miniaturadaimagem|Anatomia da orelha humana Emissão otoacústica (EOA) é a energia mecânica produzida pelas contração rápida das células ciliadas externas (CCE) presentes na cóclea, componente da orelha interna. Prevista porThomas Gold em 1948, sua existência foi comprovada experimentalmente por David Kemp em 1978 e, desde então, as emissões otoacústicas tem demonstrado surgir por meio de diferentes atividades celulares e mecânicas na orelha interna. São sons produzidos espontaneamente ou em resposta a estímulos acústicos pela cóclea, sendo amplamente utilizadas na avaliação da função coclear e na triagem auditiva neonatal.

Estudos apontam que as EOA desaparecem quando ocorrem danos na orelha interna; e por este motivo as EOAs são frequentemente usadas no laboratório e na clínica como uma medida da saúde da orelha interna.

De um modo geral, existem dois tipos de emissões otoacústicas: emissões otoacústicas espontâneas e emissões otoacústicas evocadas. As emissões otoacústicas espontâneas ocorrem sem estímulo, sendo que esta, não está presente em todas as orelhas com CCE íntegras. Já as emissões otoacústicas evocadas são decorrentes a partir da apresentação de um estímulo, e são classificadas em função do estímulo apresentado (estímulo transiente, de frequências ou produto de distorção).

O exame de Emissões Otoacústicas consiste em um método objetivo, rápido e não invasivo que pode ser realizado em pessoas de qualquer idade, a partir do posicionamento de uma sonda que gera estímulos no conduto auditivo externo.

História As emissões otoacústicas foram observadas, pela primeira vez, pelo inglês David Kemp no ano de 1978, onde ele as definiu como a liberação de uma energia sonora originária da cóclea, que passa pela orelha média, até o conduto auditivo externo. Em seus estudos, pôde demonstrar que as EOAs estão presentes em todos os ouvidos funcionalmente normais e que deixam de ser detectadas acima de limiares entre 20 a 30 dB. miniaturadaimagem|Anatomia da Cóclea: visualização das estruturas responsáveis pelas emissões otoacústicas De acordo com Probst, em 1990, a cóclea não é só capaz de receber sons, mas também de produzir energia acústica, um fenômeno relacionado com o processo de micromecânica coclear, além do fato de que as EOAS, ao serem geradas na cóclea, sugere que nesta encontre-se um componente mecanicamente ativo, acoplado à membrana basilar, por meio do qual ocorre o processo reverso de transdução de energia sonora, função esta atribuída às células ciliadas externas e controlada pelas vias auditivas eferentes.

Mecanismo de ocorrência Os EOAs são relacionadas à função de amplificação da cóclea. Na ausência de estimulação externa, a atividade do amplificador coclear aumenta, levando à produção de um som. Várias linhas de evidência sugerem que, em mamíferos, as células ciliadas externas são os elementos que aumentam a sensibilidade coclear e a seletividade de frequência e, portanto, agem como fontes de energia para amplificação. Uma teoria é que eles agem para aumentar a discriminabilidade das variações de sinal no ruído contínuo, diminuindo o efeito de mascaramento de sua amplificação coclear.

Emissões Otoacústicas Espontâneas As emissões otoacústicas espontâneas são um sinais de banda estreita, de nível sonoro bem baixo, medidos na ausência de estimulação acústica deliberada. Elas ocorrem em cerca de 50% das orelhas em padrão normal. Esta tem muito pouca utilidade clínica, mas podem ter algumas implicações em pesquisas científicas. Enquanto as emissões otoacústicas espontâneas estão presentes em 100% das orelhas normais e são subdivididas em três tipos, de acordo com a natureza do estímulo utilizado.

As emissões otoacústicas espontâneas são sons emitidos pelo ouvido sem estimulação externa e mensuráveis com microfones sensíveis no meato acústico externo. As emissões otoacústicas espontâneas podem ser detectadas em aproximadamente 35 - 50% da população. Os sons são estáveis em frequência entre 500 Hz e 4500 Hz para ter volumes instáveis entre -30 dB NPS e +10 dB NPS. A maioria das pessoas não tem conhecimento de suas emissões otoacústicas espontâneas; porções de 1 - 9%, no entanto, a percebem como um zumbido irritante.

