês de outubro, os comitês de Inteligência, Supervisão e Relações Exteriores colheram testemunhos, incluindo do embaixador Bill Taylor, de Laura Cooper (a principal autoridade do Pentágono responsável por supervisionar a política dos EUA relacionada à Ucrânia) e de Fiona Hill (ex-funcionária da Casa Branca). As testemunhas afirmaram que acreditavam que Trump queria que Zelensky anunciasse publicamente investigações sobre os Biden e a Burisma, além de confirmar a teoria propagada pelo presidente de que os ucranianos interferiram na eleição de 2016 a favor de Hillary Clinton – o que foi desmentido pelo serviço de inteligência norte-americano. Em 8 de outubro, a Casa Branca informou à Câmara que não iria cooperar com as investigações, alegando como base para tal decisão o fato de que os deputados não haviam aprovado o início do inquérito e que alguns testemunhos estavam ocorrendo sob sigilo.

thumb|esquerda|260px|Testemunhos de Fiona Hill e Devid Holmes ao Comitê de Inteligência da Câmara, em novembro de 2019.

Em 29 de outubro, o representante Jim McGovern (D-Massachusetts) apresentou uma resolução (H. Res. 660), encaminhada ao Comitê de Regras, que estabeleceu o "formato de audiências abertas no Comitê de Inteligência da Câmara", o qual incluiu a divulgação das transcrições dos depoimentos. Em novembro de 2019, o Comitê de Inteligência realizou várias audiências públicas nas quais testemunhos foram ouvidos publicamente. Em 13 de novembro, Taylor e Kent testemunharam publicamente. Os representantes colheram depoimentos de outras figuras importantes, como da embaixadora Yovanovitch, de Jennifer Williams (conselheira do vice-presidente Mike Pence), de Kurt Volker (representante especial para a Ucrânia), dentre outros.