Emissões Otoacústicas Evocadas As emissões otoacústicas evocadas (EOE) são evocadas usando três metodologias diferentes.

EOAs estímulo por frequência (EOAEF): são medidas durante a aplicação de um estímulo de tom puro sendo detectadas pela diferença vetorial entre a forma de onda do estímulo e a forma de onda registrada (que consiste na soma do estímulo e das EOA). EOAs evocados transientes (EOAT): são evocadas usando um estímulo clique (ampla faixa de frequência) ou tone burst (tom puro de curta duração). A resposta evocada de um clique cobre a faixa de frequência de até 4 kHz, enquanto um tone burst provocará uma resposta da região com a mesma frequência que o tom puro. EOAs produto de distorção (EOAPD): são evocadas usando um par de tons primários e com intensidade particular (geralmente 65 - 55 dB NPS ou 65 para ambos) e proporção ( )

Com as respostas evocadas desses estímulos ocorrem em frequências () matematicamente sendo relacionadas às frequências primárias, sendo as duas mais proeminentes (o tom de distorção "cúbico", mais comumente usado para triagem auditiva) porque produzem a emissão mais robusta e (o tom de distorção "quadrático" ou tom de diferença simples).

As emissões otoacústicas evocadas (EOAE), utilizadas na prática clínica, podem ser divididas em três: as transientes, a estímulo-frequência e as produto de distorção. As emissões otoacústicas transientes (EOAET) ocorrem decorrentes de um estímulo chamado de "click" que percorre uma faixa de frequência de 1000 a 4000 Hz, na qual, é um teste de alta sensibilidade utilizado para identificar se existe lesão de CCE. Caso exista alguma lesão, mesmo que mínima, as EOAET estarão ausentes. Esse teste dura em média 75 segundos para cada ouvido.

Enquanto as emissões otoacústicas estímulo-frequência são produzidas por tons puros contínuos e com características semelhantes. Entretanto, seu registro possui muitas dificuldades técnicas e o tempo de exame é maior, por isso, não é utilizado no ambiente clínico.

As emissões otoacústicas produto de distorção (EOAEPD) são a energia mecânica captada no canal auditivo externo originária da interação não-linear de dois tons puros simultâneos apresentados à cóclea. Os dois tons puros, em uma faixa de frequência que vai de 500 Hz a 8000 Hz, devem ser representados por f1 e f2, na qual f2 é maior que o f1, sendo o principal harmônico 2f1-f2 e a razão deve ser de f2 por f1 de aproximadamente 1,22.

Emissões Otoacústicas Evocadas Transientes miniaturadaimagem|Equipamento portátil de Emissões Otoacústicas Modo:Emissões otoacústicas evocadas transientes (EOAT) Emissões otoacústicas evocadas transientes (EOAT) são sons de fraca intensidade produzidos pela cóclea em resposta à apresentação de um estimulo sonoro. As EOAT apresentam componentes ocorrendo em curta e longa latência, sendo os de curta latência em frequências altas (4 kHz e 5 kHz) e os de longa latência em frequências baixas (1kHz).

Para o registro das EOAT a sonda deve apresentar dois tubos, um para emitir o estímulo (transdutor) e um para captar as emissões (microfone). Pode-se ser utilizado o estímulo clique ou  tone burst, na prática clínica o estímulo mais utilizado é o clique já que este estimula a cóclea como um todo com máxima sincronia, permitindo uma melhor visualização do registro promovido.

Registro de resposta

O registro da deve acontecer alguns milissegundos após a apresentação do estímulo, assim,  a ressonância inicial do transdutor e do conduto auditivo externo é excluída. Geralmente se utiliza a janela de 2,5 ms á 20,5 ms após estímulo.

As respostas obtidas podem ser aceitas e arquivadas nas memórias A e B ou rejeitadas, as EOA são sons de fraca intensidade, dessa forma,  qualquer som próximo a 45 dBNPS que não sejam o estímulo deve ser rejeitado. O equipamento armazena os sons captados no conduto auditivo e os apresenta com formato da onda sonora registrada nas duas memórias (A e B).

Ruído

Existem dois tipos de ruído, o Noise Input que é a média da intensidade do ruído captado pelo microfone, e o Noise XN que é o número total de grupos de estímulos rejeitados durante a amostra.

Resposta

É considerada a verdadeira emissão o espectro da resposta comum para os traçados A e B (análise Fast Fourier Transformation) , o espectro da emissão contém frequências entre 0,5 kHz e 4,5 kHz.

Os valores de reprodutibilidade e relação emissão/ruído são obtidos através de filtragem do som captado em banda de frequência de 1,5 oitava centrada na frequência apresentada, esses dois parâmetros são apresentados entre 1 e 5 kHz. Quanto maior a reprodutibilidade e a relação emissão/ruído positiva, mais indicativo de presença de EOA.

Análise da resposta.

Para análise das EOAT se utiliza a reprodutibilidade por frequência e a relação sinal/ruído por frequência. Os parâmetros de análise para definir a presença das EOA são diferentes em cada faixa etária.

Dessa forma, em neonatos o valor de normalidade para reprodutibilidade (%) é em geral  ≥ 70, e a relação sinal/ruído(dB) em 1 kHz  ≥ 5 e nas demais frequências de  ≥ 7, em crianças a reprodutibilidade (%) é em geral  ≥ 70, e a relação sinal/ruído(dB) em 1 kHz  ≥ 3 e nas demais frequências de  ≥ 5, e em adultos reprodutibilidade (%) é em geral  ≥ 50, e a relação sinal/ruído(dB) em 1 kHz  ≥ 3 e nas demais frequências de  ≥ 3.

Determina-se presença de EOA quando a reprodutibilidade e a relação sinal/ruído apresentam valores dentro do esperado.

Emissões Otoacústicas Evocadas Produto de Distorção Emissões Otoacústicas Evocadas Produto de Distorção (EOAPD) são a resposta produzida pela cóclea em função de dois tons puros (f1 e f2) com intensidade moderada (55-65 dB) que são apresentados de forma simultânea com frequências sonoras muito próximas (relação entre f2/f1 = 1,22).Balkany T, Telischi FF, McCoy M, Lonsbury-Martin BL, Martin GK. Otoacoustic emissions in otologic practice. American Journal of Otology. 1994 Jan 1;15(SUPPL. 1):29-38.

As EOAPD são uma consequência da natureza não-linear da cóclea, que a partir da apresentação de um estímulo sonoro, composto por dois tons, produz energia diferente do sinal apresentado. miniaturadaimagem|Equipamento portátil de Emissões Otoacústicas Modo: Emissões Otoacústicas Evocadas Produto de Distorção (EOAPD) De forma que o produto de distorção é resultado da incapacidade da cóclea em amplificar dois sinais diferentes, levando a ocorrência de uma intermodulação, que ocasiona um sinal tonal que não estava presente nos tons puros evocados. Com algumas pesquisas apontando para a possibilidade de geração das EOAPD pela não linearidade dos feixes estereociliares das células ciliadas externas.

A cóclea produz diferentes produtos de distorção como resposta à estimulação bitonal, com a relação 2f1-f2 (diferença cúbica tonal) sendo comumente mais utilizada clinicamente por apresentar a maior resposta detectada. De modo que, a partir de dois tons puros primários de frequências f1 (mais baixa) e f2 (mais alta) apresentados, respectivamente, nas intensidades L1 (menor e tipicamente em 65 dB) e L2 (maior e tipicamente em 55 dB).

O registro da resposta é realizado pela inserção de uma sonda no meato acústico externo com dois geradores de sinal e um microfone. A resposta é registrada em função das frequências primárias, com 2f1-f2 correspondendo a região de máxima resposta do estado de funcionalidade coclear, por exemplo, com f1 = 3165Hz e f2 = 3833Hz (razão entre f2/f1 = 1,22) que resulta em 2f1-f2 = 2498Hz (resposta da região testada).

Critérios de análise das EOAPD